Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 17 de 19 · parte 8/11

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

7 de abril, sexta-feira

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

diante da irritada postura de seus homens. Suponho que não se atrevia a intervir.

No fundo, também ele talvez se sentisse ofendido pelo que parecia uma crítica a

seu profissionalismo.

O verdugo separou a cabeça do Mestre do patibulum e de um golpe encaixou

nela o capacete de espinhos. O ajuste, talvez pelo temor de ferir-se ele próprio nos

espinhos, não foi excessivamente violento, e a massa espinhosa ficou oscilando nas têmporas do prisioneiro.

A multidão, que naquele momento devia oscilar entre 2 mil e 3 mil pessoas,

uivou de prazer diante do gesto do romano.

O Mestre permaneceu de cabeça baixa, e seus torturadores prosseguiram na

operação de erguer o madeiro.

A grande estatura e o peso de Jesus – possivelmente em torno de 80 quilos –

foram outro handicap para seus suarentos carrascos, que não tardaram a estimular

uns aos outros, acompanhando cada esforço com um “eia!”.

Palmo a palmo, a grossa corda de esparto foi içando o crucificado, numa

operação interminável e penosa. Para cúmulo, o povo – cada vez mais excitado –

uniu-se às interjeições dos verdugos, acompanhando cada puxão com seus “eia!”.

Mas os poderosos braços dos três soldados que operavam no solo e no alto da

escada não foram suficientes. Temendo que o condenado e o madeiro se

precipitassem ao solo, Longino e Arsenius não tiveram outra opção senão juntar-se

aos soldados, somando seus esforços para o levantamento do tronco.

“Eia!... Eia!...”

Por fim, o corpo do Galileu se ergueu do solo, e aí começou a demolidora

contagem regressiva até uma horrorosa agonia.

Ao perder Jesus o apoio dos pés, seus braços se esticaram e a crepitação de

seus ossos se uniu, durante alguns segundos, ao rangido da corda sobre a forquilha

do tronco vertical.

Num instante, clavículas, esterno e costelas se desenharam debaixo de sua

pele e o sangue começou a correr em filetes, enquanto os músculos peitorais, dos

ombros, do pescoço e dos braços se retesavam fortemente, a um passo da

deslocação. Mas o vigor daqueles feixes musculares ainda era grande e evitou a

luxação dos ombros e cotovelos. As fibras dos antebraços, em especial os músculos

extensores das mãos e dos dedos, afilaram-se como sabres, e eu fechei os olhos,

temendo vê-los saltar num daqueles empuxos.

“Eia!”...

Jesus já pendia a metro e meio do solo. A força da gravidade fez que, desde o

primeiro momento da suspensão absoluta, os braços girassem e, arrastados pelo

peso do corpo, deslizassem até formar um ângulo de uns 65 graus com a stipe.186

O formidável peso que o Nazareno suportou em cada uma das gretas dos

pulsos, unido à abertura das feridas e à extrema tensão dos ligamentos dos ombros

e cotovelos deve ter multiplicado suas dores (supondo que lhe restasse capacidade

para isso) até a loucura.

Em vários momentos, vencido pelo sofrimento, deitou sua cabeça para trás,

buscando ar e, sobretudo, um ponto de apoio. Mas esses pontos ele só os podia

encontrar em um único lugar. Ou melhor, em dois lugares: nos cravos que

atravessavam os carpos. Mas como elevar-se sobre peças de metal quando se está

pendurado?

Os espinhos, a cada vez que erguia a cabeça, se incrustavam mais e mais na região occipital, fazendo o Mestre desistir. Essas sucessivas e frustradas tentativas

de ganhar uns gramas de oxigênio foram transformando sua respiração em um

descompassado e agitado matraquear de ossos, cada vez menos eficiente. O

fantasma da asfixia havia começado a pairar sobre o Filho do Homem...

“Eia!... Eia!...”

Quando os soldados detiveram o pesado avanço da corda, o corpo de Jesus

balançava a uns noventa centímetros ou um metro do chão. Seus pés, sangrando,

roçaram o córtex do tronco vertical e se apegaram a ele desesperadamente. Mas

as hemorragias os faziam às vezes escorregar. E, em questão de minutos, a face

frontal do madeiro se tingiu de vermelho, impregnada desde a zona das omoplatas

até a dos tornozelos.

O mercenário colocado na extremidade superior da stipe apertou os dentes e

começou a puxar a laçada central. Mas o patibulum não se moveu um centímetro

sequer. O peso do madeiro mais o do condenado (um pouco mais que cento e dez

quilos) era excessivo para o esgotado infante. O centurião e Arsenius, quase em

uníssono, gritaram-lhe que forçasse o empuxo final. Foi inútil. O romano, ofegante,

fez um sinal de impotência com a mão direita e deixou-se cair sobre a forquilha da

stipe.

Olhei para Jesus e contei sua frequência respiratória: 35 curtíssimas inspirações

por minuto! As pontas de seus dedos haviam começado a ficar com uma coloração

azulada. A cianose, ou deficiente oxigenação do sangue, dava sinal de sua

presença. Examinei, alarmado, seus lábios; mas a hipoxia (diminuição da

quantidade normal de oxigênio no sangue) não se manifestava ainda na mucosa

labial nem nas orelhas.

O bombeamento do extenuado coração do Mestre aumentou de ritmo, mas

duvidei que fosse suficiente para irrigar as partes mais periféricas do corpo. Se

Longino e seus homens não agissem rápido, a falta de irrigação e o consequente

déficit de oxigênio no cérebro de Jesus poderiam desembocar, primeiro, na perda

da razão e, em seguida, em sua morte. E, honestamente, em alguns daqueles

críticos segundos, cheguei a desejar isso mesmo, com todas as minhas forças. Seria

a forma de acabar de vez com suas torturas.

Mas o oficial, sem perder os nervos, ordenou aos que permaneciam ao pé da

stipe que ajudassem o encarregado de encaixar o patibulum. “Mas como? – pensei

– se só há uma escada de mão...” A solução chegou rapidamente.

Dois daqueles destros soldados, treinados e ágeis, agarraram-se ao tronco

vertical, enquanto outros dois se encarapitavam nos seus ombros, alcançando,

assim, as extremidades do madeiro transversal. A um sinal daquele que havia

voltado a prender a laçada central, empurraram o lenho até que a afilada ponta do

poste penetrou no orifício central do patibulum.

– Agora! – gritou o infante que estava no alto da escada. Os soldados saltaram

sobre a rocha, ao mesmo tempo que o centurião e os demais carrascos soltavam

de um só golpe a grossa corda.

O lenho horizontal se precipitou para baixo, mas, a uns quarenta centímetros

da forquilha, ficou encaixado no grosso perímetro da stipe.

A manobra foi recebida pela multidão com grandes vivas e aplausos. O Mestre

acusou o impacto com um lamento mais forte. Sua respiração foi interrompida por

alguns segundos e as brechas dos pulsos ficaram visivelmente mais dilatadas. Os

dedos, garroteados, mal puderam reagir diante da bárbara tração.

Longino passou a tabuinha ao soldado e este a cravou por cima do patibulum.

