Cartas a um Jovem Fotógrafo
8. Deslocamentos e Questionamentos
DESLOCAMENTOS E QUESTIONAMENTOS
Minha vida como fotógrafo de moda me deu muitas oportunidades de conhecer lugares jamais sonhados por mim. Tenho viajado muito para fotografar, nem tanto quanto as modelos, mas o suficiente para me fazer levemente viciado na coisa. As viagens existem sempre como uma necessidade de alguma revista ou grife se afirmar perante seus concorrentes, além de apresentar a novidade específica que é estar em algum lugar em que outros não foram ainda, ao menos da mesma maneira. Diria que não é nada fácil fotografar nessas viagens, primeiro pelas óbvias questões logísticas e de custos; segundo porque claramente temos de achar saídas artísticas para situações muito comerciais e já vistas, pois é lícito alguém que esteja fazendo um grande esforço para nos pôr diante de ícones, monumentos e marcos da humanidade querer que estes apareçam nas fotos. Se estamos em Roma, temos de ver o papa; em Paris, a Torre Eiffel, e assim sucessivamente. Temos de tomar cuidado para não cair na armadilha de produzir mais um desgastado cartão-postal, fazendo quase que fotos turísticas com as modelos na frente.
Adoro viajar e aproveito muito essas viagens. As questões expostas antes ficam eclipsadas pela minha alegria de estar em algum lugar muito improvável. Saio às ruas sempre que posso e tento aproveitar ao máximo o pouco tempo que tenho. Em 2007, estive na China para um trabalho de moda cujo fim era fazer uma campanha de inverno para a C&A, exatamente nos moldes do que descrevi anteriormente. “Estamos na China, porra!”, gritava o diretor de marketing, meu amigo de muitos anos, Ralph Benny, insinuando que eu nem ousasse fazer algo que não explicitasse esse fato, ou seja, fazer fotos que não mostrassem onde estávamos. Nem precisaria dessa admoestação para me convencer: me sinto responsável, nessas situações, por incluir esses cenários para nós exóticos. Não vejo sentido em fazer uma viagem onde minha vontade artística (se eu realmente quiser algo diferente do que vou fazer) possa se sobrepor ao lugar, ainda porque, na maioria das vezes, esses lugares são muito inspiradores. Tenho fotos memoráveis de algumas dessas viagens, tanto as dos trabalhos em si como as feitas para mim mesmo.
Uma noite, enquanto perambulava pelas ruas de Pequim, sentia-me muito grato à minha profissão por ter me dado essa oportunidade de estar lá. E pensava na distância de meu nascimento no longínquo Brasil, num gueto judaico nos anos 50, até aquele momento, naquele lugar, onde o mundo, sob os auspícios de uma nova ordem, se rearranjava em um país tão misterioso e desconhecido, sobre o qual eu pouco ou nada sabia, eque passou tantos anos fechado. Agora, com as portas semiabertas, pude entrar, era um privilégio poder viver isso.
Recentemente estive em um debate junto com o fotógrafo J.R. Duran, quando ele afirmou que, mesmo em viagens para fotografar moda, não fotografa pensando em retratar os lugares; o faz sempre pensando na modelo, na roupa e em seus desejos pessoais. Porém, penso que isso é muito mais uma idealização e um anseio seu do que a realidade dos trabalhos que vemos publicados. Todas as fotos de moda feitas em viagens contêm essa característica de representação clara do lugar no qual estão sendo produzidas e, em última análise, apelam para o exótico e o pitoresco. Esses aspectos fazem parte de uma fotogenia oficial das fotos de viagens, e também há um consenso entre editores, clientes, stylists, fotógrafos e o público sobre essa fórmula. Respeitando essa lógica, obviamente, fotógrafos diferentes fotografam o mesmo lugar de maneiras muito distintas. Eos editoriais de moda feitos em viagens são uma característica universal. Muitos trabalhos feitos por estrangeiros aqui no Brasil e publicados em revistas internacionais ressaltam nossos estereótipos. “Macumba pra turista”, como inventou o escritor Oswald de Andrade.
