Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
7 de abril, sexta-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
– Trouxestes este homem à minha presença, acusando-o de perverter o povo,
impedir o pagamento do tributo a César e pretender ser o rei dos judeus.
Interroguei-o e não creio que ele seja culpado de tais imputações. Na realidade,
não vejo falta alguma... Enviei-o a Herodes e o tetrarca deve ter chegado à mesma
conclusão, já que o mandou de volta. Com toda a certeza, este homem não
cometeu delito algum que justifique sua morte. Se considerais que deve ser
castigado, estou disposto a lhe impor uma sanção antes de libertá-lo.
João, sem poder conter a alegria, deu um salto e se abraçou a José de
Arimateia. Mas, quando tudo parecia inclinar-se a favor do Nazareno, o pátio
existente entre a escadaria e o portão da muralha foi subitamente invadido por
centenas de judeus, que irromperam tranquilos e silenciosos, tendo um grupo de
soldados romanos à frente.
Exatamente como me havia avisado José de Arimateia, aquela multidão havia
acorrido ao Pretório desejosa de assistir ao indulto de um réu. E é de grande
importância ressaltar que, no momento em que a massa humana chegou diante da
residência de Pôncio, com prévia autorização da guarda, ninguém, entre aqueles
israelitas, sabia o que estava ocorrendo. Foi ali, diante de Jesus e dos sacerdotes,
que o povo se deixou arrastar pela hábil e oportuna manobra de Caifás e dos
saduceus. Se o julgamento de Jesus tivesse ocorrido em outro momento ou em
outro dia, e sem a presença daquela turba, é possível que o Sinédrio não tivesse
levado a melhor.
Pilatos sabia da chegada daquele povo. De fato, a colocação do tablado e da
cadeira no terraço obedecia única e exclusivamente à cerimônia da tradicional
anistia. Mas Pôncio, desejando agir de boa fé, cometeu um grave erro. Depois de
consultar seus centuriões, levantou-se e, elevando a voz, perguntou à multidão o
nome do preso eleito.
– “Barrabás”! – respondeu a multidão em uníssono.
Até aquele momento, nem Pilatos nem os juízes haviam pronunciado o nome
de Jesus. Aquilo significava, eu supunha, que os hebreus haviam ido até o Pretório
com a intenção premeditada de solicitar a libertação do terrorista, e assim se
manifestaram – até que o governador lhes pediu silêncio e lhes explicou como os
sacerdotes haviam levado Jesus à sua presença e de que o acusavam. Em suma,
aquele povo, mesmo sem a presença de Jesus, teria clamado por Barrabás, o zelote. Mas, como eu já disse, a oportuna intervenção de Caifás e seus sequazes,
mais o ouro que havia sido repartido entre alguns judeus infiltrados
estrategicamente no seio da multidão, terminaram por inclinar a balança a favor do
Sinédrio.
Quando Pôncio concluiu a explicação sobre a presença de Jesus naquele
tribunal, deixando bem claro que “ele não via naquele homem razões que
justificassem a sentença”, formulou uma segunda pergunta:
– A quem quereis que eu liberte? A Barrabás, o assassino, ou a este Jesus da
Galileia?
Por um instante, as centenas de hebreus ficaram atônitas. Não houve uma
resposta fulminante. Aquelas pessoas, isso foi visível, hesitaram.
Caifás e os saduceus perceberam imediatamente o grave risco que o silêncio
implicava. Então, aproximando-se de Pilatos, bradaram com força:
– Barrabás!... Barrabás!...
A iniciativa dos sinedristas teve rápida repercussão. De diferentes pontos do
pátio repleto levantaram-se outras vozes, certamente dos judeus subornados, que
também clamaram pela libertação do revolucionário. E em questão de segundos a
massa inteira imitou os sacerdotes e se uniu ao coro de Caifás.
Foi inútil a tentativa de João Zebedeu, quase rompendo a garganta aos gritos
de “Jesus! Jesus!”. Sua voz foi sepultada por um “Barrabás!” claro e generalizado,
repetido e repetido até que o governador, levantando os braços, pediu silêncio.
Nos olhos de Pôncio havia uma labareda de ódio por aqueles saduceus,
flagrantes indutores daquela massa ignara e amorfa. A irritação do governador
romano nem se devia ao fato circunstancial de aquele galileu pudesse ser ou não
sentenciado. O que o encolerizava era precisamente que sua decisão de pôr em
liberdade o Mestre fora desprezada pela casta sacerdotal de maneira olímpica.
Mas o erro de Pilatos, oferecendo Jesus como candidato à anistia, ainda era
suscetível de retificação. Assim, tomando novamente a palavra, recriminou-lhes a
conduta aleivosa.
– Como é possível escolher a vida de um assassino – disse, dirigindo-se
diretamente a Caifás – contra a deste galileu, cujo pior crime é acreditar ser rei dos
judeus?
O resultado daquelas palavras foi totalmente contrário ao que Pilatos poderia
esperar. Os juízes se mostraram ofendidos ao extremo pelo que consideravam um
insulto à sua soberania nacional, instigando a multidão a clamar com mais força
pela liberdade do zelote. E assim foi. Aqueles hebreus, em sua maioria gente
inculta, pisoeiros, carregadores, mendigos, peregrinos desocupados e, sem dúvida,
levitas de folga no Templo levantaram de novo suas vozes em favor de Barrabás.
Aquela súbita explosão popular fez o governador hesitar. Acompanhado de seus
oficiais, ele retirou-se para deliberar.
Agora estou convencido de que, se Pilatos não tivesse colocado Jesus naquela
eleição, seguramente não se teria comprometido diante dos dignitários sacerdotais.
Jesus, entretanto, permanecia tranquilo, de frente para a multidão. Aqueles
minutos de espera – e os que se seguiram – foram decisivos para Caifás.
Aproveitando a momentânea ausência de Pôncio, manobrou para que seus
companheiros de conjura se infiltrassem na multidão e a incitassem a continuar a
pedir a libertação de Barrabás. Era triste e decepcionante observar aquela massa,
de que faziam parte muitos dos que conheciam e haviam admirado as palavras e o
valor do Galileu quando, por exemplo, ele “limpou” a esplanada dos Gentios do
sacrílego comércio dos cambistas e intermediários. Num instante e sem o menor
discernimento, aquela gente havia-se voltado contra o indefeso Jesus.
Pôncio retornou à sua cadeira e observou a multidão. Havia apoiado os
cotovelos nos braços do assento, sustentando a cabeça sobre as mãos
entrelaçadas, em atitude de reflexão. Como medida de precaução, Civílis havia
dado ordem para que a porta da muralha fosse fechada, ao mesmo tempo que
dispunha de várias unidades armadas em torno da multidão. Foi pena que os
judeus não tivessem percebido a tempo essa manobra dos romanos. Conhecendo
como conheciam a crueldade de Pilatos, talvez, ao se darem conta de que estavam
sendo sigilosamente cercados, tivessem se preocupado mais com a própria
segurança do que com a libertação de alguém.
O comandante-em-chefe da legião acabava de fazer circular instruções precisas
a seus homens. Se a ordem fosse ameaçada, poderiam desembainhar suas
espadas.
