Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
7 de abril, sexta-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
da consequente sensação de frio. Então, ao reparar melhor em sua boca, descobri
com espanto que a bela dentadura do rabi estava quebrada. Agachei-me ao lado
de Longino e, tocando com meus dedos o lábio inferior do Nazareno, deixei os
dentes à mostra. Um dos incisivos inferiores havia desaparecido e o outro ficara
reduzido a apenas uma parte. Aquelas perdas só podiam ter ocorrido em alguma
de suas quatro quedas. Em minha opinião, na primeira ou na quarta.
Ao notar a suave pressão de dedos baixando-lhe o lábio inferior, Jesus abriu os
olhos como pôde. O esquerdo estava praticamente fechado pelos hematomas e
pela ruptura do supercílio. Meu olhar deve ter sido tão intenso e compassivo que
percebi uma faísca de agradecimento naquela pupila. A hipotonia ou “brandura” do
globo ocular era tão evidente que me convenci da ocorrência de uma gravíssima
desidratação.
A temperatura labial era muito elevada. Sem conseguir me conter, comentei
com o oficial o delicado estado do réu. Longino levantou-se e, com um gesto de
preocupação, dirigiu-se para a estrada e se pôs a observar os transeuntes. No
início, estranhei aquela reação do capitão da escolta. Depois, compreendi por que
se havia separado do pelotão.
Enquanto o Galileu ia recobrando o sentido, um grupo de vinte ou trinta
mulheres apareceu sob o arco de Efraim. Sem dúvida, vinham ao encontro do
Mestre, porque, ao descobri-lo ao pé da muralha, pararam. Depois avançaram
tímidas, mas quando estavam a uns três metros, um dos romanos cortou-lhes o
caminho com sua lança.
Fiquei de pé e busquei ansiosamente pela mãe do Mestre. Logo me dei conta, porém, de que aquela tentativa de identificação era ridícula. Eu não conhecia
Maria. As mulheres começaram a chorar. Foram lágrimas silenciosas e amargas.
O Galileu girou a cabeça e, ao contemplar o grupo de judias, respirou fundo.
Depois, para surpresa geral, exclamou com voz rouca:
– Filhas de Jerusalém...! Não choreis por mim. Chorai mais por vós mesmas e
por vossos...
O vento golpeava os mantos das hebreias, que não paravam de soluçar. E
Jesus, após uma breve pausa, acrescentou:
– Minha missão está quase cumprida. Logo irei para meu Pai... mas a época de
terríveis males para Jerusalém está apenas começando...
Os calafrios se agravaram e Jesus, num último esforço, concluiu:
– Vereis chegar o dia em que direis: “Benditas as estéreis e aquelas cujos seios
não amamentaram seus bebês...”. Nesse dia, pedireis às rochas que caiam sobre
vós, para livrar-vos do terror de vossas atribulações...
Aquelas mulheres haviam sido corajosas. Muito mais do que os discípulos e
amigos do Mestre. Com exceção de João Zebedeu, de José de Arimateia e do
jovem João Marcos – a quem encontraria poucos minutos depois –, os demais não
haviam tido coragem suficiente para seguir seu Mestre, nem mesmo à distância. O
Nazareno, mesmo em meio à sua turbação, percebeu isso, e talvez fosse esse o
motivo daquelas palavras ao grupo de seguidoras que ali estava.
O soldado, empunhando o pilum com ambas as mãos, obrigou as judias a
recuarem. Uma delas, porém, em vez de obedecer, avançou até o soldado,
mostrou-lhe uma moeda e depois sussurrou-lhe alguma coisa ao ouvido. O soldado
aceitou a moeda e, depois de comprovar o que a mulher trazia na outra mão,
deixou-a passar. A hebreia, que eu já havia visto nas fainas domésticas do
acampamento de Getsêmani, correu para o rabi e, cravando os joelhos ao solo,
estendeu sua mão esquerda e depositou-lhe algo nos lábios. Eram passas. Passas
de Corinto! Um dos frutos preferidos de Jesus...
A boa mulher conseguiu introduzir até três passas na boca do Mestre. Não
houve tempo para mais nada. O mesmo soldado que a havia deixado passar voltou
até ela e forçou-a a se afastar.
Comovido com aquele derradeiro gesto de amor pelo Filho do Homem, nem vi a
aproximação de Longino. Com ele havia um homem corpulento, de seus cinquenta
anos, de pele branca, ainda que ligeiramente esverdeada. Cobria-se com um
turbante e sua roupagem se diferenciava da comum dos hebreus pelas calças de
cor esverdeada brilhante, muito folgadas e recolhidas no meio das pernas.
Pelo que pude observar, falava apenas grego, e com evidente dificuldade. A
uma ordem do centurião, ele carregou o patibulum de Jesus. Os soldados se
ergueram e renovaram seus açoites sobre as costas dos zelotes. O optio voltou à
vanguarda do pelotão, enquanto Longino fazia sinal a dois de seus homens para se
ocuparem do terceiro prisioneiro. Os soldados penduraram seus escudos à
bandoleira e ergueram o Galileu pelas axilas.
A comitiva dividiu-se então em duas partes. Em primeiro lugar, os rebeldes,
com Arsenius abrindo o cortejo. Atrás, a cerca de cinco ou dez metros, outros
quatro verdugos, dois deles sustentando o rabi. E imediatamente depois, fechando
o pelotão, o chamado Simão, natural de Cirene, um país situado, então, no norte
da África, entre o Egito e a Tripolitânia.
Durante o tempo em que Cristo permaneceu pendurado na cruz, tive
oportunidade de trocar algumas palavras com aquele cireneu, escolhido pelo
centurião por sua força física. Segundo me contou, Longino se fixara nele quando
se dirigia, em companhia de amigos e peregrinos compatriotas, pela rota de Jafa,
do acampamento para o Templo. Como judeu, tinha a intenção de assistir aos
ofícios rituais daquela sexta-feira. Mas seu propósito se viu frustrado pela
inesperada chamada do oficial romano.
Ele não vinha, portanto, de nenhuma fazenda, como pretendem numerosos
comentaristas bíblicos. Aquele Simão, como outros muitos peregrinos, havia
acorrido à festa de Páscoa e, não dispondo de melhor albergue, montara sua tenda
muito próximo das muralhas. Daí o erro de Marcos (15,21) quando afirma que ele
“voltava do campo”.
É certo que, naquele instante, Simão de Cirene praticamente não conhecia
Jesus. Já tinha ouvido algo, de fato, sobre seus prodígios e curas, mas, pelo menos
naquele histórico momento, a tragédia do Filho do Homem não o afetava nem um
pouco. Cumpriu o que lhe ordenaram e depois permaneceu por perto das cruzes
por mera curiosidade.
Anos mais tarde, no entanto, tanto ele como seus filhos Alexandre e Rufus se
converteriam em eficientes pregadores do Evangelho no Norte da África.
Envoltos pela sibilante tempestade de areia, os soldados cruzaram o caminho
dispostos a vencer os últimos metros que nos separavam do lugar da execução.
Os homens que ajudavam o Nazareno passaram os braços dele pelos ombros e
o seguraram pela cintura e por ambos os pulsos. E assim, inválido, movendo a
perna direita com dificuldade e com a esquerda inutilizada, aquele despojo humano
foi socorrido e trasladado até o pé do Gólgota. De acordo com meus cálculos, a
“via-crúcis” representara um total de 480 metros, aproximadamente.