Enquanto concluía o ajuste do tronco transversal, outro romano puxou com

força a perna direita de Jesus, com isso forçando o abaixamento do ombro de toda

essa metade do corpo do Nazareno, que, ao sentir o puxão, inclinou mais ainda a

cabeça, afastando do madeiro o tronco e as nádegas. Seu joelho direito dobrou-se

involuntariamente, mas o verdugo, que se preparava para encravar o pé, esmagou-

o com uma martelada. O companheiro que havia esticado a perna de Jesus ajeitou

a superfície da planta do pé até que ela completamente plana – tocasse a stipe.

Então um terceiro cravo transpassou o pé do Nazareno, penetrando no dorso por

um ponto próximo à prega da flexão. (Ao examinar de perto a entrada e a saída do

cravo, calculei que o verdugo havia perfurado o ligamento anular anterior do tarso.

Dessa forma, a peça deslizou entre o tendão do músculo extensor próprio do

artelho grosso e os do extensor comum dos dedos, penetrando por fora entre os

ossos calcâneo e cuboides e, por dentro, entre o astrágalo e os escafoides. Os

quatro ossos ficaram habilmente separados, e o cravo caminhou para trás e para

baixo, situando-se mais próximo do calcanhar que dos dedos.)

Nesse momento, apesar da destreza do carrasco, a ponta ou as arestas do

cravo deslocaram ou esmagaram alguns ramais das artérias digitais ou da veia

safena externa, causando uma hemorragia que me atemorizou. O sangue emanou

aos borbotões, banhando inteiramente o metro que separava o pé direito de Jesus

do solo do Gólgota. É de supor que aquele estrago tivesse afetado também o nervo

tibial anterior, dilacerando a perna e a coxa e provocando uma insuportável dor

reflexa nas ramificações dos nervos denominados plexo sacro e lombar, em pleno

ventre.

Apesar das dores horríveis, o Galileu continuava consciente. Eu não conseguia

explicar aquilo!

O encravamento do pé direito, ainda que pareça paradoxal, aliviou o ritmo

respiratório do Nazareno, pelo menos durante os primeiros minutos da crucificação.

Ao apoiar o peso do corpo sobre o cravo, dividindo assim os pontos de sustentação,

seus pulmões puderam capturar um volume maior de ar, ventilando um pouco mais

os alvéolos. Mas à custa de quanto sofrimento ele conseguiu essa momentânea

regularização respiratória?

Aquela inspiração mais profunda não durou mais do que décimos de segundo.

Quase no mesmo instante o corpo do Galileu voltou a pender, oprimindo o

diafragma e entrando em nova e angustiosa fase de progressiva asfixia. Suas

inalações, sempre pela boca, passaram a ser vertiginosas, curtas e notoriamente insuficientes para encher e ventilar os pulmões.

Um pouco mais tranquilo, o verdugo colocou o quarto cravo sobre a região

dianteira do pé esquerdo. O golpe nos ligamentos posteriores do joelho havia

inflamado e arroxeado toda a região em que se inserem o fêmur, a tíbia e o

perônio. E, apesar da rigidez da perna, o soldado a dobrou violentamente, fazendo

estalar as massas ósseas.

O cravo penetrou sem problemas, ficando, como no caso do pé direito, entre

cinco e seis centímetros acima do dorso. O sangue fluiu em menor quantidade, ou

porque o metal não chegasse a tocar vasos importantes, ou simplesmente porque a

volemia do Nazareno tivesse baixado visivelmente.

A perna esquerda ficara flexionada, formando com o tronco vertical da cruz um

ângulo de uns 120 graus, aberto para a esquerda da cruz.

Se bem que a árvore dispusesse, como já adiantei, de uma barra de ferro, ou

sedilis, atravessada a cerca de 1,20 metro da extremidade inferior da stipe e

paralela ao patibulum, dessa vez ela não foi eficaz. A altura considerável do réu fez

que seus pés ultrapassassem o apoio, que talvez – na hipótese de haverem

coincidido – só tivessem servido para dilatar sua agonia.

Ao ver consumada a crucifixão do rabi, a multidão começou a gesticular,

aplaudindo o macabro trabalho dos romanos com uma compacta salva de palmas.

Os sacerdotes, sobretudo, mostravam especial satisfação. Toda a sua cólera

anterior havia-se convertido em júbilo. A vingança deles estava quase saciada. E

digo “quase” porque, até mesmo depois de morto, o cadáver do Filho do Homem

seria ameaçado por aquela agitada ralé sacerdotal...

Eu estivera sempre vigiando com os olhos a figura de Judas Iscariotes. Assim

que encravaram o segundo pé do Mestre, o traidor afastou--se do povo e

desapareceu no caminho poeirento rumo a Jerusalém. João Marcos também

desaparecera de minha vista e penso que para seguir os passos de Judas.

O triste espetáculo havia entrado em seu último ato. Os curiosos começaram a

desfilar, retirando-se para a Cidade Santa. Jesus de Nazaré e os zelotes – cravados

na direção do sul – eram apenas um despojo...

Às 13h30 daquela sexta-feira, 7 de abril, comuniquei a Eliseu o final da dura

crucificação. E tanto meu irmão quanto eu ficamos em silêncio. Um doloroso

silêncio.

 

Se o texto que figurava na tabuinha de Jesus tivesse sido outro – ao gosto dos

sacerdotes judeus –, talvez o recém-crucificado não fosse tão escarnecido. Digo

isso porque, a partir da elevação do Mestre sobre a stipe, as risadas e os

sarcasmos da multidão amiudaram-se durante alguns bons instantes,

aparentemente, segundo averiguações posteriores, como contrapartida vingativa

pelo “INRI”. Ao fracassarem diante de Pilatos, os juízes tiveram o especial cuidado

de intoxicar a multidão, ridicularizando o Mestre, retirando a seriedade das três

inscrições, como uma forma sutil de evitar que as testemunhas pudessem levar a

sério aquele título de “rei dos judeus”.

Assim é que, voltando-se para a cada vez menos numerosa massa humana,

alguns dos saduceus começaram a apontar a cruz do Galileu e a bradar:

– Ele salvou aos demais, mas não conseguiu salvar a si mesmo!

O populacho aplaudiu essa nova manifestação jocosa com fortes e repetidos

aplausos. E logo outra voz se destacava na turba perguntando ao Nazareno:

– Se és filho de Deus, bendito seja o seu nome!, por que não desces da cruz?

Jesus, como eu e a patrulha, ouviu essas exclamações marcadas pela mais

cruel e mordaz ironia. Estando a um metro apenas do solo e a pouco mais de dez

da primeira fileira dos judeus, não era muito difícil ouvir esses gritos e até mesmo

as conversas que os mercenários mantinham no minguado círculo rochoso do

Gólgota. Os soldados, concluída a trabalhosa crucificação, fizeram uma parada. O

optio dissolveu o cordão de segurança, que desde o início da operação guardava a

circunferência do promontório e era formado, como eu já disse, por seus infantes. E

a vigilância ficou reduzida a um primeiro turno de apenas quatro soldados, cada um

deles colocado em um ponto cardeal, rodeando os três condenados e o resto do

pelotão. Os demais – exceto dois – sentaram-se a uns três metros das cruzes, para

contemplar, aborrecidos, os dois companheiros que se ocupavam em retirar a

escada de mão, enrolar meticulosamente a corda e recolher as ferramentas

espalhadas pelo chão. Diante daqueles preparativos, tudo indicava que haveria

uma longa espera. Pelo menos, era nisso que Longino e seus homens acreditavam.