Durante alguns minutos o governador romano ficou em silêncio. A multidão o
imitou, à espera da decisão. E nisso estávamos, quando um dos criados do Pretório
apareceu no terraço, entregando uma carta lacrada a Civílis, ao mesmo tempo que
lhe comunicava algo verbalmente. O centurião examinou a pequena folha de
pergaminho e se aproximou de Pilatos, tirando-o de sua meditação. O governador
abriu a nota e, após lê-la com cuidado, ficou de pé. Caifás, os juízes e todos ali
reunidos ficaram intrigados. Pôncio parecia hesitar. Deu curtos passos pelo terraço
e, por fim, parando diante da multidão, anunciou que havia recebido uma carta de
sua esposa, Cláudia Prócula, e desejava lê-la em público. O vento o obrigou a
segurar o pergaminho com ambas as mãos. E com voz clara e potente leu:
– “Peço-te que não faças nada – dizia a carta – para a condenação do homem
íntegro e inocente que se chama Jesus. Esta noite, durante um sonho, sofri muito
por ele.”
Ao ouvir o conteúdo da carta, José de Arimateia pareceu alegrar-se muito.
Ainda que o ancião não chegasse a dizer abertamente, todos os indícios apontavam
para o importante fato de que a esposa de Pilatos conhecia e aceitava os
ensinamentos do Mestre da Galileia. (Segundo consegui entender, alguns de seus
criados faziam parte do primeiro grupo de seguidores de Jesus.)172
No início, ao notar a fisionomia carregada de Civílis, não associei o texto da
carta de Prócula com a forte superstição que dominava o governador e com a
previsão que eu me atrevera a formular na presença do centurião. Foi pouco depois, quando nos dirigíamos ao pátio central da fortaleza para assistir à
flagelação do Mestre, que o oficial-chefe lembrou-me de minhas palavras sobre o
estranho acontecimento celeste que eu havia prognosticado para aquela manhã,
vinculando-o com o misterioso “sonho” da mulher. Tudo aquilo, aparentemente,
havia influído – e não pouco – em Pôncio. Talvez, por isso, depois da leitura da
mensagem de sua esposa, o governador, com voz trêmula, tenha se dirigido
novamente à multidão, perguntando:
– Por que quereis crucificá-lo...? Que mal vos causou?
Os sacerdotes dos judeus perceberam de imediato a crescente fraqueza do
representante de César e se irritaram com ele, vociferando sem descanso:
– Crucifica-o...! Crucifica-o...!
O paroxismo dos judeus chegou a tal ponto que a pergunta seguinte de Pôncio
quase não foi ouvida:
– Quem quer testemunhar contra ele?
A multidão só sabia repetir uma única palavra:
– Crucifica-o...!
Diante daquele tumulto, Civílis desembainhou a espada e, levantando-a por
sobre o seu elmo, preparou-se para dar sinal para que seus homens entrassem em
ação. Mas Pilatos ordenou que o centurião guardasse a espada e, agitando as
mãos, pediu silêncio. Pouco a pouco, aqueles fanáticos foram recobrando a calma.
E o governador, como que ignorando as petições anteriores do populacho, repetiu a
pergunta:
– Peço-vos mais uma vez que me digais que preso desejais que libertemos
neste dia de Páscoa.
A resposta foi igualmente monolítica e contundente:
– Entrega-nos Barrabás!
Pilatos moveu a cabeça em sinal de desaprovação e insistiu:
– Se solto Barrabás, o assassino, que faço com Jesus?
Aquele novo sinal de fraqueza da parte do governador foi acolhido com uma
brutal explosão de violência. E a palavra “crucifica-o!” ergueu-se como um trovão.
A turba, com os punhos erguidos, continuou clamando, cada vez com mais
força:
– Crucifica-o!... Crucifica-o!... Crucifica-o!...
O vozerio impressionou tanto o governador que ele, assustado, retirou-se do
terraço e desapareceu no interior da residência. Um dos oficiais, seguindo
instruções de Civílis, apressou-se a seguir Pilatos e, dali a pouco, voltava trazendo
uma trágica ordem a Civílis, enquanto a multidão, possuída pela ideia de matar o
Mestre, continuava a pedir pela crucificação.
O centurião-chefe assentiu com a cabeça e, erguendo os braços, em um gesto
autoritário, ordenou silêncio. A multidão obedeceu, consciente do poder e da
extrema dureza daquele estrangeiro. Feito o silêncio, Civílis pronunciou breves,
mas dramáticas palavras, que gelaram o coração de José e de João:
– A ordem é esta: o prisioneiro será açoitado...
E, com o mais absoluto desprezo, girou sobre os calcanhares e ordenou a seus
homens que levassem o preso para o interior do Pretório.
Sem parar para pensar, lancei-me atrás de Civílis, unindo-me à escolta que já
cruzava o saguão da residência.
Eram dez e meia da manhã, segundo os relógios do “berço”...
Daquela vez João não acompanhou o Mestre. E isso me alegrou bastante. O
espetáculo que eu estava a ponto de presenciar teria derrubado seu já decaído
ânimo.
Subimos pela escadaria da direita e entramos em um longo e úmido corredor,
apenas iluminado por algumas lâmpadas de azeite cujas chamas oscilavam à
passagem da escolta.
O centurião, visivelmente contrariado com o curso dos acontecimentos,
lamentou a fraqueza do governador. Se dependesse dele, o processo contra aquele
galileu teria terminado sem contemplações...
– Entre este visionário e um zelote assassino – assegurou-me enquanto
percorríamos os últimos metros do passadiço –, Roma não teria hesitado. E muito
menos depois que esse punhado de serpentes teve o atrevimento de desafiar a
autoridade de César...
Ao sair daquele túnel, reconheci de imediato o pátio de arcadas que havia
cruzado na manhã de quarta-feira, quando José e eu nos preparávamos para
encontrar Pôncio. Do saguão do Pretório, portanto, podia-se ter acesso ao citado
pátio e ao túnel abobadado da entrada oeste da fortaleza, simplesmente
percorrendo aquele corredor de cinquenta metros. A saída ficava exatamente na
esquina nordeste do pátio, à direita das escadas de mármore que levavam ao salão
de despachos oval de Pilatos.
Seguindo, aparentemente, um costume muito comum, os soldados chegaram
ao centro do pátio e pararam junto à fonte circular da deusa Roma. O centurião
mandou que retirassem os cavalos que estavam sendo escovados e, enquanto os
ginetes desatavam as rédeas, várias dezenas de infantes de folga foram se
aproximando. A notícia da iminente flagelação daquele judeu – que se
autoqualificava “rei” dos judeus – havia corrido rapidamente entre os membros da
guarnição, que, lógico, não queriam perder o acontecimento.
Civílis sugeriu que eu me afastasse.
– Pôncio quer um castigo... especial – acrescentou o centurião, com um sorriso
sarcástico. – E, por Zeus, é o que vai ter!
As palavras do oficial me fizeram tremer. Olhei para Jesus, mas o gigante
continuava ausente e imóvel com os olhos fixos no jorro de água que saltava da
pequena esfera que a deusa sustentava na mão esquerda.
Ouviram-se os cascos dos cavalos afastando-se para uma das esquinas do
recinto, e a sessão de tortura começou. Do pelotão de mercenários, haviam sido
destacados dois, especialmente robustos. Ambos tinham nas mãos diferentes tipos d e flagrum, ou látego curto, de cabo de couro e metal, de apenas trinta
centímetros de comprimento. De um deles partiam três correias de uns quarenta
ou cinquenta centímetros cada uma, providas nas extremidades de diversos pares
de astrágalos (tali) de carneiro. O outro verdugo acariciava as argolas de ferro de
sua plumbata, da qual saíam duas tiras de couro, providas de um par de bolinhas
de metal (possivelmente chumbo) em cada ponta.