Eram 12h30 de sexta-feira, 7 de abril.
Meio cego pelas partículas de pó e terra, estive a ponto de tropeçar nas rochas
calcárias que se amontoavam por aquela paragem, a noroeste da cidade. Sem
saber, eu já estava ao pé do “Râs” ou “Cabeça”, também conhecido por Calvário e
Gólgota.182
Não obstante a visibilidade ser ainda aceitável, os redemoinhos de areia
dificultavam meu primeiro exame do lugar. Só depois da morte do Nazareno – e
uma vez acalmada a tormenta e com o sol “livre” do singular fenômeno que se
registraria pouco depois das 13h30 –, pude analisar com certo sossego o ponto
onde eu realmente estava.
O centurião e seus homens conheciam bem aquele monte rochoso – pois é disso que se tratava aquele local na realidade – e se apressaram a atingir o cume.
O primeiro e maior dos penhascos (pois a formação abarcava dois maciços
praticamente contíguos) tinha uma altura máxima de seis ou sete metros,
tomando-se como referência o nível do caminho que quase tocava as bases dos
dois promontórios.
Ao iniciar a ascensão pelas erodidas crostas de carbonato de cal, o que primeiro
me chamou a atenção foi a escassíssima vegetação existente no lugar e a forma
arredondada do cerro. É muito provável que a nudez da rocha observada de uma
certa distância tivesse feito voar a imaginação dos habitantes de Jerusalém,
levando-os a dar ao penhasco o nome de “Crânio”.183
O lugar, na verdade, era ideal para esse tipo de execuções públicas: erguia-se
a uma centena de metros da mencionada porta ocidental de Efraim e, como já
disse, ao pé do movimentado caminho para Jafa. Se realmente se pretendia
impressionar os habitantes e peregrinos da Cidade Santa, aquele constituía um
ponto de notável interesse.
No que concerne às dimensões do Gólgota ou “Cabeça” (e faço referência a
essa denominação – “Râs” – porque se trata da última explicação oferecida pelo
prestigioso arqueólogo Vicent, segundo o que pude ouvir de um velho habitante do
bairro do atual Santo Sepulcro), o cume mais volumoso, sobre o qual iriam ser
realizadas as crucificações, suponho que teria entre vinte e trinta metros de
diâmetro na base, com um cume ou coroa de forma arredondada, com cerca de
doze ou quinze metros. Quanto ao penhasco situado imediatamente ao norte, suas
dimensões eram bem menores.
Aquele, em definitivo, iria ser o cenário de toda uma série de trágicos e
desconcertantes eventos.
Como descrever aquele lugar e aquele momento? Como transmitir a imensa
solidão de Jesus de Nazaré ao pisar a calva pedregosa do Gólgota?
Hoje, ao defrontar-me com esta parte de meu diário, sempre fico a ponto de
abandoná-lo. A mim também faltam forças, abalado pelas recordações. E se voltei
ao relato desta primeira “grande viagem” foi por respeito à promessa feita a meu
irmão Eliseu... Espero que aqueles que chegarem a ler este testemunho saibam
perdoar a pobreza de minha linguagem.
A ascensão até a plataforma redonda que coroava o penhasco – que creio já
haver dito ter uns doze a quinze metros de diâmetro – foi muito breve. Os soldados
tomaram uma espécie de canal situado do lado leste e que outra coisa não era
senão uma fenda natural, consequência de algum remoto abalo da enorme massa
pétrea. Foram suficientes vinte passos para ganhar a zona superior, que resisto a
chamar de cume.
Ao pisar aquele lugar, meu espírito se encolheu. As rajadas de vento, mais do
que silvar, uivavam entre meia dúzia de altos postes, firmemente cravados nas
fissuras da rocha. Eram as stipes, palus ou staticulum, como se designavam os
madeiros verticais das cruzes.
Foi medo o que senti ao ver aqueles troncos rugosos? Agora, à distância,
suponho que deva ter sido uma mistura de terror e decepção. Terror, por seu perfil
negro e pontiagudo, e decepção porque, influenciado, quem sabe, pelas incontáveis
tradições e imagens da Cruz bíblica por excelência, em minha mente havia sido
forjada uma estampa muito diferente da que tinha diante dos olhos. Nada havia ali
em comum com as majestosas, polidas e até esmeradas cruzes que têm sido
representadas pelas igrejas e por quase todos os mestres universais da pintura e
da escultura.
Diante de mim, quase no centro da lombada convexa do Gólgota, só havia seis
“árvores”, mutiladas, nuas, mostrando aqui e ali as “cicatrizes” circulares e
esbranquiçadas onde antes haviam florescido tantos ramos. Ainda conservavam a
cinzenta e áspera cortiça própria das coníferas, com alguns filetes resinosos
solidificados entre as irregularidades de sua superfície.
Quase todas apresentavam na parte inferior uma infinidade de marcas, que
permitiam ver a face sólida da madeira. Mas naquele momento eu não consegui
descobrir a que se deviam.
Nas pontas, as stipes – cuja altura oscilava entre três e quatro metros –
apareciam muito toscamente afiladas. Era como se os responsáveis pelos patíbulos
tivessem pretendido emprestar-lhes uma conotação maliciosa a golpes de
machete... Eram as únicas áreas claras daqueles sinistros fantasmas alinhados em
duas fileiras quase paralelas. Nas pontas, as seis árvores apresentavam grandes
rachaduras, em forma de forquilhas. O espaço entre os postes – na primeira fileira
– não chegava a três metros. Quanto aos outros, haviam sido enterrados quatro ou
cinco metros mais atrás, e um deles, o situado do lado oeste, estava inclinado.
Sem dúvida, as cunhas de madeira que serviam para estaquear a árvore haviam
cedido.
Dois deles – e isso também me causou estranheza – haviam sido perfurados,
mais ou menos a um metro do solo, por grandes barras de ferro que ficavam a
descoberto de um lado e do outro dos postes.
Os sedilis em questão (essa foi a única identificação que me veio à memória)
haviam sido dispostos no madeiro central da primeira fileira e no que se elevava à
esquerda deste, ou seja, no que ocupava a extremidade leste da primeira fila de
stipes. Eu não sabia, mas a presença daquele último sedilis184 adquiriria certa
transcendência no que se poderia qualificar de “diálogo” entre o Galileu e um dos
zelotes.
Durante alguns minutos que me pareceram intermináveis, tanto os “bandidos”
como Jesus permaneceram com os olhos fixos naqueles postes. O silêncio,
quebrado pela tempestade, foi dramaticamente significativo.
Mas aquela tensa situação duraria pouco. Sete soldados tomaram posição,
rodeando as três primeiras árvores, enquanto o que havia carregado o saco de
couro remexia em seu interior para dele retirar uma série de ferramentas. O
sangue gelou-me nas veias ao ver um molho de cravos (creio lembrar que contei quinze), dois martelos providos de grandes cabeças quadrangulares, de madeira,
tenazes de ensebados cabos de couro, uma corrente de um metro de comprimento
e um machete curto e de lâmina larga.