Na realidade, segundo informou-me o centurião, a rendição não chegaria antes do

ocaso.

– Você está sentindo as primeiras frentes do haboob?

As palavras de Eliseu fizeram-me lembrar da iminente proximidade do “olho” do

siroco. Protegi a vista com a mão esquerda em forma de viseira e, de fato, ao

longe – por detrás do monte das Oliveiras –, divisei massas negrumosas e

oscilantes que avançavam numa extensa frente.

O oficial também reparou naquelas ameaçadoras nuvens de pó e, como bom

conhecedor desse tipo de fenômeno meteorológico, alertou seus homens. A

primeira cautela foi testar a estabilidade das cruzes. As stipes, a um primeiro

exame, pareciam solidamente plantadas nas rachaduras da rocha. No entanto,

Arsenius ordenou que as cunhas de madeira fossem incrustadas ao máximo.

Depois, os soldados rasgaram os restos das túnicas dos zelotes e as converteram

em estreitas tiras que, sem perda de tempo, o oficial foi distribuindo

equitativamente pelos doze soldados. Não compreendi o sentido daquela operação,

até ver um deles cobrindo as pernas desnudas com aquelas faixas de pano.

Prudentemente, os romanos estavam procurando proteger a pele do açoite daquele

vento carregado de areia. Por último, os seis escudos dos homens de folga do

serviço de vigilância do Calvário foram colocados no solo, um junto ao outro,

formando uma fileira com a face côncava para cima.

Alguém lembrou ao pelotão das vestes do Nazareno, que jaziam ainda num dos

extremos do grande penhasco. Mas, quando os soldados as recolheram, dispostos a transformá-las em tiras, os quatro mercenários responsáveis pela custódia e

encravamento de Jesus protestaram, lembrando – com toda a razão – que aquelas

prendas lhes pertenciam e, dado seu bom estado, eles as reclamavam para si.

O resto da tropa concordou e então o oficial, rapidamente, antes que a

tempestade de areia caísse sobre Jerusalém, fez o inventário das vestes e as

repartiu entre o “cuaternio”. A um correspondeu o manto de púrpura que Antipas

dera ao Nazareno; a outro, o cinto; ao terceiro, o par de sandálias; e o último se

viu recompensado com o esplêndido manto. Mas ainda restava a túnica. Que se

faria com ela? Alguns insistiram na ideia inicial de rasgá-la, mas o suboficial se

opôs. Apesar de seu aspecto deplorável – coalhada de sangue seco, molhada pela

água e pela urina de Lucílio, suja do pó do caminho e com uma parte desfiada na

altura dos joelhos –, aquela peça, tecida a mão, merecia um final mais honroso do

que proteger as pernas dos romanos. A solução foram os dados.

O soldado responsável pelo saco de couro não tardou a regressar, sacudindo na

mão um trio de dados. Formaram um círculo fechado e, um depois do outro, foram

lançando os pequenos cubos de madeira de dois centímetros de lado sobre o solo

do patíbulo. De tanto uso, as peças haviam perdido sua cor branca original, assim

como o fio das arestas. A sujeira acumulada havia acabado por lhes dar um lustro

característico. Os números de cada face – perfurados em vermelho – estavam

divididos de tal forma que a soma dos dois lados opostos sempre dava sete.

E então os dados foram lançados: 1-5-3 na primeira mão; 6-3-4 para o segundo

jogador; 1-3-5 para o terceiro; e 1-5-3 na última jogada.187

O vencedor dobrou cuidadosamente “sua” túnica, enquanto, entre a multidão,

ouviam-se frases ferinas contra o Mestre:

– Tu que querias destruir e reconstruir o Templo em três dias... salva-te a ti

mesmo!...

– Se és o Rei dos Judeus – bradavam outros –, desce da cruz e acreditaremos...

– Ele confiou em Deus, bendito seja, para libertá-lo e teve a pretensão de ser

seu filho... Olhai-o agora! Crucificado entre dois bandidos...

O autor da última frase – outro dos sacerdotes de Caifás – não conseguiu o

efeito desejado. A multidão, certamente, não considerava Gistas e Dimas ladrões e

por isso não fez coro ao mal-intencionado saduceu.

Enquanto os soldados guardavam as vestes do Mestre, um pensamento

assaltou-me: “Que iria ocorrer com aquelas peças? Onde iriam parar?”.

De uma coisa estou certo: os mercenários não se desvencilhariam facilmente

do que, segundo o costume, pertencia-lhes. Por outro lado, seguir a pista das

vestes não era coisa fácil para os discípulos de Jesus. A maioria daqueles romanos

regressaria de imediato ao acampamento-base, na cidade de Cesareia, e com o

passar dos meses muitos mudariam de destino ou seriam licenciados. Tudo isso me

fez suspeitar que – ao contrário do que ocorreria com a mortalha que serviu para

seu sepultamento – Jesus de Nazaré não era partidário de que seus discípulos

guardassem essas relíquias, sempre suscetíveis de serem convertidas em alvo de adoração supersticiosa, com o consequente risco de relegarem a um segundo plano

sua verdadeira mensagem ou mesmo esquecerem-se dela...188

Concluída a divisão das vestes, Longino pediu a seu lugar-tenente que

examinasse também o encravamento dos condenados. O optio aproximou-se

primeiro da cruz da direita e tocou a cabeça do cravo do pé esquerdo do

guerrilheiro. Parecia solidamente plantado. O zelote, com o corpo pendido,

violentamente encurvado para a frente, não havia parado um só momento de

ulular e contorcer-se, na ânsia de sobreviver. Mas as penosas e cada vez mais

duras condições para roubar alguns bocados de ar apenas lhe haviam acrescentado

maiores dores e hemorragias.

Ao ver Arsenius ao pé de sua cruz, Gistas fez um supremo esforço e, retesando

os músculos dos ombros, conseguiu elevar os braços e inspirar fundo. E, ao expirar

o escasso ar conseguido, lançou contra o suboficial uma cusparada misturada com

sangue e acompanhada de um insulto. Indignado, o auxiliar do centurião pegou

uma lança e assestou com o cabo de madeira um golpe em plena boca do

estômago do zelote. O já castigado diafragma se ressentiu ainda mais,

mergulhando o condenado em um processo mais acelerado de asfixia. Sem deixar

de olhar para cima, desconfiado, o optio repetiu o exame nos pés de Jesus e,

finalmente, nos cravos do terceiro crucificado. Este vinha recobrando os sentidos,

ainda que seu olhar – consequência, possivelmente, da beberagem – tivesse se

tornado opaco e oblíquo. A dor o havia tirado da inconsciência e seus gemidos não

cessariam tão cedo.

De repente, entre um uivo e outro, Gistas, com o rosto banhado de suor frio,

girou a cabeça para a esquerda e perguntou ao Mestre:

– Se és filho de Deus... por que não asseguras tua salvação e a nossa?

No mesmo instante, porém, sufocado pelo esforço, caiu sobre os pontos de

apoio inferiores, ofegante, empenhado em novas e rapidíssimas inspirações.

Mas o Mestre não respondeu. Quem o fez foi o outro guerrilheiro. Apoiado,

como estava, com a ponta do pé esquerdo sobre metade do sedilis, sua mecânica

respiratória não era tão fatigante como a de seus companheiros de cruz. E com voz

balbuciante censurou seu amigo:

– Tu não temes nem mesmo a Deus?.. Não vês que nossos sofrimentos... são

por nossos atos...?

