Cartas a um Jovem Fotógrafo
Introdução
A fotografia é antes de tudo meu ofício, o que tecnicamente sei fazer, mas é também um vetor das minhas ideias, minha forma de comunicação com o mundo. Por isso, aceitei o convite de escrever este livro, pois ele me trazia o desafio de falar para o jovem fotógrafo e para todos aqueles que sonham com essa atividade hoje tão disseminada. E, para conseguir estabelecer verdadeiramente essa relação, terei de voltar um pouco no tempo e refletir sobre a minha própria trajetória, refazendo todo o caminho percorrido.
O universo da fotografia é enorme, e o desenvolvimento tecnológico faz
surgir, a cada dia, novas e mais modalidades, e naturalmente novos fotógrafos, com suas idiossincrasias: técnicas e estéticas. No meu caso, o que faço não se restringe a uma única especialidade; talvez por ser extrovertido e expansivo, não tenha me limitado a um interesse particular – se bem que isso, por si só, já caracteriza uma forma, um à maneira de … Não tenho a intenção de fazer aqui um painel de tudo o que se pode realizar como fotógrafo, uma vez que só posso e quero falar daquele que sou – sem nenhuma afetação narcísica, assim espero. Simplesmente não quero cometer imprecisões, talvez por ignorar alguma ou muitas das questões teóricas e práticas, assim como também da história da fotografia. Deixo essa tarefa aos pensadores e historiadores. Por isso, vou me ater à minha experiência. Sou um fotógrafo mais voltado para alguns assuntos à primeira vista quase antagônicos; no entanto, reconheço um nexo formal entre eles, dado pelo meu olhar e modo de ver.
Temas tão diversos como moda, publicidade, retrato, nudez, paisagem –
este último, sobre o qual fiz duas exposições, nomeei-o usando o neologismo “antipaisagem” – são de alguma forma apresentados sob a minha ótica. Mas algo tão abstrato como minha ótica quer dizer o quê? Talvez seja este o “x” da questão. Não pretendo que este livro seja apenas de dicas ou atalhos para uma carreira de sucesso; a minha ideia é de que alguém, talentoso ou não, fotógrafo ou simplesmente curioso, possa se divertir um pouco com as aventuras que essa profissão, da forma como atuo, oferece e tirar algum proveito da experiência de quem possui longa trajetória profissional. Mas a minha ótica talvez seja um bom antídoto para aqueles que se curvam a todas as exigências do mercado; explico: como em qualquer área de atuação, há uma obsessão por rapidamente se alcançar o sucesso – este é um dos dramas de nossa época. No entanto, é preciso lembrar que nada acontece dentro de um esquema pré-arranjado ou de uma fórmula, porque o sucesso advém de um conjunto de fatores, inclusive da sorte, mas principalmente do senso de verdade, de uma forma particular de ver as coisas (a tal da ótica). Sem nenhum moralismo aqui, acredito que, se a personalidade de alguém aparece em sua obra, as coisas se tornam mais fáceis, e é meio caminho andado para uma boa realização.
Não digo que seja fácil nem que me orgulho de todos os meus trabalhos;
porém observo que, quando estou fotografando, minhas inquietações, formação e personalidade estão ali junto comigo, selecionando o modo de olhar, e acho que sou bem singular nesse sentido porque lido com muitos temas diferentes.
Cada um de nós tem seu próprio método de trabalho. Uma comparação
que gosto de fazer é entre Giorgio Morandi – nascido em 1890, este grande pintor italiano de naturezas-mortas, que quase só pintou garrafas a vida inteira, foi e é considerado um dos grandes artistas do século passado – e Pablo Picasso, que levou a experimentação às últimas conseqüências – da escultura à pintura, passando pelo desenho, construiu, desconstruiu, fez retratos, paisagens etc. – e talvez seja o maior artista de todos os tempos. Caetano Veloso, na minha opinião, é o nosso Picasso porque, em toda sua obra, pode-se vê-lo apontando em diversas direções. E em cada trabalho ele faz um amálgama de coisas diferentes: da tradição ao experimentalismo, da cultura erudita à cultura popular, de trechos de música em inglês a traduções, tudo em arranjos sofisticados e não-sofisticados. Sempre o invejei e o admirei por essa capacidade, por não se restringir a temas, por subvertera cada disco novo a imagem do anterior. Essa é a ideia de fusão que me norteia. Eliminar rótulos, sair do gueto. Talvez porque tenha nascido e vivido em um.
Nasci sob o signo de Virgem, o que pode levar muitos a achar que eu seja
o protótipo da organização. Na verdade, sou um paradoxo do virginiano típico, uma verdadeira contradição porque, embora focado, ao mesmo tempo sou muito caótico. E sou fotógrafo, uma profissão que requer muita concentração, cálculo e organização.
Sempre me perguntam o que mais gosto de fotografar. E para essa
questão minha resposta é sempre a mesma: gosto mesmo é de pensar e esquematizar um projeto, um conceito – seja ele encomendado ou da minha cabeça, comercial ou não. Gosto de escrever sobre aquilo que faço ou o que vou fazer. Gosto do movimento, da pressão de realizar, dos prazos curtos, da preparação, da atividade, do burburinho das pessoas à minha volta, da parceria com elas, no estúdio ou nas locações. Gosto de ver meu trabalho publicado e contextualizado em assuntos que não se encerram em uma única imagem. O instante fotográfico para mim é uma passagem. É óbvio que não o desprezo – não seria fotografia se ele não existisse. Porém, minha ligação com o trabalho é amor pela realização, pela encenação; é uma conexão com a minha época, a tensão com ela e a representação dela; e, subjacente a isso, é uma busca pela eternidade. Talvez por esse motivo tenha escolhido a fotografia como profissão, por seu caráter intrínseco de posteridade.