Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

J. J. Benítez · Capítulo 17 de 19 · parte 3/11

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Cavalo de Tróia 1: Jerusalém

7 de abril, sexta-feira

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

gentios e judeus’.

“Mas o ex-sumo sacerdote não ficou satisfeito e repetiu a pergunta: ‘Tenho

ouvido comentar que pretendes ser o Messias. É certo?’.

“O mestre esperou um pouco antes de responder. Por um momento, pensei que não desejava falar. Mas ele o fez. E com que segurança, Jasão! ‘Tu o disseste!’ –

falou enfim.

“Foi então que entraram esses sacerdotes. Vinham da parte de Caifás.

Aproximaram-se de Anás e murmuraram algo em seu ouvido. Não sei dizer o quê,

ainda que suponha que tinha muito a ver com o Conselho do Sinédrio. Como já

disse, não tardaremos a saber.

“E o resto tu já sabes: Anás ordenou que conduzissem Jesus à presença de seu

genro Caifás e nós abandonamos a casa...”

 

Pouco antes das seis da manhã, o pelotão que custodiava Jesus parou diante

de um casarão rústico, situado a pouca distância do grande retângulo do Templo.

Ficava, precisamente, junto à esquina sudoeste, em uma pequena zona ajardinada,

completamente isolada daquele setor da cidade baixa pelos arcos de Wilson e

Robinson, ao norte e ao sul, pela muralha meridional, a leste, e pelo muro do

Templo, a oeste.

Andorinhas madrugadoras revoluteavam brincalhonas entre os beirais do

segundo pavimento daquela enorme casa de pouco mais de 50 metros de

comprimento por uns 35 de largura. Os trinados desses negros migrantes e o surdo

e rítmico ruído da moagem de trigo, que se erguia de todas as casas de Jerusalém,

foram os últimos e agradáveis sons que escutamos antes de penetrar naquele

“antro”.

Durante esse novo traslado de Jesus, a possibilidade de que nos dirigíssemos à

tradicional sede do Sinédrio, no interior do Santuário, me fez tremer. Fosse assim,

nem o mercenário romano que custodiava o Mestre nem eu poderíamos ter tido

acesso ao lugar. Felizmente – tal qual eu havia sido informado pelos textos do

historiador Flávio Josefo –, poucos meses antes de se iniciar o ano 30, as castas

sacerdotais haviam “descongestionado” a célebre sala das “pedras talhadas”

(situada em um dos ângulos da parte sudoeste do átrio dos Sacerdotes),

transferindo o local da reunião do Sinédrio para esse edifício de pedras cinzentas e

apenas desbastadas.153 O julgamento que Caifás havia planejado, como veremos,

não era muito ortodoxo e, ainda que o Conselho Supremo Israelita continuasse se

reunindo ocasionalmente no Santuário, desta vez – para minha satisfação – o sumo

sacerdote e seus correligionários haviam preferido liquidar o assunto na nova sede,

muito mais discreta que a câmara das “pedras talhadas”.

Os sacerdotes atravessaram um estreito e escuro corredor que desembocava

no pequeno pátio central do bouleyterion, ou “quartel-general” do Sinédrio. Dali, e

sem perda de tempo, penetramos em uma sala quadrangular, bastante espaçosa e

de teto elevado, situada, a julgar pelo caminho que havíamos percorrido, na ala

mais ocidental do edifício. A escassa claridade que penetrava pelas estreitas

janelas obrigava a que as candeias de azeite fossem mantidas acesas.

Como eu temia, mal tínhamos pisado na sala onde se deveria celebrar o

“julgamento” do Galileu, um dos criados do sumo sacerdote interpôs-se em meu

caminho, exigindo que eu me identificasse. Foram segundos de grande tensão. Na minha condição de simples mercador grego, eu não tinha por que assistir à

assembleia. Diante daqueles hebreus, minha presença não era justificável sob

nenhum ponto de vista. E quando eu acreditava que tudo estava perdido, o

soldado, que ainda estava ao meu lado, resolveu o impasse com uma

oportuníssima intervenção:

– Alto! Este homem vem comigo. Como eu, representa o governador.

Aquela mentira – fruto do denário de prata que eu havia dado ao delegado do

suboficial Arsenius – foi determinante. E sem mais explicações, dirigimo-nos ao

centro da câmara.

Um pouco mais da metade daquela sala (de uns dez metros de lado) estava

ocupada por bancos corridos de madeira, em forma semicircular ou de meia-lua.

Esses acentos comuns, sem braços, mas dotados de altos espaldares, minuciosa e

primorosamente entalhados, haviam sido dispostos sobre um tablado de quarenta

centímetros de altura, de forma que seus ocupantes tinham completa visão do

ambiente.

Diante desses bancos, fechando o semicírculo, observei três filas de outros

bancos, igualmente de madeira, mas colocados sobre as lajes do piso, portanto

num nível mais baixo.

Ao entrarmos, os assentos em forma de meia-lua já estavam ocupados por um

total de 23 sacerdotes. Outros seis ou sete tinham-se acomodado na primeira das

três filas de bancos já mencionadas. As outras duas filas permaneciam vazias.

(Posteriormente, ao confrontar essas informações com as do computador central do

“berço”, pude concluir que aquela meia dúzia de saduceus e fariseus não se

sentava no semicírculo simplesmente porque este era destinado ao chamado

“Sinédrio menor”,154 formado única e exclusivamente por 23 membros. Caifás havia

conseguido reunir uns 30 “adeptos” e, em consequência, nem todos puderam tomar

assento no tribunal oficial.)

Sentados na borda do tablado e de frente para cada um dos extremos do

semicírculo, havia dois escribas “judiciais”. Vestiam suas tradicionais túnicas de

linho branco e carregavam, em diferentes faixas, caixinhas de madeira das quais

começaram a extrair seus utensílios de escritório: penas de junco e dois pequenos

frascos que faziam as vezes de tinteiros. E prepararam os rolos de couro.

A bem da verdade, aqueles dois escribas foram a única coisa legal e correta em

todo aquele simulacro de julgamento. (Um, segundo a Misná, encarregava-se de ir

registrando as alegações em favor da absolvição do acusado ou acusados; o

segundo, as propostas de condenação.)

Jesus, sempre em companhia do soldado que controlava a corda que lhe

prendia os pulsos, foi obrigado a se colocar ao pé do tablado, de frente para os

juízes e de costas para as três fileiras de bancos.

João e eu, em companhia dos levitas e de serviçais do Sinédrio, ficamos atrás

dessas fileiras de assentos, à esquerda do Mestre. No fundo da sala, através de

uma porta situada às nossas costas e que permanecia entreaberta, descobri um grupo de hebreus. Mas, a julgar por suas vestes, não pareciam sacerdotes nem

membros do Sinédrio. (A incógnita não tardaria a ser desvendada.)

Desde o primeiro momento, chamou-me a atenção um personagem que

ocupava o centro do tribunal. Devia ter seus cinquenta anos. Não era muito alto e

em seu corpo sobrava gordura por todos os lados. Sua obesidade se destacava

sobretudo no rosto, redondo e congestionado, e na grande papada, sobre a qual

descansava uma barba grisalha. A cabeça, sem o turbante que usavam alguns de

seus companheiros de banco, era arrematada por cabelos negros muito curtos, no

estilo “juliano”.

Sua figura se destacava visivelmente por causa das vestes, muito diferente das

dos demais juízes. Trazia túnica e calções, tudo de seda, na tonalidade amarelada.

