Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 17 de 19 · parte 10/11

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

7 de abril, sexta-feira

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

não devesse começar antes de umas seis horas após o falecimento, o certo é que a

queda do maxilar inferior me fez suspeitar de que os músculos da boca, que havia

ficado aberta, não tardariam a entrar em rigidez. Por sua vez, a perna esquerda

estava flexionada, possivelmente devido à forçada e prolongada postura da cruz.

Seus dedos das mãos – em garra –, com os polegares voltados para o centro das

palmas, haviam se tornado muito mais azulados.

Uma vez fechado os olhos de Jesus, Nicodemos descarregou no solo um par de

pequenos sacos que, unidos por um cordel, pendiam de seu ombro esquerdo e dos

quais não se separara durante todo o tempo. Com a ajuda de José, estendeu sobre

a área seca da rocha um pano branco que trazia dobrado sob o braço. (Segundo

José de Arimateia me contaria nessa mesma noite na casa de Elias Marcos, ele

havia adquirido aquelas seis varas198 de pano de um comerciante da vizinha

localidade de Palmira, ao norte.)

Examinei o tecido e verifiquei que se tratava de uma peça de linho. Medi-o disfarçadamente com a ajuda da “vara de Moisés” e deduzi que tinha 4,30 metros

de comprimento por pouco mais de 1 metro de largura. (Em nossa segunda

“aventura”, as análises feitas no interior do módulo sobre esse pano nos dariam

assombrosos dados sobre o que pode ter acontecido no sepulcro, os quais, sem

dúvida alguma, coroaram nossa missão. Nessa análise, comprovamos, por

exemplo, que as dimensões exatas da tela eram 4,36 x 1,10 metros e que ela

pesava 234 gramas por metro quadrado, ou seja, o peso dos 4,80 metros

quadrados chegava a 1.123 gramas. A fibra, de fato, era de linho, que, submetido a

ampliações de até 8 mil vezes, mostrou uma estrutura denominada “4 em espiga”

ou “espinha de peixe”. Esse tecido em sarja, exatamente como me havia dito

Nicodemos, procedia dos teares de Palmira. Curiosamente, esse tipo de confecção

não apareceria na Europa até já bem entrado o século XIV. Mas não desejo

estender-me agora sobre nossas fascinantes descobertas sobre o lençol que cobria

o cadáver de Cristo durante aquelas históricas 36 horas...)

José de Arimateia verificou a posição do sol e pediu a Nicodemos que o

ajudasse a trasladar o cadáver até o lençol. O ancião colocou-se junto à cabeça do

Mestre e o amigo, por sua vez, junto aos pés. Ambos se inclinaram ao mesmo

tempo. José introduziu suas mãos por debaixo dos ombros do Galileu, pegando

pelas axilas. Nicodemos fez o mesmo pelos tornozelos. Trocaram olhares e, quando

consideraram que estavam prontos, tentaram erguer o pesado corpo. E digo que

tentaram porque é certo que só José de Arimateia conseguiu levantá-lo uns poucos

centímetros.

Tentaram uma segunda vez, inutilmente. Os funcionários judiciais e aquelas

pessoas que já se viram alguma vez na obrigação de mover um cadáver sabem por

experiência que não se trata de algo fácil. Muito menos se os pontos de

sustentação não forem adequados. Era o caso de Nicodemos...

Incapazes, em absoluto, de erguer o Nazareno, José não teve outro remédio

senão solicitar a ajuda do oficial. Longino, avaliando a delicada situação dos

hebreus, suspendeu o trabalho de desencravamento de Dimas, que continuou

pendurado no patibulum, e um dos soldados, mais jovem e robusto do que José, foi

encarregado da parte superior do Mestre. Passou seus braços pelas axilas,

levantando o tronco do cadáver. Ao mesmo tempo, outro soldado flexionou ao

máximo os joelhos do rabi, abraçando ambas as pernas na altura da parte de trás

dos joelhos. O corpo do Galileu formou então um “V’’ e, com a ajuda de outros

soldados – que colocaram suas mãos nos quadris e nas costas –, os 80 ou 82 quilos

do Filho do Homem puderam ser içados e estendidos no lençol.

O corpo foi depositado a uns vinte centímetros da beirada do tecido, com a

cabeça quase no centro. Naquele traslado, de apenas cinco metros, a intensa

flexão do tronco comprimiu as vísceras torácicas e abdominais, dando lugar a nova

hemorragia. Sem dúvida, a pressão fez vazar uma das veias e um grosso fio de

sangue brotou da ferida da lança, jorrando pelo flanco direito e deslizando pelas

costas, na altura da cintura.

Nicodemos tentou baixar o joelho esquerdo do Mestre, mas não conseguiu mais

do que uns poucos centímetros. Os hematomas, os cortes das articulações e a

rigidez da perna tornaram impossível seu total alinhamento. José de Arimateia pôs

fim aos esforços do companheiro, cobrindo o cadáver com os dois metros de linho

que haviam ficado livres.

O oficial, que seguia atentamente a manobra, logo percebeu que os apuros

daquela voluntariosa dupla de sinedristas não terminavam ali. Nicodemos e José,

aturdidos, ao perceberem que o traslado de Jesus iria exigir a colaboração de pelo

menos quatro homens, voltaram a implorar ajuda a Longino. Este, sorridente,

recomendou ao seu lugar-tenente uma parada na operação de descida dos zelotes,

designando em seguida quatro homens dos mais robustos para se encarregarem da

remoção do cadáver até a tumba escolhida.

Nicodemos e José pediram ao oficial que lhes permitisse colaborar no traslado

do corpo do improvisado féretro. E assim se fez. Às quatro e meia da tarde, o

próprio centurião, outro mercenário e os dois amigos de Jesus ergueram o lençol do

frio solo do patíbulo e carregaram os restos mortais do Filho do Homem. Atrás

vinham os três soldados restantes, com as espadas desembainhadas, e eu, com a

alma tão descarnada quanto aquela funesta rocha da qual nunca mais me

esquecerei.

 

Embora João fale, em seu relato, de um sepulcro situado no mesmo local da

crucificação, por mais que eu observasse a região durante minha permanência no

alto do Gólgota, não consegui descobrir um único ponto junto ao penhasco que

reunisse as principais características assinaladas pelos evangelistas, ou seja, um

horto e alguma pedra na qual se pudesse escavar uma tumba. Mas logo essa nova

incógnita ficaria resolvida.

Assim que descemos do maciço rochoso, Zebedeu e as mulheres saíram ao

nosso encontro. José tranquilizou o centurião, que, ao ver aproximar-se o pequeno

grupo, colocara-se em guarda. Quase de joelhos, o apóstolo dirigiu-se ao soldado

que segurava uma das extremidades do lençol suplicando-lhe que lhe cedesse seu

posto. Longino respondeu ao olhar interrogativo de seu soldado com um

movimento afirmativo de cabeça, e João o substituiu no traslado.

