Cartas a um Jovem Fotógrafo

Bob Wolfenson · Capítulo 24 de 25

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Cartas a um Jovem Fotógrafo

16. Epílogo

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EPÍLOGO

Eventualmente, algumas coisas que faço resultam muito abaixo da minha expectativa, e, quanto a outras, só sei que não ficaram da forma que imaginara algum tempo depois, quando as vejo publicadas – até hoje isso me faz mal. Mas esse é o preço de se estar vivo, arriscar, se expor ao risco. Viver em uma redoma protegido e só se envolver em trabalhos edificantes é tudo o que não sou. Às vezes pago o preço de não gostar do resultado; todavia, na maior parte dos casos, fico mais satisfeito do que não-satisfeito.

O advento da fotografia digital e seu uso em escala profissional, como venho fazendo desde 2006, mudou sobretudo a maneira e o ritual da sessão fotográfica. Depois de três anos me sinto totalmente adaptado ao novo método e continuo tentando ser o fotógrafo que quero e posso ser. Há alguns, ou talvez muitos, que dizem que isso não é mais fotografia, que o novo procedimento facilitou aos que não sabem fotografar, como se esse saber fosse algo tangível. Reclamam que é o fim da ideia romântica do fotógrafo também envolvido nos processos de laboratório. Gostam do orgânico da coisa, do cheiro da química, do nitrato de prata.

Entendo o que é fazer uma coisa a vida inteira e, de repente, aquele conhecimento, aquela técnica desaparecer, ou melhor, ficar obsoleta. E acredito mesmo que muitos fotó-grafos tenham o trabalho profundamente ligado à sua técnica específica desenvolvida ao longo do tempo e se aferram a ela, pois isso de algum jeito forma um estilo. Para muitos, a transição do sistema analógico para o digital tem sido dura, mas é inexorável. Porém, a meu ver, oque realmente importa é quem está atrás da lente e o quê ou quem está à sua frente. A interação entre o fotógrafo e seus temas e o mistério dessa interação estão impressos em uma imagem fotográfica. Através da câmera eu vejo o mundo e o represento e o emito. Seria como escritores e jornalistas serem (e muitos foram) contra os computadores, que substituíram as máquinas de escrever, mas definitivamente isso não pode ser um limitante. Eu diria que na escala em que trabalham os fotógrafos profissionais seria impossível se manterem atados aos processos analógicos. O mundo hoje é digital.

A esse respeito vou mais a fundo e acho até que, quando a câmera interpõe-se entre você e o sujeito ou o objeto que está fotografado, ela acaba se transformando num problema, e não numa solução. Daí que ela tem de ser quase invisível, não pode atrapalhar. O equipamento é só um instrumento, e não um fim em si. Apesar disso, sou cioso das evoluções e necessidades técnicas e procuro ter à mão sempre, desde que eu possa pagar por eles, sistemas que funcionem bem e muitas vezes apresentem novas soluções para velhos problemas.

Ao rever minhas primeiras fotos feitas da sacada de meu apartamento no bairro Bom Retiro, em São Paulo, nos anos 60, percebo um certo espírito “voyeurístico” acanhado, que me acompanha até hoje, já inscrito naquelas imagens. Se, por um lado, as fotos, pelos fios que se postavam exatamente à frente de minha janela, prenunciavam um caminho cheio de eletricidade e ação, por outro revelavam um caráter tímido e contemplativo no sentido oposto dessa ação eletrificada. E essa minha vista por mais de quinze anos certamente marcou a forma como me tornaria fotógrafo – e para sempre me colocou diante da ideia de que, ao ganhar e ampliaro mundo exteriora partir daquela janela, eu me exporia, assim, ampliado também.