Seu peito estava envolto por cinco faixas, cada uma de uma cor: ouro, carmesim,

escarlate, púrpura e amarelo.

Aquele indivíduo era José ben Caifás, sumo sacerdote desde o ano 18, por

designação do governador romano Valério Grato, antecessor de Pilatos.

À direita e à esquerda do genro de Anás, sentavam-se outros 22 membros do

Sinédrio, quase todos portando amplos mantos multicoloridos. João, em voz baixa,

foi apontando para mim os mais venenosos e intrigantes: Semes, Dothaim, Levi,

Gamaliel, Jairo, Neftáli e um tal de Alexandre, em sua maioria, saduceus.

Nos rostos daqueles indivíduos – quase todos com idade que oscilava ao redor

dos sessenta anos – havia perplexidade. O porte majestoso e sereno do Mestre

lhes devia estar causando profunda impressão. Desde o momento em que Jesus

fora colocado diante deles, não cessaram os cochichos.

Mas Caifás parecia ter pressa e, a uma ordem sua, alguns dos policiais

convidaram o grupo de judeus que aguardava na sala contígua a se aproximar do

Conselho.

Para surpresa – seguida de indignação – de João, aquelas “testemunhas”

começaram a depor contra os ensinamentos e a pessoa do Galileu. Seus ataques,

tão exaltados quanto desordenados, centraram-se fundamentalmente nas

numerosas violações do sábado e das leis mosaicas que, segundo eles, Jesus e seu

“grupo de esfarrapados galileus” haviam cometido. Os perjuros, manifestamente

comprados de forma precipitada pelo Sinédrio, se contradiziam de modo

incessante, convertendo a sessão em uma farsa. O desfile de falsos testemunhos

chegou a ser tão lamentável que alguns dos juízes, envergonhados, baixavam a

cabeça e se agitavam nervosos em seus assentos.

O Mestre, que nesse momento havia levantado a cabeça, permanecia

impassível, sobressaindo entre todos os seus acusadores por seu porte majestoso.

Aquele semblante sereno, sem a mais débil sombra de orgulho ou vaidade,

exasperou ainda mais Caifás e seus cúmplices, que não entendiam como um

homem podia manter a calma quando tudo apontava para uma provável sentença

de morte.

– Este profanador do sábado – afirmou uma das testemunhas – é reincidente, já que consta que foi vertido pelos sacerdotes em várias ocasiões. Portanto, deve

ser condenado à morte...

(De acordo com a Misná – capítulo “Sinédrio Makkot” –, aquele que profanava o

sábado premeditadamente e de forma reincidente deveria ser morto por lapidação,

ou seja, por apedrejamento.)

Outra das falsas testemunhas tomou a palavra e, apontando o Galileu, lembrou

à assembleia a multiplicação dos pães e peixes.

– De acordo com nossas leis – assegurou –, esse homem é um mago que

engana o povo com seus atos. Aquiba diz, em nome de Yehosua: “Se dois reúnem

pepinos servindo-se da magia, um dos coletores não é culpado, mas o outro, sim. O

que realiza o ato é culpado e o que só engana os olhos não é”. Muitos pudemos

ver, então, que esse enviado do príncipe dos demônios realizava os atos e seus

discípulos o secundavam...

Um murmúrio de aprovação se espalhou entre os juízes. Mas o Mestre

permanecia mudo.

– Segundo o Levítico – argumentou outro hebreu –, o réu adquiriu impureza por

contato com cadáveres. E, como se isso não fosse culpa suficiente, atreveu-se a

violar a sagrada crença da ressurreição dos mortos, tirando Lázaro da tumba...

Alguns dos saduceus, cuja filosofia repudiava de imediato a ressurreição dos

mortos, moveram a cabeça negativamente, sorrindo sem dissimulação. Caifás, que

pertencia a essa casta, deixou passar a impertinência dos saduceus. Não era o

momento de entrar em polêmica com os fariseus, que haviam franzido o cenho,

com evidente aborrecimento diante das irônicas e silenciosas manifestações do

resto do tribunal. A momentânea tensão entre os juízes foi dissipada quando

aquela testemunha desviou sua acusação para o novo “feito mágico” de erguer

Lázaro do sepulcro “num tempo inferior ao toque da trompa”. (Aquele dado me fez

pensar que, como cada um desses toques de corno dos levitas do Templo nunca se

prolongava além de quinze segundos, a ressurreição de Lázaro – desde o momento

em que Jesus o chamou até que ele voltou à vida – pode ter ocorrido em dez a

quinze segundos.)

A acusação, como quase todas, era tão pueril e sem base que o sumo

sacerdote – cada vez mais agitado – fez um sinal às testemunhas seguintes para

que se apresentassem. Mas estas não foram mais brilhantes...

Vários judeus, acompanhando suas palavras com gestos exagerados,

recordaram ao tribunal outro dos “delitos” de Jesus: “Não ter comido o obrigatório

cordeiro pascal”...

Aquela informação só podia ter sido dada por Judas, que havia chegado ao

edifício do Sinédrio muito antes de nós e permanecia atrás do grupo de

testemunhas, ainda que não tivesse chegado a testemunhar. (As normas daquela

gente proibiam que um traidor se dirigisse publicamente ao Conselho.) A lei

mosaica, de fato, estabelecia que todos os israelitas eram obrigados a comer

cordeiro ou cabrito na festa de Páscoa. Só anos mais tarde, após a destruição do

Templo, a Misná, em seu capítulo IV (Pesahim),155 suavizaria essa norma, dizendo

textualmente que “no lugar onde não se costuma comer, carne não se coma”.

Naquele desfile de incongruências e despropósitos, um dos últimos acusadores

fez verdadeiro malabarismo. Aludindo a outra das leis judias, chegou a acusar o

Nazareno de “homicídio frustrado”. Seu débil e irrisório argumento se baseava em

outra norma que decretava a culpa daquele que golpeasse o próximo com uma

pedra de tal maneira que pudesse matá-lo.

O adestrado acusador expôs então um incidente protagonizado por uma

adúltera, salva da lapidação popular quando Jesus, dirigindo-se à multidão,

desafiou “aquele que estivesse livre de pecado a atirar a primeira pedra”.

Para o tendencioso hebreu, aquele gesto constituía delito, já que incitava ao

assassinato...

A grotesca impressão causada pela acusação diminuiu um pouco porque,

subitamente, os 23 juízes e os demais membros do Sinédrio ficaram de pé. Fez-se

um profundo silêncio e um dos saduceus, o que se sentava à direita de Caifás, saiu

de seu lugar para cedê-lo a um indivíduo miúdo e encurvado que acabava de entrar

na sala.

– É Anás! – sussurrou-me João.

Durante minha estada no palacete do ex-sumo sacerdote, não me havia

surgido oportunidade de conhecê-lo. Agora, ao vê-lo subir ao tablado, com a ajuda

de dois servos, senti certa decepção. O poderoso sogro de Caifás e pai da influente

família sacerdotal era, na realidade, um velho decrépito, muito próximo dos

setenta anos e afligido pelo mal de Parkinson em estado avançado. Como sâgan,

ou presidente da câmara dos anciãos, ocupou o assento localizado à direita do

sumo sacerdote em exercício naquele ano. Imediatamente, os demais juízes

voltaram a acomodar-se, e Caifás, com um displicente gesto de suas rechonchudas

mãos, acenou às testemunhas para que prosseguissem em seus depoimentos.