A um sinal do oficial-em-chefe, dois soldados da escolta colocaram o Mestre
diante de um dos quatro marcos, de quarenta centímetros de altura, que rodeavam
a fonte e eram utilizados para amarrar as rédeas dos cavalos.
Um dos soldados tentou soltar as ligaduras dos pulsos de Jesus, mas elas
haviam sido colocadas de tal forma que, após várias e inúteis tentativas, ele teve
de lançar mão de sua espada para cortá-las de um só golpe. Depois de quase oito
horas com os braços atados às costas, as mãos de Jesus estavam intumescidas e
arroxeadas.
Em seguida, despojaram-no do manto de púrpura que Herodes havia colocado
em torno de seu pescoço e também de seu roupão e da túnica. As roupas do
Mestre caíram sobre uma poça de urina dos cavalos. Por último, desataram-lhe as
sandálias e o descalçaram.
Ato contínuo, o mesmo soldado que lhe havia cortado as ligaduras dos pulsos
colocou-se diante do prisioneiro e de novo prendeu-lhe os pulsos, agora pela
frente, com os restos da corda que havia cortado.
Jesus, com total e absoluta docilidade, deixou que fizessem tudo sem a menor
reação. Seu corpo havia começado a exsudar. Aquela reação de seu organismo
alertou-me. A temperatura ambiente não era tão alta a ponto de causar aquela
súbita transpiração. Contornando a fonte, coloquei-me diante dele e comprovei
que, de fato, seu rosto, seu pescoço e sua espádua haviam começado a umedecer-
se. Nesse momento, lamentei não estar usando as lentes infravermelhas. A julgar
pelas pulsações cada vez mais aceleradas de suas artérias carótidas e por suas
sucessivas e profundas inspirações, o rabi havia começado a experimentar nova
elevação de seu batimento cardíaco.
O Nazareno estava perfeitamente consciente do que o aguardava, e seu
organismo reagia como o de qualquer indivíduo.
Com um puxão, o mercenário o obrigou a inclinar-se para o marco de pedra e
depois prendeu a corda na argola metálica que coroava a pequena coluna. A altura
do Galileu e o pequeno tamanho do marco obrigaram-no, desde o primeiro
momento, a separar as pernas, o que resultou numa postura muito forçada. Os
cabelos haviam caído sobre o rosto, ocultando completamente suas feições e
impedindo-me de ver seu sofrimento...
O suor tornou-se mais intenso, convertendo suas largas costas e seu torso em
uma superfície brilhante.
Prontamente, um dos carrascos se adiantou e arrancou a peça mais íntima de
Jesus com um golpe brusco, deixando-o inteiramente despido.
A ruptura das cintas que sustentavam a tanga provocou uma súbita e intensa
dor nos genitais de Jesus. Seu corpo estremeceu e seus joelhos dobraram-se pela
primeira vez.
Ao vê-lo despido, a soldadesca explodiu em uma gargalhada geral. Mas as
caçoadas foram interrompidas pela chegada de Pôncio. Sem mais preâmbulos, o
governador ordenou aos verdugos que começassem. Em meio a um silêncio
expectante, o mais alto, colocado à direita do Mestre, levantou seu flagrum de
cauda tríplice e lançou um terrível golpe nas costas de Jesus, ao mesmo tempo que
iniciava a contagem:
– Unus!
A chicotada foi tão brutal que os joelhos do réu se dobraram, cravando-se no
duro piso do pátio com um som seco. Mas, num movimento de reflexo, o Galileu
voltou a erguer-se, exatamente no momento em que o segundo verdugo
descarregava um novo golpe com seu flagrum bífido.
– Duo!
– Tres!
– Quattour...!
Aqueles soldados, profissionais consumados, manejavam os látegos
simplesmente fazendo girar seus pulsos. Dessa forma, as correias se eriçavam,
produzindo um máximo de efeito com um mínimo de esforço.
– Quinque...!
O entrechoque dos ossinhos e das bolas de metal foram o único som
perceptível durante os primeiros minutos. Jesus, totalmente encurvado, não havia
deixado escapar um só gemido. Os astrágalos e as peças de chumbo caíam-lhe
sobre as costas, arrancando de cada vez algumas porções de pele. Desde o
primeiro açoite, vários filetes de sangue haviam começado a correr pelo corpo,
deslizando para os flancos e gotejando sobre o pavimento.
Como eu suspeitava, depois do sanguinolento fenômeno de exsudação ocorrido
no horto, a pele do Mestre havia ficado em estado de extrema fragilidade. E aquela
chuva de golpes múltiplos não tardou a abri-la, deixando em carne viva seus
ombros, costas e cintura. Pouco a pouco, a cada silvo de flagrum, os ossos e as
bolas penetravam na pele, provocando cortes e rompendo os tecidos, vasos e
nervos.
– Triginta!
Ao trigésimo açoite, o réu desabou, mantendo-se de joelhos, com os dedos
fortemente presos ao aro de metal da coluna.
As costas, ombros e região lombar estavam encharcados de sangue, com
inúmeros hematomas azulados e grandes como ovos de galinha. As correias, por
sua vez, iam traçando dezenas de estrias, como se fossem arranhões, de
tonalidade violácea. A presença daqueles múltiplos hematomas, alguns dos quais
começavam a estourar, levou-me a pensar que a dor que Jesus de Nazaré suportou
naqueles primeiros minutos deve ter atingido o paroxismo.
Mas, felizmente para ele, os golpes, descarregados com tanta sanha quanto
precisão, foram abrindo muitos dos hematomas, convertendo as costas em um rio
de sangue e, consequentemente, diminuindo a dor.
– Quadraginta!
O açoite número quarenta marcava os quatro ou cinco minutos do suplício. Mas,
em vez de estremecer, como havia ocorrido nos golpes anteriores, o corpo do
Nazareno não reagiu mais. Civílis levantou sua vara de videira e deu por encerrada
a flagelação. Então, um dos suarentos verdugos se lançou sobre o réu, agarrou-o
pelos cabelos e, após comprovar que ele estava inerme, soltou-lhe a cabeça, que
pendeu desfalecida entre os braços.
O centurião apressou seus homens. Um dos soldados encheu uma vasilha com
água da fonte e a despejou na nuca do Nazareno. Ao contato do líquido, a cabeça
se moveu ligeiramente, enquanto parte do sangue escorria para o solo com a água.
Em pouco tempo, tanto o marco quanto uma ampla faixa da parede circular da
fonte, bem como os rostos, braços e túnicas dos verdugos, estavam tingidos de
vermelho. A hemorragia, já generalizada nas costas e cintura de Jesus, começara a
se tornar preocupante.
Embora o suplício tenha terminado no golpe de número quarenta, coincidindo,
assim, casualmente, com a fórmula judaica da flagelação,173 a intenção de Pilatos,
que acompanhava impassível e silencioso o desenrolar da tortura, era que o
massacre prosseguisse.
Os verdugos aproveitaram o breve descanso para se debruçar sobre o tanque e
refrescar o rosto, assim como esfregar os braços e remover deles as manchas de
sangue. Embora os encarregados do suplício conhecessem o latim, estou quase
certo de que, a julgar por suas barbas ralas e abundantes, eram mercenários sírios
ou samaritanos. Geralmente, os romanos os designavam quando o condenado era
judeu. O ódio ancestral deles pelos hebreus os convertia em executores
exemplares...