Os terroristas, hipnotizados ao pé das stipes, saíram imediatamente de seu
mutismo. Dois membros da patrulha haviam começado a soltar a corda que
amarrava ao patibulum o mais idoso dos zelotes. Aquela foi a faísca que incendiou
um de seus últimos ataques de histeria e desespero. Ao intuir que havia sido
escolhido como primeira vítima, pôs-se a uivar, sacudindo o madeiro com os braços
e desferindo patadas nos mercenários. Longino, que parecia esperar por aquela
reação, ordenou algo a um terceiro soldado. Este se colocou por trás do réu e,
agarrando-o pelos cabelos, deu-lhe um forte puxão e o imobilizou. Sem perder um
segundo sequer, o centurião empunhou sua lança e, com a base da haste, desferiu
um golpe seco na cabeça do prisioneiro, que desmaiou.
Depois de solto das cordas o prisioneiro, enquanto era seguro por dois soldados
era também despojado por aquele que o havia antes imobilizado, da maltratada
túnica, só ficando de tanga. Com uma precisão e agilidade que me deixaram
perplexo, aqueles romanos deitaram de costas o inconsciente guerrilheiro e depois
esticaram (a expressão mais exata seria retesaram) seus braços sobre o madeiro.
Tratando-se de um patibulum cilíndrico, cada um dos infantes encarregados de
esticar os braços se ajoelhou em frente a uma das extremidades do lenho,
prendendo-a com joelhos e coxas. Dessa forma, conseguiram uma aceitável
estabilidade durante o processo de encravamento.
Quando os carrascos consideraram que o patibulum estava retesado por
completo fizeram um sinal com a cabeça e o soldado responsável pelos
equipamentos postou-se à cabeceira, ajoelhado sobre a rocha branca. Seus joelhos
musculosos fecharam-se em torno do réu, praticamente esmagando-lhe as orelhas.
Simultaneamente, e ainda que esta última medida de segurança não parecesse
necessária no caso do inerme “bandido”, um quarto mercenário juntou-lhe os
tornozelos e os prendeu com a corrente.
O soldado que se colocara por trás do réu, para controlar sua cabeça, extraiu
um longo cravo que havia posto no interior de seu cinturão. À sua direita, no solo,
descansava um dos sólidos martelos.
O Mestre, que, ao se ver desassistido, havia caído de joelhos sobre o solo do
Calvário, continuava na mesma posição, dentro do círculo formado pelo pelotão e
de frente para as stipes. Não creio, porém, que chegasse a contemplar aquela
cena. Sua cabeça e sua vista estavam voltadas para o solo, e assim continuaria até
que fosse requisitado pelos homens de Longino.
Com a meticulosidade própria de um profissional de grande experiência no
sinistro mister, o executor romano tomou o cravo na mão direita e foi apalpando
com a afiada ponta os diversos ossinhos do carpo, ou pulso esquerdo, pela face
palmar. Procurava localizar as artérias radial e cubital, pressionando suavemente a
veia que leva este último nome. Quando conseguiu achar, fez uma pequena incisão na pele, mudou o cravo de mão e colocou em posição vertical, sobre o ponto
escolhido. Ato contínuo, agarrou o martelo e levantou os olhos, à espera de que o
oficial o autorizasse a golpear. Longino assentiu com uma leve inclinação de
cabeça, e o carrasco aproximou o martelo até tocar de leve a base de cobre. Em
seguida, ergueu-o por cima da orelha direita e o lançou com força sobre o cravo.
A seção quadrada – de uns oito milímetros – penetrou sem dificuldade,
atravessando a munheca e abrindo também a madeira do patibulum. O cravo – de
uns 20 ou 25 centímetros de comprimento – havia-se inclinado ligeiramente ao
penetrar no carpo. Sua cabeça aparecia agora na direção dos dedos. Naquele
momento, com o coração bombeando acelerado, não reparei num detalhe que
depunha muito em favor da perícia do verdugo...
Com uma segunda pancada – muito menos violenta do que a anterior –, o
cravo penetrou um pouco mais. A base dele havia ficado a uns dez centímetros da
pele. O sangue não tardou mais do que dois ou três segundos para brotar.
O guerrilheiro, que continuava inconsciente, não reagiu. E o verdugo apressou-
se em repetir a operação sobre o pulso direito. Dessa vez, não olhou para o
centurião. Mais duas marteladas foram suficientes para fixar o réu no madeiro.
Curiosamente, a base do cravo voltou a mostrar-se oblíqua. Percebi, então, que
ambos os polegares se haviam dobrado de modo brusco para o centro da palma
das mãos. Os outros dedos, entretanto, apenas tinham-se flexionado. (O exame
dos pulsos do Mestre com ultrassons nos permitiu formular uma hipótese –
confirmada por estudos anatômicos posteriores sobre a causa desse fenômeno.)
Das munhecas do zelote, ao serem perfuradas, dois borbotões de sangue
emergiam lentamente, escorrendo pelo córtex do lenho e formando grandes poças
sobre a rocha. Ainda que as hemorragias não fossem preocupantes, a visão do
sangue e o encravamento de seu companheiro provocaram a explosão do abalado
sistema nervoso do jovem terrorista. Com ar suplicante, ele se arrastou de joelhos
até Longino. Uma vez a seus pés, afundou a cabeça no solo, pedindo aos gritos que
tivesse compaixão dele. Durante frações de segundo, os olhos do centurião se
empanaram com uma sombra de piedade. Ergueu as mãos em sinal de impotência
e, procurando fazer com que o réu não se apercebesse, pediu o pilum ao infante
mais próximo. Longino não podia evitar a crucifixão do jovem, mas podia poupá-lo
das dolorosas perfurações dos cravos nos pulsos. E, levantando a lança com as
duas mãos, preparou-se para golpear o crânio do aterrorizado prisioneiro.
– Alto! Que buscais aqui?
Os gritos de uma das sentinelas obstaram o propósito do oficial. Ao se virar, viu
um grupo de seis ou sete mulheres que subia com passo decidido pela fenda do
penhasco. Longino esqueceu-se do réu e adiantou-se ao encontro das hebreias. As
mulheres trocaram algumas frases com o centurião, mostrando-lhe um pequeno
cântaro de barro vermelho.
O chefe da patrulha tranquilizou seus homens, permitindo que as judias
chegassem ao alto do Calvário. Uma vez ali, a que carregava a vasilha dirigiu-se até o guerrilheiro que acabava de ser encravado. Uma segunda mulher a seguiu e
as demais permaneceram em silêncio mais atrás, protegendo-se das afiadas
rajadas de vento com seus amplos mantos negros e verdes.
Ao verem que aquele homem jazia inconsciente, as decididas mulheres se
voltaram para Longino. O centurião, adiantando-se a seus pensamentos, indicou-
lhes o segundo réu, que continuava sob o peso do patibulum, sangrando e
chorando desesperadamente.
Mas antes que as filhas de Jerusalém abrissem o cântaro e cumprissem o velho
conselho do livro dos Provérbios – “dá bebida forte ao que vai perecer e vinho à
alma amargurada” –, o oficial fez sinal aos seus homens para que concluíssem o
içamento do primeiro “bandido”. A escada foi apoiada contra uma das stipes da
primeira fileira (a situada a oeste), enquanto outros soldados erguiam, não sem
alguma dificuldade, o lenho em que havia sido cravado o condenado. Sem perda de
tempo, o verdugo responsável pelas perfurações amarrou uma corda ao redor do
tórax e depois deu dois rápidos nós em cada uma das extremidades do patibulum.
