Cartas a um Jovem Fotógrafo
14. Uma Carreira Longeva
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UMA CARREIRA LONGEVA
Estou com 54 anos, sou considerado um veterano. Hoje em dia, concorro com jovens vinte anos mais novos que eu. O campo de trabalho, além de ter se expandido bastante, sofisticou-se muito, e a competição ficou mais acirrada. Comparada à época em que eu era jovem, quando havia muito menos trabalho, porém muito menos fotógrafos, a situação é semelhante; ainda comparada aos grandes centros, a proporção continua a mesma. Em Nova York, o mercado é trinta vezes maior do que em São Paulo, mas lá existem trinta vezes mais fotógrafos.
Gosto de exemplos de fotógrafos que fizeram sucesso já maduros, como Helmut Newton, que depois de um infarto disse a si mesmo que nunca mais faria o que não quisesse e daí em diante tornou-se o grande Newton, quando já tinha mais de 40 anos. Sua primeira de dezenas de exposições ocorreu quando completava 55 anos. Newton, com a idade, apurou seu estilo iconoclasta, fazia o que queria e inventou um à maneira de. Dizia, como cito anteriormente, que as palavras que um fotógrafo deveria evitar associar a seu trabalho seriam arte e bom gosto. Era um baita provocador, e com Avedon e Penn formou a santíssima trindade da fotografia de moda e de estilo na segunda metade do século passado e comecinho deste. Essa história é das que mais cito, pois ela é muito alentadora nos momentos em que sucumbo às necessidades da realidade. Gosto também de acreditar que a carreira de um fotógrafo é longeva. Newton viveu até os 82 anos trabalhando, Avedon, até os 83 anos e morreu em plena atividade, Penn continua publicando com 91 anos, Cartier-Bresson, morreu aos 93, mas já não fotografava havia muito tempo – tinha trocado a fotografia pela pintura.
Em um recente almoço com meu “rival” J.R. Duran, chegamos à conclusão de que estamos na melhor fase de nossas carreiras – não me lembro se bebíamos ao proferir tal desatino. O fato é que é dessa forma que penso, e suponho que ele também, cada um a respeito de si mesmo. Olhando em retrospectiva, nunca imaginei que fosse ser o fotógrafo que sou agora. Meu sonho de juventude em algum aspecto se confirmou, principalmente quanto à minha inserção no panorama brasileiro. Porém, em outros, não. Segui caminhos que nem teria condições de prever, pois eles foram se apresentando ao longo da minha vida, a partir de escolhas muito distintas das que sonhara. Como exemplo: as duas últimas exposições, “A caminho do mar” e “Antifachada-encadernação dourada”. Escrever um livro então, nem pensar, não me consideraria apto para fazê-lo.
Minha tendência a fazer muitas coisas, creio, me distinguiu um pouco da atividade pura e simples de fotógrafo. Os termos profissão e carreira não pude evitar ao longo destas escrituras; no entanto, como disse muitas vezes neste livro, eles não dão conta do todo de minha vida. Fui incursionando em outras áreas sem muito me aperceber, sem muitas estratégias. Fui porque me chamaram ou por alternativa a um certo enfado sentido quando se faz uma coisa por muito tempo. No princípio dos anos 2000, resolvi que poderia fazer uma revista, editá-la, sonho que acalentara desde os anos 90. Só que antes imaginava uma revista de fotografia e, em 2000, uma publicação mais plural, que pudesse dar aos criadores de imagens nacionais oportunidades de aparecerem de uma forma mais integral. A meu ver, éramos e somos subaproveitados nas revistas mainstreams. Em função de articulações para que tal se realizasse, me associei aos publicitários Hélio Rosas, Roberto Cipolla e ao produtor Chico Lowndes, e criamos a revista 55, que durou apenas dois números. Apesar de luminares do texto, como Antônio Cícero, Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, Waly Salomão, terem sido publicados nela, ciceroneados pelo nosso editor permanentemente convidado, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, seu conteúdo era eminentemente de imagem. Foi um show de arte gráfica, impressão e excelência visual. As duas edições da 55, cujos temas foram “tempestade” e “sorte”, saíram para as bancas, a primeira com uma capa de plástico com sulcos em relevo que imitavam chuva e a segunda imitando uma pele de gato preto, em claras alusões aos respectivos temas. Era realmente muito caro fazê-la. Um projeto arrojado e, como tudo com essa característica, morreu cedo. Millôr Fernandes fez um comentário elogioso em seu blog ou site, falando de nossa ousadia e vaticinou: “até que a primeira briga os separe”. Dito e feito. Chico saiu, houve dissensões, mas continuamos, mudamos o nome e a cara da coisa e mantivemos o espírito de uma publicação com forte conteúdo de imagem. Nasceu a S/Nº, menos ambiciosa que sua antecessora, mais barata, mais realista, sem tantas alegorias gráficas, mais exequível e próxima do que seria de fato uma revista, porém ainda muito acima em termos visuais e de apuro gráfico do que qualquer outra publicação que vinha sendo feita no país. Seis números depois, o grupo remanescente se desfez e segui nela, me associando então ao jornalista Hélio Hara, que já a editava e havia trazido um renovado vigor com sua rede de novos colaboradores e seu texto preciso e eloquente. Até hoje nós a publicamos com relativo sucesso – são dois volumes porano. Considero esse período, com o Hara como sócio, o mais brilhante de nossa existência editorial, e tudo isso sem abrir mão de nossa independência.
