Box Hora do Espanto: Série III
Capítulo 17
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.
Naquele momento, o que ela realmente queria fazer era dar meia-volta e ir para casa. Ela detestava coisas e lugares assustadores, e também detestava ser tão fácil convencê-la a fazer coisas de que ela não gostava. Jenny suspirou. Apesar disso, ela gostava muito de Melissa e Jo e não queria abandonar as amigas nessa hora.
– Claro – ela disse, com falso entusiasmo. – Seis da tarde é um ótimo horário. Quem vai seguir por qual caminho?
Depois de decidirem, as garotas partiram, cada uma com seus pensamentos, e todas determinadas a encontrar a lápide. Jenny estava mais convencida do que as outras de que voltaria antes que o céu escurecesse totalmente. Ela queria que essa busca terminasse o quanto antes.
O cemitério se dividia em três caminhos, e cada garota seguiu por um deles. Jenny foi andando lentamente, examinando cada lápide enquanto passava.
– David Fisher, amado marido e pai. Nasceu em 1902, morreu em 1964 – ela leu na primeira. – Suzanna Bellingham, 7 anos de idade. Nossa bela filha foi se encontrar com os anjos. Nasceu em 1935, morreu em 1942.
Jenny parou e contemplou. “Que horror” – ela pensou. “Deve ser horrível perder um filho tão jovem.”
Ela se perguntava o que teria acontecido com a garotinha, talvez um acidente ou alguma doença que provavelmente teria cura nos dias de hoje, mas não em 1942. Ela se afastou e tentou se concentrar.
– Vamos, Jen – ela começou a falar sozinha. – Você não está aqui para refletir sobre a morte das pessoas. Está aqui para encontrar uma lápide em particular.
Ela prosseguiu, com os olhos concentrados no nome em cada lápide. Ela até viu a lápide de uma Geraldine, mas o sobrenome e as datas não correspondiam.
Ela passou por lápides tão antigas que haviam tombado, e também por outras recém-colocadas, com flores espalhadas na frente delas. Ela não conseguia decidir qual ela detestava mais.
Depois de uma hora, ela tinha percorrido um lado do caminho e virou para voltar pelo outro lado.
Estava ficando mais escuro, então ela achou melhor caminhar mais perto das sepulturas para ler as inscrições. Triste por não ter levado uma lanterna, ela se perguntava como as outras garotas estariam se virando.
Na metade do caminho de volta, ela sentiu alguns respingos de chuva.
“Ótimo” – ela pensou. “Era só o que faltava, ficar presa no cemitério numa noite fria de novembro, e debaixo de chuva!”
Ela olhou para o céu enegrecido. A chuva ficou mais forte e ela apertou o passo, indo em direção ao mausoléu. Com um pouco de sorte, Jo ou Melissa já teria encontrado o túmulo, e todas poderiam sair daquele lugar.
Ela olhou as outras lápides de maneira superficial enquanto caminhava com pressa em direção ao mausoléu. Nem sinal das amigas. Jenny ficou lá fora por alguns minutos, com a chuva muito mais forte, pingando do casaco e ensopando as calças.
“Elas devem ter entrado” – ela pensou. “A pessoa tem que ser muito maluca para ficar aqui parada tomando chuva.”
Ela virou e subiu alguns degraus até o mausoléu e girou a maçaneta. Jenny abriu a porta pesada lentamente, fazendo com que ela rangesse. A menina prendeu a respiração. Lá dentro estava tão escuro quanto o lado de fora, e tudo cheirava a mofo e umidade. Ela deu um passo para a frente. À direita, via-se o túmulo erguido pelo senhor Carruthers em memória da esposa. O túmulo de mármore branco quase não era visível na escuridão, assim como as colunas de pedra colocadas em cada canto. Desenhos ornamentais e inscrições enfeitavam as paredes, embora Jenny não conseguisse ver exatamente o que eram.
– Melissa? Jo? – ela tentou chamar, embora sua voz não passasse de um sussurro.
Ela limpou a garganta e tentou de novo, chamando as amigas um pouco mais alto desta vez. Ela começou a seguir em frente, e reparou em outro enorme túmulo à esquerda, com a forma do corpo de um homem esculpida em mármore na parte de cima. Com os olhos cada vez mais acostumados à escuridão, Jenny conseguiu perceber a silhueta.
“Que bizarro” – ela pensou, incapaz de compreender por que alguém ia querer retratar a própria imagem em um local tão medonho como aquele, fedendo a carne podre.
Ela ouviu algo se arrastar perto de seus pés e pulou, encostando a mão em um dos túmulos ao fazer isso. Embora não tivesse certeza, ela achou que viu uma cauda desaparecer através de um buraco na parede.
“Essa não! Ratos!” – ela pensou, com a intenção de correr.
Ela se acalmou e tirou a mão do túmulo. Sentiu a mão úmida e pegajosa. Levou-a para mais perto do rosto e viu que estava coberta com um lodo que parecia se mexer. Eram larvas! Elas rastejavam por todo o túmulo e agora por sua mão! Tentou sacudir a mão para tirar as terríveis criaturas dali e mal conseguiu abafar um grito quando se virou para sair correndo daquele lugar horrível. Ela podia ver milhares de larvas saindo pelos olhos e pelo nariz da estátua de mármore no túmulo. Ela tinha que sair dali, rápido.
Nesse exato momento, a pesada porta de madeira bateu com força e se fechou.
Capítulo 7
– Jenny, aqui – ela ouviu a voz da amiga. – Estávamos esperando por você.
Ela olhou em volta e conseguiu reconhecer as imagens de Melissa e Jo.
– Ainda bem! – ela respirou, abafando um pequeno soluço enquanto corria em direção às amigas. – Estou tão feliz de ver vocês. Acabei de passar por uma experiência terrível. Acho que temos que sair daqui agora.
Melissa e Jo olharam na direção dela.
– Não seja boba – disse Melissa. – Está tudo bem agora. Vamos, venha e sente-se ao meu lado.
As duas garotas estavam sentadas num banco baixo na frente de uma plataforma elevada, quase como um altar. Melissa virou-se em direção à amiga e estendeu os braços para ela. Mas alguma coisa estava faltando.
– Sua mão! – gritou Jenny, recuando horrorizada. – O que aconteceu com a sua mão?
