Cartas a um Jovem Fotógrafo

Bob Wolfenson · Capítulo 19 de 25

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Cartas a um Jovem Fotógrafo

12. Acidentes no Percurso

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ACIDENTES NO PERCURSO

Falar de sucesso é fácil. As coisas boas que fizemos estão aí para quem quiser conferir. Tiveram boa repercussão e formam a base do que se chama prestígio. Entretanto, se estou falando com o jovem fotógrafo ou com aqueles que aspiram a essa carreira, sinto-me na obrigação de abordar o tema deste capítulo. Eu já tive muitas vezes a sensação de estar errando, e acho mesmo que já vivi muitas derrotas.

Como contei anteriormente, a primeira vez que tive esse sentimento foi no começo da minha carreira – até por volta dos 28 anos eu me sentia muito medíocre como fotógrafo. Eu olhava os trabalhos alheios e não conseguia fazer nada próximo que fosse de uma certa qualidade idealizada por mim baseado no que via dos outros. Sentia que me faltava instrumental técnico e psicológico, e foi isso o que me moveu a viajar para Nova York no começo de minha carreira. Pior, não me sentia investido de um talento que me fizesse gostar do que eu fazia. Talvez tenha sido muito rigoroso comigo. Hoje, olhando algumas coisas em retrospectiva, considero-as acima de muitas coisas feitas logo depois do meu período em Nova York.

Bem nessa época de crise pessoal e profissional, em que me preparava para sair do Brasil, meu amigo, o artista gráfico João Baptista da Costa Aguiar, na época sócio de uma pequena agência de publicidade, sempre me chamava para alguns trabalhos. Não me lembro direito, mas era por volta de 1980 ou 1981, quando, sabendo que eu queria fotografar moda, ele me chamou para fazer as fotos do lançamento de um novo jeans. Eu gostei da incumbência, mas não dominava a técnica e muito menos tinha equipamento suficiente. E, ainda por cima, meu fotômetro (aparelho usado para medir a luz) estava com problemas. Tudo era muito romântico e precário, aliás como dá para ser quando se é jovem. O tal do fotômetro tinha dias que funcionava, outros não. Sem dinheiro para comprar outro que funcionasse, eu era obrigado a confiar nesse instrumento maluco que dava resultados diferentes a cada medição. Além do mais, eu ainda não utilizava o teste de ponta, uma regra simples que só vim a fazer depois dessa triste experiência. O teste de ponta consiste em revelar só os primeiros fotogramas de um filme, na maioria das vezes positivo (slide), com o fim de observar se ele está bem exposto ou não. Era muito raro se fazer em filmes negativos, tanto colorido como preto-e-branco, pois estes têm uma latitude muito maior, ou seja, um pequeno erro é facilmente compensado quando da ampliação da foto. Se ele estiver bem exposto, você revela o filme inteiro da forma habitual. Caso contrário, manda puxar no laboratório, ou seja, compensa a exposição. Quando a diferença não era muito grande, chegava-se à qualidade desejada.

Bem, fiz todo o trabalho encomendado pelo João, e, no fim, meu fotômetro errou ou eu não sabia ainda medira luz direito, e não fiz o tal teste de ponta. O resultado: ficou tudo demasiadamente escuro. Entrei em pânico achando que minha recém-iniciada carreira havia acabado ali. Liguei e contei a ele o desastre. Pedi mil desculpas e disse que me responsabilizaria pelo trágico resultado perante seu cliente. Logicamente me ofereci para refazer todo o trabalho com todos os custos por minha conta. Compreensivo, João confiou outra vez em mim, permitindo que eu refizesse o trabalho, e dessa vez ocorreu outra desgraça: ficou tudo branco, tudo claro, absurdamente claro. Aí João desistiu de mim e chamou outro fotógrafo para resolver o assunto de vez. Apesar de ter sido trágico, acabou cômico: somos amigos até hoje e essa lembrança virou piada entre nós.

Nos final dos anos 80, e já com um certo sucesso, recebi uma encomenda considerada de grande porte para a extinta Mesbla, que envolvia uns 15 modelos em algumas locações em Búzios, no Rio de Janeiro. Era meu primeiro trabalho para aquela imensa loja de departamentos. Fiz as fotos e deu tudo certo – o ambiente foi ótimo, a viagem excelente. Nessas viagens, por causa do convívio com a equipe, clientes e modelos, as relações ficam mais intensas, diferentemente dos trabalhos feitos em uma só diária em estúdio ou mesmo em uma locação na cidade. Voltei para São Paulo, mandei revelar os filmes e, quando eles chegaram do laboratório, vi que havia uma série grande fora de foco. Simplesmente não conseguia compreender o que havia acontecido. Até que detectei onde aconteceu o problema: meu assistente, como de hábito, limpou todo o equipamento na véspera da sessão. Só que, sem perceber, quando foi remontar a câmera, ele colocou uma peça dentro dela sem encaixá-la direito. Ao fotografar as modelos, a peça, mesmo mal encaixada, produzia a sensação de foco, mas ele não era real. O filme não o lia dessa forma, daí todas as fotos terem saído desfocadas. Eu não tinha como prever isso, nem ele. Imagine só o custo daquela produção toda, os 15 modelos, o hotel, a viagem, locomoção, alimentação. É óbvio que a parte fora de foco do trabalho teve de ser toda refeita. O clima amigável da viagem me ajudou a solucionar a questão. Os próprios clientes, sabedores da fatalidade, me propuseram um outro trabalho no Rio e pagaram por ele. Quanto àquele que deveria ser refeito, arquei com todas as despesas. No fim, ficaram elas por elas – não ganhei nada mas não perdi. Mas, mesmo assim, foi um baque. E não mandei meu assistente embora.