Dimas fez uma pausa, lutando por uma nova inalação, e por fim continuou:

– ... Mas ... este homem sofre injustamente!... Não seria preferível buscarmos o

perdão de nossos pecados... e a salvação... de nossas... almas?

Os músculos de seus braços relaxaram e o abdome voltou a inflar como um

globo.

Jesus, que havia escutado as palavras de ambos os zelotes, abriu os lábios uns

poucos milímetros, em evidente demonstração de que desejava responder. Mas seu

corpo, muito pendido sobre as extremidades inferiores, não obedeceu à sua

vontade. Mesmo assim, o gigante não se rendeu. Acelerou o número de inspirações pela boca – cheguei a contar quarenta por minuto, quando o ritmo normal e

inconsciente de respirações de um ser humano é de dezesseis – e tentou contrair

os potentes músculos das coxas, no afã de erguer-se alguns centímetros e fazer

chegar o ar aos pulmões. No entanto, aqueles cinco ou dez primeiros minutos na

cruz haviam queimado o escasso potencial de todos os feixes musculares das coxas

e das pernas – utilizados pelo Senhor no imprescindível apoio sobre os cravos dos

pés para ganhar oxigênio – e os bíceps, sartórios, retos anteriores vastos e gêmeos

se negaram a funcionar. A rigidez de todas essas fibras musculares convenceu-me

de que a temida tetanização havia-se iniciado antes do previsto. (Esse

dolorosíssimo quadro – a tetanização – ocorre sempre que os músculos entram em

um processo anaeróbico, ou a carência de oxigênio. Em condições assim, o ácido

tático existente nas fibras musculares não pode metabolizar-se ou cicatrizar-se. O

organismo se vê, então, submetido a uma dor dilacerante, bem conhecida pelos

atletas.)

Ao compreender que suas pernas haviam começado a falhar, o Mestre – presa

das primeiras convulsões e espasmos musculares próprios da incipiente, mas

irreversível tetanização – forçou a articulação dos cotovelos, ao mesmo tempo que,

buscando apoio (!) nos cravos dos pulsos, pedia à musculatura de seus antebraços

que lhe servisse de “ponte” para erguer a dos ombros.

Entre ôfegos, inspirações e lamentos entrecortados – provocados pelo atrito ou

pela pressão dos cravos sobre os nervos medianos dos pulsos –, aquele exemplar

humano venceu enfim a força da gravidade, içando-se sobre si mesmo e relaxando

o diafragma. Os deltoides, duros como pedras, transformaram seus ombros em

“mãos” e sua boca se abriu tremulante, ganhando pelo menos a metade da batalha

pela inspiração do ar poeirento que os açoitava.

Ao observar o titânico esforço de Jesus, o zelote que o havia defendido voltou a

falar-lhe:

– Senhor! – disse-lhe com voz suplicante – Lembra-te de mim quando entrares

no teu reino!

Ao mesmo tempo em que expirava parte do ar conseguido na última inspiração

e com as artérias do pescoço tensas como tábuas, o Galileu conseguiu responder-

lhe:

– Em verdade... hoje te digo... que algum dia estarás junto a mim... no

paraíso...

Os músculos dos ombros, braços e antebraços vieram abaixo e, com eles, toda

a massa corporal do Nazareno, que de novo se dobrou “em serra”, sem esperança

de repetir o extenuante “trabalho”.189

De minha parte, em vista da acelerada degradação do organismo do gigante,

dispus-me a colocar nos olhos as “crótalos” e iniciar uma das mais delicadas e

vitais operações de acompanhamento médico daquela missão.

Mais dois fatos – um deles absolutamente imprevisto e desconcertante –

atrasariam esse novo exame do corpo de Jesus...

Por volta das treze e quarenta, a voz de Eliseu disse “5 x 5” em meu ouvido.

Com certa excitação, adiantou-me algo que os hebreus, o pelotão de vigilância do

Gólgota e eu já tínhamos visto e que não tardaria a converter a Cidade Santa e

aquela paragem em um inferno. A primeira frente do haboob acabava de cair como

uma tenebrosa névoa sobre o lado oriental do monte das Oliveiras. O “berço”,

como medida de precaução, havia ativado seu “cinturão” de defesa. As rajadas de

vento, em sua passagem pelo módulo, alcançavam os 35 nós.

A multidão, ao divisar as nuvens sujas de tempestade que avançavam pelo

leste como uma “onda” gigantesca, começou a se movimentar precipitadamente

até a muralha. Muitos penetraram pela porta de Efraim e outros, bons

conhecedores dessa espécie de siroco, buscaram refúgio ao pé do alto muro que

circundava Jerusalém naquele ponto. O sol continuava brilhando no alto, no centro

de um céu azul e transparente. Creio que esse registro seja mesmo muito

interessante: ao contrário do que dizem os evangelistas, aquela multidão não se

retirou das proximidades do Calvário por causa das “trevas” a que aludem as

escrituras sagradas. As trevas ainda não tinham ocorrido. E mais: naquele

momento tampouco percebi medo. O fenômeno – não me cansarei de insistir nisso

– era incômodo e até mesmo perigoso, mas frequente naquelas latitudes. Os

judeus, portanto, estavam acostumados a tais tormentas de vento e poeira. Não

era lógico que esta lhes infundisse pânico. Todavia, o terror de que falam Mateus,

Marcos e Lucas produziu-se. Mas, como passarei a narrar em seguida, a origem do

medo não esteve, repito, no siroco...

Em poucos minutos, daquelas centenas de pessoas que contemplavam os

crucificados, só restou um contingente mínimo de sacerdotes e curiosos. Talvez

meia centena, cuja maioria, como se fosse uma medida habitual de proteção,

começou a sentar-se no chão e a cobrir a cabeça com os pesados e multicoloridos

mantos. Aquele pequeno grupo, positivamente, era uma prova a mais do que

afirmo. Sabiam que se formava sobre suas cabeças uma tempestade seca e,

todavia, encararam o caso com sabedoria. Certamente elegeram e preferiram o

macabro espetáculo dos condenados debatendo-se entre a vida e a morte.

Senti-me tentado a aproveitar aqueles instantes para colocar minhas lentes de

contato e checar o corpo do Mestre. Mas a iminente aproximação dos densos e

negros redemoinhos me fez desistir. A tal velocidade – cerca de setenta

quilômetros por hora –, as partículas de poeira e os grânulos de areia poderiam

danificar a delicada superfície das “crótalos”, arruinando aquela fase da missão e

quem sabe pondo em perigo a integridade física de meus olhos. Por isso, optei por

ligar os registros ultra-sônicos e “teletermográficos”. Segundo Eliseu, o “focinho” do

haboob e os dois ou três “lóbulos” que vinham atrás não eram muito profundos,

estimando-se sua duração de quinze a vinte minutos.

Não foi necessário que o centurião desse muitas instruções. Cada homem sabia

como devia comportar-se diante daquela contingência. Ao observar a maciça

retirada dos judeus, Longino permitiu às sentinelas que se agrupassem no extremo sudeste do cume do Gólgota, de frente para a tormenta. Juntaram os quatro

escudos, formando um parapeito, e cravaram seus joelhos no chão. Para garantir a

estabilidade dessa improvisada defesa, valeram-se das braçadeiras internas de

cada escudo. O resto da patrulha levantou a fileira de escudos que havia sido

disposta sobre a superfície do patíbulo e formou um segundo muro de defesa. E

todo o pelotão – incluídos o oficial e Arsenius – agachou-se também de frente para

o cada vez mais próximo temporal.

