Cartas a um Jovem Fotógrafo

Bob Wolfenson · Capítulo 7 de 25

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Cartas a um Jovem Fotógrafo

4. De Olhos Bem Abertos

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DE OLHOS BEM ABERTOS

Mais que um ofício, fotografar é minha maneira de me comunicar com o mundo, tanto de captar como de emitir. A partir da realidade explícita, observada e capturada, criar uma realidade própria, uma visão particular, singular, do real. É uma das máximas recorrentes do pensamento sobre fotografia. Isso, porsi só, já é uma reflexão sobre o que foi feito, ou seja, no ato de fotografar, todas essas premissas estão inconscientes. Não fotografo pensando “esta é a realidade que devo captar e tranformar em algo meu”.

Fui andando na minha vida apoiado nas conclusões que giram em torno do meu trabalho e de outras obras, não só de fotografia, claro. Suas conotações, as consequências, os pressupostos e tudo o que envolve a produção atual e do passado. Constantemente me questiono sobre o que é ser fotógrafo, o que é sê-lo da forma que sou, o que é a fotografia e qual é o papel do artista no fotógrafo, pois há muitos que não se consideram artistas, principalmente os fotógrafos documentais e jornalistas, que estão a serviço da notícia e do fato.

Mas querer ser artista ou não querer vai além de nossa vontade. Mesmo aqueles que nunca assim se consideraram e militaram na crença de que estariam fazendo um trabalho puramente documental e jornalístico – como alguns geniais: o francês Cartier-Bresson (talvez o fotógrafo mais importante de todos os tempos); o húngaro naturalizado americano Robert Capa; o brasileiro Sebastião Salgado; e, num exemplo oposto, o alemão Helmut Newton, de quem grande parte da produção é de mulheres nuas ou em situações sadomasoquistas (ele dizia que arte e bom gosto deveriam ser banidas do vocabulário do fotógrafo) – acabaram e acabarão tendo suas obras em algum museu, galeria, mostra de fotografia ou em alguma coleção, sendo visitados e estudados pela audiência que consome arte, ou seja, de alguma forma são entendidos como artistas.

No Brasil, o exemplo dos estrangeiros que aqui viviam, mas que só vim a conhecer quando já era um fotógrafo estabelecido, comprova a ideia. Os franceses Pierre Vergere Marcel Gautherot eram amigos, pertenciam a um mesmo grupo e se interessaram pelo Brasil a partir da publicação da obra de Jorge Amado na França. Chegaram aqui em meio à Segunda Guerra e se tornaram, postumamente talvez, os mais importantes fotógrafos estrangeiros a viverem no país. Produziram obras bem distintas entre elas. No entanto, apesar de grandes artistas, mantinham o viés, bem ao feitio da época, de um olhar europeu sobre o folclore e o exótico. Uma espécie de endeusamento da pureza do primitivo, assim como Sebastião Salgado hoje documenta os trabalhos mais artesanais que deixarão de existir, tomando o partido destes.

Verger imergiu totalmente na cultura afro-brasileira da Bahia, virou uma autoridade nos ritos do candomblé e se tornou figura importante na hierarquia dessa religião. Suas fotografias viraram uma unanimidade de aceitação. Os negros no protagonismo. Sua visão homoerótica emoldurada por paisagens idílicas de uma Bahia e de um Brasil que não existem mais criam um conjunto ao mesmo tempo delicado e contundente.

Gautherot, à sua maneira, fotografou as manifestações folclóricas país afora, mantendo sempre uma postura de não-interferência, à moda de Cartier-Bresson, de quem era grande admirador. Deixou um documento extraordinário sobre o período da construção de Brasília, retratando seus principais artífices, Oscar Niemeyer e Burle Marx, dos quais se tornou grande amigo. Seu interesse pela forma era inequívoco, dizia que fotografar era uma arquitetura; foi o fotógrafo do movimento moderno brasileiro.

Exposições e publicações de ambos percorreram o mundo, principalmente após a morte deles, coincidentemente em 1996. Alcançaram uma notoriedade extraordinária.

Se a fotografia é arte ou não é neste momento uma questão superada. Ela já provou e conquistou seu lugar como disse antes, mas me lembro que ainda há pouco tempo não era considerada uma manifestação artística, e sim um artesanato, um saber fazer técnico, que se contentava em copiar o real e reproduzi-lo quantas vezes fosse necessário.

Diferentemente das outras artes, a fotografia possui sua própria maneira de nos fazer reagir: ela apela às nossas lembranças e aos nossos sonhos e, ao mesmo tempo, nos confronta com a realidade. Há vida e morte na fotografia, pois, ao mesmo tempo em que ela capta um instante de vida, este nunca mais existirá; paradoxalmente aquele momento registrado ficou registrado para sempre, mas nunca mais se repetirá. Essa talvez seja a grande magia e o mistério que a distingue das demais artes.

O fotógrafo se comunica por imagens visuais, assim como os escritores o fazem com as imagens inventadas pelas palavras. Para cada modo de escrever, há um correspondente fotográfico, e vice-versa. Digo isso porque a fotografia, quando surgiu, em meados do século XIX, como o meio mais explícito e claro de representação da realidade, ficou com esse papel de substituir a pintura. Esta, libertada sobretudo do jugo representativo que cumpriu ao longo de sua história, pôde passar a ser abstrata, conceitual ou algo que o valha. O Impressionismo, por exemplo, e todas as correntes subsequentes, só pôde existir a partir desse fato. A fotografia evoluiu e ganhou um segundo papel, além da representação documental mera e simples; tornou-se um meio poderoso de expressão pessoal, do qual até artistas de outras mídias se utilizam na construção de suas obras.

Porém, todos nós podemos crer que somos fotógrafos: basta um bom modelo, uma boa luz, uma boa câmera, e aí está a receita do bolo. Mas não é simples assim; é necessário ter um artista atrás da câmera e de olhos bem abertos.