Por último, ostentando grande destreza, arrematou a amarração com uma laçada
central.
Um quarto soldado colocou-se no alto da escada e os que apoiavam o
guerrilheiro o transportaram até o pé do madeiro vertical. O autor das perfurações
estendeu a corda ao companheiro que estava na escada e este a introduziu na
ranhura superior do lenho. Imediatamente, começou a puxar a grossa corda,
ajudado do solo pelo optio. A cada puxão, a corda, ao contato com a stipe, emitia
um chiado agudo que se confundia com o desesperado alarido do segundo zelote.
Em questão de um minuto e meio, o patibulum foi içado. O lugar-
-tenente de Longino esticou ao máximo a corda e, antes que o romano que estava
no alto da escada a soltasse, os três soldados que vigiavam a ascensão do réu
acudiram Arsenius, sustentando no ar o preso e o patibulum.
Ao se desfazer da corda, o soldado situado na parte superior prendeu-a nos
dois ramais da laçada central, arrastando o tronco até a ponta da stipe. Uma vez
enfiado o patibulum, o infante deu um grito e os quatro romanos deixaram em
liberdade o longo cabo. Com um rangido, o lenho deslizou para baixo até ficar
encaixado no poste.
O corpo do “bandido” cedeu ao próprio peso e seus braços se distenderam ao
máximo, formando um ângulo de 65 graus com a stipe. Essa terrível freada fez que
as feridas da munheca se abrissem, provocando ainda a distensão dos ligamentos
das articulações dos ombros e dos cotovelos.
A dor deve ter sido tão insuportável que o infeliz reagiu e recobrou os sentidos.
Seus olhos queriam sair das órbitas. Mas a posição forçada em que ficara lhe havia
quase bloqueado o aparelho respiratório, e a boca, desarticulada, não conseguiu
emitir som algum. Não obstante, os soldados já não pareciam ter muita pressa.
Antes de descer da escada, o mercenário pegou o martelo e deu várias pancadas
n o patibulum, para deixá-lo mais seguro. Depois, pegou das mãos do optio a tabuinha em que se lia o nome de Gistas e cravou-a sobre a parte superior da
recém-formada cruz, um palmo acima do madeiro transversal.
Os duzentos curiosos que haviam acompanhado a patrulha e que agora iam
tomando posição ao redor da rocha, prorromperam em gritos e exclamações de
protesto ao ver que o soldado acabava de cravar o “INRI” do zelote. De fato,
Longino tinha razão. Se a comitiva tivesse se aventurado pelas ruas de Jerusalém
com os dois zelotes, quem sabe do que teria sido capaz o populacho.
Pouco a pouco, o grupo inicial de observadores judeus foi sendo multiplicado
pelos peregrinos que iam e vinham pela rota de Jafa. Muito próximo, na primeira
fila – cerca de dez metros em linha reta –, distingui vários saduceus, entre os quais
Judas Iscariotes, com a cabeça coberta por um manto. (Ignoro se por temor de
possíveis represálias dos amigos e seguidores do Mestre, ou se para se proteger,
como outros, dos turbilhões de areia que varriam aquela parte extramuros da
cidade.)
Sinceramente, ao ver o traidor, meu desejo foi descer do Gólgota e unir-me a
ele. Seu estranho suicídio era um dos episódios que eu gostaria de ter podido
esclarecer. Mas a missão especificava com clareza que eu não deveria separar-me
de Jesus naqueles críticos momentos.
O encarregado do encravamento apanhou o martelo e, colocando--se diante do
condenado, apoiou o joelho direito no chão, tirou outro cravo do cinto e fez um
aceno aos companheiros. Um deles tomou o pé direito do réu, esticou-lhe a perna e
ajustou a planta do pé à superfície da stipe. Essa manobra deixou no nível da pele
um dos ossos do tarso – o astrágalo –, que serviu de referência ao hábil verdugo.
Com uma só martelada, ele enterrou o cravo sobre o osso e o costurou à madeira.
A dor percorreu o corpo de Gistas e transformou-se num instante em uivo. E antes
que outro romano flexionasse a perna esquerda do zelote para assentar a palma do
pé sobre o poste, um jorro de sangue espalhou-se por debaixo do pé recém-
cravado e precipitou-se pela árvore até as cunhas que a escoravam.
Ao uivo seguiu-se uma série de berros entrecortados. O diafragma do zelote
havia começado a se ressentir e sua respiração entrou em angustioso
enfraquecimento. Em poucos minutos, entre um bramido e outro, o desesperado
homem começou a arquejar, multiplicando curtas e dramáticas inspirações de ar.
Aqueles gritos – mistura de espanto, dor e raiva – tiraram de seu isolamento o
jovem terrorista. Ele levantou penosamente a cabeça e, ao ver seu companheiro,
empalideceu e começou a transpirar.
Os soldados concluíram o encravamento do prisioneiro, cujo pé esquerdo ficou
a dez ou quinze centímetros por cima do direito.
A visão do sangue correndo em abundância pela stipe acabou por provocar
espasmos no segundo guerrilheiro, que não tardou a vomitar.
Longino apressou seus homens para que desatassem Dimas. O infeliz, aturdido
e tremendo de medo, não opôs resistência. Depois que ele foi despido, as mulheres
receberam do centurião o sinal para que lhe ministrassem aquela poção que traziam.
Antes, porém, quatro mercenários rodearam o réu e ameaçaram cravar-lhe a
ponta de suas lanças nos rins, nas costas e no ventre. Os tremores do “‘bandido’”
intensificaram-se e seus joelhos começaram a oscilar.
Contagiadas pelo pavor do condenado, as judias encheram com as mãos
trêmulas uma funda taça de madeira com um líquido amarelento-
-esverdeado contido no cântaro. Ao me aproximar, cheguei a sentir o cheiro da
beberagem, identificando entre seus ingredientes o odor particular do fel, ou bile
de touro. Interessei-me pela natureza da mistura e a mulher que trazia a jarra
explicou-me, com certo tremor – confundindo-me, é possível, com alguma alta
personalidade estrangeira –, que consistia basicamente em um vinho aguardentado
a que se juntava o conteúdo de uma ou várias bexigas biliares de boi recém-
sacrificado. Em vez de algum tipo de sonífero ou droga, os hebreus utilizavam para
tais fins um processo mais comum e natural. Preparavam primeiro um extrato do
fel, deitando sobre um filtro de baeta o conteúdo das bexigas. Depois faziam-no
evaporar em banho-maria, enquanto o agitavam. Dessa forma obtinham o extrato
desejado, que podia ser conservado indefinidamente. Quando aquela piedosa
“associação” de mulheres recebia a notícia de uma execução, vertia o extrato de
bile bovina em vinho ou aguardente de elevada graduação alcoólica. A fulminante
ação metabólica da bile “liberava” o álcool do vinho, provocando assim no réu uma
rápida e acentuada embriaguez que embotava seu cérebro, aliviando até certo
ponto seus sofrimentos e, sobretudo, debilitando sua consciência.
Mateus, portanto, foi o único que acertou ao relatar essa passagem evangélica.
