Cartas a um Jovem Fotógrafo
2. A Aventura Americana
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A AVENTURA AMERICANA
Mesmo assim, não estava satisfeito; sentia que havia queimado alguma etapa. Afinal, vinha querendo sobreviver e me destacar como fotógrafo, mas não me sentia instrumentalizado para fazer aquilo. Finalmente começava a me dar conta de que nunca havia estudado fotografia nem aproveitado as oportunidades que tive de aprender, talvez por ter começado jovem demais. O resultado disso é que me achava muito medíocre. Almejava fazer fotos que via publicadas por outros fotógrafos, e não conseguia fazer nada próximo daquilo.
Foi quando me dispus a ir atrás do conhecimento e da prática que me faltavam. Era 1980 e há alguns anos já havia largado a faculdade de Ciências Sociais. Comecei a me programar para sair do Brasil e tentar trabalhar com alguém que admirasse.
Escrevi uma carta ao fotógrafo americano Jay Maisel – eu o conhecia por meio da publicação francesa Photo, a qual colecionava. Maisel era muito bem-sucedido e trabalhava com fotos de viagem e reportagens ilustradas muito coloridas. Era um tipo de material que me impressionava na época. O tom da carta era elogioso ao seu trabalho e, se me recordo bem, pedia um estágio ou conselho. Uma pessoa de seu estúdio respondeu agradecendo o teor da carta e o contato e se pôs à disposição para me receber quando eu passasse por lá. Pronto, esse foi o meu pretexto, e algo que me moveu seriamente. Claro que a resposta tinha sido mera formalidade.
Foi um ano de preparação e um esforço enorme para poder viajar. Vendi tudo o que era possível, incluindo o carro e, pasme, até minha câmera fotográfica e todo o (pouco) equipamento que tinha. Ou seja, dentro de mim estava claro que iria, não para fotografar, mas para ser assistente e aprender com algum outro.
Naquela ocasião, havia um casal de primos meus que morava em Nova York. Éramos muito próximos, e eles foram bem generosos comigo. Realmente tenho uma enorme gratidão por terem me acolhido durante uns dois meses. Sem eles, não conseguiria ter ficado e não teria tido essa experiência seminal na minha vida; provavelmente nem seria convidado a escrever este livro. Logo me articulei para achar um apartamento. Eu, que achava meu inglês bom ao sair daqui, ao chegar lá percebi o quão péssimo era. Assim, acabei gastando boa parte da minha verba e do meu tempo estudando a língua. Sabia que sem me comunicar não conseguiria trabalhar, e me dediquei bastante. Estudava todos os dias, e obviamente estar in loco já era uma aula de inglês constante.
Lembro-me como se fosse hoje: cheguei em Manhattan em agosto de 1982. Um mês depois de minha chegada, fui ao estúdio de Jay Maisel. Ainda não me sentia confortável com o domínio do inglês e cometi a falta de ir sem ter telefonado. Foi um susto para eles, primeiro porque sequer lembravam de minha carta nem que a haviam respondido, depois porque não se vai a lugaralgum de negócios sem marcar previamente. Porém, meu destemor foi recompensado. Receberam-me, olharam meu portfolio e disseram o que eu não queria ouvir: que meu trabalho era suficiente, que não deveria trabalhar para ninguém – o oposto do sentido que dera à minha viagem de aprendizado. Despedi-me decepcionado, não sem antes receber um puxão de orelha por ter ido sem ligar.
Até o começo de 1983, eu praticamente só estudava e perambulava por toda a ilha. O fato de ainda não trabalhar havia consumido quase toda a minha verba, e o pouco que restava era para pagar o aluguel e a alimentação. Mesmo assim não pensava em trabalhar como garçom ou em qualquer outra atividade. Não queria fazer nada que não fosse ligado à fotografia.
Quando comecei a me sentir mais confortável com o idioma, tive a ideia de mandar cartas para cinco fotógrafos que admirava e admiro até hoje (Richard Avedon, Irving Penn, Bill King, Arthur Elgort e Barry Lategan) pedindo uma chance de trabalhar como assistente. No texto, eu me oferecia para fazer qualquer coisa, o que fosse necessário. A estratégia funcionou, e um deles pediu à sua secretária que me ligasse. Quando ouvi o recado, achei que fosse brincadeira de uns amigos brasileiros que viviam em Nova York e adoravam me pregar peças, e não retornei a ligação. Passado um dia, a mulher ligou de novo e, aí sim, percebi que o inglês dela era de fato nativo e muito melhor que o de qualquer um dos meus amigos ou amigas.