Mas essa vida tão glamorosa tem seus percalços, e estou sempre numa espécie de corda bamba, ora em sintonia perfeita com as encomendas, ora me submetendo a algo totalmente fora de meus propósitos – digamos assim, pretensiosos – em nome de algum interesse comercial que me permita manter a estrutura de meu estúdio, minha vida e família. Você deve pensar que, se até eu reclamo de certas injunções que a profissão tem, o que dirá um iniciante tendo de cavar um lugar, um espaço para publicar algo, poder viver de seu trabalho com um mínimo de integridade artística e existencial? Sem ser nostálgico, acredito que, quando começei nos anos 70 – e sempre vai ter alguém para dizer isso –, no meu tempo era mais fácil, aquele sim era um tempo romântico de verdadeiras dificuldades. Provavelmente alguma situação em andamento hoje será reportada daqui a 30 anos como verdadeiramente romântica: “naqueles bons tempos”. O mais importante era poder publicar algo, não importava muito a qualidade da coisa, estar em algum lugar impresso já significava uma ascensão, um profissionalismo. A concorrência era muito menor, porém havia muito menos publicações, ou seja, comparando com hoje são situações equivalentes. E, de fato, para cada sujeito de alguma forma bem-sucedido em qualquer profissão, há centenas que desistem no meio do caminho ou se frustram com o que encontram ao longo do percurso.
Além de todas as dificuldades inerentes à atividade, o fotógrafo tem seu trabalho publicado sujeito ao julgamento de outros colegas e principalmente do público. E isso é um fator que gera muita angústia, pois sei que a maioria dos fotógrafos escolheu sua profissão por paixão, mas obviamente não se mata um leão por dia, e tenho certeza de que todos têm alguma reclamação a fazer sobre trabalhos seus que foram pessimamente impressos ou prejudicados pela direção de arte – ou “a revista é ruim”, “não sabia que seria assim”, “choveu no dia e tivemos de improvisar” ou “eu mesmo deveria ter feito de outro jeito”, e mais uma infinidade de justificativas e protestos que dariam para escrever outro livro. Mas, se há algum conselho que eu possa dar aos leitores, aqui vai um que em algum futuro poderá ajudar a minorar as dores de tantas queixas: procure controlar ao máximo todos os desejos dos outros sobre seu trabalho. Olhe a revista que chamou você, veja se ela é bem-cuidada, quem são os colaboradores mais frequentes, se as condições de trabalho serão boas, se querem realmente seu trabalho ou apenas preencher as páginas que faltam para completar a edição. É óbvio que esse controle não acontece desde o início de uma atividade profissional, mas acho necessário ter isso em mente como um norte importante a ser mantido ao longo da carreira. Porém, tudo vai acontecendo com o tempo; quanto mais autoridade se tem sobre o próprio trabalho, maiora possibilidade de fazer frente às exigências e imposições advindas do mercado, e isso realmente não tem regra: o fotógrafo tem de sentir a temperatura das situações onde ele pode empurrar mais as fronteiras do que foi estabelecido como sendo seu estilo.
Eu mesmo, depois de ter feito uma série de retratos que resultaram na minha exposição e livro, Jardim da luz, nos anos 90, fiquei conhecido por ser um bom retratista. Por isso, era chamado, na maior parte das vezes, para fazer retratos. Aproveitei muito esse tempo fazendo novos retratos e muitas capas de discos, cartazes de teatro, perfis de grandes nomes da cena cultural brasileira e, já nos anos 2000, um novo livro-exposição, encomendado por Paulo Borges, no âmbito do seu São Paulo Fashion Week. O trabalho moda no brasil por brasileiros homenageava todos que fizeram e faziam moda no Brasil e incentivava ainda mais a eterna polêmica sobre a originalidade e autenticidade da nossa moda. Paulo é o grande artífice da afirmação da moda brasileira. Além de fazer do SPFW um evento importante na cena de moda internacional, foi imprescindível na construção e no fortalecimento da indústria têxtil e afins dos anos 90 para cá. Sua cabeça é uma incansável usina de ideias. A cada estação promove novas fusões na esfera arte-moda-comércio e incorpora artistas multimí-dias ao seu espaço expositivo, tornando-os ainda mais visíveis. Essa atitude ajudou a dar credibilidade e inscrevera moda em definitivo como notícia nas primeiras páginas e nos cadernos de cultura dos jornais mais importantes dos grandes centros, tirando-a definitivamente dos suplementos femininos e frívolos que ocupara até então.
Contudo, só isso não cabia nos meus desejos e na diversidade de meus interesses, que mais tarde culminaram nas minhas exposições posteriores: “Antifachada-Encadernação dourada” e “A caminho do mar”. Paulatinamente, fui mudando a minha posição de retratista de tempo integral para eventual.