Longino, ao me ver de pé e indeciso, fez-me sinal com a mão para que eu

buscasse refúgio junto ao magote formado por seus homens. Assim fiz, sem perda

de tempo. Mas, em lugar de me agachar como os soldados na direção do siroco,

sentei-me de costas para a patrulha, sem perder de vista os crucificados.

O vento, num instante, tornou-se mais cálido e sibilante. O primeiro torvelinho

d o haboob se precipitou sobre Jerusalém e sobre o penhasco em que nos

encontrávamos com considerável violência. Em poucos segundos, uma massa

esbranquiçada, formada por toneladas de areia e pó em suspensão, arrasou o

lugar, produzindo repiques em seu choque contra as faces convexas dos escudos.

Apesar do manto que cobria minha cabeça, uma miríade de grãos de areia fina

começou a acossar-me, penetrando por todas as partes ocas de minhas vestes e

ferindo-me a pele – especialmente as pernas – como alfinetes. O bramido daquele

tornado foi crescendo com a velocidade. Em pouco tempo, tanto os soldados como

eu nos vimos obrigados, em estado de quase desespero, a fechar os olhos e

proteger a boca, os ouvidos e as fossas nasais daquela angustiante massa de areia.

Conforme o siroco foi crescendo, os gritos dos zelotes – com as faces voltadas

para o vento e quase despidos como estavam – fizeram-se mais e mais

estentóreos. As rajadas haviam começado a açoitar seus corpos indefesos com os

milhões de partículas de terra. Era mais um novo e insuportável suplício. Ergui a

cabeça como pude e, entre as colunas de areia ouvi, mais do que vi, um dos

guerrilheiros implorando entre uivos que acabassem com ele. Quanto a Jesus,

quase não pude divisar sua figura, mas imaginei o sufocante tormento que estaria

suportando.

Duvido que alguém no Gólgota e arredores, ou na cidade, pudesse levantar os

olhos durante aquele pesadelo. As sucessivas frentes do haboob, cujo “teto” era

impossível divisar em tais condições, elevavam-se, como quer que fosse, a uma

altitude suficiente para esfumar o disco solar, ao menos para qualquer observador

que se encontrasse imerso no tornado. No entanto, não observei propriamente uma

escuridão ou redução da luz diurna que pudesse ser caracterizada como “trevas”.

Houve, naturalmente, uma diminuição da visibilidade, como consequência do

arrasto de areia e pó, mas não a escuridão fechada que se depreende dos textos

evangélicos. Qualquer pessoa que tenha vivido uma dessas experiências sabe que,

por mais espesso que seja o fenômeno meteorológico em questão, dificilmente ele

desemboca em trevas. Foi depois que ocorreu “aquilo” que uma grande área

“escureceu”.

Uma vez distanciados os três ou quatro lóbulos “de cabeça” da tormenta, Eliseu

abriu de novo a conexão auditiva e anunciou que a “cauda” do siroco, já

enfraquecida, necessitaria de outros cinco ou dez minutos para cruzar a região. As

massas de terra em suspensão já eram menos consistentes, ainda que os ventos,

na superfície, mantivessem velocidades não inferiores a vinte ou vinte e cinco nós.

O centurião, ao notar que o torvelinho principal parecia decrescer, ergueu-se

parcialmente e inspecionou os quatro soldados que se resguardavam a poucos

metros de nossa “paliçada”. Não deve ter observado muitas anomalias, porque

voltou a acocorar-se imediatamente, à espera das últimas rajadas do haboob.

Eliseu não estava enganado. Por volta das catorze horas, a força do tornado

diminuiu, assim como a poeira. Felizmente, o corpo principal do siroco fora-se

fragmentado desde seu nascimento nos desertos arábicos e alcançara as terras da

Palestina com uma “cabeça” cujo comprimento foi avaliado pelos instrumentos do

módulo em uns vinte quilômetros, com cento e vinte e cinco de frente. As rajadas,

não obstante, não cessariam até já bem entrada a tarde.

Quando a tormenta cessou, o espetáculo que se ofereceu ao nosso redor era

simplesmente dantesco. Os soldados e eu, naturalmente, estávamos cobertos de

areia. O pó havia branqueado as sobrancelhas, os cabelos e as vestes dos

soldados, assim como os mantos dos cinquenta últimos judeus que haviam

preferido aguentar o açoite ao pé do Gólgota.

Quanto aos crucificados, ao vê-los mudos e com as cabeças imóveis sobre o

peito, o que primeiro pensei é que haviam perecido por asfixia. Longino deve ter

imaginado o mesmo, porque se precipitou para as cruzes ao mesmo tempo que

batia com as mãos em suas roupas e sacudia-se.

Entretanto, ao chegarmos junto aos condenados, verificamos – eu, pelo menos,

com alívio – que continuavam vivos. As costelas flutuantes de Jesus registravam

esporádicas oscilações, sinal de uma débil ventilação pulmonar. As feridas e os

filetes de sangue estavam crivadas de partículas de areia, que chegavam a tampar

as profundas brechas das costas e a ruptura da rótula. Seus cabelos e os pelos das

axilas e do púbis, assim como os do peito, estavam irreconhecíveis, convertidos em

massas encanecidas. Seus cabelos, sobretudo, encharcados pela hemorragia, eram

agora, com o pó, um viscoso e cinzento penduricalho. Fiquei aturdido ao ver sua

barba e seu bigode cobertos de pó e seus lábios cobertos de uma crosta terrosa,

que lhe ocultava o contorno e até as profundas rachaduras abertas.

As chagas dos cravos, tanto em Jesus como nos zelotes, haviam sido quase

tampadas pelo haboob. Aquele vento infernal, que acabava de ameaçar o fio de

vida que ainda flutuava no alto daquelas cruzes, havia conseguido o que parecia

ser um milagre: estancar a perda de sangue do Nazareno (ainda que,

sinceramente, àquela altura da crucificação, não sei se isso era o melhor). De

qualquer forma, o destino é muito estranho...

Os guerrilheiros e Jesus de Nazaré estavam inconscientes. E, no fundo, era o

melhor que lhes podia ter ocorrido.

E aconteceu. Às 14h05, meu companheiro, no módulo, com uma excitação igual

à que havia demonstrado durante minha permanência no horto de Getsêmani,

abriu subitamente a comunicação auditiva para anunciar algo que fez balançar

meus esquemas mentais.

– ... Aí está outra vez ... Jasão, eu o tenho na tela...! O radar registra um eco...

Direção...? Afirmativo: procede do leste. Isto é coisa de louco!

Voltei-me para a direção, mas uma vez mais não vi nada de anormal.

Era lógico. Ainda que a “onda” de poeira se houvesse extinguido, aquele objeto

ainda estava, segundo o “Gun Dish” de bordo, a 135 milhas do “ponto de contato”

onde repousava o “berço”.

– Não vem muito rápido – prosseguiu Eliseu, que devia estar com o nariz colado

à tela do radar. – Calculo que a uns 400 nós... Oh!...

