Cartas a um Jovem Fotógrafo

Bob Wolfenson · Capítulo 3 de 25

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Cartas a um Jovem Fotógrafo

1. A Iniciação

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A INICIAÇÃO

No imaginário coletivo, a figura do fotógrafo de moda vem envolta numa aura de glamour que nem sempre condiz com a realidade. Por outro lado, dizer que não há glamour nenhum e que a vida é só integridade, concentração, foco e trabalho seria tirar o verniz e o charme dessa atividade tão atraente. Escrevo Cartas a um jovem fotógrafo para contar um pouco dessa profissão, do ambiente que a cerca e das armadilhas, do ego e do mercado, que podem surgir na vida de qualquer um que decida usar a câmera como ofício e forma de expressão.

A tradição de minha família era a militância política dos judeus progressistas de esquerda, e meus pais, bastante politizados, conheceram-se em São Paulo, onde se casaram e tiveram dois filhos, minha irmã Silvia e eu; mais tarde chegou o Jair de Oliveira, que tinha seis anos, filho de uma moça, minha segunda mãe, Maria de Lourdes, que trabalhou com a minha família por mais de trinta anos. Ele foi criado junto conosco e se tornou membro da família – meu irmão. Meu pai conservou as raízes nordestinas e o forte sotaque, e cresci nesse caldeirão sincrético de Nordeste, judaísmo e militância política. Vivi toda a minha infância e juventude no Bom Retiro, próximo ao centro da capital de São Paulo, um bairro que, a partir de 1920, foi inteiramente tomado pelos judeus que aqui chegavam fugidos das perseguições e da vida dura na Europa do período entre guerras.

Escolas, lojas, restaurantes, sinagogas, mercearias e açougues koshen; o iídiche era língua corrente em suas ruas, e nomes característicos como Jacob, Sara, Ester, Isaac etc., os mais ouvidos. Nos anos 50, quando nasci, todo o entorno era judaico. Essa era nossa Terra Prometida e, aos meus olhos de menino, o Bom Retiro era o mundo todo. Esse mundo era um quadrilátero de não mais que dez ruas, que ia da Rua Bandeirantes ao Jardim da Luz e da Rua Afonso Pena até a Rua Silva Pinto com a Rua da Graça.

Tudo o que fazia e queria estava ali: a papelaria Mildina, a livraria Weltman, a mercearia do seu José, que não era judeu mas dera o nome de Menorah ao seu negócio e vendia Strudels, beigales e comida kosher. Havia ainda um campinho de pelada à frente da adjacente Escola Politécnica da USP, na época situada no Bom Retiro, onde meus amigos e eu jogávamos futebol e, vez por outra, fazíamos um jogo judeus versus católicos, com cartazes, torcida e tudo o mais. Na nossa inocência infantil não tínhamos a menor ideia da conotação discriminatória e bélica que poderia haver numa partida como essa. No âmbito do jogo propriamente dito, nossa salvação era sempre o Jorjão, um negro alto muito bom de bola que escalávamos para o nosso time e que nos garantia algumas vitórias. Era tamanha nossa integração que ele arranhava algumas palavras em iídiche, o que soava cômico para os mais velhos – um negro falando iídiche.

Mas nem tudo eram flores. Minha família era ligada a um setor progressista-laico da comunidade, que aos poucos foi se estabelecendo no bairro e codirigindo o Icib (Instituto Cultural Israelita Brasileiro) e a escola Scholem Aleichem, sua afiliada. Ambos ocupavam um prédio na Rua Três Rios e eram redutos importantes do pensamento de esquerda. Pode parecer estranho, mas nos sentíamos amalgamados à cultura brasileira e – seguindo uma vocação secular dos judeus progressistas – queríamos nos integrar ao lugar que escolhêramos. Ser brasileiro era um sentimento genuíno.

O Icib, também conhecido como Casa do Povo, numa clara alusão ao jargão socialista de seus congêneres soviéticos, era muito atuante em São Paulo, extrapolava os limites do bairro e foi um foco importante de resistência à ditadura no final dos anos 60 e princípio dos 70. Mas obviamente dentro daquela conjuntura, aliada ao começo da decadência do bairro, o Icib minguou e a escola fechou. E, com o tempo, o prédio da Rua Três Rios só não virou escombros graças ao esforço de alguns antigos fundadores voluntários, que ainda vivem na região.