Apesar de sua mais que provável esclerose cerebral, Anás, ou Anão – como o

chama Flávio Josefo –, conservava uns olhos de ave de rapina noturna, grandes e

vertiginosos. Assim que ele se sentou, esses olhos percorreram a sala e pousaram

nos do Mestre. E o tremor de suas mãos se acentuou.

Jesus sustentou o olhar e Anás, indeciso, procurou esconder suas

apergaminhadas mãos sob o manto de púrpura que o cobria. Depois, desviando

sua atenção para o inquisidor de plantão, pareceu esquecer o Galileu.

– ... Este homem – havia começado a dizer a testemunha – afirmou que

destruiria o Templo e que em três dias edificaria outro, mas sem a ajuda da mão

do homem.

O s archontes, ou chefes do Templo, haviam encontrado, finalmente, um

argumento condenatório suficientemente sólido. Certamente aquilo não era o que

Jesus havia dito. Além disso, nem essa testemunha nem a seguinte, que ratificou

tudo o que havia dito a anterior, fizeram alusão alguma ao decisivo gesto em que o

rabi apontava seu corpo com o dedo, ao mesmo tempo que pronunciava aquelas palavras.

Se não me engano, aquele foi o único testemunho no qual dois sujeitos

conseguiram chegar a um acordo.

Antes do término dos depoimentos das testemunhas, o clamor dos archiereis,

ou sacerdotes-chefes, foi geral, perturbando a ordem da sala com exageradas

demonstrações de desagrado e incredulidade.

Caifás levantou os braços, pedindo calma, enquanto um sorriso cínico se

esboçava em seu rosto. E o silêncio se restabeleceu pouco a pouco. Nesse

momento, Anás fez um sinal ao genro. Este se inclinou e o ex-sumo sacerdote

disse-lhe algo ao pé do ouvido. Depois ambos fixaram os olhos em Jesus. Mas este

continuava imperturbável. Nenhuma das alegações havia conseguido alterá-lo.

– Não respondes a nenhuma das acusações? – gritou-lhe de repente Caifás,

com sua voz chiante e desagradável.

Os juízes, testemunhas, levitas e os demais assistentes, bem como Judas,

esperaram a resposta do Galileu. Foi inútil. O Mestre, com os olhos postos em

Caifás, não despregou os lábios.

Aquele silêncio do acusado, aliado à sua grande integridade, enrubesceu Caifás.

Suas pálpebras começaram a se abrir e fechar ritmicamente, tomadas de um tique

nervoso. É bem possível que o ódio daquele hebreu por Jesus alcançasse naqueles

minutos seu limite extremo. E estou quase certo também de que, acima dos

ensinamentos e milagres de Cristo, o que verdadeiramente alimentava a vingança

do sumo sacerdote era o domínio que o Mestre demonstrava. Se Jesus tivesse se

humilhado e adotado uma postura conciliatória, talvez o simulacro de processo não

tivesse chegado a tão trágicas consequências.

Quando tudo parecia indicar que Caifás estava a ponto de explodir, Anás

levantou-se. Tirou um rolo de pergaminho do interior de sua manga direita e,

enquanto o abria, anunciou ao tribunal que “aquela ameaça do Galileu de destruir o

Templo era razão mais do que suficiente para justificar as seguintes acusações...”.

E, com voz rígida e insegura, o documento quase colado aos olhos, procedeu à

leitura das acusações que, obviamente, haviam sido preparadas antes mesmo da

sessão do Sinédrio:

“O acusado desvia perigosamente a gente do povo e, além disso, ensina-a.

“... O acusado é um revolucionário fanático, que aconselha a violência contra o

Templo sagrado e, ademais, pode destruí-lo.

“...O acusado ensina e pratica a magia e a astrologia.156 A prova de que

promete edificar um novo Santuário em três dias, sem ajuda de ninguém, é

concludente.”

João, estupefato, fez-me ver algo que estava claro como a luz: a redação de

tais acusações só poderia ter sido feita de comum acordo com as falsas

testemunhas.

Mas as indignidades daquele Conselho estavam apenas começando.

Anás enrolou o pergaminho e aguardou, de pé, a resposta do réu. No entanto, Jesus não moveu um só músculo.

O ancião, visivelmente contrariado, deixou-se cair sobre o banco, enquanto um

denso e ameaçador silêncio inundou de novo o recinto.

Em um acesso de ira, Caifás saltou de seu assento e se colocou diante de

Jesus, e ameaçando-o com o dedo, gritou-lhe:

– Em nome de Deus vivo, bendito seja!, ordeno-te que me digas se és o

libertador, o Filho de Deus... bendito seja o seu nome!

Desta vez Jesus, baixando os olhos para o pequeno e colérico sumo sacerdote,

deixou que ouvissem sua potente voz:

– Sou... E logo irei para junto do Pai. Em breve, o Filho do Homem será

revestido de poder e reinará de novo sobre os exércitos celestes.

As palavras do Nazareno, categóricas, retumbaram na sala como um golpe de

maça. Caifás recuou dois passos. Tinha a boca aberta e trêmula, e seus olhos

estavam injetados de sangue, assim como o rosto e o pescoço. Sem tirar os olhos

de Jesus, agarrou as cinco faixas que circundavam seu peito e, com um puxão, fez

saltar os passadores que as prendiam às costas.157

A sagrada ornamentação do sumo sacerdote caiu sobre o piso com um quase

inaudível ruído das agulhas de marfim tocando as lajes. E Caifás, fora de si, com a

voz congestionada e uma involuntária chuva de perdigotos saltando pelo ar,

exclamou:

– Que necessidade temos de testemunhas...? Já ouviram a blasfêmia deste

homem...! Que pensam que devemos fazer com este violador?

Os trinta saduceus, fariseus e escribas ficaram de pé como um só homem e

vociferaram em coro:

– Merece a morte! Crucificação! Crucificação!

A acelerada palpitação das artérias do pescoço de Caifás demonstrava muito

claramente que seu organismo estava sofrendo uma grande descarga de

adrenalina. E, com a mesma fúria com que havia arrancado parte de suas vestes,

voltou a encarar o Mestre e desferiu-lhe uma violenta bofetada na face esquerda.

Os anéis timbrados da mão esquerda do sumo sacerdote (cheguei a identificar uma

pedra de jaspe, uma ágata e uma coralina) feriram a maçã do rosto de Jesus e dois

finíssimos fios de sangue começaram a lhe correr pela barba.

O Galileu não deixou escapar um só lamento. Baixou os olhos. Não voltaria a

erguê-los até que a polícia do Templo o conduzisse à sala onde haviam estado

reunidas as testemunhas.

O genro de Anás voltou para o seu lugar, enquanto o coro de juízes continuava

vociferando: “Morte...! Morte...!”.

João agarrou meu braço e mordeu o manto, numa crise de impotência e

desespero. Mas ninguém, nem sequer o soldado romano, moveu um só dedo em

defesa do acusado.

Anás, o único a permanecer sentado e em silêncio, pediu calma. E, quando o

último dos sinedristas obedeceu à ordem, Anás se dirigiu ao agitado Conselho sugerindo que se reunissem novas acusações. Especialmente, acusações que

pudessem comprometer o Nazareno diante da autoridade romana. Com uma

inteligência muito mais sutil que a de todo o resto dos ali congregados, o veterano

ex-sumo sacerdote deu-lhes a entender que as alegações já apresentadas

poderiam não satisfazer Pôncio Pilatos.