A mão de Melissa não estava mais lá! O braço dela parecia terminar logo na manga do casaco.
– Não entendo – Jenny resmungou. – Está de brincadeira comigo? Porque, se estiver, não estou achando graça nenhuma.
Ela virou-se para a outra amiga.
– Jo, Jo, fale comigo.
– Calma – Jo começou a falar. – Não precisa ficar histérica.
Jenny se virou para a amiga, então engasgou e gritou de horror. Jo estava sem o olho direito.
– Não grite, bobinha. É só uma cavidade ocular. Nossa, não sabia que você era tão medrosa.
Jenny cobriu o rosto com as mãos. Devia estar tendo um pesadelo, com certeza. Não havia outra explicação para aquilo. Ela abriu os olhos e se virou de novo para as amigas. Para seu horror, Melissa e Jo estavam sofrendo alguma transformação bizarra bem diante de seus olhos. A pele delas se tornou marrom e quebradiça e o rosto delas começou a descascar. Por baixo, surgiram rostos muito mais velhos, que Jenny reconheceu como pertencentes às bruxas da peça. Seus rostos estavam cobertos de verrugas, rugas, com enormes narizes em forma de gancho e dentes tortos enegrecidos. As roupas também tinham sido substituídas pelas capas pretas que Jenny já conhecia bem. O mau cheiro permeava o mausoléu e o terror de Jenny era completo.
Ela queria correr, mas sabia que teria de passar pelos túmulos, que continham corpos podres, e pelo chão, que parecia estar vivo, com tantas larvas se retorcendo. Ela sentiu uma cutucada nas costas e se virou para ver quem era. Ela prendeu o ar bruscamente. Era a terceira bruxa, aquela que ela representava na peça.
– O que estão fazendo? O que querem de mim? – ela perguntou, hesitante.
– Não queremos nada de você, querida – respondeu uma delas. – O que importa é o que você quer de nós, entendeu?
– Infelizmente, não – Jenny tentou falar sem tremer.
As três bruxas agora a rodeavam. A respiração fétida delas tocava no rosto de Jenny conforme elas caminhavam lentamente em volta da garota, arrastando as capas pretas no chão.
– Como você é inocente! – gargalhou a bruxa caolha. – A peça, meu amor, a peça. Oh, fantasmas, obedeçam-nos!, lembra? Aquela que você está encenando na escola? Não sabe sobre o que ela é? Não sabe que é perigoso mexer com bruxaria quando não se entende nada a respeito disso?
– Mas… mas… é só uma peça – Jenny balbuciou, tentando desesperadamente manter a calma.
As bruxas pararam de andar.
– Só uma peça? – disse a primeira, num tom de voz baixo e ameaçador. – Você, garota burra, não sabe de nada? Você não pode simplesmente recitar feitiços, mexer com bruxaria, cortar mechas de cabelo e depois dar o fora. A bruxaria é uma coisa muito perigosa, sabia?
A bruxa aproximava o rosto cada vez mais de Jenny, que recuava conforme ela chegava perto, mas era empurrada para a frente de novo pelos dedos esqueléticos da bruxa atrás dela.
– Nós não cortamos o cabelo de verdade – ela gaguejou. – Só fingimos.
– Calada! – a bruxa vociferou. – Sou eu quem está falando.
Ela passou os dedos esqueléticos pelo cabelo de Jenny, fazendo a garota se arrepiar. Mas, apesar disso, ela aguentou firme.
– Ela é corajosa, não é? – gargalhou a bruxa quando a garota se manteve firme. – Por que acha que esperamos por você esta noite? Queríamos lhe oferecer uma coisa, minha querida.
A bruxa olhou para as colegas. Ambas concordaram e sorriram para a garota. Ela segurou as mãos de Jenny com a única mão que tinha. Os dedos da bruxa eram longos, esqueléticos e inacreditavelmente frios. Jenny queria tirar a mão dela das suas.
– Que tal se juntar a nós? – ela perguntou à garota. – Vire uma bruxa, uma bruxa de verdade, e não alguém que atua numa peça. Alguém que faça as coisas acontecerem.
E ela cuspiu nos pés da garota. Jenny olhou para baixo e viu o cuspe se espalhar e crescer no chão do mausoléu antes de começar a ganhar forma. Primeiro, a cauda se formou, em seguida, veio o corpo longo e peludo, cheio de dentes afiados, até que aos poucos o cuspe se transformou num enorme rato marrom! Na verdade, o maior rato que Jenny já tinha visto. Ela recuou, mas notou que o rato não se afastava dela. Ele parecia contente de olhar para ela.
A bruxa deu um sorriso largo, quase sem dentes, e suas irmãs gargalharam. A bruxa que não tinha um olho bateu palmas.
– Muito bom, irmã, eu tinha até esquecido esse velho truque – e ela também cuspiu no chão.
O cuspe dela também se espalhou e cresceu antes de se transformar em outro rato, incrivelmente maior que o anterior. Para não ficar para trás, a terceira irmã repetiu o processo, e logo havia dezenas de ratos, alguns marrons, outros pretos, mas nenhum deles se mexia, e todos pareciam olhar fixamente para Jenny.
– Por favor, eu quero acordar – a jovem implorou. – Deixem-me abrir os olhos e acabar com esse pesadelo!
Jenny fechou os olhos por alguns segundos, mas, quando ela os abriu de novo, a cena era exatamente a mesma de antes.
– Ainda estamos aqui, querida – gargalhou a primeira bruxa, que parecia ler a mente da garota. – E ainda estamos à procura de recrutas. Vamos, meu amor – ela esfregou o dedo esquelético no queixo da garota. – Você vai se divertir muito. Vamos ver de quem mais você não gosta, além do jovem Danny Cottrill? Cuidamos dele para você, não foi? Ele ainda está respirando com a ajuda de aparelhos, mas você pode fazer a mágica, Jenny. Você! Você pode lançar esses feitiços malignos. Nunca mais vai sentir medo de ninguém. Ninguém será capaz de machucar você, e nós podemos lhe dar esse poder. O que me diz?
Jenny estava horrorizada.
– Danny? Vocês fizeram isso com o Danny? Como puderam, que coisa horrível…
– Não, querida, você fez isso – a bruxa interrompeu. – Você desejou mal ao menino, não foi? E como nós temos que obedecer a você, de acordo com o título da peça, estávamos apenas realizando os seus desejos.