Nenhum crucificado podia ser enterrado em cemitério judeu, assim estabelecia

a lei. José e Nicodemos sabiam disso e, antes mesmo de visitar Pilatos, já haviam

decidido sepultar o Mestre em uma das propriedades do ancião de Arimateia. Mas o

final daquela trágica sexta-feira se aproximava a passos largos. As trombetas do

Templo não tardaram a anunciar o ocaso e, com ele, a entrada do sábado e da

solene festa da Páscoa. Era preciso agir depressa. E os membros do Sinédrio, que

carregavam o lençol pela parte dos pés, aceleraram o passo. Atrás, a uns quatro ou

cinco metros, seguiam Maria, a de Magdala; Maria, a esposa de Cleopás; Marta,

outra das irmãs da mãe de Jesus; e Rebeca de Séforis. Os soldados, por sua vez,

haviam-se dividido, cobrindo os flancos do corpo.

Ao contemplar o silencioso e furtivo cortejo fúnebre, não pude reprimir uma tristíssima sensação de solidão. Abandonado pela maioria de seus amigos e fiéis

seguidores, ultrajado depois da descida da cruz por aquela turba de fanáticos, o

Galileu agora – a caminho do sepulcro – nem sequer podia ser sepultado com um

mínimo de dignidade e repouso. Até o mais pobre e miserável dos judeus, segundo

a lei, tinha direito a um enterro com, pelo menos, dois músicos de flauta e uma

carpideira. Para o Nazareno já não restavam nem as lágrimas. Os corações das

mulheres e dos três amigos haviam secado. Quanto ao acompanhamento, apenas

me lembro dos apressados passos da escolta e dos que carregavam o cadáver,

arrastando no caminho cardos e abrolhos.

José e Nicodemos dirigiram o traslado bordejando a muralha norte de

Jerusalém e seguindo quase o mesmo itinerário da via-crúcis. Cruzamos a estrada

de Samaria e dez ou quinze minutos após o início da marcha, suarentos e com os

dedos machucados pelo peso do corpo, os componentes da comitiva pararam

diante de um horto. Estávamos ao norte do Gólgota e relativamente perto da

fortaleza Antônia, a cerca de uns 100 ou 150 metros. (Era lógico que os ricos

fazendeiros de Jerusalém não possuíssem propriedades, plantações ou hortos de

recreio próximo ao penhasco onde se justiçavam ladrões e outros criminosos.

Aquele, entretanto, parecia um lugar tranquilo e belo.)

Uma das mulheres, creio que Madalena, adiantou-se e soltou a corda que, com

um laço, prendia um portão de madeira de um metro de altura a uma cerca de

estacas meticulosamente branqueadas a cal. Essa sebe, de altura igual à da

cancela de entrada, perdia-se à direita e à esquerda entre a ramaria de uma

infinidade de árvores frutíferas.

Ao serem giradas, as ferragens articuladas dos gonzos rangeram como animal

ferido. O grupo precipitou-se no interior da propriedade. Caminhamos cerca de

cinquenta passos, sempre em meio a uma frondosa plantação de pequenas árvores

selecionadas, até chegarmos a uma bifurcação do estreito caminho que começava

no próprio umbral da porta do horto. Depois de uma breve parada, suficiente para

recobrar o ânimo, José e Nicodemos fizeram um sinal aos soldados e tomamos o

desvio da direita. O da esquerda levava a uma casinha situada a cerca de uma

centena de metros, que, a julgar pela serpenteante e espigada coluna de fumaça

que escapava pela chaminé, devia ser habitada. Dois pequenos cães saíram de

entre as árvores, saltando e ladrando alegremente entre as pernas de José de

Arimateia. Mas o ancião os fez recuar com um grito autoritário.

Percorridos uns vinte metros da bifurcação, apareceu diante de mim uma suave

elevação do terreno. Era uma formação calcária que não se destacava mais do que

um metro e meio do nível do solo.

Aí fizemos uma parada e José de Arimateia anunciou ao oficial que já podiam

depositar o corpo de Jesus no solo.

Dois passos além do ponto onde agora repousava o cadáver do Nazareno, o

solo argiloso que rodeava aquela pedra rochosa havia sido removido. José, o

proprietário do lugar, havia mandado construir uma rústica escada que descia até uma estreita galeria de apenas dois metros de largura. Ao fim dos cinco degraus,

entrava-se na galeria e defrontava-se com uma fachada, perfeitamente trabalhada

sobre a rocha viva. Grosso modo, calculei a altura daquela parede rochosa em uns

três metros. No centro, havia uma diminuta porta quadrangular de noventa

centímetros de largura. José nos pediu que o desculpássemos e afastou-se

rapidamente em direção à casinhola.

Enquanto os soldados aproveitavam aquele intervalo para sentar-se e

descansar, agachei-me e tentei dar uma olhada no interior da cripta. Uma pedra

redonda, muito parecida a uma mó de moinho, com um metro de diâmetro,

repousava à esquerda da boca de entrada do sepulcro. Ao pé da fachada, havia

sido aberta uma canaleta de uns vinte centímetros de profundidade por trinta de

largura, que corria por toda a fachada. A pedra, cujo peso devia ser superior a

quinhentos quilos, polida de modo tão tosco quanto a fachada, estava disposta de

tal forma que – para vedar o estreito orifício que fazia as vezes de porta – bastava

fazê-la rolar sobre a canaleta, à qual se ajustava quase matematicamente. Ao

passar a mão sobre aquela pedra redonda, imaginei o enorme esforço que deve ter

custado aos operários seu traslado até o fundo da galeria e quanto exigiria cada

manobra de abertura e fechamento da tumba.

Mas, ao introduzir a cabeça no interior da cripta, a escuridão era tal que não

consegui distinguir sua profundidade nem a altura das paredes ou qualquer outro

detalhe.

Ergui-me e, enquanto aguardava José, dediquei-me a medir aquela espécie de

antecâmara, ou galeria. Da fachada até o degrau mais baixo, a distância era de

2,20 metros. As paredes da galeria, a céu aberto, iam descendo desde os três

metros (altura máxima e que correspondia à fachada da tumba) até mais ou menos

um metro, no nível do degrau mais alto.

Minhas medições foram interrompidas pela volta do ancião, que vinha

acompanhado de um hebreu de uns cinquenta anos, com barba bem cuidada e que

lembrou o falecido Mestre. Tinha na cabeça um largo chapéu de palha e carregava

uma volumosa e pesada ânfora. José trazia nas mãos dois archotes de cabo curto e

uma espécie de pano.

Eram cinco da tarde quando o dono do horto se ajoelhou diante da câmara

sepulcral e, com muito cuidado, estendeu a mão esquerda e depositou uma das

tochas no interior da cripta. Em seguida, entregou a segunda tocha a seu servo e

jardineiro, que, solene e mudo como uma estátua, permanecia imóvel na galeria.

José, sempre naquela posição forçada, arrastou-se e penetrou na cova.

O tremeluzir avermelhado da tocha dentro da tumba desapareceu em poucos

segundos. E o ancião, assomando a cabeça pela abertura, pediu a segunda tocha.

Seu ajudante apressou-se a entregá-la, fazendo o mesmo com o pano.

Quando José considerou que tudo estava em ordem, saiu da galeria e fez um

sinal a Nicodemos para baixarem o corpo do Mestre.

Os soldados cumpriram a ordem, colocando os restos sobre a terra avermelhada e aplainada da galeria. O cadáver foi orientado de forma que a

cabeça ficasse defronte à estreita entrada. O ancião voltou então para o interior,

seguido do centurião. Uma vez lá dentro, ambos começaram a retirar o lençol,

ajudados do exterior por outros três soldados.