O Mestre ia se recuperando. Um dos verdugos pegou-o pelas axilas e o ergueu.
Mas o peso era excessivo e ele teve de pedir ajuda. Quando, por fim, conseguiram
colocá-lo de pé, outro soldado – com uma caçarola de latão nas mãos – postou-se
diante do supliciado, enquanto os verdugos, sem nenhum tipo de contemplação,
puxavam-no pelos cabelos, obrigando-o a erguer o rosto. E assim o mantiveram até
que o romano que tinha a caçarola esvaziou seu conteúdo na boca do Galileu.
Perguntei a Civílis do que se tratava e ele me explicou que era água com sal.
Certamente, o exército romano conhecia muito bem os graves problemas que
podiam resultar de um castigo como aquele. Em especial a desidratação. Embora
Jesus tivesse sido obrigado, no Sinédrio, a ingerir considerável quantidade de água,
a profusa exsudação no horto Getsêmani e agora, durante a flagelação, e a séria
perda de sangue causada pelos açoites devem ter consumido suas reservas – ou o
balanço hídrico corporal, tanto intracelular como extracelular. Aquela água com sal,
portanto, constituía um reforço decisivo, se é que Pilatos desejava realmente que o prisioneiro não morresse dos açoites. (Também existia o perigo de que a excessiva
concentração de cloreto de sódio e água – o ideal teria sido uma proporção de 0,85
por cento – pudesse acarretar a aparição de edemas ou inflamações brandas em
diversas partes do corpo.)
Mas, como Civílis dissera, a intenção do governador era torturar o prisioneiro
até o limite, de tal forma que seu lamentável estado pudesse satisfazer e comover
o agressivo ânimo dos saduceus.
Assim, uma vez esgotado o conteúdo da vasilha, o centurião ergueu seu bastão
e cada verdugo tomou seu flagrum para prosseguir o castigo.
– Unus!
Aquele novo golpe e os que se seguiram foram aplicados especialmente nas
coxas, nas nádegas, no ventre e em parte dos braços e do tórax. As costas, dessa
vez, foram poupadas.
Os golpes das correias, que se enroscavam nas pernas do Mestre, obrigaram-no
a uma suprema contração dos feixes musculares, em especial os situados nas faces
posteriores das coxas, que assim ficaram mais vulneráveis. Rapidamente a pele foi
abrindo-se e a consequente hemorragia foi muito mais intensa que a das costas.
– Decem!
Em um titânico esforço para suportar a dor, Jesus de Nazaré havia se agarrado
à argola da coluna, erguendo o rosto até onde era possível. Os músculos de seu
pescoço, tensos como a corda de um arco, contrastavam com as fossas
supraclaviculares, inundadas por um suor frio que escorria sem cessar e que ia
diluindo o vermelho do sangue.
– Duo-de-viginti!
O verdugo cantou o número dezoito lançando seu látego sobre o peito do réu. E
uma das parelhas de ossinhos de carneiro deve ter ferido o mamilo esquerdo de
Jesus. A intensíssima dor provocou um vertiginoso movimento reflexo e o gigante
se ergueu com todas as forças, ao mesmo tempo que seus dentes – solidamente
apertados uns contra os outros – abriram-se, deixando escapar um gemido
lancinante. Era o primeiro lamento do rabi.
A contração foi tão potente que as cordas que o prendiam à argola se
romperam e o mestre se projetou para trás violentamente. Aquilo apanhou
desprevenidos os verdugos e o resto da tropa, e todos recuaram assustados.
O Nazareno caiu pesado de costas, deixando no piso do pátio uma poça de
sangue. Quando os soldados se lançaram sobre ele, levantando-o com dificuldade,
a respiração de Jesus estava muitíssimo acelerada.
Aproveitei o momento de confusão para ajustar as “crótalos” e iniciar um
exaustivo exame dos danos ocasionados pela flagelação. Pressionei o cravo dos
ultrassons até a posição extrema (7,5 MHz, ou megahertz) e me preparei para
rastrear, em primeiro lugar, os tecidos superficiais.
Os soldados haviam arrastado o réu até a pequena coluna, prendendo-o
novamente à argola. E os verdugos recomeçaram os açoites, agora muito irritados por causa do contratempo.
Os golpes, cada vez mais implacáveis, foram abatendo pouco a pouco o corpo
do Mestre, que acabou dobrando os joelhos, enquanto seus dedos, jorrando
sangue, crispavam-se de dor. A cada açoite, Jesus havia começado a responder
com um gemido curto e fraco.
Uma vez “traduzidas” as ondas ultrassônicas em imagens, o resultado da
flagelação apareceu diante de nós em toda a sua dramaticidade. Os carrascos,
consumados “especialistas”, sabiam muito bem quais zonas podiam tocar e quais
não. Desde o primeiro momento, chamou-me a atenção o fato incrível de que
nenhuma das costelas havia sido fraturada. A precisão dos açoites, contudo, havia
aberto os flancos de Jesus, até deixar a descoberto os feixes fibrosos – ou
aponevroses – dos músculos denteados. A dor, ao serem lesadas estas últimas
proteções das costelas, deve ter alcançado limites difíceis de imaginar. Na opinião
dos peritos da Operação Cavalo de Troia, seriam superiores a 22 “JND”.174
Certamente, amplas áreas dos músculos das costas – dorsais, infraespinhais e
deltoides – apareceram dilaceradas e pontilhadas de hematomas, que, não se
abrindo, exerceram extraordinária tensão sobre o que restava da pele,
multiplicando a sensação de dor.
Naquele exame dos tecidos superficiais, os pesquisadores ficaram surpresos ao
comprovar que os carrascos haviam escolhido as áreas mais sensíveis do corpo,
mas menos comprometedoras no que diz respeito a uma possível parada cardíaca
que talvez fulminasse o Nazareno. Elegeram principalmente as partes dianteiras
das coxas, peitorais e zonas internas dos músculos, evitando o coração, o fígado, o
pâncreas, o baço e as artérias principais, como as do pescoço.
Ao mudar a frequência dos ultrassons, passando-a para 3,5 MHz, a análise dos
órgãos internos mostrou, desde o primeiro momento, considerável perda de
sangue. O volume de sangue de Jesus foi calculado entre seis e sete litros, talvez
mais. Pois bem, depois do duríssimo castigo da flagelação, esse volume havia caído
27 por cento. Isso significa que o Galileu havia perdido, no total, desde as torturas
na sede do Sinédrio, ao redor de 1,6 litro de sangue. Uma quantidade considerável,
embora não suficiente para alterar de forma definitiva – física e psiquicamente –
uma pessoa normal. E a prova disso é que Jesus ainda teve forças para responder
às perguntas que lhe fizeram depois do castigo. Todavia, aquele derrame
circulatório deve ter-lhe provocado crescente angústia, palpitações esporádicas,
fraqueza e, sobretudo, uma sede sufocante.
Quanto à frequência cardíaca, as oscilações foram contínuas. Em alguns dos
golpes – em especial um dos últimos, que atingiria direto os testículos –, o pico
alcançou as 170 pulsações por minuto, caindo rápido para 90 e provocando o
segundo desfalecimento.
A pressão arterial, em virtude da intensa descarga de adrenalina, elevou-se
também, em alguns momentos, até 210 milímetros de mercúrio. Mas logo o
progressivo esgotamento da substância deu lugar a um domínio do sistema vago e seu intermediário, a acetilcolina, o que foi acompanhado de um decréscimo da
pressão arterial, que, já no final do suplício, traduziu-se em um total estado de
prostração.
