Cartas a um Jovem Fotógrafo
6. Desvios Necessários
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DESVIOS NECESSÁRIOS
O fotógrafo jornalista precisa ter uma personalidade militante e uma coragem extraordinária. Robert Capa, o húngaro nacionalizado norte-americano, talvez o mais famoso fotojornalista de todos os tempos, morto em ação quando cobria a Guerra da Indochina nos anos 50, dizia: “Uma boa foto assim o é quando você pode estar perto o suficiente do que vai fotografar.” A tragédia de sua morte se deu exatamente por esse fato. Capa morreu trabalhando perigosamente e foi canonizado no panteão dos heróis americanos. Virou uma lenda e referência para todos os que abraçam o fotojornalismo. No meu caso, apesar do imenso respeito que tenho por ele, seu legado e seguidores, não me sinto impelido à luta nesse sentido – no sentido preconizado pelo fotógrafo de reportagem –, uma vez que não posso ver sangue e, muito menos, a morte de perto. Não tenho vocação para isso, falta-me estrutura psicológica. Tampouco cobriria uma guerra ou subiria o morro para acompanhar um cerco policial. Como se diz no jargão jornalístico, não tenho estômago para “presunto”, embora ache necessário quem o faça. Confesso, falta-me esse tipo de coragem. Mas, nos anos 70, tive um tempo como repórter fotográfico: no período em que era contratado do Estúdio Abril, cheguei a fazer fotos para a Veja e cobri coisas banais do cotidiano.
Quando saí da Abril, minha mãe acionou seus amigos jornalistas, entre os quais Vladimir Herzog, depois tristemente assassinado na prisão, e Rodolfo Konder, que me aceitaram para trabalhar na extinta revista Visão. Isso foi antes de ter meu próprio estúdio. Lembro que a revista era do Henry Maksoud, engenheiro dono de uma empreiteira de construções de hidrelétricas e mais tarde de um conhecido hotel, supercomprometido com os militares, que resolveu ter uma revista e comprou o título, que já possuía alguma tradição. A redação ficava no centro da cidade, na Rua Sete de Abril. Era um momento muito duro da ditadura e a revista cumpria um papel, graças aos seus editores, de alguma resistência aceita pelas autoridades. Além de Vladimir e Konder, o atual senador Eduardo Suplicy era o editorde economia, Geraldo Guimarães era o editor de fotografia, George Duque Estrada era o diretor de arte e Roberto Muylaert, o diretor. Quando Geraldinho, como era conhecido, saiu, caí de paraquedas como editor de fotografia, função que exerci por uns dois meses, embora tivesse apenas 23 anos.
Porém, antes de ser editor, trabalhei como repórter fotográfico algumas vezes. Lembro-me de uma matéria da editoria de Suplicy em que fui com um jornalista até o interior de São Paulo para cobrir os “bóias-frias” – foi quando ouvi essa expressão pela primeira vez. Fiz fotos de uma família com aquele característico pano branco na cabeça, as quais durante muitos anos usei no meu portfolio. Enquanto não me decidia para qual lado seguir, ia experimentando tudo o que podia, e no meu curto período na imprensa, embora tenha feito trabalhos interessantes, mais uma vez descobri que esse não era o meu forte.
Tentei ainda composições abstratas, influenciado, sem saber (só vim a entender isso muitos anos depois), pelas manifestações experimentais que fugiam da tradição mais documental e intrínseca da fotografia e por trabalhos de fotógrafos e artistas, como o do húngaro László Moholy-Nagy, do americano radicado na França Man Ray e do russo Alexander Rodchenko, que muitas vezes nem utilizavam a câmera fotográfica. Faziam experimentações a partir de negativos existentes, também chamados de fotogramas.
No Brasil, o artista plástico e fotógrafo Geraldo de Barros teria sido o mais eminente precursor dessa forma de se utilizar a fotografia. Sinto-me ligado afetivamente a ele; tive o prazer de encontrá-lo e retratá-lo. O encontro foi possível devido às suas filhas: a artista plástica e poeta Lenora de Barros e a cineasta e curadora Fabiana de Barros. Geraldo já estava muito debilitado, depois de um derrame cerebral ocorrido muitos anos antes, porém mantinha o entendimento e o pensamento preservados, compreendia tudo à sua volta, e na medida do possível atendia à minha direção no ensaio fotográfico. Considero essa série uma das melhores feitas por mim como retratista.
Suas imagens descontruídas, solarizadas, perfuradas, recortadas e coladas, alinhadas à vanguarda das letras do movimento concretista, nos anos 50, que era liderado pelos irmãos poetas Haroldo e Augusto de Campos, permanecem vivas, influenciando uma legião de seguidores, e atestam o vigor e a importância de sua produção.
Na esfera do fotojornalismo, há ainda uma passagem curiosa que aconteceu quando eu já era mais conhecido. Foi quando a Placar me pediu para fotografar um jogo de futebol no estádio do Pacaembu. É óbvio que me escolher para esse trabalho foi um fiasco, pois não tinha a menor técnica para essa tarefa. Mas a ideia era de que aquelas fotos publicadas parecessem um ensaio de minha autoria, o jogo por Bob W. Se isso fosse hoje, teria argumentado que realmente não é uma boa ideia e seria um fracasso tentar fazer o que os fotógrafos de esporte fariam muito melhordo que eu, e sugeriria fazer algo extra ao jogo propriamente dito, as entrelinhas, os bastidores, a arquibancada, sei lá, qualquer coisa que não precisasse de um especialista. É a tal história do nome. Ficou muito aquém do esperado e ainda provoquei a ira dos fotógrafos que eram normalmente chamados para os jogos.
Não gosto muito de termos como especialização e área em fotografia. Acho que o fotógrafo, assim como o pintor ou qualquer outro artista, pode escolher seus temas sem se fixar num único assunto ou numa única maneira de fazê-lo. Ainda segundo Sontag: “Um tema feio ou grotesco pode ser comovente porque foi honrado pela atenção do fotógrafo. Um tema belo pode ser objeto de sentimentos pesarosos porque envelheceu, decaiu ou não existe mais.”
Em geral, os grandes artistas não se fixam numa só disciplina nem em uma só forma. Porém, cada segmento tem as suas exigências, seu mundo próprio, suas regras, sua marca crítica. Por exemplo, para fazer uma foto de moda, é preciso que você tenha modelos, algum conhecimento sobre elas, uma equipe de styling (produção de moda) que pense junto com você, um bom cabeleireiro e maquiador e que sejam todos, de alguma forma, influentes, cooperativos no seu trabalho. Contudo, quando desavisado, jogo-me para fazer algo muito distante do que mais faço, por ser um desafio ou pela curiosidade de saber se posso, se consigo – é grande o risco de eu não alcançar algo dentro do código estabelecido como um bom trabalho que alguém mais acostumado com a coisa conseguiria. Seria como pedir a um cirurgião plástico para fazer uma operação de coração.
A virtude dessas inversões de papéis, que com alguma frequência acontecem nas encomendas das revistas aos fotógrafos, é a possibilidade de se obter algum resultado insólito, inédito, mas que provavelmente o meio acostumado a uma forma preestabelecida não aceitará nem entenderá. De fato, muitas vezes, o resultado oscila entre o genial e o patético.