Quando, por fim, o corpo foi introduzido na tumba, Nicodemos foi passando a

José os dois sacos que ainda pendiam de seu ombro e a ânfora. Satisfeita esta

última parte do árduo traslado, também Nicodemos se inclinou e, de joelhos,

perdeu-se na mortiça claridade do sepulcro, seguido de João.

Ignorando se encontraria lugar para mim, aventurei-me a seguir Nicodemos.

Meu metro e oitenta de altura obrigou-me a dobrar a coluna e a arrastar-me sobre

o piso rugoso e incômodo.

Ao erguer a vista, encontrei-me em um recinto quadrado, de uns 3 metros de

largura e por 1,70 de altura, aproximadamente. (Desta última medida estou

bastante seguro, porque durante o tempo em que permaneci no interior da cripta

não tive outra alternativa senão inclinar a cabeça para não bater no teto rochoso,

escavado a duras penas com escopro de cantaria, a julgar pelos cortes chanfrados

da abóbada e do resto das paredes.)

Minha intromissão foi bem recebida. Quando me ergui, os quatro homens se

esforçavam para levantar o cadáver até um simulacro de banco de sessenta e cinco

centímetros de altura, igualmente roubado da massa pétrea e localizado na parede

direita (sempre tomando como referência a boca de entrada).

Apressei-me a juntar-me a eles, colaborando no definitivo e último içamento do

Nazareno. (Aquele insignificante e pobre gesto não teria sido aprovado pelo

rigoroso código do Cavalo de Troia, mas isso já não importa mais...)

Os restos de Jesus repousavam finalmente sobre um leito de pedra de um 1,89

metro de comprimento por 93 centímetros de largura, que, para dizer a verdade,

parecia ter sido escavado sob medida para o Galileu.

José apressou-se a descobrir o cadáver, enquanto Nicodemos desdobrava o

pacote de pano para extrair dele, em primeiro lugar, duas penas totalmente

brancas que, à primeira vista, pareciam ser de alguma ave doméstica.

À luz cambaleante das tochas – colocadas por José em cada um dos cantos da

cripta – surgiu de novo ante nossos olhos o ensanguentado, sujo e malcheiroso

corpo do até horas antes majestoso Filho do Homem. As crostas de excrementos

haviam acabado de secar sobre as coxas e pernas, exalando um cheiro

insuportável. Ainda que só tivessem transcorrido duas horas desde o instante de

sua morte clínica, os pés, com as unhas azuladas, já apresentavam contração post-

mortem, com predomínio do extensor dos dedos. A rigidez, como eu temia,

avançava irremediavelmente. A cabeça pendia para o lado direito, e a boca

permanecia aberta, apresentando tonalidade lívida e pronunciado arroxeamento

dos lábios. O tórax, totalmente relaxado, estava coberto por uma mistura de terra

e sangue ressecado, com uma infinidade de coágulos que despontavam sobre todo

o tórax e já não obedeciam à lei da gravidade. Observei que o epigástrio estava afundado e, com ele, as pregas do abdome, especialmente em sua metade inferior.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a mão direita. Seu dorso e bordo

cubital estavam praticamente ocultos sob uma grande mancha de sangue

coagulado; os quatro dedos longos, com pronunciada cianose e dimensões

ligeiramente superiores em relação aos da esquerda, conservavam o já citado

garroteamento em forma de “garra”. Aquele aumento da extensão dos dedos da

mão direita, a meu ver, só podia ter sido causado por alguma das terríveis lesões

nos correspondentes músculos extensores, por causa da extração do cravo e da

segunda perfuração do carpo.

O joelho esquerdo continuava dobrado; ambos os cotovelos, já enrijecidos,

mantinham os antebraços em flexão.

Quando vi Nicodemos introduzir as penas nas fossas nasais de Jesus,

compreendi sua intenção. Se o corpo conservasse um mínimo de vida, o roçar das

plumas irritaria as mucosas e excitaria sua respiração. Era, como havia escrito o

rabino A. Levy, a “certificação da morte”.

Nem é preciso dizer que o Galileu não mostrou reação alguma. Cumprido o

“trâmite”, José voltou a assomar à entrada da tumba, mas retomou no mesmo

instante.

– Precisamos nos apressar – disse em voz baixa. – O sábado não tardará a

apontar.

Depois, abrindo a ânfora, verteu parte da água em um pedaço de esponja

acinzentada e perfurada por centenas de minúsculos orifícios. Nicodemos colocou-

se aos pés do Mestre, erguendo-lhe a extremidade esquerda até onde foi possível.

José de Arimateia despojou-se do manto e, arregaçando a túnica, começou a

esfregar e limpar a face posterior da coxa e da perna de Jesus. Depois repetiu as

lavagens na perna direita, concluindo com uma série de imperfeitas fricções nas

nádegas, testículos e ânus.

– Deixemo-lo assim... – disse Nicodemos, cada vez mais preocupado com o

iminente fim da sexta-feira.

José de Arimateia atirou a esponja ao chão e começou a desatar os sacos de

aniagem, enquanto seu companheiro buscava algo no fundo do pacote de pano.

Um dos sacos continha entre quinze a vinte quilos de um pó granulado, de cor

amarelo-ouro, extremamente aromático, que, assim que foi aberto, espalhou uma

deliciosa fragrância por toda a cripta. Longino e eu nos olhamos, agradecendo

aquela súbita mudança no pesado ambiente da tumba.

No segundo saco, distingui um jarro bojudo de cobre, fechado com um tampão

de pano. Nicodemos o abriu, enquanto José o repreendia por sua lentidão. Por fim,

entre as peludas mãos do ex-sinedrista vi aparecerem pedaços de pano. Eram tiras

estreitas, esgarçadas, que, pela irregularidade dos fios, deviam ter sido arrancadas

de alguma velha peça.

Nicodemos selecionou uma daquelas “vendas” (de pouco mais de um metro de

comprimento) e, pegando-a por ambas as extremidades, esticou-a e colocou-a sobre o saco que continha o pó dourado. Sem perder tempo, Arimateia enfiou a

mão esquerda no saco, pegando um punhado de pó. Depois deixou-o escapar pela

parte inferior do punho, cobrindo mais que generosamente a superfície da tela. O

trêmulo pulso do ancião fez que boa parte do aloés – porque era disso que se

tratava – caísse no saco ou se derramasse sobre o piso da câmara. Sem disfarçar

demais, recolhi um punhadinho daquele pó e o guardei. (Submetido,

posteriormente, a uma análise microscópica pela equipe do projeto Cavalo de

Troia, apurou-se que aquela substância era na realidade uma das variantes do

aloés: o chamado “sucotrino”, que deve seu nome à ilha de Socotora, na entrada

do Golfo Arábico. Geralmente se apresenta em blocos de fratura brilhante, como

que vítrea, nas tonalidades vermelha, rosada, esverdeada ou amarelada.

Submetido à pulverização, esse aloés proporciona um produto granulado, idêntico

ao que eu tinha diante dos olhos. No caso do aloés de Socotora, sua origem, como

a de outros tipos de aloés – “hepático ou das Barbadas”, “cavaludo” etc. –, está no

sumo que se extrai de diferentes espécies botânicas. Trata-se de grandes e

formosas plantas da família das liliáceas (grupo dos asfódelos), que crescem nas

regiões quentes da Ásia, África e América. Do centro de um conjunto de folhas

grandes e carnosas, com bordas em pontas, sai um talo, ou pedúnculo, que ostenta

em seu ápice uma larga espiga de flores tubulares, geralmente bilabiadas e

vermelhas. O sumo é produzido pelas folhas.