A voz de meu companheiro foi interrompida. Rodeado como estava pelos doze

soldados e seus dois chefes, não pude ligar minha conexão e dirigir-me a ele. Que

diabo estava acontecendo no módulo?

– ... Jasão, nunca acreditarão em nós...! O eco acaba de fazer uma ruptura de

quase noventa graus... Está no rumo 190... Se continuar assim passará quase sobre

a vertical... Mas como pôde...? Que espécie de “coisa” pode fazer um giro assim...?

Jasão, penso que não me pode falar. Continuarei informando... Agora está

reduzindo, afirmativo, reduz sua velocidade! E também o nível... Vamos ver... de

fato... Puxa! Passa de 400 nós a 275... Nível? 300, e continua baixando... Dou os

“pegeons”190 em relação ao módulo: 90 milhas e mantido em 190... Um instante!

Agora acelera... Afirmativo, está acelerando: 400... 700... 900 nós...! Não é

possível...! Estabilizou-se agora no nível 120 (4 mil metros)... Você o verá daqui a

pouco, se ele mantiver essa velocidade... Acho que às “duas” da sua posição...

De fato, em cinco minutos e seis segundos, a voz de Eliseu irrompeu de novo

na minha cabeça. Mas dessa vez eu via a “coisa”: no início, como um ponto

brilhante; depois, à medida que foi-se aproximando, perdeu luminosidade e

converteu-se em uma espécie de “lua cheia”, de cor mate.

Os soldados não tardaram muito a vê-lo. E o centurião, levantando os olhos,

ficou tão perplexo quanto eu.

– ... Jasão...! Está vendo? Eu o vejo quase nas minhas “doze”, e alto... Continua

a 12 mil pés. Agora para...! Afirmativo! Está estacionário...!

As últimas palavras vindas do módulo, carregadas de emoção, acabaram

contagiando-me. Esfreguei os olhos pensando em uma possível alucinação... Mas

logo caí em mim: aquela hipotética explicação era ridícula. Longino, os infantes e

eu poderíamos sofrer algum tipo de transtorno, mas e o radar?

Aquela “coisa”, segundo Eliseu, havia-se estabilizado a uns 4 mil metros sobre

a vertical de Jerusalém. E assim permaneceu por dois ou três minutos. A julgar pela

altura em que estava e por seu tamanho aparente – superior ao de dez luas –, suas

dimensões eram enormes.

Enquanto eu observava surpreso aquele fenômeno, passou pela minha mente uma infinidade de possíveis explicações que certamente não me satisfaziam. Era o

segundo objeto voador que eu via nas últimas catorze horas. Como podia ser

aquilo? Que significava? E, sobretudo, quem (um ou mais) o tripulava?

Mas minhas elucubrações foram definitivamente pulverizadas quando meu

irmão, depois de checar por três vezes o diâmetro do artefato, deu-me suas

dimensões: 1.757,9096 metros! Quase um quilômetro e oitocentos metros! Quer

dizer, um comprimento um pouco superior ao de toda a Cidade Santa...

A presença daquele monstruoso disco, totalmente silencioso e flutuante como

uma frágil pluma, levou a escolta do espanto ao medo. Em um movimento de

reflexo, o centurião e alguns de seus homens desembainharam suas espadas e

reuniram-se na base das cruzes. Mas nenhum conseguiu dizer nada. Um pânico

irracional os imobilizava. E o mesmo ocorria com a meia centena de curiosos que

permanecia ao pé do Gólgota. Os olhares de todos estavam fixados naquela

misteriosa “lua”...

Às 14h08, segundo os cronômetros do módulo, o objeto oscilou ligeiramente –

como se “tremesse” – e, rápido, em um arranque ascencional que me atreveria a

qualificar de majestoso, dirigiu-se na direção do sol. Ao alcançar o nível 180 (18 mil

pés), voltou ao estado estacionário.

Um alarido coletivo escapou das gargantas dos judeus quando viram que o

artefato começava a interpor-se entre o disco solar e a Terra. E o fez de leste para

oeste (sempre considerada a observação a partir do Calvário e imediações).

Em segundos, com uma precisão que me ressequiu a garganta, o formidável

objeto tapou o círculo solar, ocasionando o progressivo escurecimento de

Jerusalém num extenso raio, no qual, naturalmente, eu estava.

Essa interposição, milimétrica e magistralmente desenvolvida por quem quer

que governasse aquele imenso aparelho, processou-se com certa lentidão, mas

sem titubeios. Hoje, ao recordar o acontecimento, tenho a sensação de que os

responsáveis pela operação quiseram que o “eclipse” pudesse ser observado passo

a passo.

Em menos de dois minutos, o disco solar desaparecia e, com ele, a claridade.

Ou melhor dizendo, uns 80% da fonte de luz. Obviamente, embora a grande massa

metálica – confirmada pelo radar – projetasse o gigantesco cone de sombra sobre

a Cidade Santa e seus arredores, a radiação solar continuava ativa, formando uma

“coroa” ou “aura” luminosa que abarcava toda a curvatura do enigmático objeto. As

“trevas”, de fato, aconteceram sobre Jerusalém, ainda que não com o caráter

absoluto de uma noite fechada, por exemplo. A claridade remanescente ao redor

do disco era suficiente para que pudéssemos distinguir coisas e pessoas em torno

de nós, com um índice de luminosidade muito similar ao que se costuma seguir a

um pôr do sol. E assim se manteria até que chegasse o momento fatídico...

(Não creio que seja necessário estender-me em profundidade sobre essa ilógica

explicação científica que tenta resolver esse fenômeno das “trevas” com a ajuda de

um eclipse total do sol. Basta recordar que naqueles dias se registrava precisamente o plenilúnio, o que tornava o eclipse solar impossível. A lua, às duas

horas da tarde do dia 7 de abril do ano 30, estava ainda oculta por baixo do

horizonte oriental. Os astrônomos sabem, além disso, que um eclipse dessa

natureza sempre se inicia pela face oeste do disco solar. Aqui, ao contrário, o

escurecimento do sol iniciou-se pelo leste.)

Eliseu, uma vez consumado o escurecimento solar, verificou os parâmetros de

bordo e confirmou que aquela espécie de “superfortaleza” volante havia ficado

“ancorada” a 18 mil pés de altura, com velocidade de deslocamento de 1.431,055

quilômetros por hora. Nos 45 minutos que durou o fenômeno das “trevas”, aquele

objeto cobriu um total de 1.073,2912 quilômetros, sempre a uma altitude de 6 mil

metros. (O diâmetro solar aparente correspondia a um arco cujo valor aproximado

era de 33 minutos e 10 segundos.)191

Ao se completar o eclipse que – insisto – só teve projeção puramente local,

muitos dos judeus – espantados – caíram com o rosto no chão, golpeando o próprio

peito com ambas as mãos e proferindo exclamações de terror. Os saduceus,

desconcertados, não sabiam como reagir. Por fim, a maioria dos hebreus fugiu pela

porta de Efraim, enquanto seus dirigentes – não inteiramente convencidos –

tentavam retê-los, gritando-

-lhes que “tudo aquilo só podia obedecer a algum encantamento do crucificado, se

não fosse um fenômeno celeste...”.

Foi inútil. A perturbação dos ignorantes e supersticiosos inimigos de Jesus era

tal que eles não quiseram ouvir as razões dos sacerdotes. E ali permaneceram os

desamparados juízes, muito mais atentos ao que ocorria no céu do que ao patíbulo.