– Mas às vezes todos dizem coisas sem pensar – disse Jenny. – Eu não queria que nada de ruim acontecesse com o Danny.
Ela mexeu um pouco o pé, olhando para baixo. Os ratos ainda estavam olhando para a garota, mas nenhum deles se mexia.
– Então você deve tomar mais cuidado com o que deseja. Mas ainda não sei se consigo acreditar em você. Acho que você daria uma grande bruxa, e estamos precisando muito de sangue novo.
Ela andou em direção à garota e chutou um rato. O rato reagiu pela primeira vez, mordendo furiosamente o tornozelo de Jenny, como se a culpa fosse dela. A garota gritou e se curvou para esfregar o tornozelo.
– Por favor, deixem-me ir – ela implorou às bruxas. – Meus pais devem estar preocupados. Preciso voltar para casa, por favor.
– Não seja burra, não podemos deixar você ir agora. Você vai se tornar uma de nós. Tenha paciência, querida, só precisamos recitar um pequeno feitiço, não vai demorar. Venham, irmãs, deem as mãos, e você, querida, precisa se concentrar no que estamos dizendo, para se juntar a nós no final, e fazer o juramento para se tornar uma seguidora de todas as coisas malignas.
As bruxas começaram a entoar o feitiço, caminhando lentamente ao redor da garota. Os ratos começaram a correr em todas as direções, para escaparem dos chutes certeiros das bruxas. Jenny tremia da cabeça aos pés, tentando desesperadamente pensar num jeito de escapar. Se ao menos ela pudesse quebrar o círculo das mãos das bruxas e correr em direção à entrada do mausoléu, talvez ela conseguisse evitar os ratos, embora tivesse certeza de que encontraria milhões de larvas gosmentas espalhadas pelos túmulos e pelo chão. Ela engoliu em seco. Decidiu que suportaria as larvas. Ela tinha que sair dali.
Ao olhar em direção aos fundos do mausoléu, ela viu, horrorizada, que um dos túmulos estava se abrindo. Uma mão esquelética empurrou a tampa de mármore e ela viu a cabeça de um esqueleto aparecendo.
Jenny desmaiou.
Capítulo 8
Enquanto isso, lá fora no cemitério, Melissa e Jo (a verdadeira Melissa e a verdadeira Jo) tinham encontrado o túmulo de Geraldine Somers. Elas se encontraram justamente no mausoléu, depois de terem explorado todas as sepulturas do cemitério, quando por acaso observaram algumas sepulturas escondidas no canto logo ao lado da entrada. E, com certeza, lá estava ela, claramente gravada com o nome da autora. As garotas se inclinaram, limpando as gotas de chuva dos olhos.
– Geraldine Somers! Finalmente encontramos você – respirou Melissa.
Ela passou os dedos pelas letras da sepultura, observando as datas de nascimento e de morte da mulher, o tempo todo pensando em como a inscrição era simples e discreta quando comparada às outras. Havia um vaso com flores ao pé da sepultura, e Melissa se perguntou instintivamente quem as teria colocado ali.
– Então vocês me encontraram, garotas – disse uma voz suave e sussurrante.
Jo e Melissa olharam intrigadas uma para a outra.
– Quem disse isso? Jenny? – as garotas olharam ao redor.
O vento uivante e o constante barulho da chuva forte caindo ecoavam no ouvido das garotas. Melissa afastou o cabelo do rosto e sorriu para Jo.
– Estamos ouvindo coisas. O vento está brincando com a gente, é só isso.
Porém, a voz veio de novo, ainda suave, mas desta vez um pouco mais clara.
– Eu estava esperando vocês, garotas. Estou muito contente por finalmente estarem aqui.
As duas garotas se levantaram prontamente, quase caindo de tanta pressa, e se agarraram.
– De onde isso está vindo? – Jo perguntou. – Ouço uma voz, mas não vejo ninguém.
Ela se segurou em Melissa, apavorada.
– Por favor, não tenham medo, garotas – dizia a voz, agora mais forte e mais insistente. – Eu realmente preciso falar com vocês. Por favor, inclinem-se para perto da lápide de novo, preciso que vocês me escutem com muita atenção.
Melissa e Jo se entreolharam espantadas, mas, principalmente por não saber o que fazer, elas resolveram fazer o que lhes era pedido. Deram um passo à frente e se ajoelharam em frente à lápide de Geraldine Somers. Assim que as duas se ajoelharem na grama úmida, elas ouviram um suspiro de alívio.
– Obrigada, garotas, eu desejei muito que fossem vocês as pessoas que me ajudariam, então, por favor, ouçam com muita atenção o que eu vou dizer. Sou o fantasma de Geraldine Somers. Não tenho mais o poder de me materializar. O meu fantasma enfraqueceu bastante com o passar dos anos, e receio que vocês não consigam me ver. Vocês podem, no entanto, ouvir a minha voz e espero que, assim que eu tiver contado a minha história, vocês me ajudem.
A chuva caía sobre a sombra das garotas ajoelhadas e o céu estava completamente preto. Melissa e Jo estavam com medo. Não queriam mais ficar no cemitério. Queriam esquecer toda aquela ideia de encontrar o túmulo da autora. Queriam esquecer a peça inteira. Mas, antes que as garotas conseguissem se mexer, a voz falou de novo.
– Vocês precisam saber que fui eu quem escreveu a peça Oh, fantasmas, obedeçam-nos!. Sei que vocês duas e a sua amiga estão representando os papéis das três bruxas, e é por isso que preciso falar com vocês. Como vocês sabem, embora a peça tenha sido escrita há mais de 60 anos, ela jamais foi encenada no palco. Sempre há uma série de acidentes que recaem sobre quem tenta me ajudar a impedir as bruxas do mal de concluírem o plano delas. Todas as pessoas que já representaram os papéis das bruxas até agora ficaram felizes de realizarem seus desejos, e perderam completamente o interesse em me ajudar a quebrar a maldição das bruxas. Então, quando eu soube que vocês não ficaram felizes com os acontecimentos recentes, bem, foi como um sopro de vida – ela parou para pensar um pouco. – É tudo culpa minha – ela recomeçou. – Eu escrevi as palavras da peça e, querendo ou não, eu conjurei essas irmãs nefastas e somente eu posso devolvê-las para a escuridão à qual elas pertencem. Claro que não posso fazer isso pessoalmente, então me coloco à disposição de vocês e peço, ou melhor, imploro que vocês me ajudem.