Recentemente voltei lá com um primo e, nas poucas horas que ali ficamos, vi coreanos passando ao lado de judeus ortodoxos e bolivianos, que vêm se instalando por ali há mais de uma década e também introduzindo seus hábitos e sua cultura. O inesperado progresso coreano é visível e acabou por revigorar o bairro. É prazeroso estar em um lugar com tanta vida nas ruas, ao contrário de outras regiões da cidade em que hoje circulo mais e onde a vida acontece dentro de casas superprotegidas, e por isso menos alegres.

A atmosfera de minha infância vivida no Bom Retiro colou-se de tal forma ao meu sotaque, à minha personalidade, que gosto de lançar mão de uma piada politicamente incorreta que se refere ao sujeito suburbano que ascende socialmente: “Fulano deixou o subúrbio mas o subúrbio não o deixou.” Comigo é assim: deixei o Bom Retiro mas o Bom Retiro não me deixou.

Mas, voltando à minha infância, minha casa era palco de reuniões e desde moleque fui me acostumando a ouvir falar de luta clandestina, jornais proibidos, censura etc. Fui me formando dentro dessa realidade e, de fato, interessando-me por isso. Meus pais me incentivavam a ter a melhor formação possível. Além da escola formal, matriculavam-me em alguns cursos extracurriculares. A escola, o Colégio de Aplicação, por si só já era um centro de formação humanista importante que pertencia à Faculdade de Filosofia da USP, tendo ficado muito conhecido pelos quadros que formou e também por ser palco das lutas pelas liberdades democráticas. Aos sábados frequentava aulas de iniciação artística na FAAP com o Naum Alves de Souza, importante autor, diretor, cenógrafo e figurinista de teatro, televisão, cinema e ópera, quando eu tinha dez anos. Durante a semana, tomava aulas de violão e francês.

Foi nesse ambiente que cresci. Como se vê, fui conduzido para uma formação generalista, voltada para um caráter humanista. Não tinha nenhuma vocação para fazer nada que não pertencesse a esse universo, e, entre as muitas coisas que me interessavam e me desinteressavam em seguida, como todo garoto adolescente, estava a fotografia. Meu pai me deu uma câmera quando eu tinha 12 anos, e lembro até hoje de que a compramos numa papelaria do bairro. Eu tinha um amigo muito talentoso que acabara de se iniciar em fotografia e ficava fascinado quando o acompanhava ao laboratório fotográfico preto-e-branco. A vida seguiu seu curso, ele não se tornou fotógrafo profissional e somos amigos até hoje. Mas, de alguma forma, ainda que não fosse ali que tivesse percebido que seria fotógrafo, aquela experiência se instalou dentro de mim.

Quando comecei, alguns fotógrafos que fizeram história povoavam o meu imaginário, eram ícones, ídolos. E, obviamente, queria ser um deles, mas não sabia exatamente qual. Na verdade, quando comecei a trabalhar com fotografia no Estúdio Abril, era tão jovem que nem sabia direito o que queria ser, ao contrário daqueles garotos que já aos 10 anos têm certeza de que serão médicos, artistas, jogadores de futebol etc. Em mim, a ligação com a fotografia foi surgindo aos poucos, meio aos trancos e barrancos. Além disso, quando eu era criança, fotógrafo na minha preconceituosa classe social (média) era alguém considerado menor, geralmente associado àquele que fazia só casamento ou àquele homem na lojinha que fazia as fotos para documentos. Não era uma profissão muito admirada. Tudo mudou quando veio o filme Blow-Up (no Brasil, Blow-up – Depois daquele beijo), uma produção anglo-italiana, lançada na Europa em 1966, realizada pelo diretor italiano Michelangelo Antonioni. Contava a história de um fotógrafo que se envolveu involuntariamente na descoberta de um caso de assassinato. Ao ampliar algumas fotos tiradas ao acaso em um parque londrino, revelou-se, no segundo plano da imagem, a cena de um possível crime. O filme era enigmático, cheio de signos e metáforas ininteligíveis a nós adolescentes, porém acabou conferindo glamour à profissão, pois o protagonista, um fotógrafo, vivia às voltas com modelos maravilhosas, sobre as quais se debruçava durante a sessão, e as tratava com um desprezo charmoso, deliberadamente sexy. Dono de um conversível inglês, ele jogava a câmera no porta-luvas e saía perambulando pelas ruas da Londres rebelde dos anos 60. Pronto, estava construído o mito do fotógrafo conquistador de mulheres e socialmente aceito nas altas rodas. O filme foi responsável pela mudança de opinião da (digamos assim) sociedade sobre a profissão, que se tornou charmosa e atrativa até fora de seu círculo mais profissional.