Marcos (15,23) assegura que as mulheres deram a Jesus “vinho com mirra”. Isso é
inexato. Entre outras razões, porque a mirra, por sua natureza excitante, tônica e
emenagoga, provavelmente teria atuado de forma contrária ao efeito desejado.
(Naquele tempo era empregada em geral como bálsamo, como pomada para
certos tumores articulares, como elemento dentifrício e, sobretudo, como perfume.)
A hebreia pôs a mão direita sobre o vaso de madeira, procurando impedir que a
poeira levantada pelo vento contaminasse o vinho. Olhou para Longino e este
voltou a apontar o prisioneiro, autorizando-a a aproximar-se. A mulher foi até
Dimas e estendeu-lhe a beberagem. Acossado pelo terror, o rapaz não reagiu. Seus
olhos, avermelhados pelo pranto, desviaram-se para o centurião, interrogando-o.
– Bebe! – ordenou-lhe Longino.
O zelote ergueu os braços e agarrou a taça. Mas suas convulsões já eram tão
intensas que parte do líquido se perdeu. A muito custo conseguiu levar o recipiente
até os lábios e engolir os 250 ou 300 centímetros cúbicos que continha.
As hebreias se retiraram, reunindo-se ao resto do grupo, e o réu foi conduzido
aos puxões diante das duas stipes que haviam ficado livres na primeira fileira e a
cujos pés havia sido transportado o patibulum.
Dimas foi colocado de costas para os três lenhos e, enquanto dois verdugos
puxavam seus braços para trás, um terceiro deu-lhe uma rasteira e o derrubou de costas. O centurião, colocado por trás do réu, empunhou uma lança, disposto a
golpear o crânio do prisioneiro em caso de necessidade. Levantou a ponteira do
pilum e aguardou.
No entanto, o prisioneiro quase não ofereceu resistência. Aparentemente, havia
assumido sua sorte. O medo, além disso, havia garroteado seus músculos. Ao ser
deitado sobre o lenho, levantou a cabeça e com um fio de voz se pôs a clamar por
sua mãe. Mas suas incessantes invocações cessaram quando o verdugo lhe
assentou a primeira martelada. Um bramido se elevou da rocha. E a multidão
acolheu o novo encravamento com fortes protestos e assobios.
O prisioneiro, com os olhos saltando das órbitas e todos os músculos do
pescoço tensos como cordas de violino, estremeceu e deixou pender a cabeça por
trás do tronco. Nesse instante, um forte fedor foi arrastado pelo vento. O soldado
que segurava os pés do réu com a corrente explodiu em mil imprecações e insultos
contra o zelote. Presa de pânico incontrolável, os esfíncteres do rapaz haviam-se
relaxado, liberando excrementos.
Ao lhe perfurarem a munheca direita, o jovem perdeu os sentidos. E os
verdugos aproveitaram sua inconsciência para acelerar o içamento à stipe. Quando
se preparavam para erguer o patibulum, surgiu uma dúvida. Em qual dos stipes
livres deveriam crucificá-lo? Os infantes consultaram o oficial e este deu de ombros.
Foi o encarregado dos cravos quem encontrou a solução, bem recebida por todos.
– Deixemos o “rei” no centro... – comentou divertido.
E assim se fez. Esta foi a razão por que os chamados “ladrões” ficaram à direita
e à esquerda do Mestre.
Quando chegou a vez do pé esquerdo do guerrilheiro, o verdugo o perfurou de
forma que os dedos ficaram sobre um dos braços do sedilis de ferro, que, como já
expliquei, atravessava a madeira de lado a lado. Essa circunstância proporcionaria
a Dimas um certo alívio na hora de lutar por inspirações de ar mais profundas. O pé
direito, entretanto, foi fixado um pouco mais abaixo, sobre a face frontal da stipe.
O segundo “braço” do sedilis – que ficaria paralelo ao patibulum, como na cruz de
Jesus – não foi utilizado. Minha opinião é que esse relativo “descanso” pôde influir
decisivamente nesse crucificado, a ponto de lhe permitir melhor oxigenação e, em
consequência, maior clareza de ideias.
Concluída a crucifixão de Dimas, os soldados, suados e manchados de sangue,
recuperaram a corda que servira para erguer o réu e puseram os olhos em Jesus de
Nazaré. Meu coração voltou a estremecer, ao distinguir sarcásticos sorrisos nos
rostos dos romanos.
Eram 13 horas...
A súbita intervenção de Eliseu distraiu-me por um momento. O módulo
detectava o “olho” do siroco a pouco mais de quinze minutos de Jerusalém. A
velocidade do haboob havia declinado ligeiramente, mas o arrasto de areia era
considerável, levantando partículas até 2 mil ou 2.500 metros do solo. Para meu
companheiro, o mais preocupante daquela tormenta seca era a possibilidade de que o vento arrastasse agentes biológicos ativos que pudessem afetar-me.
Sinceramente, a advertência de Eliseu não me preocupou. Meu coração e meus
cinco sentidos estavam a quatro metros de mim mesmo: na figura daquele homem
de mais de um metro e oitenta de estatura que ali estava agora, encurvado e
maltratado.
O Mestre foi erguido sem mais demora. Foi-lhe retirado o manto de púrpura
que ainda conservava sobre os ombros, amarrado na altura do pescoço, e em
seguida o roupão. Então a parte superior da túnica ficou a descoberto e, ao vê-la,
fechei os olhos. Era uma mancha informe, sanguinolenta e colada ao corpo sobre
as feridas da flagelação. Engoli em seco. Que ocorreria no momento que o
despissem?
Esse angustioso transe, porém, foi retardado por um problema com o qual
ninguém havia contado: o elmo de espinhos.
Quando um dos soldados se dispunha a retirar-lhe a túnica, outro guardião
notou o trançado de farpas e advertiu que ou rasgavam a túnica ou era preciso
retirar primeiro o elmo.
Os soldados se enredaram em acalorada discussão. Suponho que ela se teria
prolongado indefinidamente não fosse o optio. Com um sentido prático bem mais
acentuado que o de seus homens, ele se limitou a tocar o tecido e, ao verificar que
se tratava de uma túnica sem costura, ordenou aos verdugos que lhe retirassem a
“coroa”. No início, me pareceu absurdo que discutissem por algo que poderia ter
tido uma fácil e drástica solução: simplesmente rasgar a veste. Depois compreendi.
Parece que era costume “não oficial” que os verdugos repartissem a roupa do
justiçado.185
Então um dos romanos se colocou diante de Jesus, introduzindo lentamente os
dedos por dois vãos do elmo. Quando suas mãos haviam agarrado o feixe de
juncos na altura das orelhas, ele deu um violento puxão para cima.
O Galileu estremeceu. Mas o elmo de espinhos não se desprendeu de todo.
Alguns dos longos e afilados espinhos estavam solidamente incrustados na carne, e
aquela primeira tentativa só conseguira dilacerar ainda mais os tecidos e provocar
novo sangramento.
Arsenius balançou a cabeça com impaciência, advertindo o infante de que
primeiro deveria mover o elmo na horizontal e depois puxá-lo para cima. O
Nazareno apertou os lábios e esperou o segundo puxão.