José levantou-se e, colocando-se aos pés do Mestre, procurou juntá-los,

levantando-os de modo que seu companheiro pudesse passar a peça de pano

impregnada de aloés na altura dos joelhos. Em seguida, Nicodemos foi assoprando

sobre o aloés e, para minha surpresa, seu aroma particular se fez mais intenso e

penetrante.

Amarrou a “venda” na ponta dos pés e, apanhando de novo o saco, repetiu a

operação com uma segunda faixa. Dessa vez, antes de amarrar as mãos do Galileu,

José teve o cuidado de depositá-las reverencial e pudicamente sobre o púbis do

cadáver. A esquerda sobre a direita. Uma e outra mostravam uma mancha redonda

de sangue coagulado sobre a parte superior do punho. A forma triangular do

ferimento, com bordas negras e descarnadas, me fez estremecer.

Uma vez atado o cadáver, como mandava a lei judaica, os amigos do rabi se

inclinaram novamente sobre os sacos. Nicodemos removeu o conteúdo do jarro,

enquanto José enchia as mãos com um volume considerável de aloés.

Na mão esquerda de Nicodemos surgiu uma substância pastosa, de aspecto

gomo-resinoso, que brilhou à luz das tochas como milhares de lágrimas

avermelhadas. Era mirra. Seu forte odor, muito menos agradável que o do aloé, em

seguida se misturou ao pó, me sufocando.

Nicodemos postou-se à altura da cintura do cadáver, enquanto o velho José

fazia o mesmo junto às extremidades inferiores. Durante alguns segundos ele

manteve suas mãos firmemente fechadas, aprisionando o pó dourado. Quando as

separou, o aloés havia-se transformado em um pasta macia, quase plástica.

E ambos, a um só tempo, se puseram a besuntar e a fechar os cortes e os

orifícios naturais do corpo de Jesus. Nicodemos ocupou-se das fossas nasais, dos

ouvidos e das grandes feridas dos flancos. José, dos profundos cortes dos joelhos,

dos orifícios dos cravos das mãos e dos pés, e da rede de pequenos orifícios

provocados pelos pregos das sandálias dos soldados (paradoxalmente, daqueles

mesmos que o haviam defendido depois de morto...).

Saltava aos olhos a pressa dos homens. Se trabalhassem mais lentamente, é

provável que o tamponamento não tivesse sido feito. Uma prova do que digo surgiu

quando José recordou que faltava o reto. Mas as extremidades inferiores de Jesus

estavam amarradas, e foi preciso a ajuda de Nicodemos, que, resmungando,

ergueu novamente as pernas do Galileu para que o ancião alcançasse e

tamponasse o ânus. Logicamente, ao concluir essa manobra, grande parte do pó

dourado depositado na faixa que mantinha unidos os pés deslizou, caindo sobre o

lençol de linho.

Ao terminar, José, pressionado pela iminente chegada do crepúsculo, dirigiu-se

novamente para a pequena abertura, mas, na sua afobação, tropeçou na ânfora e

faltou pouco para que caísse de bruços. Uma vez verificada a posição do sol,

retomou ao banco de pedra, murmurando algo ininteligível.

Nesse ínterim, Nicodemos – mais sereno do que José – havia desatado de seu

braço direito um longo lenço de coloração granada, utilizado habitualmente para

enxugar o suor. Dobrou-o habilmente e envolveu com ele a cabeça de Jesus. O

lenço, fortemente amarrado no alto da cabeça, ergueu o maxilar inferior, fechando

assim a boca de Cristo.

Tudo estava consumado naquele improvisado e provisório sepulcro. Antes de

abandonar a cripta, enquanto Nicodemos recolhia e levava para o exterior os

diversos utensílios, José apanhou sua bolsa e, ao acaso, extraiu dela um par de

moedinhas de bronze de uns quinze milímetros de diâmetro cada uma. Seguindo

um remoto costume, José as depositou sobre as pálpebras do Nazareno. Só que a

grande inflamação do olho esquerdo fez o lepton escorregar.199

Ainda que a cabeça do Mestre tivesse sido escorada na altura das orelhas com

a massa de mirra, a tremenda deformação da região malar mantinha o olho oculto,

tornando difícil a colocação da moeda sobre a quase irreconhecível pálpebra. Mas

José insistiu, conseguindo, por fim, um precário equilíbrio da moeda sobre os

hematomas.

Os fachos, com suas cintilações, deram uma faísca de vida nas brilhantes

superfícies dos leptons.

Ao me inclinar, comprovei que a cunhagem de ambas era extremamente

rudimentar, com uma efígie descentrada e numerosas imperfeições. As duas

procediam seguramente da mesma emissão, a julgar pelas idênticas inscrições e

pelo lituus, ou cajado central,200 e sobretudo pela mesma falha ortográfica nas

letras que cingiam o círculo da referida efígie do lituus, ou “cajado mágico”.201 A

legenda em questão dizia o seguinte: “TIBEPIOY CAICAPOC”. Ou seja, “Tiberiou Káisaris”, ou “de Tibério César”.

Ergui com curiosidade a moedinha da pálpebra direita e no reverso descobri a

não menos desgastada silhueta de um simpulum (caneca especial para provar

vinho), utilizado nas oferendas rituais das libações pagãs. No centro, junto a essa

concha, ou caneca, lia-se o número “16”, formado por um “jota” (equivalente a

“10”) e pelo chamado “epísemon”, que correspondia a “6”. Em outras palavras, a

data “16”, ano do reinado de Tibério César, ou 29 da Era Cristã.

Antes de cobrir de uma vez por todas o cadáver com o lençol, o bom amigo de

Jesus se ajoelhou e, baixando a cabeça, guardou alguns minutos de silêncio. João

Zebedeu o imitou. Foram instantes especialmente tensos e emotivos. Compreendi,

com desolação, que aquela era a última vez que eu veria o corpo sem vida do

Mestre. Não devo ocultar que, ao pousar meus olhos sobre seus massacrados

restos, uma dúvida assaltou-me, tão densa e angustiosa quanto aquela câmara

mortuária: ele ressuscitaria tal como havia anunciado? Mas como? Aquela

devastadora catástrofe havia reduzido seu corpo e seu organismo a frangalhos...

Confesso com toda a sinceridade: meu espírito científico se rebelou. Ninguém,

que se soubesse, havia conseguido isso em toda a história da humanidade. Por que

aquele Galileu iria conseguir, tão humano que era como os demais? Se realmente

gozava de poderes tão extraordinários, por que não havia evitado tanto suplício e,

sobretudo, uma morte tão cruel e humilhante?

Nicodemos e quase todos os amigos e discípulos tampouco estavam muito

seguros da anunciada ressurreição de Jesus. Até mesmo José duvidava. Um sinal

palpável do que digo estava justamente naquela rápida e sumária limpeza do

cadáver. A iniciativa do ancião de Arimateia, de seu companheiro e das mulheres

que esperavam fora da cripta nada tinha a ver com essa presumida ressurreição do

rabi. Se tivessem realmente acreditado em algo tão prodigioso, por que postergar o

embalsamamento definitivo do corpo de Jesus para depois da festa do sábado? O

mais lógico teria sido não tampar suas feridas, nem cobri-lo com produtos

aromáticos, destinados unicamente a neutralizar o iminente mau cheiro da

putrefação.

