Cavalo de Tróia 1: Jerusalém
7 de abril, sexta-feira
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
Em minha opinião, isso só pode obedecer a uma dupla razão: primeira, o tribunal sabia que o governador era quem deveria decidir; segunda, naquele
simulacro de julgamento, a maioria dos juízes era de saduceus, ou seja, o ramo
“duro” das castas sacerdotais. Caifás era um deles e soube conquistar um pequeno
grupo, que foi aquele que assistiu à sessão matutina do “pequeno Sinédrio”. Como
já citei, os saduceus – qualificados nos Atos dos Apóstolos (5,17) como “o círculo
do sumo sacerdote Caifás”, estavam em aberta oposição aos fariseus, desfrutando
de uma “teologia” e de um “código penal” próprios. Se o tribunal houvesse sido
constituído por uma maioria de fariseus, possivelmente as coisas teriam sido
diferentes e Jesus teria terminado a vida apedrejado ou estrangulado. Mas a morte
pela crucificação era muito mais vil e humilhante que as ditadas pela lei mosaica, e
é quase certo que a maioria saduceia se inclinasse por ela, esmerando-se ao
máximo em seu ódio contra o impostor.
No entanto, a dúvida continuava flutuando em meu cérebro. Por que os
inquisidores sinedristas haviam exigido – e voltariam a exigir diante de Pilatos – a
pena de crucificação?
Só depois de conhecer as acusações que figuravam em um dos pergaminhos
que Caifás carregava é que pude resolver essa incógnita.
Antes, um fato totalmente imprevisto me obrigaria a alterar os planos do
Cavalo de Troia...
Faltavam poucos minutos para as oito da manhã quando a pequena comitiva
deixou para trás o bairro alto de Jerusalém. A Operação Cavalo de Troia havia
suposto, desde o princípio, que o encontro dos sinedristas com o governador
romano se daria precisamente no túnel da fachada oeste da torre Antônia (a
mesma pela qual eu tinha tido acesso à fortaleza na companhia de José de
Arimateia). Mas não foi assim. Caifás e os saduceus passaram pelo muro de
proteção situado diante do fosso e, sem hesitar, dobraram a esquina noroeste, em
direção a outra porta de entrada do quartel-general de Pôncio na Cidade Santa. Eu
havia combinado com Pilatos e seu primeiro centurião, Civílis, que meu ingresso na
fortaleza seria pelo posto de guarda já mencionado. E durante alguns segundos,
enquanto meu cérebro arquitetava uma solução, deixei-me arrastar, quase por
inércia, pelo pelotão. Ao dobrar aquela esquina da Antônia, a súbita presença do
ancião José de Arimateia e um jovem hebreu me fez esquecer momentaneamente
minhas dúvidas. José, lógico, estava a par dos passos de Jesus e do sumo
sacerdote. Ainda que eu não o tivesse visto no julgamento, deduzi que seus
“contatos” o mantinham pontualmente informado. O fato de estar ali era uma
prova disso.
Caifás deve ter visto José. Passou praticamente ao seu lado, mas sequer o
saudou. O ancião, ao ver o Mestre, assustou-se. Ainda que possivelmente também
tivesse sido informado das torturas a que o haviam submetido, ao comprovar o fato
por si mesmo, empalideceu. Sem levantar suspeitas, fui ficando para trás até
juntar-me a ele e ao companheiro. E assim seguimos o pelotão.
José de Arimateia – que parecia ter perdido as esperanças que me havia tentado transmitir no pátio do palacete de Anás –, ao perceber minha desconfiança
pela presença daquele jovem desconhecido, disse-me que eu poderia falar
abertamente, pois seu acompanhante era um dos “correios” de Davi Zebedeu e
estava ali, segundo me explicou, para transmitir as últimas notícias ao corpo de
emissários que havia sido centralizado por Davi no acampamento de Getsêmani.
Desse modo, conforme nos aproximávamos da porta norte da torre Antônia,
José e o emissário relataram-me o que havia ocorrido com os demais discípulos,
dos quais eu não tinha notícia alguma desde a prisão do Nazareno.