De fato, com os giros para os lados, muitos espinhos das áreas parietais e
frontal se desprenderam. E o verdugo repetiu a manobra. O puxão vertical foi tão
violento que o elmo saltou. No entanto, os espinhos situados sobre as faces e a
nuca arranharam a epiderme e dois espinhos, um cravado no intumescido pômulo
direito e outro no músculo elevador esquerdo, partiram-se, ficando alojados em
ambas as áreas do rosto.
Um gemido acompanhou aquela brutal manobra. E os saduceus, atentos ao
penoso espetáculo, receberam-no com aplausos e aclamações.
Antes que o rabi pudesse recuperar-se dos novos e agudos sofrimentos, dois
soldados ergueram-lhe os braços, enquanto um terceiro o despia, recolhendo a
túnica pela borda inferior.
Ao ver suas pernas, senti que meu coração acelerava o ritmo. Estavam
cruzadas e tomadas em todos os sentidos por filetes de sangue, coágulos,
hematomas azulados e uma infinidade de pequenos círculos, na maioria causados
pelos cravos das sandálias romanas. Quanto aos joelhos, o esquerdo apresentava
um considerável edema. O direito, ainda que menos deformado, estava aberto na
face anterior da rótula, com múltiplos rasgos e perda do tecido celular subcutâneo,
sendo possível ver até a parte do periósteo do osso. Era inacreditável como aquele
ser humano havia conseguido caminhar e arrastar-se sobre os joelhos até a
muralha. As forças – confesso – começaram a faltar-me de novo. Mas aquele
martírio não havia sequer começado...
O ranger da túnica ao ser despregada do torso de Jesus me fez empalidecer.
O mercenário, ao verificar que o tecido estava colado às feridas, não teve
dúvidas. Olhou para trás, sorriu malicioso para os companheiros e foi erguendo a
túnica lentamente. O linho foi-se despregando das feridas, mas arrastando grandes
placas de sangue. Enrubesci de indignação e agarrei-me à “vara de Moisés” até
quase parti-la. Grossas gotas de suor começaram a rolar pela minha testa, e foi
necessário que eu mordesse a manga de meu manto para não saltar sobre aqueles
sádicos.
Por fim, quando a túnica já estava erguida na altura do rosto do Nazareno, os
soldados baixaram-lhe os braços e a cabeça e retiraram-lhe sua última veste.
O Filho do Homem ficou ali totalmente despido, encurvado, sangrando por
inúmeras feridas. Ao ver aquelas costas abrasadas por hematomas e cortes,
Longino ficou perplexo. O requintado descolamento da túnica havia aberto muitas
das lesões, fazendo irromper outra violenta sangria. Apesar da proteção dos dois
mantos e da túnica, o madeiro havia erodido a parte superior das costas, ulcerando
as áreas da omoplata direita e a pele do feixe muscular esquerdo do trapézio.
Nessa última região, observei uma esfoladura de uns nove centímetros por seis, de
bordos irregulares e com enrugamento da pele, produzida possivelmente em uma
das violentas quedas (talvez a segunda, ao desmaiar e tombar de costas na
fortaleza Antônia).
Os cotovelos também estavam praticamente destruídos pelos golpes e pelas
quedas. Quanto ao antebraço esquerdo, a fricção com o córtex do patibulum havia
desfiado o plano muscular, com perda de substância e provocando amplas áreas
arroxeadas.
Mas a visão mais terrível era a dos flancos. Os pontapés haviam arrebentado
alguns dos hematomas e dilacerado muitas fibras musculares vitais para a função
respiratória.
Despojado de suas roupas, Jesus havia começado a tiritar, acusando os duros
choques do vento e da poeira.
O abandono, a amargura e a impotência daquele homem alcançaram naquele
momento um de seus pontos culminantes.
Os curiosos e transeuntes que iam engrossando o grupo inicial de testemunhas
romperam a dramaticidade daquele momento, fazendo galhofas e acolhendo com
gargalhadas a nudez do Galileu. Os sacerdotes, sobretudo, foram os mais
corrosivos. Alguns chegaram até a galgar as rochas interiores do Gólgota,
gesticulando e imitando a postura de Jesus, que, humilhado, cabeça baixa,
ocultava com ambas as mãos a região pubiana.
Livres do elmo de espinhos, seus cabelos começaram a flutuar ao vento, pondo
a descoberto as marcas dos açoites de Lucílio em suas orelhas. Apesar dos 17,5ºC
que o módulo registrava naquele momento em Jerusalém, o Mestre continuava
tremendo de frio. Ao ficar sem a proteção das roupas, amplas áreas dos braços,
tórax, ventre e pernas ofereciam o conhecido aspecto de “pele de galinha”. E a
febre não cedia.
Quão distante havia ficado a majestosa figura do Galileu! Ainda que seus
discípulos e amigos não estivessem presentes, estou convencido de que muito
poucos o teriam reconhecido. As dores, o esgotamento e a sede deviam ser
insuportáveis. Todavia, ao contemplá-lo ali, só, ultrajado, sem o mais fugaz alento
ou prova de amizade, penso que sua verdadeira e mais profunda tortura não eram
os padecimentos físicos, mas sim essa sensação de aniquilamento moral que
sempre invade um homem injustamente condenado. Mas essas são reflexões
pessoais de um mero observador. Quem poderia adivinhar os pensamentos de
Jesus de Nazaré naquelas circunstâncias? O certo é que seu fim estava muito
próximo.
Enquanto os soldados colocavam o patibulum junto à stipe central, Longino
dirigiu-se ao grupo de mulheres e as convidou a ministrar ao rabi sua beberagem. E
as mesmas hebreias, com passo apressado, dirigiram-se ao Mestre. Ao se
separarem do grupo, foram seguidas pelo jovem João Marcos. Ignoro como ele
conseguira chegar até ali, mas, antes que cometesse alguma loucura, fiz-lhe sinais,
chamando-o para junto de mim.
As judias encheram a taça de madeira e ofereceram a Jesus o fétido líquido. O
Nazareno levantou a cabeça e olhou as mulheres. Estas, estranhando o silêncio do
condenado, fizeram um ligeiro movimento com a vasilha, incitando-o a beber, Mas
o encurvado gigante não se decidia. Suas mãos não se moviam dos genitais.
Respeitando o pudor do Galileu, a mulher que tinha a taça colocou-a em seus
lábios e inclinou o recipiente, de forma a permitir-lhe a ingestão sem necessidade
de utilizar as mãos. O Mestre entreabriu a boca e provou a mistura. Mas assim que
percebeu o que era, afastou o rosto e fez um gesto de rejeição com a cabeça. A
atitude do prisioneiro deixou atônitas as mulheres, e também o centurião. Elas
olharam para Longino e este deu de ombros, encerrando o assunto.
Ao me ver, o rosto de João Marcos se iluminou. Venceu correndo os poucos
metros que nos separavam e me abraçou. Tinha as faces marcadas pelo pranto. Choramingando e com um acesso de soluços, o pequeno pediu-me que salvasse o
Mestre. Não pude fazer mais do que sorrir para ele. Como poderia explicar-lhe
quem eu era e em que consistia minha missão? Não vou esconder que naquele
instante cheguei a pensar nessa possibilidade. Que teria acontecido se, daquele
promontório, eu tivesse dado ordem a Eliseu para mobilizar o módulo e rumar para
o Gólgota? Seria simplíssimo descer sobre a rocha e arrancar o Galileu das garras
daquela patrulha. Mas foram apenas sonhos impossíveis...