Talvez a fotografia tenha sido a via possível, e a câme-ra meu instrumento na convivência com os tais dilemas – ver e ser visto, perto-longe, invasão-respeito à privacidade. A verdade é que o conjunto das minhas fotografias parece apontar exatamente para as duas faces dessa ambiguidade: o teatro das fotos construídas dramatizadas e/ou alteradas, realizadas no âmbito de um estúdio ou em locações externas, que contemplam um caminho mais “voyeurístico”, no qual há muitas vezes alguma coisa se interpondo entre a câmera e seus sujeitos/objetos; e os retratos secos, crus e diretos de uma proximidade quase cirúrgica, que, ao contrário do que pensa a maioria, não me autorizam maiores intimidades com os meus fotografados.

Na verdade, a intensidade emocional contida nesses breves encontros que são as sessões fotográficas ainda é o que me mantém fotógrafo, a boca seca e o ritmo do coração alterado.

Ao longo desses anos tenho convivido com uma série de fotógrafos brasileiros ou estrangeiros que viveram no país, têm sido influências e contrapontos e cujos trabalhos, por falta de espaço, não tratei no livro. Nenhum iniciante que queira ser digno do nome “fotógrafo” pode ignorar suas obras, e são eles: André Passos, Luis Crispino, Jair Lanes, Thelma Vilas Boas, Luis Braga, Jacques Dequeker, Marcio Simnch, J.R. Duran, Miro, Helio Campos Mello, Pisco Del Gaiso, Orlando Azevedo, Tiago Santana, Cristiano, Daniel Klajmic, Fabiana Figueiredo, Fernando Lemos, Roberto Linsker, Nana Vieira, Klaus Mitteldorf, Tuca Reines, Juan Esteves, Miguel Chikaoka, Paulo Fridman, Eustaquio Neves, Rômulo Fialdini, Cafi, Arthur Omar, Luiz Garrido, Rochelle Costi, Penna Prearo, Pablo Di Giulio, Vicente de Mello, Rafael Assef, César Barreto, Eder Chiodetto, Camila Butcher, Armando Prado, Ana Ottoni, Rosangela Rennó, Alécio de Andrade, Márcia Ramalho, Isabel Garcia, Tiago Molinos, Mario Cravo Neto, André Andrade, Fernando Laszlo, Vik Muniz, Andreas Heiniger, Rogério Assis, Antonio Guerreiro, José Antônio, Arnaldo Pappalardo, Cristiano Mascaro, Cláudio Edinger, Miguel Rio Branco, Pedro Martinelli, German Lorca, Vânia Toledo, Cláudio Elisabetsky, latã Cannabrava, Cláudia Jaguaribe, João Wainer, Maurício Nahas, Willy Biondani, Walter Firmo, Araquém Alcântara, Paulo Vainer, Antonio Sagesse, Murilo Meirelles, Haruo Ohara, Marisa Alvarez Lima, Vavá Ribeiro, Márcio Scavone, Hilton Ribeiro, Claudia Andujar, Cássio Vasconcellos, Maureen Bisilliat, José Oiticica, George Love, Jean Manzon, Lew Parrela, Roger Bester, Jean Solari, Chico Guerrissi, Chico Albuquerque, Gui Paganini e Feco Hamburger.

Para você, jovem fotógrafo, que às vezes fica perdido em busca de temas edificantes, equipamentos de última geração, ideias de composição fotográfica muito estabelecidas, busca da glória e da fortuna, espero que este livro tenha esclarecido algo a respeito desses falsos e verdadeiros cânones. No sentido de enfatizar mais ainda a afirmação de somar um conhecimento técnico à suas intenções profissionais ou amadoras, sugiro aos muito iniciantes que qualquer aprendizado sempre é melhor que nada, ou seja, manuais, cursos de iniciação, palestras e conferências a respeito do assunto, ver muita fotografia e arte, ler e se informar sobre o mundo ajudam muito na formação de qualquer profissional de qualquer área. Mas, aos fotógrafos, sobretudo, fotografar muito é o exercício mais necessário e de primeira ordem.