Mas os sacerdotes, tendo Caifás à frente, opuseram-se categoricamente. E

durante um bom tempo os chefes do Templo, escribas e fariseus discutiram, uns

cortando a palavra dos outros. Daquela áspera polêmica, deduzi que os archiereis –

como Caifás já o havia demonstrado – não desejavam que o processo se

prolongasse, por duas razões básicas:

Primeira: porque era dia da “preparação” da Páscoa e, pela Lei, todos os

trabalhos deveriam ser concluídos antes do meio-dia.

Segunda: porque o temor geral apontava para a possibilidade de que o

governador deixasse Jerusalém e regressasse à sua base, Cesareia.

Esta segunda razão pesou mais do que a primeira. Se Pôncio deixasse a Cidade

Santa, as manobras do Sinédrio teriam sido estéreis.

Anás não pôde controlar a situação e os juízes, imitando o sumo sacerdote,

levantaram-se e abandonaram a sala. Mas antes, um após outro, passaram diante

do Mestre e lhe cuspiram no rosto. Se não estou enganado, foram trinta

cusparadas. Ou melhor: escarros e cusparadas, em partes iguais.

Quando o Mestre passou do nosso lado, a caminho da sala onde iria ter lugar

uma das mais selvagens e deprimentes afrontas daquele dia, o discípulo virou o

rosto para o outro lado, impressionado com os repugnantes escarros que quase

ocultavam as faces e a barba do dócil Jesus. João foi tomado de fortes ânsias e

acabou por vomitar em um canto da sala.

Dessa forma, em meio a grande confusão, foi encerrada a primeira parte

daquele “julgamento”. Eram seis e meia da manhã...

Aquela interrupção do julgamento de Jesus de Nazaré pelos judeus iria ser, na

realidade, uma nova e grotesca caricatura do que deveria ser um julgamento

objetivo. As normas hebreias – como irei esmiuçando durante esses dois

comparecimentos do rabi da Galileia diante do irregular Conselho do Sinédrio –

eram muito rigorosas em tudo que se relacionasse a processos “de sangue”. Em

sua ordem Quarta (Capítulo V), a Misná israelita estabelece com grande rigor e

meticulosidade que, “se o réu for declarado inocente, será liberado. Caso contrário,

os juízes marcam a sentença para o dia seguinte...”.

Pois bem, essa importantíssima prescrição jurídica não só não foi levada em

consideração por aqueles trinta juízes seguidores do sumo sacerdote como foi

vilmente manipulada.

De comum acordo, Caifás e seus adeptos se retiraram da sala do tribunal,

reduzindo as obrigatórias 24 horas de reflexão e jejum, que deveriam preceder o

pronunciamento definitivo da sentença, a trinta parcos minutos. Meia hora em que

se atingiu, na minha opinião, uma das mais altas cotas de selvageria a que poderia chegar um grupo humano...

É possível que os evangelistas não nos tenham dito praticamente nada do que

padeceu o Mestre naqueles momentos e naquele lugar por desconhecimento ou por

respeito. Pessoalmente, inclino-me pelo primeiro motivo: falta de informação.

Como explicarei em seguida, João não pôde presenciar os terríveis fatos ocorridos

naquela meia hora. Os escritores sagrados fazem algumas alusões – sempre muito

superficiais, como quem não quer entrar em detalhes – sobre uma bofetada,

algumas cusparadas e golpes desferidos pelos servos do Sinédrio...

Creio, honestamente, que os evangelistas – talvez no afã de não mortificar

seus leitores com os padecimentos de Cristo – prestaram um fraco serviço à

verdade, não expondo com maior minúcia esse amargo transe do Nazareno. Ao se

conhecer com exatidão o acontecido naquela manhã em uma das câmaras do

Sinédrio, pode-se intuir que aquele foi, talvez, o momento mais amargo e

humilhante de toda a Paixão. Muito mais, certamente, que a flagelação ou a

terrorífica cena do encravamento... Entendo que, para qualquer pessoa normal – e

muito mais, logicamente, se esse homem “é” a própria Divindade –, os ultrajes e

ataques à dignidade são piores do que os golpes ou torturas propriamente ditos.

Foi o que aconteceu a Jesus enquanto os juízes deliberavam no jardim central do

edifício.

Sem hesitar um único instante, fui atrás do soldado que custodiava Jesus,

enquanto João, muito afetado por aquela repulsiva desonra a seu Mestre, saía da

sala para respirar ar puro e se recuperar física e emocionalmente.

Mas poucos minutos depois, eu o vi entrar na sala para onde os levitas haviam

levado Jesus. Estávamos em um cubículo de pequenas dimensões, totalmente

vazio, desprovido de móveis e sem nenhuma ventilação. Dois domésticos do

Sinédrio sustentavam tochas, que juntamente com três pequenas candeias de

azeite penduradas nas paredes de ladrilho iluminavam o aposento com uma luz

mortiça e fantasmagórica.

O Nazareno foi colocado no centro do úmido e malcheiroso cômodo, enquanto

os policiais e criados do Templo – uns doze, mais ou menos – tomavam posição,

recostando-se nas paredes ou sentando-se no chão duro.

Minha primeira impressão, ao observar o silêncio e a total indiferença daqueles

indivíduos, foi relativamente tranquilizadora. Era claro que os sicários de Caifás

haviam recebido ordens de custodiar o réu e esperar o reinício do julgamento. Mas,

decorridos não mais do que dois minutos, um dos levitas que haviam acompanhado

a reunião do Conselho assomou à porta, fazendo sinais para um dos que

carregavam tocha. Depois de um breve cochicho, o recém-chegado desapareceu e

o da tocha se aproximou dos demais e lhes transmitiu a ordem que, sem dúvida,

aquele policial acabava de trazer.

Os criados e levitas formaram um círculo, dialogando em voz baixa e dirigindo

constantes olhares ao preso. Tramavam algo...

Nesse momento crítico, Jesus voltou a levantar o rosto, buscando o que olhar.

Por fim, fixou-se em João, que continuava muito perto da porta. Sem nada dizer,

fez-lhe um gesto com a cabeça, ordenando-lhe que saísse da sala. Aquele sinal foi

taxativo. Mas o discípulo hesitou, respondendo-lhe com uma negativa O Mestre,

pela segunda e última vez, inclinou a cabeça para a direita, indicando-lhe a porta.

Nos olhos do Nazareno havia uma força e uma segurança tais que, afinal, João

acabou por obedecer, abandonando o lugar.

O soldado, testemunha como eu dessa silenciosa ordem do réu, interrogou-me

com o olhar. Só pude mover os ombros, para indicar que não entendia o que se

passara. Naquele momento eu não atinava mesmo com a razão pela qual o

Nazareno obrigara seu inesperável amigo a nos abandonar. Lamentavelmente, não

tardaria a saber...

João ausente, o Mestre limitou-se a me observar durante alguns segundos.

Naqueles olhos semicerrados por causa das cusparadas já ressecadas, percebi uma

mistura de infinita tristeza e resignação. Depois, o gigante baixou novamente a

cabeça e se abstraiu em seus pensamentos.

