Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
7 de abril, sexta-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
A extrema fraqueza do Mestre não permitiu que suas palavras chegassem
senão muito fracamente aos ouvidos do governador. E este, aproximando-se
quanto lhe foi possível dos coágulos de sangue que haviam ficado aderidos à barba
e ao bigode do prisioneiro, pediu-lhe que repetisse.
– Como dizes?
– Não podes exercer nenhuma autoridade sobre o Filho do Homem – disse
Jesus com esforço –, a menos que o Pai celestial permita...
Pôncio recuou, desconcertado. Mas o Nazareno ainda não havia terminado.
– ... Mas tu não és de todo culpado, já que ignoras o Evangelho. Aquele que me
traiu e me entregou a ti cometeu o maior dos pecados.
O romano sabia de sobra a quem se referia o prisioneiro e aquela inesperada
revelação, desonerando Pilatos parcialmente de sua responsabilidade, pareceu aliviá-lo sobremaneira. O governador esqueceu suas perguntas e, com um sorriso
de agradecimento apenas esboçado, saiu para o terraço. A escolta dispôs-se a
segui-lo, mas o Nazareno, dirigindo-se a João, colocou a mão sobre a cabeça do
discípulo, fazendo-lhe um último pedido:
– João, nada podes fazer por mim... Vai e traz aqui minha mãe para que me
veja antes de morrer.
Civílis escutou também aquelas dolorosas palavras e, intuindo o fatal
desenlace, animou João Zebedeu a cumprir a última vontade do Galileu sem perda
de tempo. Soltei o discípulo e, disfarçando minha angústia, assenti com a cabeça,
ratificando a nobre intenção do centurião. João atravessou o umbral do Pretório e
desapareceu no meio da multidão. Antes, o oficial havia ordenado a seus homens
que acompanhassem o apóstolo até as portas da muralha, para lhe franquearem a
passagem.
Ao regressar ao terraço, Pôncio – muito mais animado pelas recentes frases do
réu – havia começado a falar à multidão. O tom de sua voz deixava transparecer o
firme desejo de absolver Jesus. O rosto de José de Arimateia voltou a iluminar-se
pela esperança, e até Judas, que havia sido um dos poucos que não se haviam
unido aos gritos de crucificação, pareceu aliviado pela decidida atitude do
governador.
– ... Estou convencido de que este homem – afirmou Pilatos somente cometeu
falta contra a religião, pelo que deve ser detido e submetido a vossas próprias
leis... Por que esperais que eu o condene à morte? Só por estar em conflito com
vossas tradições?
A inesperada mudança do governador de Roma exasperou os ânimos dos
saduceus, que formaram um círculo e começaram a discutir acaloradamente.
Pilatos, satisfeito diante da irritação geral dos sacerdotes, sentou-se na poltrona
com uma piscadela para Civílis. Mas, antes que pudesse saborear seu efêmero
triunfo, Caifás, pálido, os olhos injetados de sangue, voltou a subir as escadas e
lançou-lhe à queima-roupa:
– Se soltares este homem, tu não és amigo de César...!
A cólera do sumo sacerdote era tanta que seu volumoso ventre começou a
subir e descer, arrastado pela agitada respiração. Aquela frase de Caifás fez Pilatos
empalidecer.
– ... E farei, por todos os meios – arrematou o astuto genro de Anás –, com que
o Imperador tome conhecimento disso.
Conhecendo como conhecia a enxurrada de delações, prisões e execuções que
havia desabado naqueles últimos meses sobre o Império, o fulminante ultimato de
Caifás acabou desarmando o governador. Aquele, com certeza, fora um golpe
baixo. Tibério e, mais precisamente, o temido Sejano, já haviam tido notícias de
duas revoltas provocadas pela intransigente postura de Pilatos: uma motivada pela
colocação dos emblemas e insígnias do Imperador em metade de Jerusalém; e a
segunda, pela apropriação indébita do tesouro do Templo para a construção de um aqueduto. E ambos os fatos lhe haviam valido, cada qual, uma advertência. Se o
inflexível general da guarda pretoriana, que ocupava o posto de César, voltasse a
receber inquietantes notícias sobre a conduta de seu homem de confiança naquela
província, a carreira política de Pôncio poderia ficar seriamente ameaçada. De fato,
pouco tempo depois da morte de Jesus de Nazaré, Pôncio cometeria novo erro
político que precipitaria seu fim.177
O sumo sacerdote, ademais, havia se referido intencionalmente a seu título de
“amigo de César”. E aquela referência enfraqueceu ainda mais a vontade do juiz
romano. (Ainda que Pôncio Pilatos, sem dúvida, fosse amigo de César, a alusão de
Caifás fora como uma dinamite. O chefe dos sacerdotes sabia que o governador era
membro da “ordem equestre”, ostentando o título de aeques illustrior e a dignidade
de “amigo de César”, ou seja, uma distinção muito especial. E era justo esse
privilégio que tornava ainda mais delicada sua situação diante da cúpula do
Império. O Sinédrio tinha meios de fazer chegar a Sejano e a Tibério, na ilha de
Capri, suas queixas sobre o que considerava uma nova irregularidade do
representante de César. E Pôncio sabia disso.)
Essa astuta manobra final desmoralizou Pôncio, que, carente de um rigoroso
senso de justiça e sem tempo para refletir friamente, cedeu. Confundido e sem
controle, levantou-se da cadeira curul e, apontando Jesus, disse, sarcástico:
– Eis aqui o vosso rei...!
Caifás e os juízes hebreus sabiam que acabavam de ferir de morte os
propósitos do romano e, incitando novamente a multidão, responderam a Pilatos:
– Acaba com ele... Crucifica-o! Crucifica-o!...
O governador deixou-se cair sobre a cadeira e, praticamente sem forças,
perguntou:
– Vou crucificar vosso rei?
Um dos saduceus se colocou sobre o segundo degrau e bradou, apontando a
fachada do Pretório:
– Não temos outro rei senão César!
Pilatos sabia que aquela afirmação era hipócrita, mas não se atreveu a replicar.
Chamou Civílis e, depois de trocar algumas palavras com o primeiro oficial,
anunciou sua intenção de libertar Barrabás.
A população aplaudiu a decisão do governador. Mas Pôncio, alheio a esse
reconhecimento, pediu que lhe trouxessem uma bacia com água. O centurião, ao
ouvir Pôncio, mostrou estranheza, mas obedeceu, ordenando por sua vez a um dos
soldados que cumprisse rapidamente a determinação do governador. Creio que, a
não ser Pilatos e eu mesmo, nenhum dos presentes sabia com que intenção o
romano havia solicitado aquele utensílio.
Jesus, com a cabeça inclinada e vítima de febre, assistiu em silêncio àquela
última parte do confronto dialético entre os judeus e o representante do César.
O soldado regressou ao terraço trazendo uma grande bacia de barro, cheia de
água, colocou-se diante de Pilatos e esperou. O governador introduziu suas mãos gorduchas no recipiente, esfregando-as durante alguns segundos. Depois, diante do
atônito olhar do centurião, de sua tropa e da multidão, ordenou ao soldado que se
retirasse. E então, erguendo os braços acima da cabeça, exclamou de forma que
todos o ouvissem nitidamente:
– Sou inocente do sangue deste homem! Estais decididos a que ele morra...?
Pois bem, de minha parte não o considero culpado...
A turba voltou a aplaudir, ao mesmo tempo que escutava a voz de outro
sinedrista:
– Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!