Na primeira reunião de pauta da S/Nº, ainda não sabíamos qual seria sua estrutura. Vagávamos por várias ideias e formatos quando nos caiu na mão uma publicação simples do Centro Cultural de São Paulo. O jornalzinho trazia uma entrevista ou artigo, não me recordo bem, com o fotógrafo Otto Stupakoff, há muito desaparecido das páginas de revistas nacionais e mundiais. Otto havia sido o primeiro fotógrafo brasileiro de moda que fez carreira internacional. Ao ler o artigo, me encantei com a possibilidade de encontrá-lo e tentar publicar algo de sua outrora trepidante história. Quando comecei a fotografar, Otto era meu ídolo, a representação máxima do que eu queria ser. Paulista, tinha migrado para os Estados Unidos ainda nos anos 60, depois de breve carreira aqui, onde fizera muito sucesso. Trabalhou nas grandes revistas internacionais de moda e se tornou um nome importante na cena internacional.
Resumindo, fomos atrás dele para a estréia da S/Nº – talvez fosse uma história boa. Nós o encontramos numa cidadezinha a duas horas e meia de Nova York, perto de Woodstock. O lugar chamava-se Hurley. Hara e eu viajamos aos Estados Unidos com o encontro previamente arranjado através de telefonemas. Otto nos recebeu na pequena rodoviária onde o ônibus que nos trouxe ao lugarejo aportara havia uns 15 minutos. Chegou num carro grande velho, nos abraçou e fomos diretamente a um coffeeshop. Ele fumava muito, e o dia era particularmente frio e triste. Nunca o havia visto pessoalmente. Daquele homem charmoso que eu acompanhara através de matérias publicadas a seu respeito na imprensa ao longo dos anos restavam os traços marcados, a cabeleira vasta e agora branca, porém ainda era bonito e carismático. Em poucos minutos, fez um resumo de sua vida e nos contou de seu trágico momento: sua mais recente mulher havia falecido tinha pouco tempo e perdera, no tratamento dela, todo o dinheiro que poupara para a velhice. Estava descapitalizado. Mudara-se então para aquele remoto ponto porque, segundo ele, era um lugaronde poderia viver do social security (previdência do Estado americano). Conseguiu comprar uma casa totalmente destruída e naquela ocasião morava num quartinho apertado no porão, enquanto com ajuda de um carpinteiro reformava os escombros da parte superior. Era inacreditável: aquele era Otto, mito de uma geração que havia subido aos píncaros da glória, com direito a acesso à Casa Branca ao realizar um trabalho com o então presidente Richard Nixon e sua filha, ao palácio de Mônaco ao retratar Grace Kelly e sua filhinha, a princesa Stéphanie, e mais muitos outros. Figurava numa publicação da Vogue em 1980, um livro-compilação com quem havia de melhor na moda nas últimas décadas, como um dos 10 fotógrafos mais importante dos anos 70. Aventurou-se pelos quatro cantos, falava fluentemente francês e inglês, publicou nas mais importantes revistas de moda do mundo. Estava ali agora num cubículo, sem dinheiro e deprimido. Poxa, tínhamos uma coisa fantástica com todos os ingredientes de uma grande matéria. Supúnhamos um pouco essa história a partir de relatos de parentes seus que viviam no Brasil, mas a contundência do encontro nos pôs muito comovidos. Pensamos em fazer algo por ele, ajudá-lo, ou melhor, recolocá-lo no lugar merecido. Falamos de documentário, exposição, livro, conseguir trabalho, enfim, qualquer coisa que pudesse fazer justiça à sua importância e talento. Voltamos ao Brasil depois de uma despedida emocionada regada a um último trago no pub de amigos seus na pequena cidade. Com um forte abraço fomos embora, depois de um dia inteiro juntos. De alguma forma, apesar de nunca termos nos visto antes, nos reencontramos. Publicamos a história com alguns retratos seus feitos por mim, a matéria escrita pelo Hélio e algumas fotos de seu trabalho que ainda conseguiu vasculhar e encontrar na casa de um de seus filhos. Ficou sensacional e foi o ponto alto da primeira edição da S/Nº.