Aquela tensa calma não tardou a explodir. O grupo de assassinos mercenários

foi circulando em torno do Mestre. Os das tochas se colocaram cada qual de um

lado de Jesus e, sem aviso prévio, o criado que havia recebido a misteriosa ordem

se desfez de seu manto e o jogou em um canto da sala A seguir, colocando-se a

quatro dedos do peito do rabi, levantou seus olhos e começou a interrogá-lo:

– Diz, “príncipe de Belzebu”... como se chamam teus cúmplices?

Jesus nem sequer levantou o rosto.

Nesse momento comecei a pensar em que consistia aquela ordem que os

policiais e os servidores de Sinédrio acabavam de receber. Pelo que me lembre,

Anás havia feito a mesma pergunta.

Era mais que provável que o Conselho dos saduceus, escribas e fariseus, que

estavam em recesso, tivesse decretado que os guardiões do Mestre aproveitassem

aqueles minutos para interrogar e induzir o impostor a responder.

– Conhecemos Judas – tornou o lacaio, com um sorriso que me fez temer pelo

pior –, e também Simão, o Zelote, e esse João Zebedeu... Mas quem são os

demais? Responde!

O Mestre não pestanejou. Seu rosto, fixo nas lajes cinzentas do piso, estava

ausente.

– ... Assim te negas a responder...

O criado deu-lhe as costas e avançou um curto passo, mas instantaneamente

se voltou e o esbofeteou com a mão esquerda. O golpe foi tão duro quanto

inesperado. E o corpo todo de Jesus cambaleou.

Os restos de escarros aderidos à face direita do Mestre ficaram na palma da

mão do esbirro, que, com uma careta de repugnância, sacudiu seus dedos mais de

uma vez para se livrar daquela imundície. E acabou por limpar a mão no manto do

Nazareno.

Quando o soldado ao meu lado tentou interromper aquele súbito e selvagem ataque, um dos guardiães do Templo tomou-o pelos ombros e, afastando-o do rabi,

entregou-lhe uma pequena bolsa de couro, sussurrando-lhe que não interviesse e

repartisse aquelas moedas comigo. O suborno tornou mudo e surdo o mercenário,

que, a partir daquele momento, não saiu mais de um dos cantos da sala. Sua

satisfação cresceu quando me neguei a aceitar a minha parte.

Apesar do ressentimento que havia começado a queimar minhas entranhas,

não pude fazer outra coisa senão observar e procurar não alterar os

acontecimentos, como estabelecia o código do Cavalo de Troia.

E desde aquele instante uma chuva de socos e bofetadas começou a cair sobre

o corpo do Mestre.

De vez em quando, entre um golpe e outro, alguns dos levitas voltavam a

interrogá-lo:

– Responde...! Quantos sois? Como se chamam teus seguidores...? Quem

tomou o comando?

Jesus, com os lábios rasgados pelos impactos, não cedia. Alguns dos socos

haviam explodido contra seus olhos, provocando uma lenta, mas alarmante

inflamação.

No meio daquela iniquidade, fiquei maravilhado uma vez mais diante da

serenidade e fortaleza física daquele galileu. Muitos golpes, lançados com frieza

sobre pontos tão delicados e vulneráveis, como olhos, lábios, rins e estômago,

teriam prostrado um homem normal. No entanto, o Nazareno – ainda que chegasse

a cambalear em várias ocasiões – não deixou escapar um único gemido e

conservou sempre o equilíbrio.

O hermético silêncio do réu foi avivando o furor dos levitas e o castigo se

intensificou.

Suarentos, ofegantes, arrastados ao paroxismo e não satisfeitos com a tortura

que estavam infligindo ao Mestre, aqueles energúmenos foram em busca de um

cântaro de água, e com ele o submeteram a um dos suplícios mais angustiosos que

o homem já inventou.

Um dos sicários colocou-se às costas de Jesus e puxou-lhe violentamente os

cabelos. Automaticamente, o corpo robusto se dobrou para trás. O segundo homem

abriu-lhe os lábios, enquanto o terceiro, que carregava o cântaro, começou a

despejar água na boca do Nazareno. O líquido ia penetrando em borbotões durante

vários e intermináveis segundos, até que, finalmente, o rabi se viu atacado por um

seco e intenso acesso de tosse que pôs fim à tortura. Sem saber, aquelas bestas

humanas haviam aliviado – mas de que forma! – o sofrido organismo do

prisioneiro. (A partir do estresse registrado no horto de Getsêmani, o Mestre havia

começado a experimentar um perigoso processo de desidratação que seria

sensivelmente agravado depois dos açoites.)

O criado que carregava o recipiente de barro afastou-se para um lado e,

enquanto o levita continuava puxando os cabelos do réu, outro esbirro levantou a

perna esquerda e lançou um pontapé contra o baixo ventre do indefeso prisioneiro.

Foi uma das poucas vezes em que ouvi um gemido da boca de Jesus. A dor

deve ter sido tão lancinante que, apesar de estar dobrado para trás, o tronco e a

cabeça do Galileu se endireitaram num reflexo, ao mesmo tempo que ele

desabava, caindo com o rosto no chão.

– Estúpidos! – interveio o soldado, indo em socorro do corpo imóvel do preso. –

Será que pretendeis acabar com ele?

O policial que havia estado segurando Jesus pelos cabelos soltou uma mecha

que havia ficado entre seus dedos e, tomando o cântaro das mãos de seu

companheiro, atirou parte do conteúdo sobre a nuca do Nazareno.

Por que Jesus havia caído de bruços, não consegui perceber se ele, como eu

temia, havia perdido a consciência. Mas como continuava com os pulsos atados às

costas, os próprios criados e levitas, ajudados pelo sentinela romano, tiveram de

levantá-lo. E, quando por fim consegui ver seu rosto, um calafrio me percorreu o

corpo: Jesus empalidecera ao extremo e um dos supercílios, o esquerdo, estava

aberto, possivelmente devido ao choque com o chão. O nariz, ainda que com

alguns hematomas, não parecia gravemente lesado pela queda. Isso me fez pensar

que o Mestre ainda estava consciente no instante do choque com o solo, tendo,

talvez, “amortecido” o violento impacto com um giro da cabeça. O sangue, todavia,

havia começado a fluir em abundância, logo cobrindo a face esquerda.

Instintivamente, o Nazareno começou a respirar fundo e, pouco a pouco, foi se

recuperando, ainda que seu rosto não guardasse semelhança alguma com aquele

semblante majestoso e sereno que apresentava ao entrar na sede do Sinédrio.

O sangue começava agora a gotejar de sua barba, manchando o manto e parte

da túnica.

Os sequazes de Caífás, um pouco mais calmos, isolaram-se em um dos cantos

da sala e iniciaram outra troca de impressões. Então, aquele que se havia

desvencilhado do manto, recolheu-o do chão para lançá-lo à cabeça do rabi,

cobrindo-o. Feito isso, outro dos levitas se aproximou de Jesus, gritando-lhe entre

fortes gargalhadas:

– Profetiza, libertador...! Dize-nos: quem te pegou?

E, brandindo um bastão de uns quatro centímetros de diâmetro com a mão

esquerda, descarregou um golpe seco e aterrador no rosto do silencioso Mestre.

Este retrocedeu alguns passos, em consequência do golpe, mas, antes que pudesse

perder totalmente o equilíbrio, outro dos criados o abraçou e o sustentou em pé.