– Mas o que podemos fazer? – Melissa perguntou. – As bruxas, ou fantasmas, não podem ser reais, não é?
Ela olhou para Jo. Jo não respondeu, mas seu olhar disse tudo.
– É, eu sei – Melissa concordou, com ironia. – Estou falando com uma lápide. As coisas não poderiam ser mais reais que isso.
– Não temos muito tempo, garotas – a voz recomeçou. – Então, por favor, ouçam o que tenho a dizer. No passado, as garotas que faziam os papéis das bruxas realmente incorporavam as personagens. Crianças decentes e bem-educadas transformavam-se em pessoas más, que se acostumavam com o fato de seus desejos se tornarem realidade. No decorrer dos ensaios, qualquer pessoa que contrariasse essas garotas sofria algum acidente desagradável. Verifiquem nos registros da escola, vocês verão que estou falando a verdade. Porém, se a peça chegar à noite de estreia, ela não deve ser encenada da maneira como foi escrita. Se isso acontecer, toda a plateia ficará enfeitiçada. O que precisamos fazer, sem que ninguém mais saiba, é mudar algumas partes da peça, para quebrar o feitiço e enviar essas bruxas malvadas para outro lugar. Se fizerem isso, vocês conseguirão libertar o meu fantasma aprisionado. Não posso descansar enquanto as bruxas estiverem fazendo sua obra maligna.
Ela parou. Melissa enxugou um pouco de chuva no rosto e sentou-se novamente.
– Sei que é muita informação para vocês entenderem. E sei como essa história toda deve parecer inacreditável, mas eu imploro a vocês. Vocês vão me ajudar?
Antes que pudessem responder, as garotas ouviram um grito alto vindo do mausoléu. Elas se levantaram imediatamente.
– Jenny!
Capítulo 9
Melissa e Jo correram na direção da grande construção e rapidamente subiram os degraus. Quando empurraram a porta, ficaram horrorizadas com o que viram. Com os olhos já acostumados à escuridão, elas conseguiram ver claramente a amiga no outro lado do mausoléu. E ela não estava sozinha. Como Geraldine Somers havia dito, as três bruxas realmente perambulavam pela Terra, praticando feitiçaria. De fato, elas estavam bem ali, enfeitiçando a pobre amiga! Melissa agarrou forte na mão da Jo.
– Vamos logo! Temos que ajudá-la – Jo disse. – Melissa, olhe!
Melissa acompanhou o olhar fixo da amiga até o tapete de larvas que se movia à sua frente. Ela deu uma golfada de ar e colocou a mão na boca.
“Larvas não, larvas não, por favor” – Jo pensou.
Jo odiava larvas, e elas estavam por toda parte. Rastejavam sobre os túmulos e até subiam pelas colunas. Engolindo em seco, Melissa puxou a amiga pela mão.
– Temos que fazer isso – ela disse. – Vamos, Jo, temos que ajudar a Jenny.
Jo jamais esqueceria o barulho das larvas sendo esmagadas no momento em que as duas foram corajosamente em frente, até o centro do mausoléu.
Agora, as bruxas caminhavam em círculo em volta de Jenny. Melissa e Jo tentaram se esconder atrás de uma das muitas colunas, antes de decidirem qual a melhor forma de ajudar a amiga.
Quando Melissa escutou os ruídos aos seus pés, ela nem precisou olhar para baixo. Sabia que eram ratos. Jo abafou um grito e se agarrou com força na amiga.
O cântico das bruxas foi ficando mais alto, e as garotas sabiam que teriam que agir rápido para ajudar Jenny. Assim como Jenny, Melissa e Jo também viram o túmulo se abrir. Mas enquanto Jenny desmaiava, as outras duas garotas não tiveram a mesma sorte. Elas foram tomadas pelo terror quando os olhos vermelhos brilhantes da caveira saíram do túmulo.
– O que está acontecendo aqui? – gritou uma voz no fundo do mausoléu.
Quando as garotas olharam, ambas as portas foram escancaradas e dois policiais corpulentos carregando lanternas entraram. No mesmo instante, a tampa do túmulo deslizou de volta a seu lugar, as larvas e os ratos desapareceram, e as bruxas simplesmente evaporaram em pleno ar. Melissa e Jo saíram do esconderijo, correram até onde a amiga estava e se ajoelharam ao lado dela.
Jo chacoalhou a amiga.
– Jenny, Jenny, você está me ouvindo? É a Jo. A Jo e a Melissa. Está tudo bem?
Jenny abriu os olhos bem lentamente.
– Elas foram embora? – ela perguntou, sussurrando.
– Sim, elas foram embora, Jenny – Jo tranquilizou-a. – Vai ficar tudo bem. Consegue ficar sentada?
Ajudada por Melissa e Jo, Jenny conseguiu se sentar. Um breve lampejo de medo passou por seu rosto.
– Vocês são a Jo e a Melissa de verdade? Vocês não vão se transformar naquelas bruxas horríveis de novo, vão?
Melissa estendeu os braços para abraçar a amiga.
– Somos nós mesmo, Jen – ela disse.
Jenny se inclinou para a frente para receber o abraço da amiga.
– Você tem as duas mãos, Melissa – ela sorriu. – É você mesmo!
Pouco antes de ela desmaiar pela segunda vez naquela noite, os dois policiais ainda a ouviram dizer:
– E você está com o olho de volta, Jo. Estou tão feliz porque você está com o olho de volta.
– Está em choque – um policial comentou com o outro. – Vamos levá-la embora.
Capítulo 10
– Você teve muita sorte, mocinha – disse a enfermeira no hospital ao colocar a bota no pé de Jenny. – Não sei se foi rato ou não, mas o bicho que mordeu o seu tornozelo só não conseguiu rasgar a sua pele por causa da bota.
– Eu também não tenho certeza – disse Jenny, no movimentado pronto-socorro para onde foi levada depois dos horrores do mausoléu.
Ela estava começando a se perguntar se não tinha imaginado aquilo tudo quando a enfermeira disse que havia uma marca em seu tornozelo, como se alguma coisa tivesse tentado mordê-la…
A enfermeira abriu o biombo. Melissa e Jo puderam ver a amiga.