Antes que os soldados repreendessem o menino, cuidei de persuadi-lo a se
retirar dali, dando-lhe um encargo que – poucas horas depois – seria de muita
importância para mim. João Marcos não percebeu isso, mas obedeceu. O optio,
alertado por um dos soldados que montavam guarda ao redor do patíbulo,
aproximou-se de nós e aconselhou-me delicadamente a mandar o menino embora.
Não foi necessário que ele repetisse. João Marcos escapuliu e misturou-se às
mulheres que já desciam do Gólgota. Dali a pouco, avistei-o junto a Judas
Iscariotes, exatamente como eu lhe havia pedido.
O gesto de Jesus, recusando a aguardente biliosa, desconcertou--me. Ao abrir a
boca, sua língua e sua mucosa, mais do que ressequidas, revelaram um angustioso
processo de desidratação. Seus lábios, trincados como o casco de um velho barco
encalhado, deviam estar suportando uma sede sufocante. Não sei, pois, como o
Mestre pôde recusar a taça de vinho. Se realmente o fez – como suspeito – para
sustentar ao máximo sua ameaçada lucidez mental, somente posso reverenciar,
pela enésima vez, sua coragem.
– É hora – advertiu o centurião.
Submisso, sempre com as mãos ocultando os genitais, o Nazareno começou a
arrastar-se – mais do que caminhar – em direção às cruzes. Longino e outro
soldado o escoltaram, tomando-o pelos braços.
Um suor frio começou a envolver-me. O guerrilheiro que havia sido crucificado
em primeiro lugar continuava uivando e tendo convulsões intermitentes. Mas os
soldados já não lhe davam a menor atenção. Ajoelhado diante do patibulum, o
verdugo responsável pelo encravamento aguardava, com um daqueles
aterrorizantes cravos de ferreiro na mão direita. Era praticamente similar aos
usados anteriormente: de uns vinte centímetros de comprimento – talvez um pouco
mais – e com a ponta afilada, ainda que não tanto como os de seus “irmãos”.
Havia outro detalhe que o distinguia também dos precedentes: embora a seção
fosse quadrangular, as arestas estavam deterioradas, formando ligeiras rebarbas e
dentes.
Os soldados colocaram o Mestre de costas para o lenho. Depois, separando
seus braços, puxaram-nos para baixo, ao mesmo tempo que um terceiro aplicava-
lhe uma rasteira. A extrema fraqueza de Jesus foi mais do que suficiente para
acelerar sua queda.
Uma vez colocado de costas sobre o madeiro, os verdugos apoiaram os braços
de Jesus sobre o patibulum, enquanto prendiam as extremidades do rugoso cilindro com os joelhos. As palmas das mãos ficaram voltadas para cima, trêmulas, com as
pontas dos dedos levemente flexionadas e – como os braços e antebraços –
salpicadas de sangue coagulado.
A perna esquerda, inflamada na altura do joelho, havia ficado dobrada. O
encarregado da corrente procurou esticá-la, baixando-a com uma seca palmada
sobre a rótula. O Galileu acusou a dor, abrindo a boca, mas sem um único gemido.
Longino, em seu posto rotineiro, junto à descaída cabeça do réu, que tocava as
rochas com os cabelos, pôs-se em posição e apontou a haste do pilum para a testa
de Jesus.
Os ajudantes do verdugo principal esticaram os braços do rabi. O que estava
sobre o lado esquerdo do tronco desembainhou a espada e colocou a lâmina sobre
os quatro dedos grandes do Mestre. Aquela inovação – pareceu-me – facilitava o
trabalho de fixação da extremidade superior ao patibulum. Se o prisioneiro
tentasse reagir, era certo que, a uma contração da mão, ele se cortaria
irremissivelmente no fio da espada. O grau de crueldade e perícia daqueles
mercenários parecia não conhecer limites...
Os numerosos filetes de sangue que banhavam os grossos antebraços do
Nazareno dificultavam até certo ponto a procura dos vasos. Por fim, o verdugo
pareceu distinguir as linhas azuladas das artérias e veias, assinalando o ponto
escolhido para a perfuração.
Antes de erguer a vista para o centurião, o soldado que deveria martelar o
cravo, extremamente surpreso diante da docilidade do “rei dos judeus”, olhou para
os companheiros manifestando sua surpresa com um significativo erguer de
sobrancelhas. Os outros, também atônitos, responderam com idêntica mímica.
Longino, que, cansado de sustentar a lança, a havia baixado, autorizou o golpe
com um leve movimento de cabeça.
Mantendo o cravo em posição perpendicular ao centro do pulso (na altura do
conglomerado de minúsculos ossos do carpo), o verdugo lançou o martelo sobre a
cabeça redonda. A ponta se perdeu num instante no interior dos tecidos. A pele
que rodeava o metal abriu-se como uma flor, em meio a uma densa coroa de
sangue.
A ponta do cravo, ao abrir caminho entre os tendões, ossos e vasos, deve ter
roçado o nervo mediano, um dos mais sensíveis do corpo, provocando uma
descarga dolorosa difícil de avaliar.
No mesmo instante, os braços se contraíram e a cabeça de Jesus distendeu-se
para o alto, permanecendo tensa e oscilante, paralela ao solo. Os dentes,
apertando-se duramente por poucos segundos, abriram-se. E Jesus, quando todos
esperávamos um agudo grito de dor, limitou-se a inalar o ar com uma respiração
curta e ofegante.
Os soldados, que esperavam uma reação violenta, estavam assombrados.
Por fim, derrotado pela dor, o Mestre deixou cair para trás a cabeça, que se
chocou contra a rocha. Todos acreditamos que ele havia perdido a consciência. Mas em poucos segundos abriu o olho direito e acelerou o ritmo respiratório.
Como eu não tinha percebido isso antes! Jesus só respirava pela boca. Aquilo
me fez suspeitar que seu septo devia apresentar alguma complicação – fruto dos
golpes –, o que dificultava a inspiração pelo nariz.
O verdugo mudou de posição, inclinando-se dessa vez diante do braço direito.
Mas essa segunda perfuração iria apresentar complicações...
O sangue havia começado a emanar com extrema lentidão, formando um
bracelete vermelho ao redor do pulso esquerdo do Nazareno. Evidentemente, o
cravo estava servindo de tampão, produzindo hemóstase ou estancamento do
derrame sanguíneo. Mas a fraca hemorragia constituía uma faca de dois gumes: os
médicos sabem que nessas situações a dor aumenta.
Arsenius e o oficial olharam-se sem compreender a ausência de gritos e o
espernear clássico de todo homem que sabe que está à beira da morte. Ao
contrário, aquele réu, longe de causar problemas, havia começado a despertar
profunda admiração em Longino e em seu lugar-tenente. O contraste com aquele
zelote que pendia na cruz e enchia os ares com seus berros e pragas era tão
extraordinário que o oficial, ao notar que ainda trazia nas mãos a lança, jogou-a
violentamente contra a base das cruzes, de repente, indignado consigo mesmo.
O segundo golpe do martelo foi tão preciso como o primeiro. O cravo se
inclinou do mesmo modo, a cabeça apontando para os dedos do Mestre. Mas, em
lugar de penetrar na madeira do patibulum, seguindo a direção do cotovelo, a peça
apenas arranhou o tronco.