As gargalhadas provocaram um rápido contágio e, um após outro, toda aquela

multidão foi participando do desapiedado jogo.158

As bofetadas e bastonadas se sucederam por dez minutos. E a cada golpe o

agressor entoava a mesma pergunta cínica:

– Profetiza...! Quem te pegou?...! Profetiza, bastardo...!159

Ali pelas sete da manhã, quando o Nazareno, encurvado e apoiado a uma das

paredes, parecia a ponto de desfalecer, entraram na sala vários levitas que

mandaram retomar o réu para enfrentar o Conselho.

Quando aqueles selvagens retiraram o manto da cabeça do Mestre, o sangue

gelou-me nas veias. Se eu não soubesse que era Jesus que ali estava, creio que

não teria sido capaz de reconhecê-lo. A bastonada – a primeira, suponho –, não

obstante o manto ter “amortecido” o golpe, havia atingido o pômulo direito e parte

do nariz, provocando edema em ambas as zonas. Esse e os demais golpes, socos e

bofetadas haviam provocado uma copiosa hemorragia nasal. O sangue emanava de

ambas as fossas e corria sobre os lábios, empapando bigode e barba.

Os hematomas dos olhos eram tão acentuados que o rabi quase não podia abri-

los.

Aquele rosto ferido, inflamado, com a face esquerda ensanguentada, deixou

sem fala alguns dos criados e sicários do Sinédrio. Evidentemente, o castigo havia

sido brutal. E, para minha surpresa, vários levitas, nervosos, começaram a discutir

sobre a conveniência de lavar e tornar mais decente a face do Mestre. Não por

misericórdia, certamente, mas por temor a possíveis represálias ou recriminações

dos juízes e talvez dos seguidores de Jesus. E, por fim, um dos criados embebeu na

água que restava no cântaro uma extremidade do manto com que o haviam

coberto.

Num impulso que nunca consegui explicar a mim mesmo, adiantei-me até o

policial, identificando-me como médico, e pedi-lhe que me permitisse lavar o rosto

do Galileu para verificar – eu disse – possíveis fraturas.

Os policiais concordaram aliviados, mas sugeriram que eu fosse rápido, porque

o Conselho aguardava.

Obviamente, dentro dos planos da Operação Cavalo de Troia não se

contemplava a possibilidade de que eu limpasse os ferimentos que o Mestre

pudesse ter sofrido. Como já expliquei, isso era rigorosamente proibido. Todavia –

e já que os levitas se dispunham a limpar a massacrada face do prisioneiro –,

considerei que aquela era uma ocasião ímpar de comprovar de perto – e

pessoalmente – os danos exteriores e visíveis mais graves. Apesar dessa

justificação, também houve “algo” interno que me impeliu a tomar aquela

decisão...

Tomei, pois, o tosco manto e, com toda a delicadeza, comecei a limpar os

grumos de sangue que haviam aderido ao pômulo e à face esquerda. As

hemorragias, tanto a produzida pela ruptura do supercílio esquerdo como a nasal,

eram ostensivas, ainda que eu tivesse tido a impressão de que a perda de sangue

não havia sido substancial. A julgar pelos filetes e crostas de sangue acumulados

na barba, manto e túnica, não creio que fosse superior a 200 ou 300 centímetros

cúbicos.

Pude também deduzir que a capacidade de coagulação do sangue de Cristo era

normal. Tanto a brecha do supercílio como os cortes dos lábios e a hemorragia

nasal haviam coagulado rapidamente.

Quando aquela metade do rosto ficou razoavelmente limpa, eu me desfiz do

manto e, antes que os criados de Caifás pudessem agir, introduzi meus dedos no rasgão que a adaga do assaltante na noite da última quinta-feira havia feito em

minha túnica e, com dois fortes puxões, consegui um pequeno pedaço dela.

Introduzi o retalho na boca do cântaro e o umedeci quanto pude. Em seguida,

passei o suave tecido sobre o nariz deformado, lábios, supercílios e pálpebras.160

Ao tocar o edema do pômulo direito, deduzi que a bastonada havia

comprometido uma ampla área do osso malar, alcançando parte do olho direito. Se

aquele hematoma continuasse a se desenvolver, o mais provável era que o Mestre

acabasse tendo sérias dificuldades para manter o olho aberto.

Quanto ao nariz, sem uma radiografia não dava para saber se aquele impacto

havia fraturado os ossinhos “próprios” ou nasais. Esses dois ossos, como sabem os

médicos, são frágeis, podendo ser afundados com um soco.

Em minha opinião, os treze ossos do rosto do Mestre pareciam intactos. Insisto,

contudo, em minhas sérias dúvidas sobre o par de nasais. Pela violência do golpe,

era possível que eles tivessem sido lesados. (Acho que a famosa profecia de que

“nenhum dos ossos do Messias seria fraturado” pode muito bem referir-se aos

ossos “longos”.)

Houve um detalhe que, com a devida reserva, levou-me a crer desde o primeiro

momento que os ossinhos nasais podiam estar machucados. Ao longo da segunda

limpeza, quando toquei amassa muscular inflamada do nariz (o “piramidal” e o

“transverso”, especialmente) e apalpei a área da cartilagem nasal, o rabi recuou

levemente. Apesar da extrema suavidade do meu toque, o simples roçar do tecido

naquele ponto do nariz multiplicou sua sensibilidade.

Nesse momento, o gigante – que continuava em silêncio – entreabriu como

pôde os olhos e os fixou em mim. Tentei sorrir e creio que o consegui. Era tudo o

que podia lhe dar. Jesus captou minha pobre, mas sincera demonstração de

amizade e seus lábios estremeceram. E, de repente, para meu desconsolo, uma

lágrima rolou de seu olho esquerdo, aumentando minha sensação de impotência...

O sicário que havia advertido os carrascos voltou a assomar à porta e com um

gesto de impaciência abriu passagem até o réu. Puxando-o por um dos braços,

empurrou-o para a saída.

O Mestre, com passo vacilante, entrou de novo na sala do Sinédrio. A noite sem

dormir, a dor e o cansaço após aquela pancadaria haviam começando a minar seu

organismo.

 

Fui o último a abandonar aquele trágico lugar. Deliberadamente, esperei que

houvesse saído o último dos levitas para me agachar e recolher a mecha de

cabelos que um dos policiais havia arrancado involuntariamente da cabeça de

Jesus. Ocultei-a em minha bolsa, junto com o retalho ensanguentado da túnica, e

voltei depressa para a reunião do Sinédrio.

Os juizes haviam ocupado os mesmos postos e o Nazareno, escoltado pelo

soldado e dois criados, tentava manter-se de pé diante do semicírculo. Seu

aspecto, apesar da sumária lavagem de seu rosto, era tão lamentável que aqueles

trinta judeus não puderam esconder a surpresa. Durante alguns minutos trocaram olhares sarcásticos, imaginando o suplício a que havia sido submetido o impostor e

regozijando-se, suponho, pela súbita alteração daquele majestoso e sereno rosto.

João, que havia voltado a se juntar a mim, não conseguia pronunciar palavra

alguma. Com os olhos espantados e fixos no semblante do Mestre, não acreditava

naquilo que, desgraçadamente, era apenas o princípio do fim...

Quando os escribas judiciais se sentaram em seus postos, Anás tomou a

palavra e, apontando um pergaminho que seu genro tinha nas mãos, insistiu na

ideia que já havia exposto na primeira parte da reunião. Para ele, a acusação de

blasfêmia carecia de força, ao menos perante o governador romano. E insistiu na

necessidade de redigir uma série de acusações que comprometessem o rabi com a

justiça que Pilatos representava.

