Cartas a um Jovem Fotógrafo

Bob Wolfenson · Capítulo 5 de 25

Páginas do PDF

Cartas a um Jovem Fotógrafo

3. De Volta para o Futuro

3

DE VOLTA PARA O FUTURO

Quando voltei, mais tranquilo e decidido, fui ajudado pelo fato de ter trabalhado em Nova York e com Bill King, que na época tinha grande reputação no reduzido círculo de moda de São Paulo. O novo impulso na minha carreira, meu portfolio, era contar essa experiência e provar sua veracidade. Guardei cópias dos cheques com os quais Bill me pagava, pois sabia que meu trabalho para ele seria posto em xeque e seria importante para convenceras pessoas de que agora poderia fazer o que esperavam de um fotógrafo de moda, por mais absurda que possa parecer toda essa situação. De um lado, divulgar e comprovar para o meio que meu trabalho com Bill me credenciava a conseguir trabalhos. De outro, havia de fotografar à la Bill King, pois era isso que estava implícito em tudo. Cometi por algum tempo o equívoco de corresponder a essa expectativa, muito mais pela euforia de conseguir trabalhar, porainda não ter uma forma própria de fotografar moda – o tal do estilo – e por sentir novos ventos soprando na minha carreira do que por uma estratégia planejada para ela. Durante esse período ganhei algum reconhecimento. Fotografar tornou-se, então, meu ofício.

Mais seguro com tudo o que aprendi em Nova York, estava disposto a ser fotógrafo de moda movido pela vaidade de ser bem publicado, páginas inteiras, histórias longas, contato com as modelos, vontade de ganhar dinheiro (meu exemplo americano ganhava muito bem). Enfim, amava e amo ainda a possibilidade artística que os trabalhos de moda contêm; extrapolar, exceder, movimentar e criar enredos dentro do espaço reduzido de um editorial de moda era e continua sendo um desafio. Sinceramente, nem tinha essa consciência toda nos anos 80. Fui aos poucos aonde podia e era aceito.

A partir disso, descobri uma certa vocação, como uma espécie de diretor de cinema estático – pensar o trabalho no seu todo: desde roupa, cabelo, maquiagem, escolha da modelo, locação e luz até a paginação e publicação final. Tudo com a colaboração de uma equipe especializada em cada um desses tópicos, mas que também possuía a visão do todo. Aqui cabe um comentário: essa hierarquia em relação aos profissionais varia a cada trabalho. Muitas vezes sou chamado para realizaras ideias das revistas ou dos diretores de arte ou criação. Analiso cada caso e, se houver algum ponto que me interesse, embarco na onda. Muitas vezes meu interesse é apenas comercial.

Também é preciso levar em consideração que a moda no Brasil era embrionária naquela época, tanto que eu e três fotógrafos fizemos parte das primeiras levas de desbravadores nessa área. Antes de nós, Otto Stupakoff, que logo emigrou para os Estados Unidos, realizou algo nos anos 60, mas seu trabalho realmente só se concretizou no exterior. Depois dele, a figura polêmica do fotógrafo Luis Tripolli, com quem havia tido a oportunidade de trabalhar nos meus tempos de assistente no Estúdio Abril, e os cariocas Antonio Guerreiro e José Antônio eram os que tinham relevância. Tripolli era o grande nome da época, uma figura única, extravagante – fotografava tomando vinho e champanhe. Seus trabalhos eram inesquecíveis; a cada um que era publicado, o “mundinho da moda” ficava em polvorosa. Cultivava fama de bad boy – recordo-me que, em uma das vezes em que trabalhei para ele, a série de fotos era com a Regina Duarte, na ocasião uma das grandes estrelas do país, que se curvava a todas as suas exigências. Sempre de jaqueta de couro, incorporava o papel do fotógrafo de moda charmoso que andava com as modelos. Era conhecido por sua falta de pontualidade e por deixá-las horas esperando até o iníco da sessão. Seus trabalhos tinham uma conotação abusivamente sexual, o que confundia e incomodava; olhares considerados elegantes, muito influenciados pelo que se fazia internacionalmente. Tripolli é o primeiro grande fotógrafo de moda brasileiríssimo, com um estilo inconfundível. Pode-se dizer tudo dele, mas nunca que uma fotografia sua não fosse original, o que, convenhamos, não é pouco.

Havia os parâmetros muito fortes do chamado Primeiro Mundo. Todo o universo da moda aqui trabalhava, e trabalha ainda, apesar de ter melhorado muito, com defasagem em relação aos grandes centros produtores de moda. E, até hoje, tudo o que acontece no hemisfério norte chega aqui seis meses depois devido à sazonalidade; verão lá, inverno aqui, e vice-versa. Acho que o Brasil ainda não é um centro hegemônico na área de moda, aliás, em nenhuma atividade, maso que é feito aqui já aparece ao mundo infinitamente mais do que na época em que comecei.

