Cartas a um Jovem Fotógrafo

Bob Wolfenson · Capítulo 20 de 25

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Cartas a um Jovem Fotógrafo

13. Os Nus

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OS NUS

Comecei a fotografar mulheres nuas ainda bem jovem, e admito que fotografar era um dos meus instrumentos de sedução. Afinal, depois do filme Blow-Up, ficou charmoso ser fotógrafo, tal como hoje ainda é. Em algumas oportunidades, trabalhei como assistente de alguns fotógrafos e pude vê-los de perto fotografando mulheres espetaculares.

Jamais esquecerei da emoção que tive quando vi a primeira mulher completamente nua, na minha frente, para ser fotografada. O fotógrafo era o já falecido José Antônio, do estúdio da Abril, onde eu era assistente. Era uma negra linda, uma dessas do tipo inatingível. Eu nem tinha ainda completado 20 anos, e aquilo causou uma comoção muito grande em mim. Foi um acontecimento, um evento. Depois dela vieram muitas outras fotografadas por mim, para a Playboy, revistas de moda ou trabalhos pessoais. Às vezes, eu noto esse ar de estupefação nos meus assistentes hoje, mesmo eles sendo mais velhos do que eu naquela época. Eles também devem ficar meio transtornados, é natural.

Minha experiência com nus para revistas foi longa, desde 1985, mas só em meados dos anos 90 tive um insight: por que não ligar os trabalhos encomendados pela Playboy à experiência e estilo que eu já vinha acumulando há algum tempo nas fotos de moda?

O trabalho com Maitê Proença em 1996, na Sicília, foi o marco divisor na minha carreira de fotógrafo de mulheres nuas, excetuando um ensaio que fiz com Sônia Braga ainda nos anos 80 e outro com Alexia Dechamps no Taiti, já nos anos 90, não sendo dignos de menção os outros (do ponto de vista da fotografia) ao meu crivo de hoje – claro, respeitando todas as mulheres que foram fotografadas por mim, e não foram poucas. A coisa é comigo mesmo. Não gosto das fotos, e gosto das mulheres. Ede alguma forma eu seguia mesmo as regras estritas da revista. Eram tantas injunções: “precisamos de uma foto de costas”, exigiam os editores, ou uma foto de bunda, ou um perfil assim ou assado. Eu perguntava em tom jocoso: “e quando vamos fazer a bunda de frente?” Era só o que faltava, para completar todo o briefing.

Na verdade, realmente só tive forças para mudar quando realizei que não seria mais um fotógrafo de nus – queria ser um dos dois melhores, senão o melhor.

Quando veio o trabalho da Maitê, uma série de fatores se alinharam, como o desejo dela de fazer algo extemporâneo. Naquela época, a Playboy estava bombando, as tiragens eram gigantescas, e havia verba para viagens e disposição para o arrojo. O jornalista Ricardo Setti era o diretor e apostava nisso, apesar de ter me pedido para demovê-la de seu desejo de fazer o ensaio na índia, o que, de fato, seria absolutamente impossível. Atendendo a uma sugestão do próprio Setti e do Nirlando Beirão, na época colaborador da revista, de fazer algo na Itália, convenci-a em nossas conversas preliminares a fazer as fotos na Sicília, incluindo as pessoas, os personagens locais, as velhas vestidas de preto – enfim, a mítica Sicília dos nossos sonhos, dos filmes do neorrealismo italiano a que ambos assistimos.