Encurvado, aturdido e cansado ao extremo de tantas emoções e da falta de

sono, não fui capaz de formular um só pensamento, nem uma fugaz oração ante o

Filho do Homem. Com grande desolação, descobri que não me lembrava de

nenhuma das poucas orações que aprendera na infância. Todavia, juntei-me

simbolicamente a José de Arimateia quando ele depositou na enrugada testa do

amigo um cálido e prolongado beijo.

Depois, José cobriu o corpo de Jesus com o lençol e apanhou as tochas. Eu me

apressei a recolher seu manto e, nesse momento, ao abaixar-me, descobri em um

dos desvãos da câmara – semi-ocultos na penumbra – dois cestos de vime cheios

de entulho e uma pequena picareta. José percebeu e desculpou-se pela desordem

do lugar. Segundo seu comentário, o sepulcro estava ainda em obras...

Por volta das cinco e quarenta e cinco da tarde, João, Longino e eu saímos para a galeria. O resto foi relativamente cômodo. Enquanto José empunhava as tochas,

o centurião, seus quatro soldados e o hortelão deslocaram a rocha circular,

fazendo-a rodar pela profunda ranhura até que fechasse por completo a abertura

da fachada. E digo “relativamente cômodo” porque, não fosse a presença dos seis

homens, não sei como José e Nicodemos poderiam ter movido aquela meia

tonelada...

O rangido sinistro e de dar calafrios da pedra roçando a parede principal do

panteão pôs um ponto final em muitas das esperanças daqueles homens e

mulheres. Como eu poderia imaginar naquele momento que o selamento do

sepulcro não era outra coisa senão um breve parêntese nessa incrível e

surpreendente história?

 

Antes de partir para Jerusalém, José agradeceu a decisiva e inestimável ajuda

dos romanos e deu a cada um deles uma generosa quantia em dinheiro. Creio não

me equivocar se disser que, a partir daquela sexta-feira, a amizade entre Longino e

José germinou firme e sincera.

Ao abandonar o horto, as mulheres, que se haviam mantido longe do sepulcro –

tal como especificava a lei judaica –, uniram-se ao cansado passo de José,

manifestando sua dúvida sobre o esmero daquele apressado sepultamento do

Mestre. Tanto Nicodemos como o ancião concordaram com a observação das

hebreias e deram-lhes autorização para que no domingo, logo cedo, fizessem um

embalsamamento correto. Nicodemos entregou-lhes os restos de aloés e mirra e

pediu-lhes que não se esquecessem de aparar os cabelos e a barba de Jesus,

lavando-os cuidadosamente, e de colocar sobre seu corpo uma pluma ou uma

chave, símbolo de seu celibato, como se fazia desde os tempos imemoriais. Mas

eles também procurariam estar presentes.

Diante da porta dos Peixes, o oficial e seus homens se despediram,

regressando ao Gólgota, com a expressa missão de conduzir os corpos dos zelotes

para a fossa da Geena.

Às seis da tarde, quando estávamos a poucos passos da casa de Elias Marcos,

três clarinadas se ergueram da cúpula do Templo, anunciando à cidade o fim da

sexta-feira. A partir desse momento, já em plena festividade da Páscoa, a atividade

em Jerusalém foi decrescendo. As pessoas, alegres e recuperadas do susto

provocado pelos tremores de terra, corriam apressadas para casa, dispostas a

festejar e preparar a ceia pascal. Não sei por que, mas aquela excitação e as

constantes saudações dos hebreus, desejando paz ao se cruzarem nas estreitas

vielas, trouxeram-me à memória o ambiente festivo e tão especial dos dias que

precedem o Natal e que eu havia vivido em minha terra. Curiosamente, salvo

Nicodemos, João, José e o grupo de mulheres, que caminhavam cabisbaixos, os

demais peregrinos e habitantes da Cidade Santa não se mostravam aflitos – nem

de longe – pelo que acabava de acontecer no penhasco do Calvário. Estou

convencido de que uma imensa maioria nem mesmo sabia ainda da trágica morte

do profeta da Galileia. E se sabia, evidentemente havia esquecido e não se importava... Esse era o triste, mas autêntico panorama daquela Jerusalém do dia 7

de abril do ano 30. Um dia que, durante muito tempo, seria recordado não pela

crucificação de Jesus de Nazaré, mas pelo “nefasto augúrio” do escurecimento do

sol e do posterior terremoto.

Nicodemos e João se despediram na porta da casa dos Marcos. O primeiro

estava disposto a reunir-se com os apóstolos que se haviam refugiado em sua casa

e a celebrar com eles a obrigatória Páscoa. Zebedeu, desalentado e imerso em sua

tristeza infinita, afastou-se a caminho de sua casa, onde o aguardava a mãe de

Jesus.

José concordou em acompanhar as mulheres até o interior da mansão dos

Marcos, onde estavam as companheiras que Judas havia trazido do Gólgota.

A família, desolada pelos acontecimentos, acolheu o ancião e as hebreias com

grande solicitude, pedindo-lhes que narrassem tudo o que havia acontecido a partir

da morte do Mestre. O eficientíssimo serviço de mensageiros de Davi Zebedeu

havia mantido informados pontualmente os principais núcleos de amigos e

seguidores do rabi. Por meio desses correios, Elias Marcos e os demais apóstolos

espalhados por Jerusalém, Betânia e Betfagé haviam sabido da morte do Galileu

entre uma e duas horas depois.

Quando o ancião concluiu seu relato, a esposa de Elias voltou a encher nossos

copos com o vinho quente e reconfortante. E antes que José se retirasse, pedi-lhe

que me informasse o que ocorrera desde o momento em que o vi afastar-se para ir

ao Templo, em pleno incidente com os juízes e judeus que tentavam mudar o texto

do “inri” do Nazareno.

José olhou para mim com infinito cansaço.

– Para que recordar essa triste história? – perguntou.

Mas eu necessitava averiguar o acontecido no interior do Santuário. Que teria

ocorrido na reunião do Sinédrio? Que fora feito de Judas Iscariotes? O filho de Elias

Marcos não estava em casa, ou pelo menos eu não o havia visto, e isso me

preocupava.

Supliquei-lhe com tal ansiedade que o bom José acabou cedendo.

– Dos muros da torre Antônia – começou o ancião –, dirigi-me ao Templo.

Como comentamos, em seu coração havia uma suspeita: os cegos saduceus, leais

ao clã de Caifás e de seu sogro, podiam conspirar também contra os íntimos do

Mestre. O temor deles de um levante por parte dos seguidores e amigos de Jesus

não se havia dissipado com a condenação à morte do Mestre, sancionada por

Pilatos. Ao contrário. Precisamente a partir desse momento – segundo eles –, a

situação era muito mais delicada. E, da mesma forma que haviam tentado capturar

Lázaro, adotaram as medidas oportunas para prender e encarcerar os discípulos.

– Medidas? Que medidas? – atalhei.