A análise da corrente sanguínea nos permitiu também a confirmação de um
fato evidente: o sucessivo aumento dos índices de sódio, de cloro e da pressão
osmótica eram sinais inequívocos da forte desidratação que o Filho do Homem
tinha começado a experimentar.
– Quadraginta!
O golpe de número quarenta, que na realidade era o de número oitenta, se
levarmos em conta os quarenta primeiros, caiu sobre um homem praticamente
aniquilado. O Mestre, com o corpo deformado pelos hematomas e todo banhado
em sangue, pouco se movia. Seus imperceptíveis lamentos iam enfraquecendo e,
agora, só ressoava no pátio o ruído dos látegos cravando-se em sua carne e a
respiração cada vez mais ofegante dos verdugos, visivelmente esgotados.
Fazia tempo que o Nazareno havia se transformado quase em um novelo, com
a cabeça e parte do tórax reclinadas sobre os braços, em posição fetal. Os golpes,
cada vez mais lentos e espaçados, continuavam rasgando as nádegas, o ventre, os
flancos e as zonas laterais das pernas, e ferindo até mesmo as plantas dos pés.
Alguns dos soldados, aborrecidos ou comovidos por aquela selvagem
pancadaria, haviam começado a abandonar o lugar, para se ocuparem dos seus
afazeres de rotina.
Civílis, que vinha observando o progressivo esgotamento dos verdugos, dirigiu
um olhar significativo a Lucílio, o gigantesco centurião que eu havia visto no
apaleamento do soldado romano. O da Panônia compreendeu a intenção de primus
prior e, abrindo passagem aos empurrões entre os membros da corte, ergueu os
braços, pegando no ar o flagrum do soldado colocado à direita do Mestre, quando
este estava pronto para desferir um novo golpe.
A súbita presença daquela torre humana empunhando o látego de tríplice
cauda foi suficiente para que ambos os carrascos se afastassem, deixando-se cair,
quase sem respiração, nas lajes do pátio.
E a soldadesca, conhecedora da força e da crueldade do oficial, ficou em
silêncio, atenta a todos os movimentos daquele urso.
Lucílio acariciou as correias, limpando o sangue com os dedos. Depois,
colocando-se a um metro do flanco esquerdo do prisioneiro, levantou seu braço
direito e lançou um golpe preciso e feroz sobre a parte baixa das nádegas de Jesus.
A chicotada deve ter atingido o cóccix e a aguda dor reativou o sistema nervoso do
rabi, que chegou a erguer-se por alguns segundos. Mas, em meio a grandes
tremores, seus músculos falharam e ele caiu sobre os joelhos.
A soldadesca acolheu aquele calculado ataque com uma exclamação que se iria
repetindo a cada chicotada:
– Cedo alteram!
Um segundo golpe, dirigido desta vez à parte posterior do joelho esquerdo, tirou um gemido do Mestre, enquanto os mercenários repetiam, entusiasmados:
– Cedo alteram!
O terceiro, o quarto e o quinto golpes caíram sobre os rins.
– Cedo alteram! Cedo alteram! Cedo alteram!
A violência de Lucílio era tal que os astrágalos de carneiro ficavam incrustados
de carne, provocando em cada golpe copiosa hemorragia.
– Cedo alteram! Cedo alteram!
A sexta e a sétima chicotadas se centraram em cada um dos pavilhões
auditivos de Jesus. E, quase instantaneamente, de ambos os lados do pescoço,
correram grossas gotas de sangue. O Mestre inclinou a cabeça sobre a argola de
metal e o centurião buscou o flanco direito, despejando toda a sua fúria sobre o
umbigo de Cristo.
– Cedo alteram!
O selvagem impacto sobre o ventre do réu afetou de modo decisivo o seu já
castigado diafragma, praticamente cortando sua já penosa respiração. Aquele, é
provável, foi um dos momentos mais delicados do castigo. Durante alguns
segundos, que me pareceram intermináveis, a caixa torácica do Galileu
permaneceu imóvel. Mas, por fim, os músculos intercostais reagiram, aliviando a
tensão pulmonar.
– Cedo alteram!
O nono golpe, desferido pelo colosso no dilacerado flanco direito de Jesus – e
suponho que de maneira calculada sobre os músculos denteados já abertos, com a
intenção de disparar assim a bloqueada respiração do réu –, produziu um som oco,
como se os ossinhos houvessem golpeado diretamente as costelas.
O ímpeto do oficial, que havia começado a suar muito, foi tal que o corpo de
Jesus se desequilibrou e caiu sobre o lado esquerdo.
É muito provável que naquele momento outra dor – ainda que atenuada pelo
atroz calvário da flagelação – estivesse golpeando o organismo de Jesus. Refiro-me
à bexiga. De tal maneira devia estar cheia que, involuntariamente, os esfíncteres
dos ureteres se abriram, provocando abundante micção. (A julgar pelo tempo que
durou o derrame urinário, a bexiga devia conter entre 350 e 400 centímetros
cúbicos.) Por sorte, a urina, ainda que muito amarelada, não continha sangue.
Mas aquela descarga involuntária de urina serviu para provocar o riso dos
romanos e um ataque de ira muito mais violento em Lucílio, que considerou o
ocorrido um insulto pessoal. Por isso, erguendo o látego, dirigiu-o raivosamente
para os testículos do Mestre. Uma das pontas do flagrum tocou a pele do escroto e
as outras duas, a bolsa testicular.
Jesus reagiu ao golpe lacerante encolhendo-se, ao mesmo tempo que suas
pulsações se aceleravam e um gemido angustioso se confundia com o último Cedo
alteram!
Imediatamente a pulsação do Mestre baixou para 90 e ele, empalidecendo,
perdeu a consciência.
Civílis levantou de novo sua vara e ordenou aos soldados que examinassem o
réu. Depois, aproximando-se do governador, pediu-lhe instruções. Deveria
continuar o castigo?
Mas antes que Pôncio tomasse uma decisão, o brutal Lucílio insinuou que, dada
a situação do prisioneiro, o mais certo seria acabar com ele ali mesmo.
Pilatos olhou para o corpo imóvel e ensanguentado do rabi e hesitou. E sorriu
com sarcasmo. Jamais me esquecerei desse gesto. Aquele demente parecia ter se
deliciado com o selvagem castigo. Finalmente, o oficial que havia executado aquela
última parte da flagelação lançou mão de sua espada, convencido de que Pilatos se
inclinaria para a solução que propusera. Mas a água espargida sobre a cabeça e a
nuca do prisioneiro estimulou um pouco seu estado precário e ele, lentamente, foi
recobrando os sentidos.
Aquela progressiva recuperação do Nazareno levou Pilatos a prosseguir com
seu plano e, antes de retirar-se do pátio, ordenou a Civílis que cuidasse do Galileu
e o levasse à sua presença assim que fosse possível.
Eram onze da manhã. Os mercenários soltaram as cordas e, a duras penas,
puseram o prisioneiro de costas contra a coluna que havia servido para a
flagelação. Um dos soldados colocou-se de cócoras por detrás do marco e procurou
sustentar pelos ombros o maltratado corpo de Jesus. O gigante, com as pernas
estendidas sobre o lajeado, respirava ainda com dificuldade, acusando com
esporádicos estremecimentos os infinitos pontos dolorosos. Aqueles tremores foram
se intensificando e eu temi que a febre pudesse ter-se instalado no Mestre. Não me
equivocava...