Dois grandes fatores de insegurança e angústia, além da questão de ser conhecido por ser bom em algo que não se quer mais tanto, e ser requisitado somente para tal, são as reprovações e as rejeições. Acredito que saber lidar com esse fato, desde a esfera das emoções afetivas até a profissional, sempre foi e será complicado, e são incontáveis as situações em que me vi às voltas com trabalhos sendo reprovados, às vezes por razões que considero justas e outras injustas. E, muitas vezes, eu mesmo acho que falhei. Sempre gostei de ler, ver e saber de outros fotógrafos, como é o dia-a-dia deles, como se veem diante de situações mais corriqueiras e similares às que enfrento. Helmut Newton dizia que, quando acabava a sessão, já no avião, voltando para casa, pensava que poderia ter feito diferente do que fez, poderia ter iluminado de outra maneira, ter posto a câmera num outro plano, ter pedido à modelo uma atuação diferente daquela que realizou. Eu me identifico muito com isso até hoje – grande parte das vezes saio da sessão com a sensação de que conseguiria fazer mais e melhor. Outro caso interessante li em uma entrevista do fotógrafo inglês Tony Armstrong-Jones, conhecido como Lorde Snowdon. Ele pertencia à família real inglesa, foi casado com a princesa Margaret, irmã da rainha Elizabeth. Snowdon, entre outros temas, fotografava moda e dizia que ficava tão inseguro diante das pressões do trabalho e situações com as modelos que torcia para que elas não aparecessem, não viessem para a sessão; assim, não haveria o trabalho e, portanto, acabariam todos os medos. Algumas vezes me senti assim.
Lembro-me de um trabalho, nos anos 90, que fui fazerem Miami coma modelo americana Christy Turlington. Ela inaugurou, junto com Naomi Campbell, Linda Evangelista e Cindy Crawford, a era das chamadas supermodels. Eram mais célebres do que muitas atrizes de Hollywood, apareciam em todas as campanhas e revistas de moda do mundo, ora uma, ora as outras, ora as quatro juntas. Fui contratado pela grife paulista VivaVida para fazer um catálogo e uma campanha com ela, e todos os arranjos iniciais foram feitos. Christy exigiu meu portfolio, um direito ao qual ela se arvorava e tinha na condição de supermodel, para ver se me aprovava. O que já tornava a situação um pouco embaraçosa, pois em geral é o fotógrafo quem escolhe a modelo; no entanto, era um ilustre desconhecido para ela. Naquela época, um pouco menos hoje, os trabalhos feitos no Brasil não tinham nenhum alcance internacional. Semanas depois estava em Miami, obviamente com o portfolio aprovado, diante de uma equipe internacional. O cabeleireiro e o maquiador vieram juntos com ela no mesmo pacote; eu, com meu inglês sofrível àquela época, estava morrendo de medo do circo armado e tinha que aparentar ser dono da situação para que pudesse transmitir segurança a ela. Foi difícil, desde o momento da chegada até o dia seguinte – que seria o da foto –, e eu torcia, assim como Snowdon, para que ela não aparecesse e se dissipassem todas as inquietações. Mas, como na maioria das vezes em que estamos com muito medo diante de situações novas, o bicho não foi tão feroz quanto parecia. Christy foi muito disponível e afável, e da metade do dia em diante me senti mais tranquilo e com mais controle sobre todo o trabalho. No frigir dos ovos, prefiro os trabalhos com essa carga de adrenalina, que me põe desafiado, com medo, àqueles em que já conheço muito a situação e faço mais no automático.
De certa forma, há uma grande diferença entre a publicidade de moda e a publicidade em geral. Uma característica da situação brasileira: os fotógrafos aqui fazem de moda a fotos para publicidade de bancos, supermercados, empresas de telefonia e automóveis. Como diz meu ex-assistente, o fotógrafo Tiago Molinos, hoje radicado em Nova York, “no Brasil vocês fotografam de urubu a cobra d’água”. E, de fato, ao contrário dos grandes centros, onde os fotógrafos de moda quando muito são também retratistas e se restringem mesmo ao seu âmbito, aqui, por uma característica local, desde o princípio minha geração se inseriu dessa forma mais generalista no trabalho comercial. Agora, com o crescimento do mercado e maior segmentação dos trabalhos, há uma geração de grandes fotógrafos de moda brasileiros como Gui Paganini, Jacques Dequeker, Henrique Gendre e também meu ex-assistente André Passos, que raramente são vistos publicados em outros setores que não os de moda e afins.