Ao ouvir o sogro de Caifás, imaginei que aquele rolo a que havia feito alusão

devia conter a sentença definitiva contra Jesus. E, sem poder reprimir a

curiosidade, perguntei a João qual havia sido a deliberação dos juizes.

O cada vez mais deprimido discípulo sequer me escutou. Tive de tocá-lo

ligeiramente para que ele entendesse minha pergunta. E com os olhos umedecidos,

explicou-me que, durante a improvisada reunião dos saduceus e fariseus no pátio

central do edifício, “aqueles indignos sacerdotes só haviam chegado a um acordo:

executar Jesus”.

Apesar de ter permanecido muito próximo dos juizes, João não chegou a

conhecer o texto da sentença, redigida pelo próprio Caifás depois de muitos

debates.

Por um momento, julguei que o sumo sacerdote leria a acusação, ou

acusações. Mas não foi assim. Depois de muitos rodeios e divagações por parte de

toda a assembleia, três fariseus se levantaram e renunciaram a continuar

participando do “processo”. Ainda que estivessem de acordo com a sentença de

morte, seu tradicional senso de “pureza” os aconselhava – segundo manifestaram

publicamente – a não participar daquela flagrante ilegalidade, “a menos que o

Nazareno fosse conduzido para ficar perante Pôncio e se desse conhecimento a ele

do motivo pelo qual fora condenado”.

Caifás não se abalou com aquela deselegância dos chamados “santos”, ou

“separados”, e depois de uma consulta aos demais membros do tribunal,

suspendeu a sessão.

Às sete e meia da manhã, os saduceus, os escribas e uns poucos fariseus que

se haviam mantido fiéis a Caifás, desfilaram pela segunda vez diante da maltratada

figura do Nazareno.

O Mestre não tardou a seguir os passos dos juízes. Fortemente escoltado,

permaneceu alguns minutos no jardim interno do edifício do Sinédrio. Em um dos

cantos, Caifás e seus homens continuaram discutindo acaloradamente. Voltaram a

entrar no semicírculo e, depois de alguns momentos, reapareceram no pátio

central. O volumoso sumo sacerdote levava dois pergaminhos na mão esquerda.

Aquilo me causou estranheza.

Ato contínuo, Caifás se pôs à frente dos levitas e servos, ordenou que

estreitassem o cerco em torno do blasfemo e tomou o caminho do quartel-general

romano. Anás e a maior parte dos juízes se despediram de Caifás e regressaram ao

interior da sala onde se havia desenrolado aquela primeira parte do processo.

Judas Iscariotes, que não havia trocado uma só palavra conosco, juntou-se

também à comitiva.

 

O sumo sacerdote em função, meia dúzia de saduceus e o pelotão que

escoltava o Mestre tomaram as ruas da cidade alta em direção à porta dos Peixes.

Quando a comitiva passava diante dos bazares, as pessoas se levantaram e

saudaram reverentemente o sumo sacerdote. Em minha opinião, nenhuma

daquelas pessoas chegou a reconhecer Jesus. Os hematomas dos olhos, do nariz e

do pômulo direito haviam deformado seu rosto a ponto de torná-lo irreconhecível.

Enquanto marchávamos com toda a pressa para a fortaleza, reparei de novo

nos rolos que Caifás levava. Que poderiam conter? Seria a sentença a ser mostrada

a Pôncio Pilatos?

Em minha mente girava sem parar aquele anúncio do tribunal, prometendo

uma segunda parte do processo. Se minhas informações eram corretas, Jesus não

voltaria a pisar o Sinédrio. Que aconteceria então?

Se bem que, analisados os fatos friamente e diante do recorde de

irregularidades verificado naquele simulacro de julgamento, que se podia esperar

de uma suposta segunda sessão?

Se fosse feita uma análise sumária daquele julgamento, os sinedristas haviam

infringido pelo menos doze das normas básicas que as leis hebreias fixavam para

processos relacionados com a pena capital. Vejamos algumas das mais flagrantes:

1ª Para começar, segundo a Misná (ordem quarta, Sinédrio), os processos

chamados de pena capital deveriam ser abertos com a declaração de inocência do

réu e não de sua culpabilidade.

2ª Os processos de sangue – ou em que se presumisse que poderia estar em

jogo a vida do acusado – deveriam ser realizados de dia e a sentença, se

condenatória, jamais poderia ser pronunciada no mesmo dia. “Por isso – diz a lei

judaica – não se pode realizar um processo de sangue na vigília do sábado de um

dia festivo.”161

Portanto, ao reunir-se no dia 7 de abril, uma sexta-feira, véspera do sábado e

da Páscoa, o “pequeno Sinédrio” cometeu um duplo delito.

3ª Nesses processos capitais, o julgamento deveria ser aberto sempre por um

dos juízes que se sentavam ao lado do mais velho, a fim de que “os juízes de

menor autoridade não fossem influenciados pelos anciãos” (no julgamento do

Mestre foram as falsas testemunhas que iniciaram as formalidades).

4ª E, falando das falsas testemunhas, só a atuação desse grupo já teria

invalidado qualquer outro julgamento similar. A lei judaica era e é muito rigorosa

nesse ponto. Antes de se iniciar o processo, as testemunhas deveriam ser

advertidas severamente: elas eram introduzidas no interior de um recinto – diz a Misná – e se lhes infundia temor, dizendo-lhes que não falassem por mera

suposição, por ouvir dizer, pelo depoimento de outra testemunha ou pela

declaração de um homem (mesmo digno de fé) que tivessem ouvido, nem

pensassem que seu depoimento, no final, não seria examinado e analisado.

“Deveis saber” – dizia-se às testemunhas – “que nos processos de sangue o sangue

do réu e o sangue de toda a sua descendência penderá sobre o falso testemunho

até o fim do mundo...”

Nada disso se viu na sede do Sinédrio. E mais: as subornadas testemunhas

caíram em contínuas e chocantes contradições. A mesma lei estabelecia que os

perjuros deveriam ser flagelados ou até mesmo condenados à morte. É óbvio,

portanto, que aqueles indivíduos só correram tal risco porque sua imunidade teria

sido previamente garantida – e, naturalmente, receberam alguma substancial

quantia em dinheiro.

5ª “Se o réu fosse declarado culpado – continua prescrevendo a lei mosaica –,

a sentença deveria ser marcada para o dia seguinte.” Como já mencionei, nada

disso foi respeitado. Para cúmulo, o tribunal suspendeu a sessão por meia hora,

mas voltou à sala de imediato. “Entrementes – prossegue a lei – os juízes se

reúnem de dois em dois, comem muito frugalmente, abstêm-se de vinho durante

todo o dia, passam discutindo e deliberando toda a noite e, pela manhã, levantam-

se cedo e vão ao tribunal.”

6ª Se depois de tudo isso continuassem considerando o prisioneiro merecedor

da pena capital, a sentença definitiva deveria ser definida mediante votação. “Se

doze o declaravam inocente e doze o consideravam culpado, era declarado

inocente. Se doze o consideravam culpado e onze inocente ou, ainda, se onze o

declaravam inocente e outros onze culpado e um dizia ‘não sei’, se deveria reunir

mais juízes.”

Quantos deveriam ser convocados?

“Sempre de dois em dois, até alcançar os 71.”

No processo presidido por Anás e Caifás, não houve nenhuma votação.

7ª A lei hebreia proibia que uma mesma pessoa fosse juiz e acusador. Caifás

acumulou ambas as funções.