Outro soldado, sempre sob a atenta vigilância de Civílis, aproximou uma
segunda vasilha dos lábios do rabi e o obrigou a beber nova dose de água com sal.
Algumas das feridas haviam começado a coagular e muitos filetes de sangue, a
secar. Os cortes dos flancos, todavia, continuavam emanando sangue, que caía
sobre as pedras no ritmo dos movimentos respiratórios, cada vez mais curtos e
rápidos.
O centurião balançou a cabeça em sinal de desaprovação. Não era preciso ser
médico para concluir que o castigo havia sido tão desproporcional que era de se
temer pela vida do prisioneiro.
Antes que fosse tarde demais, desliguei o sistema ultrassônico e apertei o
segundo cravo. Ao ativá-lo, o minicomputador alojado na “vara de Moisés” deu
passagem ao fluxo de raios infravermelhos, prontos para a análise de
“teletermografia” dinâmica.175
Como já assinalei anteriormente, as lentes “crótalos” especiais de contato me
permitiam dirigir o sistema de “teletermografia” para as áreas desejadas e, assim,
eu podia ordenar o máximo de explorações.
As imagens obtidas por esse processo foram nada menos que dramáticas. A
maior parte do corpo de Jesus, banhada com sangue venoso, oferecia uma
tonalidade vermelho-parda, ao passo que os hematomas (muito mais quentes) lançavam uma cor azul intensa.
O rastreamento nos permitiu observar que a rede arterial principal não havia
sido lesada, ainda que a vascularização cutânea e o sistema venoso superficial
(especialmente em extensas áreas dorsais) apresentassem numerosos danos.
Segundo os médicos do projeto, na hipótese de que o Mestre tivesse conservado a
vida, sua recuperação, com as técnicas e fórmulas da época, demoraria mais de
três meses.
A análise das retinas foi satisfatória. A cor amarelo-avermelhada que elas
apresentavam demonstrava que a visão estava correta. O mesmo não se podia
dizer de algumas articulações – em especial a da perna esquerda (concavidade do
póplite ou jarrete) e as dos ombros –, seriamente afetadas pelas bolas de chumbo
e astrágalos de carneiro. A temperatura dérmica dessas articulações,
extraordinariamente inflamadas, havia aumentado até 3ºC.
A alta temperatura geral (oscilante entre 39ºC e 40) veio ratificar minha
impressão inicial: Jesus tinha febre e assim permaneceria até sua morte.
O minucioso rastreamento do corpo do Galileu nos permitiu distinguir, pelo
menos, 225 pontos “quentes”, correspondentes a outros tantos impactos
provocados pelo flagrum. As escoriações, os hematomas e as dilacerações haviam
dado origem a áreas inflamadas, geralmente circulares, que marcavam com sua
alta temperatura o trágico “mapa” dos açoites.
Esse foi o “guia” da flagelação, pormenorizado pelo computador central do
módulo: costas e ombros: 54 impactos; cintura e rins: 29; ventre: 6; peito: 14;
perna direita (zona dorsal): 18; perna esquerda (dorsal): 22; perna direita (zona
frontal): 19; perna esquerda (frontal): 11; braço direito (ambas as faces): 20; braço
esquerdo (ambas as faces): 14; ouvidos: 1 em cada; testículos: 2; e nádegas: 14. A
essas lesões somavam-se numerosas estrias ou escoriações, produzidas pelas
correias dos látegos. A imensa maioria desses ferimentos tinha uma extensão de
três centímetros e a forma típica de “peso de ginástica”, deixada pelos “escorpiões”
das pontas: as bolas de metal e os astrágalos de carneiro.
Em síntese, um castigo tão brutal que nenhum dos especialistas do projeto
jamais chegou a entender como aquele homem pôde resistir.
– Basta já! Ponde o homem de pé e vestido!
A voz do oficial-chefe ressoou carregada de impaciência. E, enquanto os
soldados cumpriam a ordem, eu desliguei os circuitos da “vara de Moisés” e guardei
as lentes de contato.
Foi preciso que dois mercenários segurassem o maltratado corpo do Mestre
quando ele recuperou a posição vertical. Sua extrema fraqueza fez que seus
joelhos se dobrassem, obrigando os soldados a segurá-lo pelas axilas. Outros
romanos, a uma ordem de Civílis, acudiram para ajudar os companheiros e, assim,
evitar que o prisioneiro desabasse sobre o lajeado.
Ao ser erguido, algumas feridas – especialmente dos flancos voltaram a sangrar
aos borbotões, e os filetes de sangue escorreram rapidamente para o ventre, virilhas, coxas e pernas, até derramar-se pelo chão.
Alguém recolheu suas roupas e, depois de vestir-lhe a túnica, colocou o manto
sobre seu ombro esquerdo, envolvendo-lhe em seguida o tórax. O roupão ficou
firmemente preso sobre o peito e as costas de Jesus, de forma que, juntamente
com a túnica, fizeram as vezes da bandagem. Aqueles romanos sabiam que esse
era um excelente processo para tampar muitos cortes e reduzir a hemorragia. Senti
um estremecimento ao imaginar o que poderia ocorrer no momento em que o
Galileu fosse despojado de suas roupas. Se os coágulos ficassem colados ao tecido
– como seria natural –, a retirada da túnica significaria um novo e doloroso suplício,
com a consequente reabertura das feridas.
O sangue, que ensopou de imediato a túnica branca, começou a gotejar pelas
mangas e pela borda interna. E o esponjoso tecido logo ficou tomado por inúmeros
círculos vermelhos.
Os soldados obrigaram o Nazareno a dar alguns passos, mas, quando este mal
havia colocado os pés no chão, as forças o abandonaram e ele desmoronou. A
rápida intervenção dos soldados de Civílis evitou, porém, que ele caísse. O grupo
interrogou o centurião com o olhar, e ele, desanimado, fez sinal aos homens para
que o sentassem em um dos bancos de madeira do pórtico.
Civílis compreendeu que naquele momento era inútil conduzir o réu até o
terraço, onde deveria esperar o governador. Foi necessário que vários infantes o
acompanhassem e sustentassem.
Os tremores febris continuavam sacudindo o corpo do Nazareno, que, pouco a
pouco, passo a passo, foi conduzido pelos romanos a um dos assentos, situado na
parte oriental do pátio. Entrementes, outros haviam iniciado a limpeza do piso e da
coluna onde ocorrera a flagelação. Os cavalos voltaram para junto da fonte e seus
cuidadores continuaram escovando-lhes e friccionando o lombo com folhas de
poejo, cujo cheiro – segundo a crença popular – matava os piolhos.
O centurião tirou o elmo e, depois de meditar alguns segundos, afastou-se do
pátio em direção ao túnel que levava ao Pretório.
Devo assinalar que eu vinha observando o claudicante caminhar do Mestre e
uma visível coxeadura da perna esquerda levou-me à conclusão de que o golpe do
látego de Lucílio no jorrete havia alterado a articulação de seu joelho. (Isso seria
confirmado, como já assinalei, pelo exame “teletermográfico”.)
Jesus foi sentado, por fim, em um dos bancos e, nesse momento, um ricto de
dor se esboçou novamente em seu rosto. Era bem possível que aquele gesto
tivesse sido provocado pelos golpes no cóccix ou nos rins. Ao apoiar-se na madeira,
o osso inferior da coluna e as regiões lombares devem ter acusado o contato com o
assento e o espaldar.