– Assim que voltaram ao seu quartel-general no Santuário, os levitas,

obedecendo às instruções do sumo sacerdote, formaram uma escolta e saíram para

a propriedade de Simão, “o leproso”, em Getsêmani. Graças à infinita bondade de Deus – bendito seja seu santo nome! –, pouco antes da partida, pude estabelecer

contato com um dos emissários de Davi Zebedeu. Ao informá-lo do que se

propunha o Sinédrio, ele correu até o monte das Oliveiras para dar o alerta. Mas

sobre a sorte dos que ali estavam acampados não posso dizer grande coisa. Só sei

que, no seu regresso, o capitão da guarda do Templo mostrou-se furioso: “Os

seguidores do impostor – explicou a Caifás – fugiram como covardes, mas

incendiamos o acampamento...”.

“O sumo sacerdote e a maioria dos membros do Sinédrio se acalmaram,

achando que a debandada dos homens do Nazareno reduzia consideravelmente o

risco de um motim. E Caifás, reunido com o Conselho na sala das “pedras

talhadas”, prosseguiu seu informe sobretudo o que ocorrera de noite e de

madrugada, até o momento em que o Mestre fora introduzido em definitivo no

Pretório.

“O amontoado de mentiras, injúrias e arbitrariedades sustentadas pelo genro

de Anás foi tal que, irritado, retirei-me do tribunal. Mas quando me retirava do

Templo, apareceu Judas. Olhamo-nos em silêncio e o traidor entrou na sala do

Sinédrio. Aí, então, regressei ao interior da sede do Conselho, disposto a destruir

aquele miserável. Mas não foi preciso. Ao ver Iscariotes, Caifás e seus homens

começaram a murmurar entre si, mas ninguém lhe dirigiu a palavra.

Aparentemente, Judas esperava uma recepção triunfal. Pensou, de modo

equivocado, que aquela ralé o cumularia de honras, enaltecendo seu “grande

serviço à nação”. Pobre desgraçado!

“A um sinal do sumo sacerdote, um dos servidores se dirigiu a Judas e, tocando

em suas costas, convidou-o a segui-lo. Visivelmente confuso e decepcionado, o

traidor obedeceu, e ambos saíram da sala.

“Então, o servo entregou-lhe uma bolsa e disse-lhe: “Judas, fui encarregado de

te pagar por traíres Jesus. Eis aqui tua recompensa”.

“Iscariotes, pálido, abriu a bolsa e, com um sangue frio que ainda me

aterroriza, contou as moedas...”

José fez uma pausa e, quando eu dava como certo que ele me diria qual o valor

da recompensa, esquivou-se do assunto. Vi-me na obrigação de interrompê-lo

outra vez e mostrar meu interesse em conhecer a quantia.

– Trinta moedas... – replicou o ancião, com repugnância.

– Denários de prata? – perguntei.

– Não, trinta siclos.

(Essa moeda de prata, conhecida popularmente como “siclo de Tiro”, constituía,

como já disse, o dinheiro habitual no pagamento dos tributos do Templo. Era

também uma peça comumente usada pelos sacerdotes na maior parte de suas

transações comerciais. Equivalia, naquela época, a quatro denários de prata. Uma

soma, portanto, “mediana”. É preciso ter em conta que, segundo o testemunho

evangélico de Mateus (27,9), os sacerdotes compraram um terreno com o dinheiro

que Judas havia recusado. Hoje, esses 120 denários de prata poderiam

corresponder a uns duzentos dólares.202

E José prosseguiu:

– Quando o traidor verificou o valor da bolsa, ficou lívido e mudo de estupor, e

lançou-se para a porta do Conselho, disposto – suponho – a protestar. Mas o

porteiro cortou-lhe a passagem, proibindo-lhe a entrada. Derrotado, Judas passou

da cólera à sua habitual frieza. Guardou a bolsa e afastou-se da sala das “pedras

talhadas”. E desde então não voltei a vê-lo...

Foi inútil minha insistência. José de Arimateia, de fato, havia perdido a pista do

traidor. Ignorava sua morte e, certamente, não podia conhecer o incidente do

Templo e o gesto desesperado de Iscariotes, jogando as moedas no tesouro do

Santuário. Eu estava a par dessa última ação de Judas pela leitura prévia de

Mateus, mas teriam as coisas acontecido como as descreve o autor sagrado?

Quis a sorte que eu pudesse resolver essa incógnita pouco depois da saída do

ancião da casa de Elias Marcos. Havia dois assuntos que me obrigavam a

permanecer naquela casa e que, por acaso, foram um magnífico pretexto para

averiguar outro dado.

O projeto Cavalo de Troia me havia dado a inevitável missão de resgatar o

microfone que eu havia camuflado sob a lanterna da sala em que havia ocorrido a

última ceia de Jesus. Uma das normas básicas do projeto especificava que os

“astronautas” não podiam deixar na área de exploração nenhum resto, sinal ou

indício de sua passagem. Tampouco era lícito trazer para o “nosso tempo real” algo

que pertencesse à referida época. A recuperação dessa peça, consequentemente,

era obrigatória.

Por outro lado, era imprescindível que eu falasse com o jovem João Marcos.

Mas o adolescente não aparecia. Assim é que, invocando um sentimental desejo de

ver pela última vez o cenáculo, convenci a esposa de Elias a me acompanhar ao

piso superior.

Quando entramos na sala, meu coração quase parou. A lanterna havia

desaparecido!

A hebreia notou minha palidez, confundindo minha angústia com uma

compreensível e honrosa emoção ao pisar de novo o recinto onde havia ceado o

Mestre. Tomando cuidado para não perder o controle dos nervos, percorri com os

olhos toda a sala, na busca ansiosa da maldita lanterna. Mas, evidentemente,

alguém a havia levado da casa.

À beira de um colapso, interroguei a dona da casa sobre o paradeiro da bela

peça. Sem dar importância ao assunto, a mulher explicou-me que ela havia sido

transformada em cacos pelo terremoto. Um dos criados a havia levado a uma

oficina de Jerusalém para ser reparada.

Agradeci sua gentileza por permitir que eu revisse o cenáculo e, desarvorado,

voltei para o pavimento térreo. Eu sabia que, a partir do toque das trombetas – e

tratando-se de uma festa tão solene como aquela –, as atividades artesanais e de

qualquer outro tipo cessavam automaticamente e não seriam retomadas até que a Páscoa passasse. Como podia eu recuperar o microfone, se o retorno do módulo

havia sido fixado para as sete horas da manhã de domingo? Como creio já ter

assinalado, esse contratempo veio somar-se à série de razões que aconselharam o

projeto Cavalo de Troia a repetir o grande “salto” ao ano 30.

Absorvido por esse inesperado incidente, quase não me dei conta da passagem

do tempo. A família de Marcos, ocupada com os preparativos da ceia pascal,

também pouco reparou em mim.

Por volta das oito da noite, quando o sono começava a vencer-me, alguém me

tirou de meus confusos pensamentos. Ao erguer os olhos, encontrei diante de mim

dois rostos bem conhecidos. Um, sorridente – o do ativo Davi Zebedeu – e outro,

pelo contrário, carregado e aflito: o do jovem filho de meus hospitaleiros anfitriões.

Aquilo me desafogou por um momento.

Davi, com uma alegria que eu não conseguia entender, pôs em minhas mãos o

manto de linho branco que eu havia adquirido na tarde de quinta-feira na tinturaria

de Malkiyias e do qual, honestamente, eu havia me esquecido.

– Suponho que estejas inteirado de todo o ocorrido – disse por fim o chefe dos

emissários.

Assenti em silêncio.