E a multidão, numa só voz, repetiu em coro aquela trágica sentença, ignorante
das gravíssimas horas que viveria a Cidade Santa quarenta anos mais tarde,
quando exatamente o sangue de muitos daqueles hebreus e o de seus filhos seria
derramado pelas legiões de Tito. Embora, à primeira vista, a autojustificação do
saduceu e do populacho pudesse parecer uma simples manifestação emocional,
própria daqueles momentos de ódio e cegueira, a verdade é que aquela frase
encerrava um significado muito mais profundo e transcendental. Os juízes – ignoro
se o mesmo acontecia com aquela massa bárbara e vociferante – conheciam muito
bem o que dizia a lei mosaica a esse respeito. A Misná, em sua ordem quarta,
especifica textualmente que “nos processos de pena capital, o sangue do réu e o
sangue de toda a sua descendência penderá sobre a testemunha falsa até o fim do
mundo”.
Outra das tradições judaicas afirma também que “todo aquele que destruir uma
só vida em Israel, a Escritura conta como se ele tivesse destruído todo um mundo;
e todo aquele que deixar subsistir uma pessoa em Israel, a Escritura conta como se
ele tivesse deixado subsistir um mundo inteiro”.
Os sinedristas, portanto, estavam muito conscientes do alcance e da gravidade
de sua sentença, admitindo que o sangue de Jesus caísse sobre si e toda a sua
descendência.
Pilatos enxugou as mãos com a parte inferior do manto e, dando as costas a
Caifás e à multidão, saudou o Nazareno com o braço erguido. Imediatamente,
enquanto se encaminhava para a porta do Pretório, voltou-se para Civílis e seus
subordinados, dizendo-lhes:
– Ocupai-vos dele.
E os infantes, com o centurião à frente, seguiram os passos do governador,
retirando-se do terraço.
A sorte havia sido lançada.
A partir daquele momento, os fatos se sucederam em meio a uma grande
confusão. Perdi de vista João Zebedeu e José de Arimateia e, certamente, todos os
simpatizantes do Mestre. Só depois de abandonar a fortaleza Antônia conseguiria
encontrar-me de novo com o ancião e entusiasmá-lo a seguir de perto a decisiva
visita de Judas Iscariotes à sede do Sinédrio. E digo “decisiva” porque, como terei a
oportunidade de relatar, as circunstâncias que rodearam e encurralaram o traidor foram mais complexas e extensas do que fazem crer os relatos dos evangelistas.
A escolta que rodeava Jesus tomou o caminho do túnel, desembocando de novo
no pátio das arcadas. Pilatos, para minha surpresa, estava presente quando os
soldados pararam junto à fonte. O governador tinha pressa de acabar com aquele
assunto fastidioso e ordenou a Civílis que o réu fosse conduzido de imediato ao
lugar da execução. Parece que, depois da pública derrota sofrida pelo governador
diante dos dignitários do Sinédrio, seu propósito de regressar a Cesareia havia-se
convertido quase numa obsessão. Pôncio estava consciente de que acabava de
cometer um atropelo e não teve coragem sequer de olhar para Jesus.
O centurião trocou impressões com vários de seus oficiais e, finalmente, foi
designado um certo Longino, um veterano soldado, natural de Túsculo, cidade
encravada nos montes Albanos, e conterrâneo e amigo de Sulpícius Quirínius,178
que fora senador do imperador Augusto. Com ele, havia combatido na guerra
contra os homonadenses, uma tribo rebelde que habitava a cordilheira de Tauro,
na atual Ásia Menor. Era, a julgar pelos seus modos, homem de poucas palavras,
olhar cálido e direto, bom conhecedor daquele povo e da terra. Naquele momento,
graças a seu valor e sua comprovada honestidade, havia alcançado o lugar de
quartus princeps posterior ou centurião da segunda centúria, do segundo manípulo,
da quarta coorte. Por sua idade – possivelmente estaria com 55 ou 60 anos –,
devia estar a ponto de deixar o serviço. Seus cabelos mostravam numerosos fios
brancos e sobre seu pômulo e supercílio direitos via-se uma profunda cicatriz, fruto,
sem dúvida, de alguma das contendas em que se havia envolvido desde a
juventude.
Civílis, em minha opinião, estava totalmente certo ao escolher Longino como
capitão e responsável pela escolta que deveria acompanhar o Mestre até o
Gólgota. Por um momento, tremi ante a possibilidade de que a designação
recaísse, por exemplo, sobre o cruel Lucílio, aliás, Cedo alteram.
Ao todo, foram nomeados quatro soldados e um optio, ou suboficial, como
patrulha encarregada da custódia e posterior execução. Fiquei bastante surpreso ao
comprovar que o optio, o lugar-tenente de Longino, era precisamente Arsenius, o
romano que havia comandado a captura na encosta do monte das Oliveiras.
Tudo parecia decidido. Longino recomendou a um de seus homens que medisse
a envergadura do réu, enquanto outro soldado se encaminhou ao posto de guarda
da entrada oeste, em busca de um objeto cujo nome não consegui ouvir.
Pilatos estava a ponto de retirar-se quando Civílis, depois de consultar o
responsável pelo pelotão que deveria conduzir Jesus, sugeriu-lhe algo que, até
então, não estava previsto: por que não aproveitar aquela oportunidade para
crucificar também os terroristas companheiros de Barrabás?
O governador hesitou. Parece que a execução daqueles assassinos havia sido
fixada inicialmente para os dias seguintes à celebração da Páscoa.
Pôncio fez um gesto de desagrado, mas o centurião-chefe insistiu, fazendo-lhe
ver que, tal como as coisas estavam, aquela crucificação coletiva simplificaria os possíveis riscos que a morte de zelotes sempre acarretava. Boa parte do povo
judeu protegia e estimulava esses revolucionários, e era muito possível que a
condenação deles pudesse originar uma alteração da ordem pública. Depois da
implacável insistência dos sacerdotes na promulgação da pena capital do Galileu,
Civílis não acreditava que se registrassem protestos se a execução dos membros do
movimento pela independência ocorresse ao mesmo tempo que a do suposto “rei
dos judeus”.
Pôncio ouviu em silêncio os argumentos de seu comandante e, movendo as
mãos displicentemente, deu a entender a Civílis que tinha sua aprovação, mas que
agisse com rapidez.
Com um simples movimento de cabeça, o centurião determinou a Arsenius que
providenciasse a remoção dos zelotes. Nesse momento, Pilatos reparou em minha
presença e, enquanto os oficiais esperavam a chegada dos novos condenados, o
volumoso governador me chamou de lado e disse:
– Jasão, que diz tua ciência de tudo isso...? Não tive tempo de interrogar-te
detidamente a respeito desse augúrio que prognosticaste para hoje... Fala-me com
clareza... Ordeno-te!
A curiosidade e o medo consumiam Pilatos em proporções iguais. Assim, não
tive remédio senão improvisar.
– Esta meia-noite passada – menti –, quando estava no monte das Oliveiras,
pressenti algo... E depois de buscar um lugar puro, um “augurale”, voltei-me para o
norte, traçando no chão, com meu cajado, a base do templum, ou seja, um
quadrado. Depois, como sabes, peguei este lituus – apontei para minha “vara de
Moisés” – e fiz o ritual da descrição das regiões.179 Uma vez situada, implorei aos
deuses um sinal...
Pilatos, contendo a respiração, incitou-me a continuar.