Partimos para aquela região com uma equipe mínima (sempre as equipes de nus são pequenas), e, como tudo foi decidido muito em cima da hora, como sempre acontece no Brasil, não houve tempo para uma pré-produção nem para contratar um produtor siciliano, o que seria o certo. A revista contratou um produtor em Milão, que contatou um jovem médico em Palermo, capital da Sicília, que se dispôs a ajudar – era o samba-do-crioulo-doido, bem ao estilo do filme italiano O incrível exército de Brancaleone, uma comédia tosca passada na Idade Média em que um exército maltrapilho que arregimentava desocupados e incompetentes contornava qualquer dificuldade de uma forma cômica e pastelona – era bem assim que nos sentíamos, sem estrutura nenhuma. Ficamos hospedados em Taormina, uma linda cidadela romana à beira do Mediterrâneo e coalhada de turistas alemães. Nos primeiros dias saíamos, eu, o médico, o produtor milanês e meu assistente Tiago Molinos, à procura de locações que comporiam nossa ideia sonhada quando decidimos ir até la. Até me fazer entender que o que procurava eram os piccolos paeses, ou seja, os vilarejos do interior da ilha, demorou algum tempo, mas depois a coisa fluiu e realmente o ensaio aconteceu como havíamos previsto. Mulheres carpideiras vestidas de preto, ao lado dela pelada, velhinhos jogando cartas num desses pequenos vilarejos com Maitê sentada nua à mesa, observando. Todas essas “autorizações” foram conseguidas pelo Vincenzo, o médico, junto aos chefes ou capos de cada lugar. As situações eram muito engraçadas, chegamos num paese onde velhinhos jogavam cartas; era uma espécie de clube do baralho. Passamos pela rua, vi o lugar e perguntei ao Vincenzo: “Podemos fazer aqui?” Ele perguntou ao responsável e eles toparam. “Mas você avisou que vai ser nua?”, perguntei. “Falei com o responsável, os velhos não sabem”, respondeu ele. Bom, a Maitê realmente foi muito disponível e, sem grilos, topava tudo. Sentou-se de roupão à mesa com eles, que não estavam entendendo nada – sabiam só que faríamos uma fotos com ela ao lado deles; me preparei, peguei a câmera, uma Nikon 35 mm, e um minuto antes Vincenzo comunicou: “la donna starà nuda”. Falei: “Vamos, Maitê, tire o roupão.” Prontamente ela atendeu, e os velhinhos não acreditavam no que estavam vendo, mas continuaram inertes jogando seu jogo como se nada estivesse acontecendo, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

E, assim, em quase todas as cenas desse editorial, passávamos por situações insólitas. Não era comum nos ensaios da revista termos figuração, e todos esses encontros com pessoas diferentes eram novidade para nós. Nunca dizíamos que fazíamos para a Playboy – instruídos que estávamos pelos produtores italianos, acreditávamos que não seria um título bem visto lá. Dizíamos que seria um livro de fotografias artísticas meu, que ela era uma atriz famosa no Brasil e se dispôs a posar para mim. Houve um momento mais tenso em que umas velhinhas vestidas de preto, convocadas pelos produtores a posarem junto com ela, reclamaram dizendo que aquilo era pornografia. Queriam desistir, e a própria Maitê respondeu com seu italiano rudimentar, demovendo-as da desistência.

Quando a revista saiu, houve uma repercussão imensa e constituiu uma mudança significativa na reputação da Playboy junto a um público que nem sequer a respeitava. Até hoje, 12 anos depois, muita gente ainda lembra e menciona como algo que impressionou muito na época. Virou um clássico. Conversando com Maitê logo depois de a revista chegar às bancas, ela me falou que havia acabado de estrear um espetáculo em São Paulo, masque ninguém falava da peça. Todos só falavam do ensaio da Playboy.

Na sequência vieram outros ensaios que ficaram muito conhecidos, todos já nesse novo padrão de rompimento com as regras estabelecidas pela revista, com as atrizes Mylla Christie, na Inglaterra; Angela Vieira, em Siena, na Itália; Alessandra Negrini, no Rio de Janeiro, encarnando o personagem de uma prostituta, em trabalho que considero o meu melhor ensaio de Playboy e talvez um dos dois melhores da história da revista. Quanta modéstia, nao é? Mas é verdade. O que o da Maitê tinha de inédito, por ter inventado uma nova maneira de fotografar nus, esse tinha de ousado, e acrescentou às conquistas do outro uma sensualidade e um erotismo extremos.