– A sua mãe vai chegar logo – disse a enfermeira ao sair para atender o próximo paciente. – E, vocês, não se sentem na maca! – ela advertiu as outras garotas.
Melissa e Jo se levantaram e se posicionaram uma de cada lado da amiga.
– Puxa! Tudo o que fizemos hoje à noite terminou em encrenca – sorriu Melissa.
– Pois é – concordou Jo. – Mesmo assim, prefiro ter problemas com uma enfermeira a enfrentar três bruxas do mal num cemitério assustador.
– E agora? – perguntou Jenny.
– O que você não sabe é que, enquanto você estava sozinha no mausoléu, Jo e eu encontramos o túmulo de Geraldine Somers e conseguimos falar com ela – disse Melissa.
– Falar com ela? Como podem ter falado com um fantasma? – questionou Jenny, ainda se perguntando se estava em estado de choque mesmo.
Jo e Melissa trocaram olhares.
– Bem, sabemos que parece bizarro – disse Jo. – Mas realmente aconteceu.
E, revezando-se, as duas garotas recontaram palavra por palavra o que Geraldine Somers havia dito no túmulo.
Quando elas terminaram, Jenny concordou movendo a cabeça lentamente.
– Faz todo sentido, então! E eu não estava sonhando, não é? As bruxas, a peça, a mão e o olho faltando, tudo isso realmente aconteceu. Nossa! Bela encrenca essa, não é?
– Pois é – disse Melissa. – A pergunta que temos que fazer agora é: vamos nos afastar de Geraldine e de todos os problemas que envolvem a peça ou vamos ajudá-la?
– E a todos os outros – Jo emendou. – Lembrem-se do que ela disse: se a peça estrear exatamente como o roteiro foi escrito, toda a plateia será enfeitiçada. Na verdade, acho que não temos escolha.
– Mas faltam apenas alguns dias para a estreia – disse Jenny. – E o ensaio geral é na quinta-feira. Não podemos demorar para decidir como vamos sabotar a peça.
Melissa ficou pensativa.
– Geraldine disse que não podemos encenar a peça palavra por palavra. Mas e se nós modificarmos o texto? E se não recitarmos os feitiços exatamente como foram escritos? E se não entoarmos os cânticos como deveríamos? Será que daria certo? – ela olhou com ar de dúvida para as amigas.
– Sim, isso pode funcionar, Melissa – Jenny concordou. – Mas, assim que dissermos algo errado, a professora Debby, ou alguém no palco, pode interromper a peça por esse motivo e nos corrigir. Como vamos lidar com esse problema?
Melissa pensou um pouco mais.
– Vamos faltar nos ensaios – ela disse lentamente. – Não percebem? A professora Debby nos corrige nos ensaios, mas ela não pode nos interromper e corrigir na noite de estreia. Não com o auditório lotado de pais e professores. Seria muito vergonhoso para ela admitir que as três protagonistas erraram!
– E como vamos nos desculpar pelas faltas nos ensaios? – Jo perguntou.
– Bem, a Jenny tem a desculpa perfeita, não é? Bateu a cabeça, machucou o tornozelo, precisa de alguns dias de descanso. Sem problemas. E você e eu? Hum, vamos ver, um resfriado? Dor de garganta? Qualquer mal-estar justificaria – disse Melissa. – A escolha é sua.
– E então todas estaremos milagrosamente recuperadas na noite de estreia – disse Jo. – Até lá, já teremos mudado os trechos necessários da peça e decorado as novas falas!
– Simples assim – sorriu Melissa. – Deixem que eu reescrevo o texto e chantageio o meu irmão para levar as novas falas para vocês. Se eu fingir que estou com dor de garganta, com certeza os meus pais não me deixarão sair de casa. Sabia que algum dia o meu irmão poderia ser útil.
– No cemitério? – elas ouviram uma voz na outra ponta do corredor.
– Essa não! A minha mãe – Jenny lamentou, sentindo-se ainda pior do que antes.
– Dentro do mausoléu? Mas o que ela fazia lá? Onde ela está? Deixem-me vê-la, por favor! Jenny? Jenny? Onde você está?
A mãe, com sua voz estridente ecoando pelo corredor do hospital, encontrou a filha no leito. Ela abraçou a garota com tanta força que Jenny mal conseguia respirar.
– Vamos embora, então – disse Jo, enquanto ela e Melissa saíam.
Jenny tentou acenar para as amigas, mas a mãe a tinha abraçado tão forte que ela não conseguia mexer os braços.
– Mãe, eu estou bem – ela se esforçava para falar. – Sério, foi só uma pequena queda. Não quebrei nada.
– Bem? Bem? – a mãe berrou. – Você faz ideia das coisas que passaram pela minha cabeça desde a hora em que a polícia apareceu em casa hoje à noite? E quando me contaram que acharam você no mausoléu? Está maluca? O que você fazia lá? Você, Jenny, a minha Jenny que se assusta com a própria sombra?
– É uma longa história, mãe, mas neste momento estou um pouco cansada. Podemos conversar mais tarde?
– Cansada? – a mãe questionou. – Mas você não pode dormir agora, querida, você pode ter sofrido uma concussão. Bateu a cabeça quando caiu? Espere aí, não se mexa. Vou ver com os médicos exatamente como você está. Acho que você não deve voltar para casa comigo esta noite. Talvez seja uma boa ideia passar a noite aqui, em observação.
Quando a mãe saiu do quarto, Jenny encostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. A mãe continuou a tagarelar. Mas, depois de toda a aflição daquela noite, ela achou aquela voz estridente estranhamente reconfortante. Talvez tivesse sido uma concussão mesmo…
Capítulo 11
– Jo, onde você está? – gritou o pai de Jo, do andar de baixo.
– No banheiro – a garota resmungou. – O que foi?
– O irmãozinho da Melissa trouxe um pacote para você, está na mesa do telefone. Venha pegar. Eu ia levar aí em cima, mas estou muito atrasado para o trabalho.
Jo apareceu no alto da escada.
– Tudo bem, pai. Vou descer num minuto. A Melissa disse que mandaria umas revistas para mim, não é nada importante.
– Certo, então. Preciso ir. Até mais tarde, querida! – o pai respondeu enquanto tentava soltar a corrente da porta.