– ... O céu, estimado governador, havia-se tornado sereno e transparente como
os olhos de uma deusa. Felizmente – voltei a mentir –, havia parado de ventar.
Tudo fazia pressagiar uma resposta... E, súbito, as infernais aves inferae surgiram à
minha esquerda. Seu voo rasante e a direção delas foram determinantes...
– Mas, quê? – explodiu Pilatos. – Que queres dizer com isso? Adotei uma falsa
calma e, olhando para ele fixamente, respondi-lhe, fazendo minha uma frase de
Ênio:
– Então, para cúmulo do infortúnio, trovejou à esquerda, estando o céu todo
sereno...
Pilatos abriu seus grandes olhos, espantado. Ele sabia bem o significado
daquelas patranhas, maravilhosamente criticadas pelo próprio Cícero. E com a face
pálida, suplicou-me que lhe decifrasse o augúrio.
– Em minha humilde opinião – arrematei –, Júpiter, por motivos que não
consigo compreender – menti pela terceira vez –, está desolado. E é possível que
manifeste sua ira sem muita demora. O céu será testemunha de tudo o que te
revelei...
– Hoje mesmo?
Assenti com fisionomia grave, ao mesmo tempo que desviava meu olhar para o
Nazareno. Pôncio girou também a cabeça, comovendo-se. Depois, esquecendo a
conversa e a mim, voltou para a companhia de seus centuriões.
Eu já me dispunha a solicitar a Civílis que me autorizasse a acompanhar a
comitiva e a presenciar as execuções quando irrompeu no pátio, procedente de
uma das múltiplas portas que se abriram sob as colunatas, o soldado que havia
medido a envergadura de Jesus. Para isso, o soldado, muito acostumado a esse
mister, a julgar por sua desenvoltura, havia tomado uma das lanças e, enquanto o
outro companheiro segurava os braços do Galileu em posição de cruz, o portador
d o pilum se colocara às costas do réu e medira a distância total entre as
extremidades das mãos.
Agora, realizada a macabra medição, o romano havia voltado ao pátio central,
carregando um pesado madeiro: um tronco extremamente tosco, não desbastado,
com um grosseiro orifício no centro. Esse rude buraco, de uns dez centímetros de
diâmetro, cruzava o madeiro de lado a lado no sentido da espessura.
O mercenário, que portava uma longa e grossa corda, descansou o
patibulum,180 apoiando uma de suas faces – perfeitamente serrada – sobre o
lajeado. E esperou.
Ao vê-lo naquela posição vertical, pude comprovar que o madeiro tinha quase
dois metros (possivelmente 1,90 metro) de comprimento. Quanto à espessura,
devia ser de 25 centímetros. Positivamente, era um sólido lenho, cujo peso não
creio que fosse inferior a trinta quilos. Simulando grande curiosidade, aproximei-me
do soldado, perguntando-lhe em grego para que servia aquele tronco. O soldado
sorriu ironicamente e, apontando Jesus, fez-me um significativo sinal com o
polegar, colocando-o para baixo, à maneira dos Césares quando decretavam o fim
dos gladiadores.
Acariciei a rugosa superfície do patibulum e deduzi que se tratava de um
pedaço de alguma espécie de pinho, tão frequente na Palestina ou quem sabe
importado dos bosques do Líbano. (Não estou seguro, mas talvez fosse
denominado Pinus halepensis, madeira que quase não se deteriora.)
Absorvido pela análise, não percebi a chegada dos zelotes. O optio e os
mercenários os haviam conduzido, de mãos atadas, até o governador e os demais
centuriões. Assim que os viu, Civílis ordenou que lhes fossem arrancadas as
ensebadas túnicas e fossem iniciados os obrigatórios castigos que precediam a
crucificação. Quatro soldados empunharam cada um o seu flagrum e começaram a
açoitar os guerrilheiros. Um deles, quase um menino, atirou-se de joelhos diante de
Pôncio, gemendo e implorando piedade. O governador, porém, apressou-se a dar
meia-volta e a se afastar do prisioneiro. Nesse instante, enquanto os látegos
silvavam novamente no meio do recinto, o soldado que havia desaparecido pelo
túnel abobadado da porta oeste da torre Antônia, voltou correndo e entregou a
Longino uma tabuinha de madeira, de uns sessenta centímetros por vinte, totalmente branqueada com gesso ou alvaiade. O centurião a pegou, juntamente
com uma espécie de pequeno carvão, e pediu ao soldado que lhe conseguisse
outras duas pranchas.
A seguir, chamou a atenção do governador, mostrando-lhe a prancheta e o
afilado pedaço de carvão e lembrando-lhe que a escolta deveria colocar sobre as
cruzes a identidade de cada um dos condenados e a natureza de seu crime.
A emoção voltou a sacudir-me. Estava a ponto de assistir à redação do
chamado “INRI”. Também nesse particular e ainda que apenas sob o aspecto
circunstancial da redação, há divergências entre os quatro evangelistas. Qual deles
teria acertado o texto?
Marcos disse: “O Rei dos Judeus” (Mc. 15,26). Mateus, de sua parte,
acrescentou: “Este é Jesus, o rei dos Judeus” (Mt. 27,37). Quanto a Lucas, seu
“INRI” diz: “Este é o rei dos Judeus” (Lc. 23,38). Por último, João Zebedeu,
chamado o “Evangelista”, reproduziu o seguinte texto: “Jesus Nazareno, o Rei dos
Judeus” (Jo.19, 19).
Quem tinha razão?
Discretamente, olhei por cima do ombro do governador e notei que sua mão
tremia. Tinha a prancha na posição horizontal, apoiada firme sobre a reluzente
couraça. Havia tomado o carvãozinho com a direita, mas seu olhar havia-se
desviado da superfície do branco retângulo de madeira. Ele olhava Jesus de soslaio.
O Mestre, que não abrira a boca durante todo o tempo, havia conseguido
regularizar seu ritmo respiratório, mas continuava encurvado e trêmulo. O sangue,
ainda que em menor proporção, continuava gotejando debaixo da túnica, formando
um círculo ao redor de seus pés.
O guerrilheiro mais velho do grupo se retorcia no chão, uivando a cada
chibatada. Os mercenários lhe haviam tirado a túnica, deixando a descoberto todo
o tronco. E, apesar de estar com as mãos amarradas às costas e controlado por
outro soldado – que tinha em suas mãos a extremidade da corda com que o
guerrilheiro havia sido manietado –, o zelote, em seu desespero e dor, rolava como
uma bola sobre o pavimento, colocando em apuros o soldado.
O mais jovem, com as vestes igualmente rasgadas, havia se enroscado sobre si
mesmo, tentando proteger a cabeça entre as pernas. Mas os golpes eram tão
violentos e contínuos que ele não tardou a cair de joelhos, oferecendo as costas
aos verdugos e fazendo tal alarido que atraiu o corpo da guarda e numerosos
soldados.
De repente, Pilatos – cada vez mais nervoso – começou a escrever com sua
característica letra quadrada...
“Jesus de Nazaré...”
Essas primeiras palavras foram traçadas em aramaico, da direita para a
esquerda. Mediam uns trinta milímetros de altura e ocupavam toda a parte superior
da prancheta.
Pôncio voltou a hesitar. Parecia não saber o que acrescentar. Na realidade, tinha consciência da falsidade das acusações e, logicamente, acabava de tropeçar
em um sério problema.