Certa vez, um designer de moda disse que a moda se realiza completamente quando a fotografia da coleção, ou de alguma peça desta, é publicada. Concordo integralmente com ele. Todo o processo começa com a idealização, o desenho, a compra do tecido, a modelagem, a costureira, a fabricação, o estilo, mas é com a publicação da fotografia de moda, uma espécie de êxtase artístico onde convergem todas as aspirações dos que trabalharam naquela roupa/obra, que a criação se configura. É na fotografia que a moda se consubstancia, se perpetua, onde ela é crônica de sua época, resistente ao tempo futuro que a substituirá rapidamente. Uma importante parte da produção das fotografias de moda feitas sob encomenda para revistas ou grifes no século passado e começo deste século XXI pertence hoje a grandes coleções de arte e museus do mundo. Todo esse processo é realizado dessa maneira se realmente o trabalho tiver transcen-dência e for bom; caso contrário, vai para a vala comum do esquecimento. Aliás, gosto de citar uma frase do grande fotógrafo inglês David Bailey, a qual está no prefácio do livro referente à exposição “Shots of Style”, organizada por ele

nos anos 80, na Inglaterra: 1 “Não há tantas fotografias ruins quanto as fotografias ruins de moda.” Por ser uma atividade para onde aflui grande parte dos que escolhem a fotografia como profissão, a moda gera um excesso de clichês sem precedentes em outras áreas. Basta folhearas revistas e catálogos publicados no mundo todo – pouca coisa se salva.

Assim que voltei ao Brasil, fui chamado pela Vogue, que era dirigida pela cortejada editora de moda Regina Guerreiro, para fazer retratos de personalidades vestindo roupas de coleções recém-lançadas. A divulgação de minha experiência americana havia funcionado, pois não apresentei nenhum portfolio para conseguir esse editorial. É interessante perceber como um trabalho ajuda você a se conectar para fazer o próximo e assim sucessivamente. Desde então trabalhei quase ininterruptamente. Não me lembro direito de tudo o que fiz nesse período, mas algumas dessas fotos eram muito ruins.

Logo depois comecei a trabalhar na extinta revista Moda Brasil, dirigida por Ivete Vieira Lopes. Esta era o oposto do estereótipo da típica editora de moda: gordinha, vestia-se sempre de preto e, digamos assim, não tinha grande formação comparada às suas contemporâneas, mas possuía um espírito raro, desses em que arrojo e destemor combinavam-se de uma forma única. Enfrentava a todos por suas ideias, e acredito que a época áurea da revista tenha se estendido por conta de sua teimosia. Uma figura sensacional. Ivete, infelizmente, abandonou a carreira por motivos que desconheço, mas arrisco dizer que ela não aguentou a caretice que se sucedeu ao seu “período revolucionário”. Ela formou uma geração de grandes produtores de moda, hoje chamados stylists. Devo à sua ousadia a possibilidade de assinar meus primeiros trabalhos de moda e minha rápida ascensão: dois ou três números depois do primeiro editorial de moda publicado, fiquei muito conhecido no métier. A revista era uma revolução para os padrões gráficos e estéticos. Era desenhada pelos multimídias Ricardo Van Steen e Ucho Carvalho, mas durou pouco, uns dois ou três anos. Foi realmente aí que comecei a fotografar moda.

Nessa época, quem dominava a cena era J.R. Duran. Logo fui alçado a seu eterno rival. Essa rivalidade, que de certa forma era alimentada por todos à nossa volta, inclusive pelas editoras de moda, que se beneficiavam muito com nossa competição, foi a propulsão do meu desenvolvimento. Somos opostos, mas cada um em seus vôos e viagens tentava, entre outras coisas, superar o outro. Poderia dizer que nossa “rivalidade” resiste até os dias de hoje. Foi uma fase de muita produção, muito trabalho e muita loucura – saía do estúdio de madrugada e virava noites.

Havia ainda a revista Claudia Moda, comandada pela eterna Costanza Pascolato, frequentadora de todas as listas de mulheres mais elegantes do Brasil. Do alto de seus atributos, Costanza comandava com leveza, graça e acuidade sua revista, sempre presente a todas as sessões fotográficas. Aquela mulher com ares da nobreza italiana se enfiava junto com a gente, muitas vezes, em lugares obscuros, como era naquele tempo a antiga estação ferroviária Júlio Prestes, onde realizamos um editorial de moda memorável. De olho nas concorrentes, seu viés era sempre original, e a Claudia Moda conseguiu momentos magníficos. Foi uma temporada maravilhosa, muito prolífica, em que me divertia muito. O detalhe curioso é que Duran e eu trabalhávamos para todas as concorrentes ao mesmo tempo e competíamos entre nós nas três mais importantes revistas de moda do país, coisa impensada nos países desenvolvidos, onde os fotógrafos têm contrato de exclusividade.