Ao perceber meu abatimento, Davi abraçou-me com carinho e exclamou com

uma convicção que me deixou atônito:

– Ressuscitará! Ele prometeu...

Perscrutei os cansados olhos daquele hebreu e fiquei maravilhado. Ele

acreditava mesmo no que estava dizendo. Era assombroso. Tinha diante de mim o

único ser que acreditava cega e firmemente na promessa do Mestre. Nem no audaz

João, o evangelista, nem em José de Arimateia nem em nenhum outro discípulo ou

amigo de Jesus eu havia visto uma fé como a daquele homem. E, paradoxalmente,

ele sequer é citado nos textos evangélicos...

Agora, sim, estava claro qual era a razão de sua alegria.

Antes de sua partida para a casa de Nicodemos, onde havia instalado seu

“centro de correios”, Davi me informou sobre suas últimas peripécias no

acampamento de Getsêmani. De fato, ao receber o aviso de José, desmontara o

quanto antes as tendas de campanha, trasladando seu “posto de comando” para o

ponto mais elevado do monte das Oliveiras. Dali, uma vez superada a ameaça dos

levitas, continuou enviando mensagens a todos os pontos onde sabia estarem os

apóstolos, amigos e familiares do Nazareno.

Assim que foi conhecida, por um de seus agentes, a ordem de crucificação,

outros velozes mensageiros correram para Pela, Betsaida, Filadélfia, Sidon,

Damasco e Alexandria, com a notícia da iminente morte de Jesus, por ordem do

governador romano.

Durante boa parte daquele dia, Davi não cessou de mandar “correios” a

Jerusalém e Betânia, informando pontualmente os discípulos e a família de Jesus

de tudo o que estava ocorrendo. Não fosse a perícia e valentia desse judeu, a maior parte dos apóstolos, escondidos e temerosos, teria ficado algum tempo sem

conhecer o triste fim do Mestre.

Por fim, com o ocaso, Zebedeu suspendeu os “correios”, permitindo a seus

mensageiros que se retirassem para descansar e celebrar a obrigatória festa

pascal. No entanto, sua convicção quanto à ressurreição do rabi era tão sólida que,

antes de seus homens partirem, passou-lhes em segredo a recomendação de se

concentrarem na casa de Nicodemos, na manhã de domingo, às primeiras horas.

Sua intenção era transmitir a boa nova quando ela acontecesse.

Minha admiração por aquele homem cresceu sem limites...

E antes que o filho de Marcos se unisse à família no banquete de Páscoa, minha

curiosidade se viu satisfeita ao ficar conhecendo por intermédio dele, afinal, a sorte

de Iscariotes.

Custou-me muito esforço persuadir o jovem João Marcos a falar. Naquelas

últimas dez horas, sua alma de menino havia-se consumido entre a dor, a raiva e a

impotência. Jamais esqueceria a ensanguentada figura de seu ídolo e amigo, Jesus

de Nazaré. Como tampouco poderia apagar da memória a imagem dos sacerdotes

fanatizados e, sobretudo, de um populacho que pouco antes havia aclamado as

corajosas e lúcidas intervenções de seu Mestre na esplanada do átrio dos Gentios e

que, agora, condenava o Galileu na fachada do Pretório romano.

Tentei acalmá-lo, recordando-lhe as palavras que Davi Zebedeu acabava de

pronunciar sobre a ressurreição. Mas João olhou-me sem compreender. Aquela

expressão – “e ressuscitarei no terceiro dia” – ultrapassava sua capacidade infantil.

Tanto João Marcos quanto sua família sabiam que eu havia permanecido ao pé

da cruz e, como reconhecimento ao que eles consideravam um gesto de amor e

bravura pelo rabi, o menino acabou por contar-me o que havia visto e ouvido desde

que eu lhe recomendara que seguisse Judas.

Foi este o seu entrecortado e lacônico relato:

– Quando o traidor viu que os soldados concluíam o encravamento dos pés de

Jesus, afastou-se do patíbulo com a cabeça coberta pelo manto. Tu o viste...

Animei-o a continuar.

– Judas, então, foi diretamente para o Templo. Não pude ver sua cara porque

segui atrás dele, mas, vendo suas grandes passadas e os empurrões com que abria

passagem na esplanada do Santuário, eu diria que estava furioso.

– Caminhou até a porta da Sala do Conselho de Justiça, mas, ao tentar abri-la,

o porteiro se interpôs. Judas, com uma praga que não me atrevo a repetir,

golpeou-o em pleno rosto, derrubando-o e deixando-o como morto.

(Aquela reação se encaixava bem na violência que, em certas ocasiões,

explode nos grandes tímidos. E Iscariotes era um deles.)

– ... Abriu a grande porta da sala das “pedras talhadas” e, descobrindo-se,

irrompeu no tribunal. Eu não me atrevi a mover-me do umbral da porta. Se me

pusessem a mão em cima, seguramente me açoitariam...

Concordei com um sorriso de gratidão e João Marcos prosseguiu:

– Somente pude ver Caifás e alguns saduceus, escribas e fariseus sentados nos

bancos de madeira. Quando Iscariotes avançou para a grade, os juízes

emudeceram. Em seus rostos havia surpresa. Pelo visto, não esperavam o traidor.

E Judas, arquejante, num tom que quase me deu lástima, disse-lhes: “Pequei no

sentido de haver traído um sangue inocente... Oferecestes-me dinheiro por esse

serviço, o preço de um escravo, e com isso me insultastes...”.

“Os sinedristas, atônitos, pareciam não dar crédito ao que estavam vendo. E

Judas concluiu: ‘... Arrependo-me do meu ato. Eis aqui vosso dinheiro”.

“Sacou então uma bolsa da faixa e mostrou-a ao Conselho. Por último,

exclamou com voz imperiosa: ‘Quero livrar-me desta culpa!’.

“As gargalhadas não tardaram a encher a grande sala. Aqueles hipócritas,

dando fortes palmadas sobre os assentos, zombavam do traidor e o ridicularizavam

cruelmente. Um dos que ocupavam um banco próximo de Judas se levantou e,

aproximando-se dele, convidou-o com a mão para se retirar. Mas antes disse-lhe

em voz alta: “Teu Mestre foi condenado pelos romanos. Quanto à tua culpa, em

que nos concerne? Ocupa-te tu disso e vai-te!”.

“Iscariotes deu meia-volta e, cabisbaixo, afastou-se do tribunal, enquanto as

gargalhadas e insultos intensificavam-se de novo.

“Quando passou a meu lado, sua cara me deu medo. Levava a bolsa na mão

esquerda e os olhos fixos no chão. Creio que nem sequer me viu...

“Com grandes passadas, perdeu-se em direção ao átrio das Mulheres, entrando

na sala do tesouro. Com grande calma, tomou um punhado de moedas e as lançou

como quem lança uma bola. Depois tornou a apanhar a bolsa e atirou o resto dos

siclos contra os ladrilhos do chão. Quando as moedas acabaram, lançou ao solo a

própria bolsa e a pisoteou com ódio.

“Então, abrindo passagem violentamente entre os atônitos homens que lá

estavam, saiu em direção ao átrio dos Gentios.