O zelote mais jovem ergueu a cabeça e, com o rosto suado e descomposto,
buscou Jesus. Depois, apesar dos puxões de seu guardião, arrastou-se de joelhos
até o rabi. E, ao chegar a seus pés, em meio a uma chuva de furiosas chibatadas,
afundou o rosto na barra da túnica do rabi gotejante de sangue, exclamando:
– Mestre!... Tem misericórdia de nós!... Não nos deixes morrer! Jesus
entreabriu os olhos, inflamados e violáceos, e fitou o infeliz rapaz com infinita
ternura. Antes que lhe pudesse responder, porém, o soldado que sujeitava o Mestre
pela corda deu-lhe um violento puxão, que o fez recuar, cambaleando. Um dos
soldados apontou seu flagrum para Cristo, disposto a feri-lo, mas Civílis, atento ao
que ocorria, interpôs-se entre os dois, pegando o Nazareno pelas axilas e evitando
que caísse.
Depois, voltou-se para o pelotão e ordenou aos homens que não mais
flagelassem o “rei dos judeus”.
– Este já recebeu seu castigo – disse.
Os verdugos continuaram seu desapiedado ataque contra os zelotes, abrindo-
lhes novas feridas nas costas, nas pernas e nos flancos. Enquanto aquele que se
havia aproximado de Jesus continuava de joelhos, com a cabeça cravada no chão,
seu companheiro, num ímpeto de desespero, levantou-se e lançou um frenético
pontapé no baixo-ventre de um dos algozes. O romano se dobrou como um boneco
e caiu uivando de dor.
Pôncio, de costas para aquela sanguinária cena, voltou a escrever:
“... Rei dos Judeus.”
João, portanto, fora o único evangelista totalmente fiel na transcrição do “INRI”
(“Jesus Nazarenus Rex Judaeorum”).
E, imediatamente, de forma quase mecânica, repetiu a frase “Jesus de Nazaré,
rei dos judeus” em grego e, por último, em latim. E, devolvendo a prancheta a
Longino, esfregou as palmas das mãos com uma ostensiva careta de repugnância.
Mas o soldado enviado pelo centurião em busca de outras duas pranchas de
madeira regressou e Pôncio, muito a contragosto, teve de repetir a operação.
Dessa vez, foi muito mais breve. Depois de perguntar o nome dos condenados,
escreveu sobre a superfície das tábuas: “Gistas. Bandido” e “Dimas. Bandido”. Tudo
isso, claro, nas três línguas de uso comum naqueles tempos na Palestina:
aramaico, em primeiro lugar, grego (idioma “universal”, como hoje poderíamos
dizer do inglês ou do espanhol) e latim, língua natal do Pilatos.
O governador deu alguns passos até o tanque circular e enxaguou as mãos.
Quando estava pronto para se retirar, adiantei-me e supliquei-lhe que me
permitisse assistir às execuções.
– Se na verdade deve ocorrer algo sobrenatural – argumentei –, quero estar
presente...
Pilatos encolheu os ombros e, mecanicamente, como que imerso em outros pensamentos, transmitiu meu pedido a Civílis. Este se encarregou de apresentar-
me a Longino, anunciando-me como áugure, amigo de Tibério. Suponho que a
primeira qualificação não deva ter impressionado muito o veterano centurião. Mas
a segunda foi diferente. Nesse instante, a interferência de Arsenius, comunicando
ao capitão da escolta que me havia conhecido na noite anterior, também teve sua
importância.
E Pôncio, levantando o braço com enfado, saudou os oficiais e retirou-se.
Civílis pouco depois fazia o mesmo.
Quando os demais soldados viram que seu companheiro caíra, vítima do
pontapé desferido pelo terrorista, os látegos não foram os únicos instrumentos de
tortura. Com raiva inusitada, os soldados, aos quais se haviam unido outros
curiosos, acompanharam as chibatadas com uma infinidade de pontapés, que
terminaram por dobrar o revolucionário. Uma vez no chão, as solas cravejadas dos
romanos se incrustaram seguidas vezes no corpo do réu, e em poucos segundos um
fio de sangue brotava-lhe entre as comissuras dos lábios.
A chegada de dois novos madeiros, um pouco mais curtos que o destinado à
cruz do Nazareno, interrompeu a flagelação.
Mas aquela momentânea trégua foi apenas o prólogo de uma angustiosa
“peregrinação”...
Sem nenhuma contemplação ou cuidado e sob a atenta vigilância de Longino e
se u optio, os soldados colocaram os dois troncos sobre os ombros e as últimas
vértebras cervicais dos zelotes, enquanto os outros mercenários os obrigavam a
estender os braços até ajustar a face dorsal das mãos à áspera superfície dos
madeiros. O revolucionário mais jovem continuou de joelhos, enquanto o
companheiro, semiconsciente, era atado ao patibulum na mesma postura em que
havia ficado: estendido e de boca para baixo.
Nenhum dos dois teve força suficiente para resistir. O que havia pedido
clemência continuou soluçando lastimosamente, enquanto uma longa e grossa
corda lhe imobilizava pulsos, braços e axilas. Os romanos iniciaram a amarração do
primeiro réu pela extremidade direita do patibulum. Depois foram prendendo os
braços, até terminar no punho esquerdo. Dali a corda caía para o pé esquerdo do
condenado, sendo enrolada no tornozelo e presa por um nó. Com essa mesma
corda, e uma vez concluída a colocação do primeiro madeiro, os verdugos
levantaram o segundo guerrilheiro e repetiram a manobra.
Finalmente, trazendo uns quatro metros de corda de esparto (os últimos da
longa corda), os soldados se aproximaram do Mestre. Jesus os viu chegar e,
mansamente, antes que o golpeassem ou o agarrassem pelos cabelos para fazê-lo
inclinar-se, lançou o corpo para a frente, oferecendo seus ombros feridos. Mas a
estatura do rabi ultrapassava em muito a dos verdugos e nem sua voluntária
inclinação do tórax foi suficiente. Então, na impossibilidade de movimentar-lhe a
cabeça, um dos soldados puxou-o pelas barbas até o solo e assim o manteve, à
espera de que seus companheiros de armas colocassem o patibulum sobre suas costas. Outros dois esticaram os braços do rabi e um terceiro e um quarto
agarraram o madeiro, içaram-no por ambas as extremidades e encaixaram-no de
um só golpe sobre a nuca do Galileu. Mas as múltiplas ramificações da coroa de
espinhos constituíam um obstáculo: o espesso cilindro de madeira não se ajustava
com precisão sobre os músculos trapézios, rolando pelas costas. Por três vezes, os
romanos – cada vez mais confusos – golpearam o pescoço de Jesus até que, por
fim, à custa de novas dores e mais sofrimento, o próprio réu inclinou-se ainda mais,
facilitando o ajustamento do patibulum sobre as áreas elevadas das omoplatas. Em
cada uma daquelas selvagens tentativas de ajustar o madeiro, experimentei uma
sensação de chibatada percorrendo-me as entranhas. Os espinhos situados na nuca
e na região occipital cravavam-se um pouco mais a cada esforço, abrindo o couro
cabeludo e, possivelmente, fixando-se no periósteo craniano (lâmina que envolve
os ossos). (Os traumatólogos sabem muito bem que tipo de dor produz a
perfuração dessa lâmina.)
A intensa e contínua dor arrancou gemidos de Jesus em cada um dos três
impactos. E, em questão de segundos, seus cabelos e pescoço voltaram a brilhar,
profusamente ensanguentados.