– Não é melhor você deixar a pasta no chão primeiro? – sugeriu a filha.
Ele colocou a pasta no chão com uma mão e, com a outra mão, pôs metade de uma torrada na boca. Então, conseguiu soltar a corrente da porta.
– Tchau! – ele se despediu de novo e fechou a porta.
Jo balançou a cabeça.
“Pais…” – ela pensou. “Às vezes são piores que os filhos.”
Ela desceu a escada voando e pegou o envelope marrom que estava sobre a mesa. Dois dias haviam se passado desde o incidente do cemitério, e restava apenas um dia antes da estreia da peça. Jo foi para a cozinha, preparou chá fresco com torradas, colocou tudo numa bandeja e levou para seu quarto. Abriu um pouco as cortinas para deixar entrar um pouco da luz cinzenta do mês de novembro no quarto e sentou-se para ver as correções de Melissa.
Uma cena bem parecida ocorreu na casa de Jenny, quando ela examinou as páginas para ver as modificações que Melissa tinha feito. A amiga tinha usado um marca-texto amarelo para facilitar a leitura das alterações. Jenny começou a estudar as falas novas. Ela não poderia dizer as palavras corretas na noite de estreia. Ela precisava se concentrar e aprender os feitiços do jeito que Melissa tinha reescrito.
Enquanto isso, na escola, a professora Debby estava arrancando os cabelos.
– Não, não, não – ela advertiu. – Não é nesse momento que você deve sair. Você tem que esperar os trolls entrarem.
Ela passou os dedos no cabelo bagunçado e respirou fundo.
Ela devia ter escutado o diretor. Ele havia lhe alertado sobre a história da peça, e ela insistiu que era capaz de encenar o espetáculo com sucesso. Mas o que aconteceu foi: as três protagonistas estavam doentes, todas elas! E, além disso, ninguém parecia ter a menor ideia de onde ficar no palco ou o que dizer. Ela se perguntava se eles tinham alguma noção da peça que estavam estrelando!
– Pessoal, sei que é difícil – ela começou a falar em um tom mais elevado. – E principalmente agora que estamos sem as três bruxas, embora os pais delas tenham me garantido que elas estarão aqui na noite de estreia. Então, por enquanto, vamos simplesmente fingir que elas estão aqui. Usem um pouco a imaginação e se concentrem nas cenas em que vão atuar. Talvez assim possamos terminar isso antes que eu perca a paciência com vocês.
Alguns alunos riram, forçando a professora Debby a sorrir também.
– E poderemos realmente apresentar para os pais, professores e alunos, na noite de estreia, um espetáculo digno de aplausos!
Alguns atores pigarrearam, para limpar a garganta. Outros concordaram, balançando a cabeça.
– Tudo bem, Grant, do início da cena, por favor! E lembrem-se: duendes não mascam chiclete.
Capítulo 12
O buquê de flores estava na pequena pia do lavatório da sala do diretor. Ele o entregaria à professora Debby depois da peça naquela noite. Verificou no espelho se a gravata estava arrumada e tirou um pedacinho de chocolate do canto da boca. Esse era o problema das apresentações na escola: ele não conseguia resistir aos docinhos caseiros que as mães doavam para a escola, principalmente os biscoitos de chocolate feitos pela senhora Castle. Ele afrouxou um pouco o cinto, saiu de sua sala e seguiu a caminho do auditório.
Havia um clima de empolgação no ar enquanto as pessoas entravam no auditório. Todos os espectadores conheciam alguém que se apresentaria naquela noite, um familiar ou o filho de algum vizinho ou conhecido. Irmãos mais novos se retorciam em seus assentos, quase todos sendo controlados com barras de chocolate e refrigerantes, além da promessa de sorvete no intervalo.
O cenário montado no palco tinha sido feito por alunos do oitavo ano, com ajuda da professora Debby. A cor preta, obviamente, era a principal. Morcegos, aranhas e insetos assustadores de todos os tipos e formatos estavam suspensos no teto.
Algumas crianças da escola tinham feito a programação para vender às pessoas da plateia que entravam no auditório. Infelizmente, elas tinham usado cartuchos de tinta preta e laranja que não eram compatíveis com a velha impressora da escola, então a tinta ainda estava úmida, e grande parte da plateia chegava a seus lugares com manchas alaranjadas e pretas no rosto e nas mãos.
O auditório logo ficou lotado. Melissa olhou por trás das pesadas cortinas e voltou correndo para dizer às amigas que estava quase na hora de começar. A pesada roupa preta que ela usava a impedia de correr, e o caminho estava obstruído por sapos estranhos e fadas ensaiando suas falas.
Quase todos foram à sala de maquiagem (a sala privativa da professora Debby fora do palco, onde ela e alguns alunos do nono ano exageraram um pouco na maquiagem, e os resultados se tornaram um espetáculo à parte).
Melissa encontrou as amigas. As três estavam nervosas, pois só tinham conseguido passar as novas falas uma vez, num encontro depois da escola naquele dia, quando voltavam para casa pelo parque.
Ela sorriu incentivando as outras duas amigas e segurou a mão delas.
– Vai dar tudo certo! – ela disse, confiante. – Vamos conseguir, vocês vão ver.
O som da música no auditório a impediu de falar mais alguma coisa. A professora Debby contou com a ajuda do professor Rankin, de Música, que fez uma fita com músicas fantasmagóricas para deixar o clima da peça mais assustador. O tema de abertura dominou o auditório e depois parou para que o diretor pudesse falar.
O diretor, o senhor Paul, deu as boas-vindas a todos e, como prometido, fez o discurso mais breve possível. A peça foi anunciada e, antes que as garotas percebessem, as cortinas se abriram e elas estavam no palco!
– Essa é para você, Geraldine – sussurrou Melissa ao tomar seu lugar.
Capítulo 13
A peça começava com a cena em que as três bruxas cortavam o cabelo de Jonathan. Não se ouvia um som na plateia e a professora Debby notou, com alguma satisfação, que a plateia parecia atenta a cada gesto, a cada palavra. Alguns gemidos puderam ser ouvidos quando o menino foi capturado, além de muitas vaias e assobios quando as bruxas faziam seus truques. As janelas nas laterais do auditório estavam escondidas por cortinas que iam do teto ao chão, de modo que, com exceção das luzes do palco, a escuridão era quase completa. A música assustadora fornecida pelo professor Rankin foi uma fonte de inspiração. A professora se parabenizou. O clima no auditório era eletrizante. Ela voltou a prestar atenção no palco, onde a cena da “ressurreição dos mortos” estava sendo realizada. Ela ouviu Jenny repetir sua fala:
– Ele já está quente. Vamos terminar o trabalho.