Refletindo sobre como as coisas se deram, acho que a fotografia não veio a mim como uma convicção, uma vocação, mas sim totalmente ao acaso. Contudo, se não tivesse alguma vocação, não estaria escrevendo este livro. No entanto, esse talento foi descoberto aos poucos, acredito que nem sempre somos assaltados por dons óbvios. O que eu me tornaria, qual seria o meu ofício, surgiu mais como uma contingência da vida do que como uma necessidade de expressão interna. Maisadiante explico o porquê.

Ainda naquele primeiro instante, quando tive o primeiro contato com a fotografia, uma câmera dada por meu paiuma obscura máquina alemã, chamada Beirette – serviu-me como um brinquedo, um instrumento para experimentações infantis. Foi com ela que comecei a fotografar da janela de minha casa. Morávamos no primeiro andar de um prédio, e daquele ângulo conseguia registrar os aspectos curiosos, a vida passando, imagens banais, retratos prosaicos de um menino que não tinha maiores pretensões, afora a de se distrair. É interessante ver essas fotos atualmente, pois elas comprovam as inúmeras incursões que fiz na fotografia, nesses trinta e poucos anos, desde que ganhei a Beirette do meu pai. Acho que todos os trabalhos pessoais que realizei, ao longo da carreira, partiram daquela vivência. Brinquei bastante com essa câmera até que enjoei – começava a ter inúmeros interesses paralelos; ser adolescente me dava tempo para não ter de decidir o que fazer ou ser.

Mas essa minha realidade mudou cedo. Meu pai faleceu prematuramente, quando eu tinha 15 anos e cursava o segundo colegial. Ele tinha uma malharia e sempre quis que eu fosse trabalhar lá, mas nunca tive interesse. Quando morreu, sua empresa estava quase falida, e esta resistiu mais uns poucos anos sem sua presença. Decidi, então, ir trabalhar. Foi uma decisão mais de ordem emocional, pois o que conseguiria ganhar àquela altura e aos 15 anos não daria nem para pagaro transporte, conforme se confirmou mais adiante. O emprego, no primeiro momento, foi mais para me sentir ocupado, útil e, principalmente, superar a dor de uma perda tão intensa e marcante, que mudou totalmente minha vida.

Nessa época, minha irmã Silvia estava casada com o jornalista Talvani Guedes, que trabalhava na Veja, da Editora Abril. Sabendo que eu também gostava de fotografia, através de seus contatos conseguiu um estágio no Estúdio Abril (que pertencia à editora), àquela época sob o comando do fotógrafo Chico Albuquerque. Tinha acabado de completar 16 anos quando, em setembro de 1970, comecei a trabalhar ali como uma espécie de office boy, aprendiz, enfim, não tinha muita função, era muito novo ainda, e achei chato trabalhar. Meus amigos todos tiravam férias e eu não. Assim, fui compreendendo o mundo real, fora dos limites da boa vida que até então levara. Embora não me interessasse muito pelo trabalho, vivia aquele novo ambiente, observava as pessoas trabalhando, ia aprendendo enquanto fazia, à noite, o curso colegial.