Os verdugos esticaram os braços do Mestre sob a zona inferior do madeiro e ali
os firmaram, dando um nó na corda, da direita para a esquerda, e arrematando a
amarração pelo tornozelo esquerdo.
O grande peso do patibulum – ao menos para um homem tão gravemente
castigado – fez que o corpo do rabi se inclinasse perigosamente, obrigando-o a
flexionar as pernas. Jesus tentou elevar a cabeça. Seus músculos e suas artérias
pareciam a ponto de estalar sob a pele enrubescida do pescoço. Mas a cada
tentativa de se aprumar e vencer o peso do lenho, sua nuca tocava o córtex rugoso
do patibulum e a dor dos espinhos penetrando sem piedade na cabeça o vencia,
obrigando-o a baixar o torso.
Ao compreender que todo seu esforço para recobrar a verticalidade era inútil, o
Mestre pareceu resignar-se. Sua respiração ficara de novo agitada e temi que a
qualquer momento aquele esforço provocasse novo desfalecimento. (Nenhum
evangelista, logicamente, já que eles não estavam presentes a essa dramática
passagem, traduziu em seus escritos aquele momento duro e crítico. O organismo
esgotado de Jesus de Nazaré se viu esmagado pelo lenho, que deixou seus
músculos na posição em que estavam no momento da descarga sobre os ombros e
a nuca. Não houve prévio aquecimento, nem possibilidade alguma de que os
principais feixes musculares pudessem reagir convenientemente. Isso, em suma,
precipitou as frequências cardíacas e arterial, disparando-as pela enésima vez. Em
questão de três a cinco minutos – desde o momento em que os soldados
conseguiram amarrar o tronco em seus braços –, seu coração começou a bater à
razão de 170 pulsações por minuto e a pressão arterial elevou-se para cerca de
190. Em minha opinião, aquele foi um golpe que consumiu as poucas energias que
ainda lhe podiam restar.)
Ao vê-lo naquele estado lamentável, perguntei-me quanto poderia resistir com
o patibulum nas costas...
Mas um novo fato estava a ponto de provocar outro dilacerante sofrimento no
organismo do gigante da Galileia.
Enquanto Arsenius pregava as três tabuinhas sobre o fuste de madeira de um
dos pilum, outro soldado reparou nas sandálias do Mestre e as mostrou a Longino,
que, num gesto de honradez e consideração para com o réu, ordenou ao soldado
que as calçasse em Jesus. O infante colocou-se de joelhos diante do rabi e, ao
forçá-lo com ambas as mãos a erguer o pé esquerdo, para que se ajustasse à
sandália, o corpo do Nazareno se desequilibrou, pendeu para o lado contrário e
caiu pesadamente. O acidente foi tão rápido quanto inesperado. O Galileu, com os
braços amarrados, não pôde evitar que o patibulum o projetasse com o flanco
direito sobre as lajes, para depois estatelar-se de bruços, com a trave da cruz sobre
o corpo.
Ao ver e ouvir o violento choque contra as lajes, temi pelo pior. Quando os
soldados se apressaram a erguer o Nazareno, observei que, felizmente, o “elmo”
de espinhos havia atuado como protetor, evitando a fratura dos ossos da face. Em
contrapartida, os espinhos da testa, das têmporas e das faces lhe haviam perfurado
um pouco mais a carne, deixando a descoberto, em algumas áreas, parte do tecido
celular subcutâneo e dando lugar a novas e intensas hemorragias.
Apesar da violência da queda, o Nazareno não chegou a perder os sentidos.
Dois verdugos ergueram o patibulum, escorando-o nos ombros, enquanto o
desastrado soldado terminava de calçar as sandálias de Jesus.
Uma vez concluída a desajeitada operação, os verdugos soltaram o madeiro, e
o rabi voltou a sentir o seu peso, inclinando-se uma segunda vez. A impossibilidade
de que pudesse deitar a cabeça para trás reduziu seu campo visual praticamente
ao terreno em que pisava. Em várias ocasiões, enquanto durou aquela curta e
acidentada caminhada até o Calvário, observei que o Mestre forçava a vista para o
alto. Ao franzir a fronte, porém, os espinhos abriam as feridas e a dor intensa o
obrigava a baixar de novo os olhos.
Ali pela sexta hora, Longino deu ordem de empreender a marcha. A escolta
havia sido acrescida de outros soldados, todos bem armados. Oito se colocaram de
ambos os lados do prisioneiro e o restante, até um total de doze, dividiu-se entre a
vanguarda da comitiva, logo atrás do centurião e seu lugar-tenente, e a
retaguarda. Para cada réu, portanto, havia sido designado um contingente de
quatro soldados, expressamente encarregados de sua vigilância e da crucificação.
Um desses soldados carregava um ensebado saco de couro, que pendia de um
chuço terminado em forma de forca, que ele se apressou a apoiar no ombro.
Fechava o cortejo uma parelha de romanos, que carregava uma escada de mão, de
uns cinco metros.
Quatro soldados, colocados à direita e à esquerda dos zelotes, desenrolaram
seus látegos e reiniciaram a flagelação daqueles desgraçados, como era o costume antes das execuções. Gemendo e com o corpo ensanguentado, os dois primeiros
réus começaram a caminhar cambaleando sob o peso dos troncos. Seguindo rígidas
normas de segurança, os três prisioneiros, como já disse, haviam sido atados pelos
tornozelos a uma mesma corda. Dessa forma, qualquer possível tentativa de fuga
seria extremamente problemática.
Ao iniciar a marcha, o condenado do centro deu um puxão na corda, obrigando
o Nazareno, que ocupava o terceiro lugar, a segui-lo. As pronunciadas oscilações do
lenho que o rabi carregava e seus passos vacilantes e inseguros por causa do
penoso claudicar da perna esquerda nos fizeram temer a todos por uma nova e
iminente queda – e, o que seria pior, por uma possível parada cardíaca. E digo “a
todos” porque desde o princípio os quatro soldados que comigo fechavam a escolta
trocaram alguns olhares de preocupação, confirmando com significativos
movimentos de cabeça que aquele prisioneiro não estava em condições de chegar
ao Gólgota. Mas, naquele momento, ninguém disse nada.
Os réus venceram os primeiros 25 metros e o pelotão entrou no túnel
abobadado da porta Oeste, aquele pelo qual eu havia entrado na fortaleza Antônia
em companhia de José de Arimateia. Ali, infelizmente, ocorreria um novo
problema...
Algumas sentinelas haviam assomado com curiosidade à porta do corpo de
guarda, assistindo entre risotas à passagem dos condenados. Quando o guerrilheiro
que marchava no centro chegou à altura dos guardiães, o tal de Gistas, ele se
aproveitou do fato de que os mercenários haviam cessado seus açoites por conta
da penumbra e da estreiteza da passagem, voltou-se para a esquerda e lançou
uma cusparada sobre o romano mais próximo. E antes que seus verdugos
pudessem pôr-lhe as mãos em cima, lançou-se com o patibulum contra o rosto da
sentinela que estava à sua direita. O soldado caiu para trás e, na queda, arrastou
Jesus. Ambos rolaram sobre o escuro e úmido piso do túnel, e o impacto fez que
Jesus caísse de costas. O tumulto foi indescritível. Vários membros do corpo de
guarda e alguns romanos da escolta, enfurecidos com o guerrilheiro, espetaram-no
com suas lanças até fazê-lo cair de joelhos.