Nesse segundo encravamento, o rabi não levantou sequer a cabeça. Grossas
gotas de suor haviam começado a rolar pelas têmporas, tropeçando aqui e ali com
os coágulos. Limitou-se a abrir a boca ao máximo e a emitir um sufocado e
indecifrável som gutural.
– Que está acontecendo? – perguntou o centurião, ao ver que cerca de catorze
centímetros do cravo haviam deixado de penetrar no pulso.
O verdugo tirou o braço de Jesus da cruz e examinou a superfície côncava do
lenho. Ao passar a ponta do dedo pelo córtex, balançou a cabeça em sinal de
contrariedade. E, dirigindo-se a Longino, explicou-lhe que havia topado com um nó.
Senti que as entranhas me ardiam.
Sem perder a calma, o verdugo ajeitou novamente o pulso de Jesus sobre o
patibulum e, tomando o cravo entre o indicador e o polegar, dispôs-
-se a vencer a resistência do inoportuno obstáculo com um novo golpe.
O impacto foi tão terrível que a seção piramidal do cravo se partiu a poucos
centímetros da pele ensanguentada do réu.
O novo contratempo foi acompanhado de uma torpe imprecação do soldado,
que lançou a maça para um lado e ordenou aos companheiros que segurassem o
antebraço de Jesus. Depois, prendendo como pôde a extremidade do metal, tentou
arrancar o que restava do cravo. Em vão, porém. A ponta havia perfurado o nó da
madeira e o metal resistiu.
Entre novas maldições, o irado soldado levantou-se, apoiou com o pé esquerdo
na região “cúbito-radial” de Jesus e recomeçou a tarefa de remover o cravo,
fazendo-o oscilar de um lado para o outro. Até Longino empalideceu diante daquela
nova forma de tortura. Os bruscos puxões do verdugo, buscando retirar o metal,
dilataram o orifício do pulso, dilacerando tecidos e inundando de sangue seus
próprios dedos, o patibulum e a rocha.
É muito provável que a dor tivesse sido atenuada em parte pela profusa
hemorragia. Do contrário, não há como explicar o comportamento do Galileu. A
cada movimento pendular do soldado no afã de extrair a peça, Jesus respondia
com um lamento. Cinco, seis... oito sacudidas e outros tantos gemidos,
acompanhados de movimentos da cabeça. Mas aquele gigante não explodiu, não
protestou...
Por fim, após uma eternidade, o verdugo separou a ponta do tronco. E depois
de arrancar a ensanguentada e gotejante barrinha metálica do carpo, pegou de
novo o saco de couro e começou a remexer em seu interior. Ao virar para o
Nazareno, ele trazia uma espécie de verruma curta, com punho de madeira.
Em seguida, retirou o braço de Jesus do madeiro, cuspiu sobre a mancha de
sangue que cobria o lenho e limpou com a mão a área onde se situava o nó. Pegou
a ferramenta, introduziu a rosca em espiral no orifício feito pelo cravo e, apoiando
todo o peso de seu corpo sobre a verruma, a fez girar e penetrar na quase pétrea
rugosidade, com movimentos lentos, mas firmes.
A operação foi trabalhosa. Enquanto isso, o sangue do rabi continuava
vertendo, a ponto de formar uma extensa poça sobre a branca superfície do
Gólgota. A julgar pelo ritmo da hemorragia, não creio que as arestas em serra do
cravo tenham chegado a abrir alguma artéria ou veia principal. Mesmo assim,
aquela perda começava a ser dramática. Jesus empalidecia rapidamente, e temi
que ele entrasse em novo estado de choque.
Quando o soldado considerou que havia feito um buraco suficiente, procurou no
cinto outro cravo, examinou-lhe a ponta e a cabeça, fez um sinal de aprovação e de
novo dispôs o braço do condenado na posição adequada, como no início. Mas,
contrariamente ao que se supunha, antes de pegar o martelo, passou o cravo pelo
folgado orifício. Quando a extremidade apareceu do outro lado, na face dorsal, o
verdugo a introduziu no furo que acabara de fazer e só então martelou de novo.
Superado o nó, o cravo penetrou no lenho sem problemas. Um segundo golpe e o
braço do Mestre estava definitivamente fixado. A base do cravo, como havia
ocorrido com o pulso esquerdo, não chegou a tocar a carne. Ambas as cabeças –
horas depois eu entenderia por que – ficaram entre oito e dez centímetros de fora.
Tal como havia acontecido com os guerrilheiros, no momento em que os pulsos
foram cravados, os polegares de Cristo se dobraram, saltando e apontando para o
centro das palmas das mãos, na direção oposta à dos quatro dedos, apenas
ligeiramente flexionados.
Enquanto a ferida do pulso esquerdo – de forma ovalada – quase não chegava a alcançar 15 x 19 milímetros, a da direita era muito mais ostensiva, com quase 25
milímetros de comprimento, no sentido do eixo do antebraço, o que me fez temer
pela estabilidade do Mestre quando ele fosse erguido sobre a stipe. Será que se
produziria dilaceração dos tecidos?
Os soldados obedeceram ao oficial. Aquilo estava moroso demais. Por fim,
ajudados pelo optio, içaram o patibulum com o crucificado e agilmente enroscaram
o prisioneiro na grossa corda de esparto que deveria servir para erguê-lo até o alto
da stipe.
Ao passar a corda pela ranhura do extremo da stipe e começar a esticá-la, o
madeiro – controlado pelos mercenários para que não perdesse a posição
horizontal – iniciou uma lenta e exasperante ascensão. Mas as fortes rajadas de
vento, castigando o corpo do Nazareno com sucessivas cargas de pó e terra,
começaram a dificultar a operação.
O centurião protestou com gritos a presença de dois dos homens que
mantinham a segurança do Gólgota, distribuindo-lhes ao pé da escada de mão em
apoio ao soldado que puxava do alto.
Enquanto o Mestre conservava os pés sobre a rocha, a posição de seus braços
pôde manter-se mais ou menos no eixo do patibulum. Pouco a pouco sua cabeça
recuperou a verticalidade, mas às vezes caía para a frente até tocar a ponta
superior do esterno. Numa dessas vezes, depois de forte inalação de ar, Jesus
levantou fugazmente a cabeça, dirigiu o olhar para o céu turbulento e exclamou:
– Pai!... Perdoai-os!... Eles não sabem o que fazem!
Os soldados, ao ouvirem aquela voz quebrantada, pararam. O Mestre havia
falado em aramaico. Creio que, salvo um ou dois, os demais não o entenderam.
Lamentavelmente, porém, quiseram saber o significado da frase, mas os dois que a
haviam entendido apenas ficaram olhando um para o outro, indecisos. Antes que
pudessem abrir a boca, outro soldado desferiu uma bofetada em Jesus.
– Maldito hebreu! – exclamou o que o havia esbofeteado. – Nem mortos nem
vivos são dignos de piedade!
A versão do tradutor foi correta, mas os incultos mercenários interpretaram
erroneamente suas palavras.
– Então não sabemos o que fazemos... – bradou-lhe o que havia feito as
perfurações. – Pois espera e verás!
E, dirigindo-se ao centro do Calvário, recolheu do solo o elmo de espinhos e
postou-se diante do Galileu.
O centurião tampouco havia compreendido o sentido da expressão, e vacilava