Durante alguns minutos, a atitude da tropa foi pacífica, até correta. Dois
continuaram junto ao Nazareno, atentos à sua recuperação, e os demais se
juntaram a um dos círculos que vociferavam em um canto do pátio. Ao ver que o
Mestre estava mais tranquilo, não pude resistir à tentação e aproximei-me também do círculo de mercenários que, sentados ou de cócoras, concentravam sua atenção
em uma das lajes do pavimento.
Ao olhar por cima das cabeças dos soldados, vi que se tratava de um jogo (uma
espécie de “três na raia”, já descrito por Plutarco). Usando as espadas, os membros
da guarnição haviam traçado um círculo sobre a laje e gravado, no interior, uma
série de toscas figuras e letras. Pude distinguir um “B” – que servia,
aparentemente, para a chamada “jogada do rei” ou de “Basileus”, em grego – e
uma coroa real. Todas essas figuras eram separadas umas das outras por uma
linha que ziguezagueava pelo interior do círculo. Os participantes usavam quatro
astrágalos, previamente marcados com letras e cifras, os quais eram lançados
sobre o círculo, cantando-se as diferentes jogadas segundo as figuras ou letras
onde caíssem.
Aos poucos o jogo foi ficando animado e vários dos romanos cantaram jogadas
como “Alexandre”, “Dario” e “Efebo”.
Por fim, um dos jogadores teve a sorte de que um dos ossinhos fosse rodando
até a coroa e ele, então, pôde gritar a “jogada de rei”, que equivalia ao nosso
“xeque-mate” e, portanto, ao final do jogo.
Os soldados recolheram os ossinhos e aquele que havia ganho, induzido
seguramente por seu último golpe de sorte, reparou no Galileu e incitou seus
companheiros a prosseguir o jogo, “mas desta vez com um rei de verdade”... A
ideia foi acolhida com entusiasmo e o grupo se aproximou do banco disposto a se
divertir à custa daquele que se havia autoproclamado “rei dos malditos e odiados
hebreus”.
A ausência de Civílis levou os que custodiavam Jesus a hesitar no início, mas
depois eles se uniram às troças e grosserias dos companheiros.
Logo aquela dezena de mercenários enfadados e ociosos colocou--se de lado e
deu passagem a outros dois soldados.
Com ar marcial e contendo o riso, aqueles dois soldados foram caminhando em
direção ao Nazareno, que havia tornado a inclinar a cabeça, suportando com seu
habitual mutismo aquele novo e amargo transe.
Um dos que haviam começado a desfilar diante do prisioneiro trazia em suas
mãos o que, num primeiro momento, pareceu-me uma cesta de vime às avessas.
Mas quando cheguei perto do Galileu, compreendi. Não se tratava de uma cesta,
mas de um complicado “elmo”, trançado à base de sarça espinhosa. Tinha a forma
de meia laranja, com um aro ou suporte na base, formado por um feixe de juncos
verdes, estreitamente ligados por outras fibras, também de junco.
O barrete espinhoso havia sido entretecido com meia dezena de ramos muito
flexíveis, entre os quais se destacava um terrífico molho de espinhos retos em
forma de “bico de louro”, de dimensões que oscilavam entre vinte milímetros e seis
centímetros, aproximadamente.176
Era evidente que, enquanto o grosso dos soldados concentrava suas zombarias
em Jesus, aqueles dois indivíduos haviam entrado em algum armazém de lenha da fortaleza com a sinistra ideia de trançar uma “coroa” para o “rei dos judeus”.
A ideia foi recebida com aplausos e gargalhadas. E o que carregava aquele
perigoso “elmo” de delgados e pardacentos ramos inclinou-se, simulando uma
reverência, e depois ergueu a “coroa” a meio metro sobre o Mestre, para em
seguida baixá-la e enterrá-la violentamente em sua cabeça. Um alarido de
satisfação escapou das gargantas da soldadesca e afogou o gemido de Jesus, que,
ao contato com os espinhos, ergueu a cabeça abruptamente e bateu a região
occipital contra o muro sobre o qual estava encostado o banco. Aquele impacto
com a parede deve ter enterrado ainda mais os espinhos situados na zona posterior
do crânio.
O “elmo”, encaixado de modo brutal, cobriu quase toda a cabeça do réu. O aro
sobre o qual se sustentava a trança espinhosa ficou na altura da ponta do nariz,
dificultando até a visão do Mestre.
A aguda dor das vinte ou trinta farpas que lhe perfuraram o couro cabeludo, a
testa, as têmporas, orelhas e parte das faces abalou de novo o Filho do Homem,
que, com os olhos fechados, num movimento de reflexo para se proteger,
permaneceu durante segundos com a boca entreaberta, tentando inalar o máximo
de ar.
Ao ver aparecer seis copiosos fios de sangue em sua testa e têmporas, temi
que os espinhos lhe houvessem perfurado a veia facial, que corre do queixo à
região ocular. Aproximei-me o quanto pude de seu rosto, mas não cheguei a
distinguir espinho algum cravado na área que cruza aquela veia. Outros, porém,
haviam perfurado a testa e a região molar direita. Um daqueles espinhos, em
forma de gancho, penetrara a poucos centímetros do supercílio esquerdo (no
músculo orbicular), dando lugar a uma intensa hemorragia, que cobriu rapidamente
o arco superciliar e inundou de sangue o olho, a face e a barba.
A profusa emissão de sangue indicava que os ferrões haviam afetado
gravemente a aponeurose epicraniana (situada logo debaixo do couro cabeludo). A
retração dos vasos rompidos pelos ferrões nessa área – muito vascularizada – foi
imediatamente notada. O sangue começou a fluir em abundância, gotejando sem
cessar da barba ao peito.
Mas os soldados, não satisfeitos com esse bárbaro atentado, foram em busca
do manto vermelho que havia ficado no chão e o lançaram sobre os ombros de
Jesus. Outro mercenário pôs uma vara entre suas mãos e, ajoelhando-se, declarou,
ante o regozijo geral:
– Salve o rei dos judeus!
As reverências, imprecações, cusparadas e pontapés nas pernas do Nazareno
foram-se amiudando entre aquele grupo, cada vez mais animado com os ultrajes.
Um dos soldados pediu passagem e, colocando suas nádegas a poucos centímetros
do rosto de Jesus, levantou a túnica e se pôs a expelir gases intestinais com grande
estrépito, o que provocou novas e estridentes gargalhadas.
O divertimento da soldadesca foi subitamente interrompido pela presença do gigantesco Lucílio, atraído, sem dúvida, pelo alvoroço dos homens. Observou a
cena em silêncio e, com um sorriso de cumplicidade, colocou-se diante do réu. Os
soldados, intrigados, fizeram silêncio. E o centurião erguendo a roupa, começou a
urinar sobre as pernas, o peito e rosto de Jesus de Nazaré.
Aquela nova injúria arrastou os romanos a uma estrepitosa e coletiva
gargalhada, que se prolongaria por mais tempo do que durou o ultraje.
Meu coração se sentiu tão angustiado e ferido como se aquelas ofensas
tivessem sido feitas a mim. Abatido, recostei-me na parede com um só desejo: que
Civílis chegasse.
Meus desejos foram atendidos. O comandante das forças auxiliares entrou no
pátio central da fortaleza Antônia no momento em que um daqueles desalmados
arrancava a vara das mãos do Nazareno e com ela desferia um forte golpe sobre o
“elmo” de espinhos.