Penso que essa aparente insólita atitude de Judas Iscariotes, desvencilhando-se

das trinta moedas de prata, merece um comentário. As palavras do traidor diante

do tribunal – “eis aqui vosso dinheiro” e “quero livrar-me desta culpa” – não foram

uma simples e humana reação de arrependimento. Judas sabia, como todos os

judeus, que a lei protegia os “vendedores” de algo ou de alguém. A Misná, em sua

ordem quinta (“Votos de Avaliação” – arajin), estabelece, em um total de nove

capítulos, as disposições em torno dos chamados votos de avaliação, ou seja,

aqueles pelos quais uma pessoa se compromete a entregar ao Templo o valor de

determinada pessoa, como vem determinado no Levítico (27,1-8), em relação com

a idade e o sexo. Ademais, abrange minuciosa normatização sobre a compra e a

destinação de terras herdadas e de casas, como também sobre seu resgate e os

votos de “extermínio”. Pois bem, em vista da atuação de Iscariotes, entendo que

ele considerou – ou tentou considerar diante dos sinedristas – que a entrega do

Mestre se enquadrava plenamente no que poderíamos denominar uma “venda”, ou

“transação comercial”, pela qual havia recebido uma compensação financeira. Nesse sentido, ao menos no que concerne a bens puramente materiais – casas,

terrenos etc. –, se o vendedor, uma vez efetuada a operação, não considerasse

justa ou simplesmente decidisse voltar atrás, poderia recorrer, dentro de um prazo

de doze meses, a contar do dia da venda. A mesma Misná no capítulo IX (4) do

citado artigo sobre “Votos de Avaliação” reza textualmente nesse sentido:

“Se chegou o último dia desses doze meses e não foi redimida (a casa, por

exemplo), torna-se definitivamente sua (quer dizer, do comprador), independente

de que houvesse comprado ou recebido de presente, posto que está escrito no

Levítico (25,30): “a perpetuidade”. Antigamente, (o comprador) se escondia

quando chegava o último dia dos doze meses, a fim de que se fizesse em definitivo

sua (a casa). Mas Hilel, “o velho”, dispôs que (o vendedor) podia deitar o dinheiro

na câmara do Templo, podia romper a porta e entrar (na casa) e que o outro podia

vir quando quisesse e recolher seu dinheiro.”

Judas, consequentemente, havia agido conforme a lei. Não estava de acordo

com a “venda” de Jesus de Nazaré e fez uso de seu direito, no mesmo dia da paga

da “transação”. E ainda que Iscariotes devesse saber também que no capítulo

primeiro (artigo 32) do referido assunto dos Votos se esclarece que “o moribundo e

o que é conduzido à morte (por veredicto de um tribunal judeu que não admite

graça) não podem ser objeto de voto nem avaliações”, forçou seus direitos ao

máximo, acreditando ingenuamente que aquele gesto anularia a “venda”. Deve-se

reconhecer, para atenuação da culpa de Iscariotes, que ele pelo menos esgotou

todas as possibilidades jurídicas em benefício do Mestre. Isso de pouco serviu, é

certo, mas creio que seja justo esclarecer esse fato tão escassamente historiado

pelo escritor sagrado. Muitas pessoas poderão perguntar-se – eu também fiz essa

questão – por que Judas concordou com essa “venda” se sabia que sua traição

desembocaria no justiçamento do Nazareno. Pessoalmente creio que, diante do

mencionado comportamento de Judas na sala do Sinédrio e, depois, na do tesouro,

ele jamais chegou a imaginar que seu Mestre seria condenado à morte. Ele o havia

entregue aos dignitários das castas sacerdotais convencido de que eles se

limitariam a “custodiá-lo” e interrogá-lo; no máximo, condenariam-no ao

encarceramento ou ao desterro. Não estou tentando fazer uma defesa extremada

do traidor, mas sua fria vingança contra o Galileu teria sido de todo com a

vergonha da captura e a consequente dispersão dos discípulos. Mas os

acontecimentos, como sabemos, tomaram outros rumos.

Qual teria sido, porém, a razão que pesou mais forte no coração de Judas? Não

estou certo. Poderia ter sido a iminente morte do Mestre ou o ridículo a que se viu

submetido pelos sinedristas. Como tenho repetido, não era dinheiro o que tentava

Judas. Sua obsessão era o conhecimento público, as honras prometidas e

sonhadas, que, infelizmente para ele, jamais chegaram. Dentro da lógica, se suas

maquinações tivessem tido por base e objetivo final a obtenção de dinheiro, por

que ele renunciaria às trinta moedas de prata? Fosse assim e ele as teria levado

até o túmulo. A luta interna do traidor, naquelas horas, deve ter sido tão aguda que não me sinto capaz de julgá-lo, nem de julgar sua última e trágica decisão...

E se Jesus não houvesse sido condenado à morte? Nessa hipótese, Judas teria

tido êxito em seu intento de anular a “venda”? A lei, pelo menos, previa um prazo

de um ano para que o “comprador” – nesse caso os sinedristas – se retratasse e

devolvesse a “mercadoria”.

João Marcos, quase dormindo, arrematou seu testemunho com uma notícia que

mudava – em parte – o que Mateus afirma em seu Evangelho:

– Judas desceu para a cidade baixa. No início, pensei que se dirigia à minha

casa ou a Betânia. Tinha muita pressa. Não cumprimentava ninguém. Saiu da

cidade pela porta da Fonte e, para minha surpresa, entrou à direita, em direção à

garganta de Hinom. Subiu pelos penhascos e, ao chegar a uma das rochas mais

altas e pontiagudas, desfez-se do manto e do cinto. Eu estava tão assustado que

fiquei colado no chão, tremendo de medo. Então vi Judas, à borda do precipício,

atando uma das extremidades do cinto a um ramo de uma pequena figueira que

crescia entre as rachaduras da rocha. Quando compreendi o que Judas pretendia

fazer, levantei-me, disposto a impedi-lo. Mas não tive tempo sequer de abrir a

boca. Judas fez outro nó ao redor do pescoço e, em silêncio, lançou-se ao vazio...

O menino, tomado de extrema palidez, tapou o rosto com as mãos e começou

a soluçar.

Tive de esperar que se acalmasse. Mas, rapidamente, choramingando, concluiu:

– ... Foi espantoso, Jasão! Corri para a figueira. Naquele instante, só tive um

pensamento: cortar, morder, arranhar o cinto... Tudo, menos deixar que Judas se

enforcasse.

“Quando cheguei à borda do abismo, o corpo do pobre Judas balançava no ar,

debatendo-se e girando sobre si mesmo como um zevivon...203

“Tinha as mãos agarradas ao pescoço, como se tentasse lutar contra a asfixia,

e os olhos muito abertos, quase fora das órbitas.

“Meus joelhos tremiam e minha garganta estava seca, como se tivesse

engolido um punhado de areia. Quando me dispunha a subir na árvore e quebrar o

ramo, o nó se soltou, e Judas caiu no precipício, estatelando-se contra as pedras.

“Foi tudo tão rápido que não pude fazer nada. Fiquei ali em cima, imóvel,

contemplando o corpo inerme de Judas. Depois, sem força nem para chorar,

regressei à cidade. Quando tentava voltar ao Gólgota, aconteceu o terremoto...

Meu terror foi tão grande que regressei à porta da Fonte e fugi para o

acampamento. Foi onde Davi me encontrou...”

Perguntei-lhe se o corpo de Iscariotes ainda continuava no fundo da garganta.

João Marcos encolheu os ombros. Ele não havia comentado o acontecimento com

Continuar: parte 11 de 11