Então, as bruxas deram as mãos e começaram a recitar o feitiço:
– Da escuridão vocês se levantaram
e mais tempo na Terra também ficaram.
Não espalharão feitiços nem ideias más,
voltem para a escuridão e nos deixem em paz.
A professora olhou intrigada para as três garotas. Então, pegou sua cópia do roteiro embaixo da poltrona. Embora o texto encenado soasse familiar, havia alguma coisa naquela pequena declamação que não parecia muito certa. Ela percorreu o texto com o dedo, e os pais que estavam atrás dela reclamaram do barulho. Ela rapidamente encontrou o trecho que procurava.
“Não espalharão feitiços nem ideias más”, foi o que elas disseram. Elas deveriam ter falado: “Para mais feitiços malignos podermos espalhar”. Ela olhou rapidamente para as pessoas mais próximas dela. Ninguém tinha percebido nada. Ela se tranquilizou. É claro que ninguém iria perceber, a menos que alguém conhecesse o roteiro, como ela. Quando estava achando que tudo ficaria bem, ela pensou naquela ironia: justamente quando ela tinha ficado contente de ver Melissa, Jo e Jenny voltarem para a escola, totalmente recuperadas, garantindo que não a decepcionariam naquela noite, elas conseguiram errar o texto!
Uma onda de risos invadiu a plateia com as travessuras que um dos trolls fazia no palco. A professora Debby relaxou. Na verdade, pouco importava se um dos feitiços estava um pouco diferente. Ela colocou o roteiro embaixo da poltrona de novo e aproveitou o resto da noite. O engraçado era que as três garotas tinham conseguido errar a mesma fala.
Parecia que a mãe de Jenny tinha sido a primeira pessoa a notar a mudança da temperatura. Em eventos desse porte, auditórios lotados com pessoas vestindo casacos, chapéus e botas de inverno normalmente esquentavam um pouco. Mas não naquela noite. Ela logo percebeu que estava tremendo de frio, então pegou o casaco que havia tirado e o colocou em volta dos ombros. A maioria das pessoas no auditório fez a mesma coisa, colocando cachecóis e até luvas. Então, o senhor Paul se levantou e foi verificar se o aquecedor estava ligado. O radiador estava gelado. Paul cochichou para o professor Rankin que iria procurar o zelador. Até os alunos que estavam no palco começaram a sentir o frio que fazia no auditório. Melissa e as amigas trocaram olhares.
– Acho que está dando certo – Melissa cochichou, enquanto batia os pés na vã tentativa de aquecê-los. – Os fantasmas estão demonstrando descontentamento. Temos que continuar.
O senhor Paul voltou para o auditório. Ele não tinha conseguido achar o zelador e também não entendia a complexidade do sistema de aquecimento. Assim que ele fechou a porta, um manto de ar quente começou a segui-lo pela sala. Ele tocou no radiador enquanto passava e se admirou ao ver que o aparelho estava quente. O professor Rankin sorriu e fez sinal de positivo com o polegar. O diretor sorriu de volta. Na verdade, ele não havia feito nada para resolver o problema do frio, mas o professor Rankin não precisava saber disso, não é?
“É a Geraldine” – Melissa pensou quando o ar quente chegou até ela. “Ela está revidando.”
Melissa sorriu e cruzou os dedos enquanto continuava com a peça.
O segundo e o terceiro atos passaram mais ou menos sem novidades, embora a professora Debby tenha percebido que as garotas eventualmente faziam alguma coisa errada. Nada muito importante, e nada que os outros pudessem notar. Talvez a última frase do feitiço estivesse incorreta, ou o cântico inteiro tivesse sido recitado ao contrário. Era muito estranho. Afinal de contas, apenas a Jenny tinha sofrido uma concussão.
O quarto e último ato começou muito bem. Era o que mostrava as bruxas conjurando todos os poderes do mau para banirem a bondade da Terra. As três sabiam que esse ato era o mais importante e que elas simplesmente não podiam errar… Ou melhor, acertar, para ser mais exato.
Quando as cortinas se abriram, o enorme caldeirão fumegante havia sido colocado no centro do palco e as três bruxas estavam ao lado dele. Os trolls e os duendes, seus ajudantes, dançavam pelo palco, alternando caretas e gritos para a plateia.
As bruxas ficaram atrás do caldeirão e observaram o mar de rostos cheios de expectativa. O livro de feitiços tinha sido colocado num púlpito à direita, e uma das bruxas ficou ao lado dele e começou a ler.
– Para que este feitiço se manifeste adequadamente – ela começou a falar com voz rouca –, é importante que sejam usados apenas ingredientes frescos. Primeiro: a língua bifurcada de uma serpente viva. Segundo: o rabo fofo de um coelho branco, que tenha sido mergulhado no sangue ainda quente de um aluno do segundo ano.
Todos os alunos do segundo ano se afundaram em seus lugares. A professora Debby começou a folhear o roteiro, e de repente as portas do auditório foram escancaradas. Elas abriram e fecharam, várias vezes, e o fluxo de ar frio soprou o roteiro para longe. As garotas no palco tiveram que levantar a voz para serem ouvidas por causa do barulho das portas.
– Terceiro – Melissa anunciou alto, desta vez com a ajuda de Jo e Jenny. – O cérebro de um diretor, para ser fervido e devorado lentamente.
Foi a gota d’água para a professora Debby. Ela se levantou, mas foi forçada a voltar a seu lugar, pois todas as janelas abriram, e bandos de corvos invadiram o auditório, grasnando alto, voando sobre a plateia e aumentando o caos geral.
O senhor Paul estava se divertindo, por incrível que pareça. Apresentações assim normalmente eram chatas e, em mais de uma ocasião, ele havia cochilado boa parte do tempo. Mas não naquela noite. A atuação e o figurino eram excelentes, para não falar dos efeitos especiais! Eles estavam sendo o ponto alto! Ele precisaria conversar mais tarde com a professora Debby para saber como ela tinha conseguido fazer os corvos entrarem voando pelas janelas. Aquilo tinha sido muito bem bolado.