Suponho que eles tenham continuado ao pé do Gólgota não porque lhes sobrasse

valentia, mas em obediência a Caifás e ao resto do Conselho.

O oficial romano teve de fazer um esforço supremo para acalmar seu

nervosismo e o de seus homens. Se os hebreus estavam temerosos com esse tipo

de manifestação, os romanos muito mais. Com gritos imperiosos, Longino

conseguiu, finalmente, que seus soldados ocupassem os postos de vigilância que

haviam sido designados pelo optio antes da chegada da tormenta. A julgar pelo

vozerio que se levantava além da muralha, a confusão e o medo entre os

peregrinos e a população de Jerusalém deviam ser extremos. Enquanto aquela

área permaneceu na penumbra, muitos curiosos chegaram a aproximar-se do arco

da porta de Efraim, intrigados e, suponho, ansiosos por descobrir se tudo “aquilo”

teria alguma relação com o prodigioso Mestre da Galileia. Mas nenhum teve

coragem de se aproximar. Ou melhor, houve um grupo que teve...

 

Poucos minutos antes de se iniciarem as “‘trevas”, pelo caminho que partia de

Jerusalém um grupo de meia dúzia de pessoas se destacou. Com passo ligeiro e

decidido, foi-se aproximando do sopé da grande rocha. Por causa das sombras, não

consegui distinguir o apóstolo João, até que ele parasse a poucos metros de onde

eu estava. Por fim, havia voltado. Acompanhavam-no outro homem e dezoito

mulheres, estas semiocultas por seus mantos. Mas não consegui ver o rosto de nenhum dos amigos do Zebedeu.

Era deveras estranho. Na realidade, tudo era estranho desde o aparecimento

daquele objeto, que continuava fixo e imperturbável sobre nossas cabeças.

Precisamente desde sua aparição no espaço – e só me dei conta disso após a

chegada de João e seu grupo –, o vento havia cessado. E, com ele, todos os

rumores e sons próprios do campo. Pelo menos os que habitualmente eu vinha

percebendo. Até mesmo os fugazes trinos das andorinhas e outras aves, o zumbido

dos insetos e das nuvens de moscas verdes e grandes como moedas de um

centavo que, antes da passagem do haboob, haviam começado a pousar às

dezenas sobre o sangue dos crucificados.

Quando eu estava a ponto de descer pela fresta afim de me encontrar com

João, um súbito gemido do Galileu me deteve. O Mestre parecia ter recobrado a

consciência. O centurião e eu caminhamos alguns passos e de fato comprovamos

que o Nazareno se esforçava para sustentar de novo um ritmo respiratório

acelerado. A queda forçada do diafragma havia inchado seu ventre, e o tórax

estava rígido como o madeiro do qual pendia. Apesar do pó que o cobria – quase

como fatídica antecipação de uma sepultura –, os sinais da cianose eram cada vez

mais palpáveis. As poucas unhas dos dedos dos pés que não se achavam cobertas

de sangue haviam começado a tomar a típica cor azulada. O mesmo ocorria com as

pontas dos dedos. A tetanização dos membros inferiores era agora galopante. Os

músculos das coxas e das pernas continuavam registrando espasmos, ainda que

cada vez mais espaçados. Os dedões dos pés já haviam entrado em “adução”,

desviando-se para o plano central do corpo do Nazareno.

De repente uma mão pousou em meu ombro esquerdo. Era João. Com sua

habitual coragem, havia subido até o alto do Calvário. Estava só. A verdade é que

nem sequer quis contemplar o Mestre. Com os olhos fundos, o rosto marcado pelas

longas horas de insônia e sofrimento, parecia um velho...

Com voz trêmula, dirigiu-se a Longino, suplicando-lhe que, ainda que por um

instante, permitisse à mãe de Jesus aproximar-se da cruz e dar o último adeus a

seu primogênito. João acompanhou seu pedido apontando para o grupo de

mulheres que aguardavam a curta distância dos saduceus.

Apesar de tudo o que eu já havia vivido e sofrido naquela missão, ao ouvir o

Zebedeu meus joelhos tremeram. Maria estava ali!

Longino não teve coragem de negar. Autorizou o discípulo a acompanhar a mãe

do Mestre até o alto do patíbulo, com a condição de que o restante do grupo

ficasse onde estava e a permanência ao pé da cruz fosse a mais breve possível.

João agradeceu o gesto humanitário do centurião e apressou-se a voltar para o

grupo. Trocou algumas palavras com as mulheres e em seguida uma das hebreias

começou a subir por entre as rochas, assistida por João e outro homem.

À medida que se aproximavam, meu pulso se acelerou. Em poucos segundos

tive diante de mim a mãe terrena daquele gigante...

Os soldados, um pouco mais tranquilos, haviam descido ao segundo penhasco em busca de lenha seca para fazer uma fogueira. É claro que eles não poderiam

prever a duração do escurecimento e Arsenius, prudentemente, ordenara aos

infantes que fizessem uma boa provisão de lenha. Faltavam quatro horas para o

ocaso e a custódia dos condenados podia ser longa.

No instante em que Maria chegou ao pé da cruz central, dois soldados

depositaram sobre a rocha diversos feixes da chamada giesta “de escovas”, muito

leve e de excelente qualidade para seus propósitos.

Apoiada nos antebraços de João e do segundo homem (que se chamava Jude,

ou Judas, e que, segundo eu viria saber no dia seguinte, era irmão carnal de Jesus)

, aquela hebreia de rosto extremamente pálido parou a um metro da cruz em que

estava cravado seu filho. Não era muito alta. Sua cabeça, erguida para o Mestre,

havia ficado mais ou menos na altura dos joelhos do Nazareno. Possivelmente

mediria entre 1,60 e 1,65 metro. Tinha cerca de cinquenta anos, embora sua figura

frágil, meio encurvada, e as rugas que se projetavam de seus bonitos olhos

amendoados a fizessem mais venerável. Apesar da escuridão, chamou-me a

atenção sua testa alta e dilatada, arrematando um rosto ovalado em que mal

despontava um nariz pequeno e reto. Tinha a cabeça coberta com um manto

marrom-claro que não me permitiu ver-lhe os cabelos. No entanto, a julgar pela cor

das sobrancelhas – finas e levemente arqueadas –, deviam ser de um negro

azeviche. A túnica, de tonalidade igual à do manto, mas um pouco mais apagada,

quase roçava o solo do Gólgota.

Ninguém disse nada. João começou a chorar, agarrado no braço da Senhora.

Longino, comovido, afastou-se.

No entanto, para minha surpresa, Maria não derramou uma só lágrima. Só o

tremor de suas longas e calejadas mãos, sob cuja pele serpenteava uma rede de

veias azuis e pronunciadas, refletia sua aflição.

Meus problemas foram aliviados quando o oficial, em outro gesto que muito

depunha a seu favor, juntou-se de novo a nós carregando um facho que acabava

de acender.

Quando Longino aproximou a improvisada tocha do corpo do Mestre para que

sua mãe pudesse contemplá-lo melhor, o Galileu, alertado quem sabe pelo

resplendor da chama, desprendeu o queixo do peito e percebeu a presença da

família. Sua respiração voltou a se agitar e seu olho direito se abriu ao máximo.