Desde que o conhecemos, propusemos vários projetos sobre seu trabalho a várias pessoas e instituições. Três anos depois de uma primeira menção a Paulo Borges sobre o assunto, este me procurou e disse: “Então, vamos trazer Otto para o próximo Fashion Week?” Eu havia perdido um pouco o contato com ele, mas Fernando Laszlo, que havia sido meu assistente e depois sócio no meu estúdio da Rua Natingui e era um fotógrafo talentoso tentando a vida em Nova York, se dispôs a trabalhar nesse reencontro. Fernando havia sido seu assistente free-lancer em uma viagem para uma edição da Vogue Brasil, fotografada em Portugal nos anos 80. Levantou todo o material bruto encontrado ainda em bom estado com os filhos e um amigo de Otto, e eu fui a Nova York editá-lo junto com ele. Naquele momento, Otto mudara-se para a Tailândia. Ele dizia que, lá, poderia viver com o dinheiro do social security que recebia nos Estados Unidos, portanto não o encontrei. A casa de Hurley fora recuperada e talvez vendida. Fizemos um recorte mais de moda e retratos em função do que seria uma mostra no Fashion Week. Fernando tocou toda a parte logística, e em três meses tínhamos a exposição, com um lindo projeto expositivo de André Vainer, montada no pavilhão da Bienal no âmbito do Fashion Week. O patrocínio foi total, mas ainda assim abri mão de meu cachê de curadoria, para que fosse tudo investido na exposição e sua montagem, que havia custado mais do que previmos. Trouxeram-no da Tailândi. Foi um sucesso, e finalmente alguma justiça foi feita.
Laszlo e eu assinamos a curadoria e escrevemos o texto a seguir que, de alguma maneira, situa a importância dele para a fotografia e a moda brasileiras:
A aventura de Otto Stupakoff desde cedo nos impregnou de um sonho possível. Otto encarnou tudo aquilo que nós, fotógrafos brasileiros, de uma geração hoje entre 40 e 50 anos, almejávamos em nossos devaneios juvenis de conquista do mundo. Personificou como poucos a figura do fotógrafo charmoso, namorador, cercado de glamour por todos os lados. Correu o mundo, morou nas melhores partes dele, casou com mulheres lindas, e acima de tudo fotografou com a elegância colada à sua alma. Enfim, o que estava no nosso imaginário se configurou mais claramente quando imergimos na preparação desta mostra.
Encontramos em suas imagens uma identidade, um “à maneira de”, um estilo ímpar: a estetização de sua própria vida. As snapshots de um fim de semana de sua mulher Margareta e de dois de seus
seis filhos num piquenique no campo francês poderiam estarem qualquer editorial de moda das grandes revistas da época, e certamente se assemelhavam aos trabalhos encomendados a ele. “Sempre em busca da beleza”, como ele cita frequentemente.
Otto não descansou nem se deixou levar pelo truque fácil do exotismo e da folclorização tão à mão aos brasileiros desembarcados no eixo Nova York-Paris-Londres; foi aceito pelos caciques das revistas de moda e estilo de então. Seus delicados retratos são a prova cabal desse fato. Posaram para ele, entre outros: o presidente Nixon e sua filha Julie Nixon Eisenhower nos jardins da Casa Branca; o escritor Truman Capote em seu barroco apartamento em Nova York; Grace Kelly e a princesa Stéphanie nas dependências do palácio de Monte Carlo; e Tom Jobim ainda no Rio, nos primórdios da bossa nova.
Aliás, a concisão, a economia de efeitos, o tom coloquial, o conteúdo aparentemente frívolo de suas fotografias nos levam a fazer a aproximação com o movimento musical carioca que projetou o Brasil no mundo. Otto, apesar de paulistano do Tatuapé, foi profundamente afetado pelo lirismo bossanovista do Brasil urbano e charmoso que se prefigurava na virada dos anos 50 para os 1960, e que infelizmente se perdeu nas décadas seguintes.
Otto emigrou para Nova York no começo dos anos 60 embebido nessa onda. Assim como Sérgio Mendes, que fotografou muitas vezes e de quem se tornou amigo íntimo, e Tom Jobim, ganhou o mundo. Nos anos 90, reduziu drasticamente sua atividade como fotógrafo, dedicando-se à pintura e à colagem.
Nos dias de hoje, quando a pressa rege quase tudo, quando a superexposição é a norma, Otto tornou-se mais raro, talvez porque não haja mais espaço para a delicadeza, a graça e o imenso humanismo de seu olhar. Suas imagens aqui recuperadas resistiram à erosão dos vários modismos que se seguiram à sua
produção, são diamantes e orgulho de nosso garimpo sobre uma vida e uma carreira que não conheceram meiostons. Com Otto Stupakoff é e foi assim: ou tudo ou nada.
Otto radicou-se em São Paulo e continua trabalhando parcimoniosamente. Um ano após a exposição, a editora Cosac Naify publicou um belo livro derivado da edição e mostra que organizamos.