Todas as atrizes que fotografei, para a Playboy ou não, depois do ensaio da Negrini, as que nunca tinham feito nem nunca iriam fazer diziam que, se tivessem de fazer, fariam daquele jeito exato, e as outras que vieram a fazer queriam no mínimo aquilo. Vera Fischerem Paris, Regiane Alves em São Paulo, recentemente a atriz Carol Castro em Salvador – depois de quase cinco anos sem trabalhar para a revista por divergências mútuas – completam o rol dos meus ensaios preferidos. Foi o tempo em que fotografei grandes mulheres do país e quando comecei a colar meu estilo, que aparecia bastante nas minhas fotos de moda, às fotografias de nus. De 1996 a 2002 foi o período que considero minha melhor produção para a Playboy, quando, no sentido profissional, meus desejos se confundiam com os desejos da revista, em uma sintonia perfeita. Eu fazia um trabalho em que me sentia inteiro. Não me sentia fazendo um serviço, estava fazendo o que queria e aquilo servia à revista. Nessa época da Playboy eu fotografava, editava, paginava e entregava o ensaio pronto para receber o texto e ser impresso. Ariani Carneiro, editora de fotografia nesse período, foi aliada e parceira dessa ousadia.

Porém, meu estilo não era nem é uma unamidade junto aos leitores da revista. Muitos reclamam que tem muita historinha, muita intenção, e o que de fato interessa para quem compra a revista é se a mulher está suficientemente pelada e gostosa e se dá para ver tudo. O escritor e autor de novelas, Mário Prata meu amigo, certa vez, num encontro casual, me disse: “Bob, eu comprei aquela revista com a Maitê, mas, quando estava começando a me excitar, apareceu uma velhinha italiana olhando pra mim … Que absurdo!” Cômico, ri muito nesse dia. No entanto, essa piada é a expressão do sentimento do leitor mais fiel da revista.

É interessante notar como todo mundo tem curiosidade de saber como são as coisas durante um ensaio desses, como é minha relação com essas mulheres, se existe clima de sedução entre nós. Se fico com tesão é a pergunta mais recorrente que me fazem. E eu compreendo o interesse porque realmente é uma atividade rara e diferente, e se trata da mesma curiosidade que eu tenho com relação à gravação de novelas, filmes etc. Então, essa curiosidade é natural, assim como a fantasia sobre o trabalho dos fotógrafos.

Agora, é claro que fazer um trabalho desse não é realizar uma coisa como outra qualquer. Se eu disserque não me importo, que poderia seruma geladeira na minha frente, o que importa é o tal do profissionalismo, seria uma hipocrisia. Mas, sinceramente, na maior parte das vezes, estou mais preocupado com as coisas relativas ao próprio trabalho. Em fazer algo que seja relevante, além das questões sensuais implícitas.

Minha concentração na hora de fotografar é tanta que já me aconteceu algumas vezes de, dois ou três meses depois do trabalho pronto, eu olhando as fotos, de repente me pegar pensando “Nossa, que mulher gostosa!”, coisa em que, no instante em que estava fotografando, não me aprofundei. Naquele momento, você é como um diretor de cinema: está atento ao cenário, à luz, tranquiliza a mulher, dá apoio psicológico a ela, cuida da roupa, dos acessórios cênicos, dos figurantes (se houver), enfim, você é responsável por tudo.

E tem mais: às vezes a nudez não é tão excitante assim, principalmente nessa situação, em que você está lá a trabalho. Tanto isso é verdade que uma das fotos mais sensuais que fiz foi da Gisele Bündchen de short sentada numa cama de madeira para um editorial da Vogue em Parati. Considero essa muito mais erótica do que qualquer foto de mulher nua que eu tenha feito.