A mulher, do mesmo modo que João e o irmão de Jesus, não tirava os olhos do

rosto do crucificado.

A boca do gigante se abriu ligeiramente. Ele tentava falar, mas seus pulmões –

reduzidos à mínima capacidade vital, devido às múltiplas lesões dos músculos

respiratórios e à angustiante falta de apoio – apresentavam gravíssima

insuficiência ventilatória restritiva. (Poucos minutos mais tarde, quando ajustei os

ultra-sons a seu tórax, o equipamento do Cavalo de Troia receberia informação

precisa sobre essa delicada situação, confirmando minhas suspeitas: a capacidade

vital de Jesus se achava muito abaixo de oitenta por cento do valor teórico normal, estimado, como se sabe, em cinco litros e meio.)

Apesar disso, o Nazareno, em um titânico esforço, contraiu os músculos

abdominais e, quase ao mesmo tempo, a esgotada musculatura dos antebraços e

ombros começou a palpitar, buscando a energia necessária para que a parte

superior do corpo se elevasse os imprescindíveis e quilométricos 26,5 centímetros.

Mas as reservas de Cristo estavam quase totalmente esgotadas, e sua vontade não

foi suficiente. Nesse dramático momento, aconteceu algo quase insignificante,

pouco menos que imperceptível para os que estavam aos pés da cruz, mas que,

como médico que sou, gelou-me o coração. Jesus arqueou o diafragma uma

segunda vez e distendeu de novo os músculos elevatórios e extensores, fazendo-os

vibrar. Ao mesmo tempo, seu pulso esquerdo girou apenas um centímetro sobre o

eixo do antebraço. Aquele movimento do carpo sobre o cravo colaborou

decisivamente para a elevação dos ombros. A cabeça do rabi cravou-se no

patibulum e seu queixo apontou para o céu, enquanto a violenta dor provocada

pelo ligeiro giro de seu pulso fazia latejar violentamente as paredes da veia jugular

externa, salientando as fossas supraclaviculares e os músculos do pescoço como

jamais vi em ser humano algum. Num instante, da semifechada ferida do punho

esquerdo surgiram dois fios de sangue, finíssimos e divergentes, que correram para

o cotovelo.

O Mestre – a que preço! – havia conseguido atingir seu propósito. Ao erguer-se,

a boca se abriu ao máximo e uma aspiração de ar fresco penetrou em seus

pulmões, ao mesmo tempo que o afundamento do ventre deixava a descoberto a

crista ilíaca do quadril direito.

O corpo do crucificado voltou a pender e Jesus, baixando o rosto, esboçou um

estranho sorriso. Aquele ricto alarmou-me: não se tratava na realidade de um

sorriso e sim de outro sintoma da tetanização, que em medicina se conhece por

“sorriso sardônico”: lábios apertados, com as comissuras para fora e para cima.

Maria, ao contemplar o desesperado esforço de seu filho, baixou o rosto. Suas

pernas fraquejaram. João e Judas a sustentaram. Seus lábios, apenas sombreados

pela luz da tocha, começaram a tremer, e as profundas olheiras que se viam em

cima de seus pômulos salientes e afilados se confundiram com a negra e

insondável amargura de uns olhos que, apesar de tudo, conservavam ainda

singular beleza.

– Mulher...!

A rascante voz do Mestre fez com que Maria e todos os demais erguessem o

rosto. E o semblante da hebreia se iluminou.

– Mulher – repetiu Jesus –, eis aqui teu filho!

João enxugou as lágrimas com a palma da mão direita e ficou olhando para o

Mestre, sem conseguir compreender.

Depois, voltando o rosto para o apóstolo, Jesus exclamou quase sem forças:

– Filho meu... eis aqui tua mãe!

A minguada inalação do crucificado estava quase esgotada. Sua respiração entrou em déficit. Utilizando suas últimas possibilidades, ele ordenou arquejante:

– Desejo... que abandoneis este... lugar.

Seu abdome tinha voltado a deformar-se, enquanto a cabeça, os braços e os

ombros desabavam.

Os homens mostraram intenção de dar meia-volta e retirar-se, mas Maria,

sempre em silêncio, avançou um passo para o filho, inclinou-se muito lentamente e

depositou um beijo em seu joelho direito. Depois, ocultando o rosto entre as mãos,

abandonou o penhasco, praticamente sustentada por João e Judas.

Creio que tanto o centurião como eu ficamos impressionados com a fortaleza

daquela mulher. Uma hebreia que eu ainda teria a oportunidade de rever, numa

conversa em que obteria uma magnífica e sensacional informação.

A pequena, quase insignificante sombra de Maria, a mãe do Mestre, não tardou

a esfumar-se na penumbra. João e Judas a acompanharam em seu caminho de

volta a Jerusalém. Mas as outras mulheres do grupo continuaram ali, a certa

distância, atentas à agonia do crucificado. Ali estavam, entre outras seguidoras e

crentes, Rute, também irmã carnal do Nazareno; Salomé, a mãe de João; Miriam,

esposa de Cleopás e irmã da mãe de Jesus; Rebeca e Maria, a de Magdala, mais

conhecida por Madalena.

Às 14h25, o optio autorizou seu subordinado, que fazia as vezes de intendente,

a distribuir a ceia entre os homens da patrulha: porco salgado, queijo, pão e uma

ração de água com vinagre, conhecida pelo nome de posca. Todos os soldados, à

exceção dos que montavam guarda, reuniram-se em torno da fogueira, para dar

conta das iguarias.

Durante aqueles breves momentos de descontração, perguntei ao oficial por

que a patrulha havia empilhado diversos feixes de ramos na base de cada uma das

cruzes. Longino, convidando-me a beber o vinho fermentado, explicou-me que se

tratava de uma simples medida de benevolência. Em caso de necessidade, se

assim se ordenasse ou se a agonia dos réus se prolongasse muito, deveriam atear

fogo à lenha. A fumaça consumava a morte dos crucificados por asfixia em questão

de minutos.

Alguns dos infantes, para atenuar o medo que, sem dúvida, ainda os

atormentava, começaram a gracejar com os condenados. Um deles, mais ousado

que os demais, voltou-se para Jesus e fez um brinde com sua caneca de latão:

– Saúde e sorte para o rei dos judeus!

O gesto contagiou os outros, que também levantaram a taça de posca em

direção à cruz do Galileu.

Jesus, interrompendo sua arquejante respiração, exclamou:

– Tenho sede!

O optio consultou o centurião, e este o autorizou a aproximar do Galileu o

tampão do cântaro que continha a água avinagrada. Arsenius tomou a tampa e,

depois de cravá-la na ponta de uma das azagaias da escolta, chegou ao pé da cruz

e ergueu a lança de forma que o tampão, previamente empapado na posca, tocasse os empoeirados lábios do Mestre. Jesus abriu a boca e mordeu

ansiosamente a cortiça. O líquido removeu a terra de seus lábios, mas, ao penetrar

nas rachaduras, sua acidez irritou a mucosa ferida do Nazareno e este afastou

rapidamente a cabeça. Arsenius baixou a lança e, ao observar que o prisioneiro não

aceitara a bebida, retirou-se.

Os lábios do rabi acusavam com seus tremores um incremento da crise febril.

Tomei então uma tocha e, ao aproximá-la do rosto de Jesus, descobri que a

Continuar: parte 9 de 11