Longino e Arsenius acudiram de imediato ao centro do túnel e trataram de pôr
um paradeiro no tumulto. Outros soldados ajudaram o companheiro que havia sido
golpeado com o madeiro. Uma das arestas lhe havia aberto o pômulo esquerdo,
provocando forte hemorragia. O centurião examinou a brecha e ordenou-lhe que
deixasse imediatamente o serviço. Seu posto foi ocupado na mesma hora por outra
das sentinelas. Enquanto isso, Jesus permanecia imóvel, o rosto para cima, incapaz
de levantar-se. Os espinhos haviam voltado a ferir a nuca de Jesus, que, com um
ricto de dor, tentava levantar a cabeça para evitar o contato com a madeira.
Alguns dos soldados que empunhavam flagrum, cegos de raiva, revoltaram-se
também contra o rabi e começaram a golpeá-lo, insultando-o e exigindo que se
levantasse. Mas tal intimação foi tão inútil quanto absurda. Ninguém, naquela
posição, teria podido elevar o tronco pelos próprios meios. Em uma desesperada tentativa de obedecer, o Nazareno chegou a dobrar as pernas, retesando os
músculos, mas, em poucos segundos, vencido e esgotado, desistiu. Antes que a
lógica e o bom senso se impusessem entre a soldadesca confusa, outro dos
romanos se inclinou sobre o Mestre e, agarrando-o pela barba, começou a puxá-lo,
lançando-lhe uma torrente de imprecações e blasfêmias. A raiva do verdugo era
tamanha que, num daqueles selvagens puxões, os dedos crispados se
desprenderam do rosto de Jesus, levando uma mecha de sua barba. Mas, com
aquela porção de barba, o soldado arrancou também parte da epiderme e da capa
interna da pele, deixando a descoberto, entre borbotões de sangue, as faixas
fibrosas do músculo quadrado (em sua zona direita). Com um forte lamento, o
Galileu deixou cair a cabeça sobre o patibulum, presa da insuportável dor que deve
ter resultado da perda de inúmeras papilas nervosas. (É importante registrar que,
entre os minúsculos órgãos violentamente desprendidos,estavam aqueles
conhecidos como intérpretes da “sensibilidade dolorosa”: receptores específicos
para a dor, que se ramificam em terminações nervosas livres e invadem os
interstícios do epitélio cutâneo.)
A surpresa e o susto da sentinela foi tal que ele não voltou a agredir Jesus. O
optio, com mais bom senso que seus homens, mandou que o erguessem. E a
comitiva prosseguiu sua marcha, com os dois revolucionários sendo massacrados a
chicotadas e com um Jesus de Nazaré irreconhecível, consumido pela febre e por
um processo de debilitação galopante.
Quando Jesus pisou a cobertura metálica da ponte levadiça, o sol, quase no
zênite, iluminou em cheio sua figura. As quedas tinham aberto algumas feridas,
empapando novamente a túnica, que havia perdido sua cor original. Vários filetes
de sangue corriam sem cessar pelos tendões de Aquiles e lhe encharcavam as
sandálias.
Arrastando os pés, o Mestre foi-se aproximando do parapeito exterior da torre
Antônia. Sua respiração era cada vez mais cansada e sua cabeça e tronco iam se
inclinando centímetro a centímetro.
Na abertura do muro, quando já havíamos percorrido pouco mais de 45 metros
desde o centro do pátio de arcadas, o pelotão parou novamente. A estreiteza do
acesso obrigou a patrulha a inclinar os troncos dos réus para que pudessem
atravessar para o recinto exterior do quartel-general.
A partir dali, as coisas podiam complicar-se. Os soldados cerraram fileiras,
guardando uma distância mínima entre si e os condenados. Longino fez um sinal a
seu lugar-tenente e este se pôs à frente da comitiva, erguendo com as mãos o
Pilum sobre o qual haviam sido dispostas as três tabuinhas com os nomes e os
crimes dos que eram levados à execução.
Assim que abandonamos a fortaleza, fomos surpreendidos por uma rajada de
vento, muito mais intensa do que a que eu havia sentido durante os debates de
Pôncio no terraço do Pretório. Aquele vento, procedente do leste, chegava
carregado de pó e areia. Intrigado pela súbita piora do tempo, usei a conexão auditiva e perguntei a Eliseu que notícias ele tinha sobre a anunciada instabilidade
nos altos níveis da atmosfera, nas proximidades da fronteira do atual Iraque com a
Arábia Saudita. Meu companheiro – a quem eu quase tinha abandonado havia
horas – reprovou-me o silêncio, ainda que compreendesse que as circunstâncias
não eram propícias para mantê-lo informado.
Imediatamente, passou a explicar-me que a turbulência se havia convertido em
u m haboob,181 ou tempestade acompanhada de vento violento, alimentado pelo
contato entre uma corrente “em jorro” e outro sistema de pressão barométrica
distinto. A tempestade tinha aumentado, em especial na periferia ocidental da
depressão bárica, localizada, como já disse, ao sul do Iraque. Os sistemas
eletrônicos do “berço” haviam detectado correntes cônicas de partículas suspensas
no ar, movendo-se na direção oeste-noroeste, em frentes que oscilavam ao redor
dos cem quilômetros. As faixas desse haboob vinham-se espiralando e alargando,
até alcançar os quinhentos quilômetros, deixando à sua passagem gigantescas
nuvens de areia, arrancadas dos desertos arábicos de Nafud e Dahna. As rajadas,
segundo os detectores do módulo, alcançavam de 25 até 30 nós por hora. Ao
contrário do que presumia Eliseu, a chegada daquela tormenta havia elevado a
umidade relativa, prevendo-se também ligeira queda de temperatura.
– A visibilidade no interior dos torvelinhos de poeira – acrescentou Eliseu – foi
estimada por “Papai Noel” em uns trezentos metros. Tempo previsto para que o
lóbulo central do haboob varra a cidade: entre 30 e 45 minutos a partir de agora.
Aquilo significava que, se a comitiva conseguisse alcançar o local da
crucificação antes da entrada da tormenta na área de Jerusalém, as “trevas”
provocadas pelos bancos de areia em suspensão cairiam sobre nós em plena
execução. Ocorreu-me naquele instante que as famosas “trevas” descritas pelos
evangelistas pouco tinham a ver com o escurecimento do sol pela poeira...
A curta distância do parapeito de pedra que rodeava aquela área da torre
Antônia, um grupo de judeus (calculei uns duzentos) aguardava, entre os quais uns
poucos saduceus – os mesmos que haviam assistido à condenação de Jesus diante
do Pretório – e, claro, José de Arimateia, em companhia de outro emissário de Davi
Zebedeu. Esse jovem acabava de anunciar ao ancião que Maria, mãe do Mestre, e
outros parentes já se aproximavam de Jerusalém e provavelmente se encontrariam
com João no caminho de Betânia.
Caifás e os demais sinedristas – segundo José – haviam-se dirigido ao Templo,
dispostos a prestar contas, ao resto do Sinédrio, do acontecimento daquela manhã
e da iminente morte do rabi da Galileia. Mas a preocupação maior de Arimateia não
era com a sorte de seu Mestre. Ele sabia que a sentença do governador era
inapelável e que só os poderes divinos de Jesus poderiam livrá-lo da morte certa.