8ª Tampouco foi anunciada a sentença, como prescrevia a lei: “... Escreve-se (a

sentença) e se enviam mensageiros a todos os lugares, dizendo que fulano de tal

foi condenado à morte pelo tribunal”.

Essa foi uma das razões pelas quais os três fariseus que tomavam parte do

Conselho decidiram retirar-se. E – para cúmulo da suprema irregularidade jurídica –

nem sequer o próprio réu conheceu o texto definitivo da sentença de morte. (Como

veremos mais adiante, Jesus de Nazaré morreu sem conhecer “oficialmente” sua

culpa...)

9ª A própria resposta dada pelo Mestre a Caifás, quando este o instou a

declarar que era o Messias, não foi uma blasfêmia tal como a lei a conceituava.

Segundo a Misná, “o blasfemo não é culpado se não menciona expressamente o Nome”. Na resposta de Jesus, como se pode lembrar, ele não citava o “Nome”, isto

é, Jeová, Deus ou Divino. Jesus disse: “Sou... E logo irei para junto do Pai. Em

breve, o Filho do Homem será revestido de poder e reinará de novo sobre os

exércitos celestes”. Onde, nessas palavras, aparece o “Nome” explícito de Deus?

10ª E, no caso de que isso tivesse ocorrido, a lei especificava que, uma vez

concluído o julgamento, não se sentenciasse à morte o réu usando rodeios, mas

que se pusesse todo o público para fora da sala do julgamento e se perguntasse à

testemunha de mais dignidade: “Diz: que foi que ouviste de modo explícito?” A

testemunha o dizia. Então os juizes ficavam de pé e rasgavam suas próprias

vestes, que não podiam ser costuradas. A segunda testemunha dizia: “Eu também

ouvi como ele”. E a terceira afirmava: “Eu também (ouvi), como ele”.

No julgamento de Jesus ocorreu algo assim? Nem sequer Caifás chegou a

rasgar suas vestes de verdade...

11ª Se o Tribunal considerou que Jesus era um falso profeta – como de fato

ocorreu –, a lei não autorizava tampouco o seu julgamento, a não ser pelo “grande

Sinédrio”, formado sempre por 71 juízes. E aquele, como eu já disse, constava,

oficialmente, de 23.

12ª Por último – ainda que, repito, o rosário de falhas e irregularidades nesse

processo pudesse ser mais extenso –, os juizes não respeitaram também as

normas legais que marcavam as segundas e as quintas-feiras como as datas

oficiais para as diferentes comissões e assembleias dos tribunais de justiça (assim

prescreve a Misná, em sua ordem terceira, capítulo 1).

Enquanto durou meu treinamento para essa missão, tive a oportunidade de

pesquisar numerosas fontes e observei que até hoje, entre os exegetas, demais

autores e estudiosos dessa parte da Bíblia, não existe acordo sobre quais teriam

sido os responsáveis pelo julgamento e pela posterior condenação à morte do

Nazareno. Para muitos (predominantemente autores judeus), o Sinédrio daquela

época gozava da prerrogativa da pena capital. “E se Jesus – dizem – foi executado

ao estilo romano, é porque não havia conflito entre eles.”162

Para outros, o Conselho Supremo da comunidade israelita – o Sinédrio – podia

julgar, mas nunca aplicar e executar a pena máxima. Dentro desse pressuposto, as

castas sacerdotais não tiveram outra alternativa senão comparecer diante de

Pilatos para que ele confirmasse a sentença.163

Nunca consegui compreender o porquê dessa diferença de critérios, ao menos

entre os exegetas e escritores católicos. A maioria concorda com o misterioso e

dificilmente comprovável episódio da ressurreição de Jesus (do ponto de vista

histórico-científico), contudo gastam-se rios de tinta a favor e contra a jurisdição

penal do Sinédrio. Se se aprofundassem de verdade no assunto – para além das

numerosas referências históricas sobre o poder de Roma e de seus governadores –,

veriam que, considerando o ódio que Caifás e seus correligionários sentiam por

Jesus, seria fácil ditar a pena capital e executá-la sem mais. O fato inquestionável

da visita à fortaleza Antônia e a submissão ao julgamento de Pilatos mostram visivelmente que Roma é que tinha a última palavra. No caso da morte de Estêvão

(ano 36 da nossa Era) e de Tiago, um dos irmãos de Jesus de Nazaré (ano 62 d.C.),

muitos defensores da “culpabilidade romana” na execução do Mestre da Galileia

têm pretendido ver duas provas decisivas da capacidade legal do Sinédrio para

emitir e executar sentenças capitais. Entendo, no entanto, que ambas as

lapidações, de fato executadas pelo Sinédrio, ocorreram em períodos nos quais a

província romana da Judeia encontrava-se temporariamente sem governador. No

ano 36, Vitélio enviou Pilatos a Roma para prestar contas ao imperador Tibério; e

em 62, segundo narra Flávio Josefo (Antiguidades, XX, 197 e seguintes), o

governador romano Festo acabava de morrer e seu sucessor, Albino, não havia

ainda chegado à Judeia.

Existe, além disso, outro contrassenso. Se o Sinédrio gozasse verdadeiramente

dessa capacidade legal de aplicar e executar a pena de morte, por que Jesus não

foi justiçado ao “estilo judaico”?

A lei judaica, uma vez mais, era extremamente cuidadosa nesse aspecto. Na

ordem Quarta (capítulo VII), a Misná diz textualmente: “O Tribunal podia infligir

quatro tipos de penas de morte: a lapidação, o abrasamento, a decapitação e o

estrangulamento”.

Geralmente, a lapidação, ou apedrejamento, era a pena mais dura. Era

aplicada – e continuo citando a lei hebraica –: “ao que tem relação sexual com sua

mãe ou com a mulher de seu pai ou com a nora ou com um varão ou com uma

besta; à mulher que atrai para si uma besta (para copular com ela); ao blasfemo;

ao idólatra; ao que oferece seus filhos a Moloc (um ídolo); ao necromante; ao

adivinho; ao profanador do sábado; ao que amaldiçoa o pai ou a mãe; ao que

copula com uma jovem prometida; ao que induz um particular à idolatria; ao

sedutor que leva toda uma cidade à idolatria; ao feiticeiro; ao filho obstinado e

rebelde”.

Quanto ao “abrasamento” – que tive a oportunidade de presenciar em minha

segunda “grande viagem” –, a lei estabelecia que eram passíveis de semelhante

execução “aquele que tinha relação sexual com uma mulher e sua filha; e também

a filha do sacerdote que havia fornicado (depois de ter contraído matrimônio)”.

Morriam decapitados “o homicida e os habitantes de uma cidade apóstata”.

Por último, a pena de estrangulamento recaía nos seguintes: “No que fere seu

pai ou sua mãe; no que rapta uma pessoa em Israel; no ancião que se rebela

contra a sentença do tribunal; no falso profeta; no que profetiza em nome de um

ídolo; no que tem relação sexual com a mulher de outro; no que levanta falso

testemunho contra a filha de um sacerdote ou se deita com ela”.

Admitindo, pois, que o Sinédrio tivesse tido poder para executar Jesus e se as

imputações mais importantes eram as de “blasfemo”, “falso profeta”, “mago” e

“profanador do sábado”, o mais lógico seria que os hebreus o tivessem lapidado ou

estrangulado. Por que pediram então sua morte por crucificação?

Continuar: parte 4 de 11