Foi um desses acasos da vida, aliado a uma certa abnegação. O tal era Bill King, grande fotógrafo de moda, que não sei por que cargas d’água se interessou pela minha história descrita naquela carta e pedia que eu fosse ao seu estúdio para conversar. De fato, ele estava precisando de um assistente e acabou me aceitando, mesmo com o meu inglês sofrível. Saí de lá em êxtase, primeiro porque intimamente não acreditava muito que fosse possível realizar a coisa toda – o sujeito era muito famoso, um dos mais importantes na época – e, em segundo lugar, porque todos duvidavam que eu conseguiria algo naquela cidade hostil que atraía gente do mundo todo com os mesmos objetivos que os meus. O sentimento de júbilo pelo meu feito e contra aqueles que duvidavam que conseguiria foi um bálsamo depois das inerentes dores da batalha. Assim como hoje recebo muitos e-mails de pessoas querendo trabalhar comigo, sei o quão difícil é conseguir uma oportunidade, pois lá afluem pessoas do mundo todo e aqui só as do Brasil. Atribuo esse feito um pouco à sorte, pois minha carta chegou no dia em que um de seus assistentes havia saído. O lugar certo na hora certa. Na verdade, uma conjunção de fatores me ajudou a pegar esse trabalho, como o teor da minha carta, que aludia ao fato de eu ter vendido minhas coisas no Brasil e deixava clara no texto a questão do compromisso e do empenho.
Bill King tinha cerca de 42 anos e era um grande fotógrafo de moda e retratos, dono de um estilo inconfundível; suas modelos pareciam sempre eletrizadas – muito vento, saltos, movimento eram a sua marca. Sentia-me, e de fato estava, numa espécie de Hollywood da fotografia. Grandes nomes do showbiz passavam pelas suas lentes, e havia trabalho todos os dias. O ano era 1983, e Nova York para mim era um sonho realizado. Mas, como tudo tem dois lados, o começo com Bill King foi sofrido. Para se ter uma ideia, nos cinco primeiros dias, apesar de a entrevista inicial ter sido muito acolhedora, ele não falou comigo. Tudo o que me mandaram fazer foi ficar só cortando slides velhos, destruindo material não-aproveitado. Eu, que imaginava que ali aprenderia muito, não questionei as ordens e apenas obedeci. Pensava comigo: “faço o que for preciso para ficar”; e fui ficando.
Com o passar do tempo, chegamos a estabelecer até uma relação. Mas ele era uma pessoa muito difícil de lidar. De repente, ele me dava poderes, tirando-os dos outros assistentes mais antigos, e assim criava um clima horrível entre as pessoas. Até o dia em que, durante uma foto para a capa da Vogue americana com a atriz do filme Blade Runner, Sean Young, um assistente mais graduado me empurrou. Humilhado, agi por impulso e simplesmente saí, larguei a sessão. Fui para casa e chorei por horas. Sabia da gravidade de ter abandonado um trabalho em meio a tanta gente presente; a cena foi algo escandaloso. Aborrecido com meu destempero, desapontado comigo mesmo, arrependido, queria ter podido voltar atrás, mas a coisa estava feita e teria de me haver com ela.
Surpreendentemente, no dia seguinte Bill ligou, chamando-me para conversar. Intimamente queria continuar, estava um pouco envergonhado e, apesar de saber que seria quase impossível meu desejo se realizar, havia em mim uma pontinha de esperança. Logo que cheguei, ele perguntou: “O que você quer?” “Quero ficar” – respondi, e expliquei que foi um acidente e que não havia gostado de alguém ter me empurrado. Então ele me disse que seu ritual era assim mesmo, que o resultado de seu trabalho estava muito ligado ao processo de enorme pressão que havia em seu estúdio, numa clara alusão de que fotos com aparência eletrizada são fruto de um ambiente nervoso e tenso – acho que ele realmente acreditava e militava nisso – e que era preciso aguentar se quisesse trabalhar ali. Reconheci meu erro, deixando bem claro que gostaria de continuar. Fui dispensado, pois não havia muita alternativa, mas, num gesto de generosidade, Bill se prontificou a me ajudar a ficar em Nova York. Ele era um bom sujeito, muito excêntrico, porém a experiência em seu estúdio foi fundamental para mim. Devo a ela a grande mudança na minha capacidade profissional e pessoal; daí em diante considerei que algumas desconfianças que tinha sobre meu próprio trabalho começaram a se dissipar.
Foram quatro meses trabalhando com Bill King, de janeiro a abril. Depois, ele até cumpriu o prometido, indicando-me para vários fotógrafos, mas eu já tinha decidido voltar para o Brasil. Quatro anos depois, Bill King veio a falecer – foi uma das vítimas da enorme onda de aids que se iniciava e arrastava, entre outros, uma multidão de talentos.