Seus pensamentos estavam ocupados, na verdade, com outro problema. Uma vez
conseguido o pronunciamento de Pôncio contra o Galileu, os sacerdotes saíram da
fortaleza discutindo e preparando sua próxima ação: a prisão e o aniquilamento
dos discípulos de Jesus. José havia avisado o “correio” sobre tal manobra e o apressou para que fosse até Getsêmani e pusesse de sobreaviso Davi e todos os
seguidores que conseguisse localizar. E assim o fez o emissário.
Eu me atrevi a insinuar-lhe que sua presença junto ao sumo sacerdote e os
saduceus poderia ser muito mais útil do que naquele trágico cortejo. E José, sem
poder conter as lágrimas, assentiu com a cabeça, enquanto observava, atônito, o
rosto ensanguentado do Nazareno e seu corpo cada vez mais esgotado e
encurvado pelo peso do tronco.
Os dirigentes judeus, ao lerem o “INRI” de Jesus, interceptaram a marcha do
optio e do pelotão e, desabusadamente, protestaram contra a inscrição. Longino
procurou acalmar os exaltados ânimos dos hebreus, fazendo-lhes ver que aquelas
tabuinhas haviam sido escritas de próprio punho por Pôncio.
Foi inútil. Os saduceus exigiram que o centurião mudasse o texto, retirando a
expressão “rei dos judeus”. A tensão chegou ao máximo quando alguns daqueles
andrajosos começaram a atirar pedras contra os soldados. Vários soldados se
adiantaram para cobrir Longino e o optio com seus escudos. O centurião, sem
perder a calma, afastou o infante que o protegia e, elevando a voz, ordenou ao
grupo que se dispersasse. Depois, indicando a terceira tabuinha – correspondente a
Jesus –, disse aos sinedristas que, se quisessem mudar a inscrição, voltassem à
fortaleza e discutissem o assunto com Pilatos. Aquelas palavras de Longino
apaziguaram a cólera dos judeus; mas três juízes se retiraram apressadamente em
direção ao Pretório, dispostos a negociar o que consideravam um insulto a seu
nacionalismo.
Eu não voltaria a ver Pilatos naquela primeira “grande viagem”. Todavia, posso
adiantar que em nossa segunda “aventura”, Civílis me relatou aquele novo
encontro com os “desprezíveis sacerdotes”, congratulando-se com a atitude de
Pôncio. O governador se mostrou inflexível, recordando aos hebreus que aquela
acusação havia constituído parte do libelo em que se baseara a condenação.
Parece que, quando se convenceram da dura e intransigente postura do romano, os
saduceus lhe sugeriram que pelo menos alterasse o texto para: “Ele disse: sou o
Rei dos Judeus”. A resposta de Pôncio foi a mesma: “O que escrevi, escrito está”. E
os representantes do Sinédrio não tiveram outro remédio senão retirar-se, não sem
antes ameaçar o governador com um rosário de maldições e castigos divinos...
Uma vez esgotado o incidente, o centurião deu ordem de prosseguir.
Desembainhou a espada e, sem hesitação, abriu caminho entre a turba. Aquelas
centenas de fanáticos, em sua maioria desocupados, gente comprada pelo
Sinédrio, ou simplesmente mórbidos sedentos de sangue, lançaram-se para trás de
imediato, abrindo um corredor pelo qual o pelotão pôde desfilar com os
condenados. Por mais que eu olhasse, não consegui descobrir um só dos amigos ou
discípulos de Jesus. Quanto à multidão que havia gritado pela libertação de
Barrabás e pela crucificação de Jesus, onde estava? Aqueles hebreus
representavam uma mínima parte dos prováveis 2 mil ou 3 mil que se haviam
congregado, minutos antes, diante das escadarias da residência do governador. Esse súbito desinteresse pelo fim do odiado “rei dos judeus” confirmou minha
hipótese. A imensa maioria dos judeus que subiram naquela manhã até o Pretório
só levava uma intenção: pedir a tradicional libertação de um preso. No fundo, tanto
fazia para eles em quem recaísse a graça. Se os juízes tivessem clamado pela
liberdade de Jesus, o populacho certamente teria feito coro com eles. Uma vez
satisfeita sua curiosidade, os milhares de peregrinos e vizinhos de Jerusalém se
retiraram, praticamente esquecendo o condenado.
Mas o tropeço com aquelas duas centenas de covardes serviu para alguma
coisa. Longino, homem de grande experiência, pensou sem dúvida que a condução
dos zelotes e do “rei” pelas ruas da cidade alta de Jerusalém poderia causar
complicações para seus homens e para ele. Sensato, alterou o caminho a que
tradicionalmente vinha obedecendo esse tipo de procissão. Em geral, os futuros
justiçados eram conduzidos pelas intrincadas vielas da cidade e exibidos como
exemplo às massas. Nessa ocasião, insisto, o centurião optou por um caminho
muito mais curto. Sinto decepcionar a todos os que acreditaram e continuam
acreditando em uma “via-crúcis” pelas estreitas ruas do bairro alto. Nada disso. O
centurião e os soldados se desviaram para o norte, entrando no poeirento caminho
que conduzia a Cesareia e corria quase paralelo ao vale do Tyropeon. (Hoje, essa
mesma via atravessa, pouco mais ao norte, a porta de Damasco, na muralha
setentrional.)
Os primeiros a serem surpreendidos por essa alteração do itinerário foram os
hebreus que haviam lançado pedras contra a escolta romana. Aos poucos,
encabeçados pelos saduceus, começaram a seguir Longino e a patrulha. Suponho
que aquela estranha variação na rota tradicional dos réus despertou ainda mais
curiosidade.
Segundo meus cálculos, Jesus já havia caminhado uns cem metros desde o
pátio da torre Antônia quando o centurião, de improviso, saiu da calçada e lançou-
se para a esquerda, iniciando a descida pela mencionada quebrada do Tyropeon,
em direção a uma das esquinas da muralha norte da cidade. O vento, naquela zona
externa de Jerusalém, levantava grandes massas de poeira e terra, dificultando o
já penoso caminhar do Mestre e dos “bandidos”. Estes haviam voltado a ser
açoitados, ainda que o declive e as irregularidades do terreno tirassem a precisão
dos golpes dos verdugos.
Foi precisamente naquela curta ladeira, semeada de cardos e abrolhos
espinhosos, que o claudicante e humilhado corpo do Nazareno perdeu de novo o
equilíbrio, caindo ao chão no meio de uma nuvem de poeira. Dessa vez, Jesus
conseguiu sustentar-se de joelhos, que se chocaram nas pedras.
A terceira queda do prisioneiro obrigou a comitiva a parar. Dois dos verdugos
retrocederam e, com chibatadas, tentaram fazer o Mestre erguer-se. Com a boca
aberta, ofegante, em meio a uma nova aceleração do ritmo cardíaco, o gigante –
que havia permanecido de joelhos – conseguiu por fim elevar a perna direita. À
esquerda, porém, destroçada pelo flagrum, não respondeu. O Filho do Homem apertou os dentes com todas as forças. Os músculos do pescoço voltaram a ficar
tensos, produzindo uma perigosa contratura no esternoclidomastoideo. Seus olhos,
fechados, refletiam o firme desejo de vencer o peso do madeiro, mas o
esgotamento, a sede e a cada vez mais preocupante perda de sangue (naquele
momento era bem possível que o rabi tivesse perdido uns dois litros) foram mais
fortes que a vontade. E, apesar das chibatadas, seu corpo, longe de se recuperar,
foi-se inclinando mais e mais, até que o queixo tocou o joelho direito. Nesse
momento crítico, a voz do centurião deteve os mercenários. E o próprio Longino,
ajudado por dois subordinados, encarregou-se de erguer o patibulum, propiciando
assim a recuperação do condenado. A comitiva continuou então a descida, até
atingir o fundo do vale. A partir dali, até o Gólgota, a marcha foi muito mais
dramática. Pelos meus cálculos, a depressão do Tyropeon estava a 745 metros de
altitude. Havíamos descido cinco metros (a altitude da fortaleza Antônia e da pista
de Cesareia era de 750 metros) e o Calvário ficava a 755 metros acima do nível do
mar. O que significava, a partir desse ponto, um caminho em contínuo aclive...