As risadas dos mercenários cessaram no mesmo instante, diante da súbita
chegada de Civílis. Quando o centurião interrogou um dos guardiães sobre aquele
novo escárnio, os soldados encolheram os ombros, responsabilizando os
companheiros. Mas estes já se haviam dispersado entre as colunas e pelo pátio.
Visivelmente aborrecido com a indisciplina de seus homens, o oficial ordenou
aos soldados que pusessem o condenado em pé e o seguissem. E assim o fizeram,
enquanto Jesus de Nazaré, um pouco mais refeito, ainda que submetido a
constantes calafrios, começava a caminhar para o túnel, quase arrastando a perna
esquerda.
Ao seu lado e atentos ao Galileu, avançaram também outros três soldados, que
não se separariam do réu até o momento de seu retorno ao cenário da flagelação.
Eram onze e quinze da manhã...
O sol, cada vez mais alto, iluminou a figura de Jesus ao sair do Pretório. Ao vê-
lo, a multidão que aguardava diante da escadaria deixou escapar um murmúrio,
inevitavelmente surpresa diante do lamentável aspecto do réu.
A escolta parou no centro do terraço, à esquerda da poltrona em que Pilatos
esperava. Este, ao ver o elmo de espinhos sobre a cabeça do Mestre, voltou-se
nervoso e indignado para Civílis, e o interrogou, enquanto apontava com o
indicador para a cabeça do rabi. Ignoro o que teria dito o centurião. Minha atenção
havia ficado presa no Galileu. Ao parar em frente à multidão, Jesus – curvado e
com os dedos entrelaçados, tentando assim dominar os tremores que o consumiam
– percebeu a cálida presença do sol e, como se quisesse absorver a doce carícia de
seus raios, foi erguendo o rosto até situá-lo de frente para o disco solar. Durante
alguns segundos, suas profundas olheiras e a máscara de sangue que ocultava seu
rosto foram perfeitamente visíveis para todo o povo. Mas ao fazer isso, as farpas da
coroa lhe perfuraram a nuca mais uma vez. E a dor o forçou a baixar de novo o
rosto.
João Zebedeu, paralisado diante daquela trágica mudança do Mestre, soltou o
braço de José de Arimateia e precipitou-se até Jesus, ajoelhando-se e chorando a seus pés. Os soldados interrogaram o centurião com o olhar, prontos para separar
o amigo do prisioneiro, mas Civílis, estendendo a mão esquerda, fez sinal para que
o deixassem.
Durante alguns minutos, tanto Pilatos quanto a multidão ficaram surpresos com
o desolado pranto. E um respeitoso silêncio reinou no pátio.
Por duas vezes o Mestre tentou inclinar-se para João e tocar, com suas mãos
trêmulas e ensanguentadas, o discípulo; mas aquele suplício em sua cabeça e a
rigidez das cordas que as prendiam não permitiram.
Aquele novo gesto de bravura do discípulo e o semblante derrotado do Mestre
comoveram, sem dúvida, o governador. Levantando-se de sua poltrona, o romano
caminhou até a borda da escada e, apontando Jesus, sem perder de vista Caifás e
os saduceus, exclamou, numa tentativa de provocar a piedade dos acusadores:
– Tendes aqui o homem...! De novo vos declaro que não o acho culpado de
crime algum... Depois de castigá-lo, quero dar-lhe a liberdade.
Uma vez mais Pilatos se equivocava. E ainda que a multidão não se atrevesse a
replicar, o sumo sacerdote e seus homens responderam entoando o conhecido
“crucifica-o”.
A multidão, assim induzida, foi-se unindo, pouco a pouco, às manifestações dos
sinedristas, gritando em coro:
– Crucifica-o!... Crucifica-o!...
Decepcionado, Pilatos voltou ao tribunal e esperou que o populacho se
acalmasse. O vento, cada vez mais quente e desagradável, havia começado a
erguer grandes torvelinhos de poeira que vinham do leste e açoitavam com maior
dureza aquela ala norte da fortaleza Antônia. Civílis logo percebeu a mudança do
tempo e, depois de verificar que as sentinelas de serviço nos torreões da muralha
buscavam proteger-se do fortíssimo vento, olhou para mim fixamente, lembrando-
me, com sua fisionomia grave, do presságio que eu lhe havia feito naquela mesma
manhã. Eu assenti com um movimento da cabeça.
Mas nosso “diálogo” silencioso foi interrompido pela voz do governador.
Acalmada a turba, Pôncio, com a mão direita protegendo a peruca (muito
comprometida pelo incipiente siroco), falou aos hebreus com inconfundível tom de
desalento em suas palavras:
– Reconheço perfeitamente que vós haveis decidido pela morte deste homem.
Mas que fez ele para merecer a condenação...? Quem deseja enunciar seus crimes?
Congestionado pela ira, Caifás subiu as escadas e, depois de cuspir em Jesus,
colocou-se diante do governador, gritando-lhe:
– Temos uma lei sagrada pela qual este homem deve morrer. Ele mesmo
declarou ser filho de Deus... bendito seja seu nome!
E, voltando a cabeça para o cabisbaixo réu, lançou-lhe outra cusparada.
Pôncio olhou para Jesus com um súbito medo. O sangue continuava gotejando
de sua testa e manchando o manto de João, que, ajoelhado e abraçado aos pés de
seu Mestre, não parecia prestar atenção alguma ao que estava ocorrendo.
Caifás retomou com passos decididos para seu lugar à frente da multidão e
Pôncio, com a face pálida e os cabelos em desordem, golpeou os braços da
poltrona com ambas as mãos, ordenando a Civílis que levasse o galileu para dentro
de sua casa.
Os soldados fizeram Jesus dar meia-volta e o conduziram ao saguão.
Obedecendo a um impulso, abaixei-me sobre João, animando-o para que se
levantasse e parasse de chorar. Depois, passando meu braço sobre seus ombros e
aconchegando seu rosto contra meu peito, levei-o ao interior do Pretório.
Pilatos, com as mãos nas costas, havia começado a dar curtos passeios pelo
centro do vestíbulo. Enquanto isso, Civílis e os soldados aguardavam a pouca
distância da porta.
Ao me ver, o governador interrompeu seus passos nervosos e, dirigindo-se a
mim, interrogou-me em voz baixa, como se temesse que o ouvissem:
– Jasão, tu crês de verdade que este galileu pode ser um deus que desceu à
Terra como as divindades do Olimpo?
Os olhos claros do romano brilhavam e se agitavam, tomados de um medo
supersticioso e – em minha opinião – cada vez mais profundo. Mas Pôncio não
esperou minha resposta. Após alisar a peruca, deu meia-volta e aproximou-se do
Mestre, perguntando-lhe com voz trêmula:
– De onde vens? Quem és na realidade...? Por que dizes que és filho de
Deus...?
O Nazareno ergueu o rosto levemente, pousou um olhar cheio de piedade sobre
aquele débil juiz, doente mental e encurralado por suas próprias dúvidas. Mas os
lábios trêmulos do Mestre não chegaram a articular palavra alguma.
Pilatos, cada vez mais descomposto, insistiu:
– Negas-te a responder? Não compreendes que ainda tenho poder suficiente
para libertar-te ou crucificar-te?
Ao ouvir aquelas advertências ameaçadoras, o Galileu respondeu, por fim, com
um fio de voz:
– Não terias poder sobre mim sem a permissão de cima...