Melissa, Jo e Jenny começaram a gritar.
– Quarto: dois ratos enormes, um preto e um marrom, e uma caixa cheia de larvas brancas.
Ouviu-se um grito no palco e a professora Debby viu uma quarta bruxa se juntar às garotas. Quem seria ela? A professora olhou bem o rosto da bruxa, mas não conseguiu reconhecê-la.
– Não! – a quarta bruxa gritou, indignada. – Não é isso o que vocês deveriam dizer. Não são essas as falas que foram escritas para vocês. As falas que vocês deveriam dizer são: Primeiro: repolho e lagartas, com teias de aranha. Segundo: sangue de morcego misturado com ervas mortais. Terceiro: suco de dedaleira e gordura de javali. E quarto: o cabelo de uma bela menina – ela berrou, enquanto suas duas irmãs se juntavam a ela no palco.
A plateia estava extasiada. Eram seis bruxas no palco agora, corvos voando por todo o auditório e as portas ainda abrindo e fechando. Todos queriam ver o que aconteceria em seguida.
A criança mais nova no palco, Maria Certinha (recebeu esse apelido sem graça dos amigos por causa de seu jeito), estava tentando sair com o resto dos trolls quando as três bruxas mais velhas apareceram, mas ela demorou demais. A bruxa mais próxima a agarrou, colocou-a debaixo do braço e foi em direção ao caldeirão no centro do palco. A criança berrava.
– Solte-a! – Melissa exigiu. – O tempo de vocês na Terra acabou. Voltem para o lugar ao qual pertencem.
A bruxa riu, em resposta.
– Não acabou ainda, querida. Veja, temos a criança, uma criança que possui o coração imaculado. Precisamos apenas encontrar os outros ingredientes para reinarmos pelo tempo que quisermos.
Mas a bruxa estava fraca e seus passos falhavam enquanto ela se arrastava com o peso da garotinha. Ela se ajoelhou.
– Rápido, irmãs – ela disse. – Ajudem-me, ajudem-se, antes que fiquemos sem força. Vocês devem conter essa criança para que a gente pegue uma grande mecha do cabelo dela e jogue no caldeirão.
Uma das bruxas arregaçou a manga, exibindo os objetos afiados que ela tinha no lugar dos dedos.
De repente, uma luz brilhou no auditório e algumas palavras foram projetadas numa tela. Liderando o grupo, Melissa, Jo e Jenny começaram a cantar as palavras, e logo foram seguidas pela plateia.
– Todas as coisas deterioradas,
ordenamos que saiam já.
Vão embora e juntem-se ao maligno,
nas profundezas é o seu lugar.
Levem seus truques, feitiços
e também o seu caldeirão.
Sumam do lugar que nos pertence,
para a escuridão vocês voltarão.
O cântico foi se tornando cada vez mais alto conforme a plateia o repetia. As três bruxas estavam tão enfraquecidas que só conseguiram deitar no palco e implorar por misericórdia.
Jenny correu para o outro lado do palco e resgatou Maria Certinha, segurando-a com força e dizendo que tudo ficaria bem, enquanto a menina chorava.
Exatamente na hora em que a cortina final foi fechada, o senhor Paul teve a impressão de ver três figuras se desintegrarem em três montinhos de areia. Mas é claro que ele pensou que aquilo só podia ser um truque de iluminação.
Capítulo 14
Era uma manhã ensolarada, embora gelada, que lembrava às garotas a promessa dos dias futuros do verão.
Elas colocaram as flores aos pés do túmulo de Geraldine Somers. O vento e a chuva da semana anterior tinham destruído as flores que estavam lá da última vez em que as garotas haviam visitado o túmulo.
As três se ajoelharam e Melissa tirou algumas pétalas molhadas de cima da inscrição no túmulo de Geraldine.
– Ela agora está em paz, espero, e o que fizemos deve significar que o descanso dela jamais será perturbado novamente – disse Melissa.
Com a professora Debby, as garotas tinham destruído todas as cópias do roteiro que conseguiram encontrar, para que a peça nunca mais fosse encenada. Apesar de as garotas não terem revelado todos os detalhes dos acontecimentos que haviam ocorrido, a professora Debby tinha ficado assustada o suficiente para concordar com elas que seria melhor destruir o roteiro e nunca mais encenar a peça de novo.
– Então? – Jo perguntou quando as garotas se levantaram e estavam de saída. – Vai encontrar o Jonathan hoje à noite? Não que eu esteja com inveja… – ela sorriu para Melissa.
O fato de Melissa e Jonathan ficarem juntos tinha sido uma das poucas coisas boas que resultaram da encenação da peça.
– Sim, vou vê-lo jogar basquete, e depois vamos comer alguma coisa – Melissa sorriu. – E vocês?
Jo disse que iria para uma segunda rodada de patinação no gelo com a sobrinha.
– Preciso pegar o jeito desse esporte – ela riu. – Afinal de contas, a cicatriz no meu joelho já está quase sumindo.
As garotas olharam para Jenny, que sorriu, tímida.
– Eu vou ao hospital – ela disse. – Vou visitar o Danny.
As amigas ficaram chocadas.
– Danny Cottrill?
– Sim, eu sei, o valentão da escola. É que passei a conhecê-lo melhor desde a semana passada, ou desde que ele se recuperou do coma, e ele é muito simpático na verdade. Eu não sabia que os pais dele tinham acabado de se mudar para cá quando ele começou no colégio. Ele ficou inseguro e passou a agir daquele jeito para tentar chamar atenção. Ele teve uma atitude injustificável. De qualquer forma, o médico disse que ele vai ficar bem, sem sequelas, e que deve sair do hospital em poucas semanas.
As três garotas retornaram pelo mesmo caminho e saíram do cemitério, fechando o portão.
– Então, tivemos um final feliz! – disse Melissa enquanto elas iam embora para casa.
O que as garotas não viram foram as páginas flutuando uma a uma sobre o túmulo de Geraldine Somers. As flores que elas tinham acabado de deixar quase ficaram encobertas pelas páginas amareladas que caíram sobre elas. A página inicial ficou por cima de todas, e quem passasse por ali poderia ler as seguintes palavras: Oh, fantasmas, obedeçam-nos!, por Geraldine Somers.
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