Para minha surpresa, o Nazareno conseguiu subir a rampa com menos
dificuldade do que eu supunha. Cambaleando e respirando pela boca, venceu outra
centena de metros. Aquilo somava ao redor de 250 metros desde nossa saída da
fortaleza Antônia.
Não obstante, eu mesmo estava enganando-me. A triste realidade não tardou a
impor-se. De imediato, ele parou. O lenho oscilou nervosamente de um lado para o
outro e Jesus caiu sobre os joelhos, presa de convulsões mais intensas. Dessa vez,
felizmente para ele, a comitiva apenas ficou parada alguns segundos. O rabi
prosseguiu a marcha, mas arrastando os joelhos sobre a áspera ladeira.
Não pude evitar um sentimento de admiração. Aquele homem, no declive de
sua vida, era capaz de continuar – fosse como fosse – até seu próprio fim...
Longino havia escolhido o perímetro externo da muralha norte para evitar as
múltiplas ruas de Jerusalém e, ao mesmo tempo, abreviar o caminho. Apesar disso,
o esgotamento físico – e mental, suponho – de Jesus de Nazaré estava roçando de
novo o estado de choque. As pontas de seus dedos haviam começado a tingir-se de
uma tonalidade violácea, sinal inequívoco da precária circulação nas extremidades
superiores, resultado de sua prolongada imobilização. Embora fosse impossível
comprovar naquele angustioso momento, era mais do que certo que em seus
braços e ombros se havia iniciado uma tetanização, ou seja, um novo e pungente
sofrimento, consequência da progressiva cristalização dos microscópicos cristais de
ácido lático dos músculos. (Esse processo de tetanização seria um dos mais rudes
suplícios que o Mestre deveria enfrentar durante os primeiros minutos da
crucificação.)
Com a cabeça e o tronco flexionados, o Galileu foi ganhando cada palmo de
terreno, envolto em vagas de areia e levantando em cada arrastar de seus joelhos
pequenas colunas de pó. O sangue que empapava sua túnica foi-se carregando de
terra, assim como seus cabelos, sua barba e seu rosto.
A respiração foi ficando cada vez mais rápida e, quando tinha vencido outros
poucos cinquenta metros, um suor frio banhou-lhe a testa e o pescoço. Jesus
avançava agora com movimentos bruscos, quase às sacudidelas, numa típica
“marcha espasmódica”, consequência da rigidez muscular.
Subitamente, eu o vi levantar o rosto por duas vezes, na desesperada tentativa
de inalar o máximo de ar. E, sem que ninguém pudesse evitar, desabou e se
estatelou contra o terreno.
Os soldados não hesitaram. Antes que o centurião tivesse tempo de intervir,
encheram de pontapés o inerme corpo do Nazareno. Os catorze cravos em forma
de “S” das solas foram abrindo novas feridas nas pernas e, suponho, em quase
todas as áreas atingidas pelos pontapés: rins, costelas e costas. O pé esquerdo
tinha ficado voltado para a direita e um dos furiosos verdugos pisoteou-o por duas
vezes. No segundo impacto, a unha do dedo grande saltou inteira.
Quando faltavam poucos metros para vencer o aclive, as forças haviam
abandonado por completo o condenado.
A chegada de Longino pôs fim àquela estéril pancadaria. E digo estéril porque o
Mestre havia perdido a consciência.
O oficial, que estava inteirado da dura intervenção dos infantes na flagelação,
reprovou o comportamento absurdo dos soldados. Depois agachou-se e, colocando
seus dedos na carótida de Jesus, experimentou-lhe a pulsação.
– Ainda vive – exclamou aliviado.
Os quatro guardiães começaram então a levantar o patibulum e Jesus ficou
literalmente pendurado no lenho, com a cabeça mergulhada no peito.
Um dos soldados sugeriu ao centurião que se soltasse o tronco. Longino lançou
um olhar para o horizonte e, ao comprovar que estávamos muito próximos à porta
de Efraim, rechaçou a ideia e ordenou que transportassem o condenado e o
patibulum até o pé da muralha. E assim se fez. Sem parar para contemplações de
nenhum tipo, o pelotão retomou a marcha em direção à citada entrada noroeste da
cidade. Dois verdugos tomaram em seus ombros o madeiro e assim carregaram o
corpo desmaiado do prisioneiro. Os pés de Jesus, durante esses novos oitenta ou
cem metros, foram-se arrastando penosamente por entre as moitas ásperas e as
pequenas formações rochosas, que ulceraram ainda mais seus tecidos.
Chegando à muralha, junto à porta de Efraim e ao caminho que partia daquele
ângulo para Jafa, os soldados sentaram o Mestre e o colocaram recostado sobre os
blocos do elevado muro. E, enquanto dois deles sustentavam-lhe o tronco, um
outro soltou a corda e desamarrou Jesus. Seus braços, exânimes, caíram sobre as
costas do soldado e a cabeça se inclinou sobre seu tórax.
Os verdugos que tinham vindo para açoitar os zelotes aproveitaram aquela
parada para sentar-se à beira do caminho, enquanto os guerrilheiros, exaustos,
esparramaram-se pelo chão.
Um bando de curiosos encheu logo o caminho. Mas, vendo que o pelotão
parara, todos ficaram a uma prudente distância, com olhos presos a cada um dos movimentos dos romanos.
O trânsito de caminhantes por aquela via era intenso. Estava muito próximo da
celebração da tradicional ceia pascal, e os peregrinos apressavam o passo,
tangendo as cavalgaduras e os rebanhos de cordeiros. Muitos paravam sob o arco
da porta de Efraim, surpresos com o espetáculo daqueles homens ensanguentados,
meio despidos e sucumbidos sob o peso dos troncos de madeira. Mas a tormenta
de areia continuava se intensificando, e a maioria, depois de uma rápida olhada,
retirava-se de imediato. Suponho que poucos chegaram a reconhecer o Nazareno.
O centurião e seu lugar-tenente voltaram a examinar o estado de Jesus e
ambos ficaram bastante preocupados. Não desejavam que o réu perdesse a vida no
caminho. Isso poderia complicar as coisas para eles. A uma ordem de Longino, o
soldado que havia carregado o saco de couro tirou dele um cântaro de barro
envolto em uma pequena rede de barbantes trançados e, protegendo-o da poeira
com seu próprio corpo, encheu uma caneca de metal esverdeado com um líquido
incolor. O centurião aproximou o recipiente dos lábios de Jesus, que, ao contato
com o que inicialmente identifiquei como água, reagiu favoravelmente. Observei
então que os lábios estavam gretados, com manchas amareladas nos cantos,
típicas de desidratação. Devagar, o Galileu foi esgotando o líquido. Ao terminar,
sua boca ficou entreaberta, enquanto seu corpo estremecia poe causa da febre e