Erros graves como esse são muito raros, tanto que nesse caso custei a detectar exatamente onde foi que falhamos. Isso foi tão excepcional que deve ter acontecido só uma ou duas vezes no mundo todo. Mas acidentes acontecem, e ninguém está imune a isso.

De lá para cá fui ficando cada vez mais conhecido, envolvido em campanhas cada vez mais caras, às voltas com modelos prestigiadas e viagens internacionais, o que proporcionalmente aumenta também a pressão. Para se tera exata dimensão, o cachê de Gisele Bündchen é astronômico; portanto, eu não conseguiria pagar, caso acontecesse um desastre dessa ordem. Simplesmente não posso me dar ao luxo de cometer muitos deslizes, e ao longo dos anos desenvolvi um sólido esquema de segurança para me proteger de acidentes. É claro que já errei, fiz muito trabalho ruim, de que eu mesmo não gostei ou que não correspondeu à expectativa de quem me contratou. Fiz foto fora de foco, já perdi filme no laboratório, já passei por várias experiências desagradáveis, e algumas mais virão.

A orientação que dou aos meus assistentes é que eles têm de seguiro sistema de segurança implantado, não me deixar errar. Além do mais, durante os anos, trabalhei sempre com duas câmeras, e não revelava tudo de uma vez porque, se acontecesse algum problema no laboratório, pelo menos teria mais material para me garantir. E ainda trabalhava sempre com quatro ou cinco filmes de cada sequência.

Agora, com a foto digital, embora possa parecer que tudo tenha ficado mais fácil, é preciso redobrar os cuidados, uma vez que o sistema também pode errar. Por exemplo, fiz um trabalho no ano passado com uma atriz muito conhecida para a publicidade de um banco e, durante a sessão, Diogo Telles, meu assistente de então, veio cochichar no meu ouvido: “O cartão não deu conta e perdemos tudo. O computador não está conseguindo lê-lo.” Na hora, precisei me controlar bastante, mas decidi não fazer tudo de novo; era apenas um trecho do trabalho e achei que poderia passar em branco. A atriz estava de mau humor e impaciente. Já tinham acontecido alguns problemas na sessão, questões contratuais dela com o cliente, o clima estava tenso, e eu não queria obrigá-la a refazer tudo por um erro nosso. Obviamente contrariado, ordenei a meu assistente que se virasse e revertesse a situação. No dia seguinte, a agência de publicidade nos cobrava as fotos. Perdidas, pedimos uns dois dias, contamos o que havia acontecido e, felizmente, encontramos um técnico que recuperou os arquivos. Esse é o típico exemplo daqueles casos em que não existe chance alguma de se refazer um trabalho.

Enquanto escrevia este livro, outro acidente aconteceu durante uma sessão de fotos para uma grife de sapatos com algumas mulheres (não-modelos) de profissões variadas, desde socialites, designers, donas de confecções, até a escritora Fernanda Young. No fim de um dia de trabalho, uma mesa de madeira e ferro sobre a qual estavam dois computadores cedeu e foi ao chão. Um dos computadores, que estava sendo usado na captação das imagens, bateu forte contra o piso e quebrou. Perdemos o HD, o computador, o dia inteiro de trabalho e o prazo de lançamento do cliente, pois eu tinha uma viagem marcada no dia seguinte e só pude remarcar tudo algumas semanas depois. Reconvoquei todas, expliquei o acontecido, arquei com as despesas necessárias, e todas sem exceção foram muito gentis em terem voltado sem cobrar o cachê de novo. O cliente deve ter ficado muito irritado, mas também estava presente e viu o ocorrido. Outra lição aprendida: assim que fotografar, descarregar tudo em um HD externo. Quando viajo agora, na era digital, meu assistente coloca tudo em alguns HDs externos e nos laptops. Imaginem perder um trabalho de uma viagem internacional.

Por isso, digo que é remota demais a possibilidade de eu cometer um desastre mortal, de perder tudo. Contudo, posso errar conceitualmente, falhar em uma luz, fazer algo que depois eu mesmo não vá admirar. Posso me garantir tecnicamente para que nada dê errado; no entanto, não tenho jamais como saber como meu trabalho será visto, tanto pelo público como pela crítica. Afinal, quando se lança publicamente um trabalho, ele fica exposto à opinião de todos e cada um o julga como quiser.