Trabalhei no Estúdio Abril dos 16 aos 20 anos. Depois de um período atuando como uma espécie de ajudantegeral, fui promovido a fotógrafo “C”, depois a fotógrafo “B” e saí de lá, digamos assim, com uma profissão. Uma das primeiras fotos importantes que fiz foi um retrato do Zé Celso Martinez Correa, para a Veja. Quando digo que a fotografia não foi para mim uma paixão, esim algo que foi acontecendo devagarinho, convivendo com meus interesses por outras áreas, é porque, mesmo com tantos afazeres fotográficos, ainda não me sentia vocacionado para ela.

Por essa época, seguindo a tradição familiar, ingressei na faculdade, para fazer Ciências Sociais na USP. Porém, em 1974, aos 20 anos, já era um profissional da fotografia e podia dizer que tinha uma carreira. Muito cedo. Acho que paguei um preço alto por isso, porque dos 20 até os 28 anos “patinei”. Fiz poucas coisas que considero relevantes, que me deram orgulho, e me achava um pouco medíocre – talvez fosse mesmo. Fiz algumas tentativas de unir a formação politizada que tive à minha experiência profissional; comprava livros de antropologia visual, queria ser um fotógrafo engajado na acepção total do termo. Mais tarde entendi que engajamento não significa o tipo de fotografia literal que buscava na tentativa de corresponder àquela expectativa de minha formação, a serviço de uma causa. Com isso, reconheci: se continuasse obrigando a minha fotografia a essa conotação de denúncia social, seria mais um embuste, desses que usam a dor alheia como paliativo de seus limites e mediocridade. E não tinha inclinação para isso. Nessa fase, apenas me deixei ir ao sabor dos acontecimentos, lógico que tentando não naufragar em meio às dúvidas.

Ao sair da Abril, dividi um pequeno estúdio com dois fotógrafos amigos, Dudu Tresca e Leonardo Costa, também saídos de lá, dentro da casa em que um deles morava, na Rua Capitão Prudente, uma travessa tranquila do bairro de Pinheiros, em São Paulo. Tentando nos preparar para possíveis trabalhos, instalamos um fundo infinito na sala, mas o máximo que surgia eram pequenas encomendas, nada que exigisse, de fato, um estúdio. Éramos muito iniciantes e pouco conhecidos.

No final de 1979, montei outro estúdio pequeno em uma casinha atrás do Cemitério da Consolação, com o mesmo Leonardo e o fotógrafo Hugo Lenzi, meu amigo de faculdade. É até curioso lembrar que o estúdio era muito pequeno: tinha o tamanho da sala que ocupo hoje como meu escritório.

Por sermos próximos de alguma forma, Caetano Veloso, naquela época, convidou-me para ir ao Rio de Janeiro fazer umas fotos suas para a capa do seu disco Outras Palavras. Ele não conhecia nada do meu trabalho; aliás, ainda havia muito pouco a mostrar. No entanto, como éramos amigos, prevaleceu o vínculo. Caetano, à época, era uma espécie de deus de toda uma geração, à qual eu também pertencia, e foi realmente emocionante e importante o convite. Acho que esse foi o ápice da minha trajetória até então, e uma bela injeção na minha carreira ainda muito incipiente.

As fotos ficaram muito bonitas, apesar de terem sido realizadas num esquema bastante precário, ou talvez por isso mesmo. A capa, impressa numa cor de cobre meio reluzente, ficou linda. Fui sozinho, com uma câmera Nikon FM 35 mm e fiz o trabalho em duas horas na casa do cantor, numa parede ocre que havia logo no corredor da entrada, na parte externa. Ele vestia uma camiseta rosa e uns colares de contas azuis, e encarou com olhar firme a câmera. Caetano ficou muito bonito, foi tudo feito com a luz do dia; mandei revelar lá mesmo no Rio e fiquei esperando a revelação no laboratório do Aderi, que eu não conhecia, mas havia sido uma indicação da Dedé Veloso, mulher do compositor naquele tempo. Totalmente diferente da realidade em que vivo hoje, sempre com uma equipe de assistentes à minha volta, figurinistas, cabeleireiros, maquiadores, produtores, muito equipamento, testando muitas opções para obter apenas uma. Não digo isso como reclamação, mas como constatação de mudanças ou evoluções inerentes a uma longa carreira. Porém, é claro que esse lado romântico de fazer as coisas sem tantos aparatos e pessoas colaborando é muito sedutor.