A maior parte dos gregos e discípulos que haviam assistido à prisão do Mestre
na encosta do monte das Oliveiras acabara regressando ao horto de Simão, “o
leproso”, acordando os oito apóstolos e demais seguidores que permaneciam
alheios ao que estava ocorrendo.
Minutos mais tarde, era o jovenzinho João Marcos quem corria até o cume do
monte, para pôr de sobreaviso Davi Zebedeu, que continuava montando guarda e
nada sabia dos últimos acontecimentos.
Depois dos primeiros momentos de uma natural confusão, o grupo se
concentrou em torno do moinho de pedra situado à entrada do horto, iniciando-se
uma viva polêmica. André, como chefe dos apóstolos, estava tão confuso que não
conseguiu pronunciar palavra alguma. E foi Simão, o Zelote, quem terminou por
alçar-se ao muro do moinho para discursar a seus companheiros e incitá-los a
tomar suas armas e lançar-se em perseguição dos guardas, libertando Jesus.
Segundo o “correio”, testemunha ocular daqueles acontecimentos, quase todos
os presentes no horto (ao redor de meia centena) responderam com veemência à
incitação do “revolucionário” Simão, membro ativo, como já me referi em outra
passagem, do grupo clandestino e terrorista dos zelotes.
E é muito possível que tivessem se lançado morro abaixo em busca do Mestre
não fosse a oportuníssima mediação de Bartolomeu. Terminada a conclamação de
Simão, o Zelote, Bartolomeu pediu calma e recordou a seus amigos os contínuos
ensinamentos de Jesus sobre a não violência. O apóstolo, mostrando grande
prudência, refrescou a memória dos exaltados discípulos, falando-lhes das palavras
que o rabi havia pronunciado naquela mesma noite, por meio das quais ordenara
que protegessem e conservassem suas vidas, à espera do momento crucial da
dispersão e da propagação do reino dos céus.
A tese de Bartolomeu foi vivamente aplaudida por Tiago, o irmão de João
Zebedeu, que explicou também a seus companheiros como Pedro, alguns gregos e
ele mesmo haviam desembainhado suas espadas no momento da captura de Jesus,
e como o Mestre os havia feito guardar suas armas.
Os ânimos, parece, foram apaziguados. Depois intervieram também Felipe e
Mateus e, por último, Tomé, que insistiu, com seu característico senso prático, na
necessidade de “não se exporem a perigos mortais”, tal como Jesus havia sugerido
a seu amigo Lázaro. Os argumentos de Tomé, pedindo aos companheiros que se
dispersassem à espera de novos acontecimentos, haviam conseguido dobrar a ânsia de luta dos seguidores de Cristo. Os discípulos, então, desapareceram
definitivamente.
Por volta das duas e meia ou quinze para as três dessa madrugada, o horto
ficou deserto. Só Davi Zebedeu e um pequeno grupo de mensageiros continuaram
no acampamento, preparando-se para uma missão que, como já disse, seria vital.
O intrépido discípulo soube organizar-se de tal forma que, através de João
Zebedeu, de José de Arimateia e de outros “agentes”, pôde dispor de uma notável
e precisa informação sobre o transcorrer dos acontecimentos. A cada hora,
aproximadamente, um dos velozes mensageiros se entrevistava com esses
seguidores de Jesus, transmitindo as notícias ao improvisado “quartel-general de
Getsêmani. Dali, por sua vez, Davi enviava outros “correios” aos pontos onde os
apóstolos haviam combinado de se esconder: cinco deles (Bartolomeu, Felipe, os
gêmeos e Tomé), nas aldeias de Betfagé e Betânia; e os quatro restantes (Simão,
o Zelote, Tiago, Tomás e André), em Jerusalém.
Quando perguntei por Pedro ao emissário, o jovem me tranquilizou. Pouco
depois do amanhecer, Davi o havia encontrado nos arredores do acampamento,
sem rumo e cheio de amargura. É possível que, naquele momento, nem Davi
Zebedeu nem o emissário nem nenhum dos discípulos soubessem a verdadeira
razão da imensa angústia do ardoroso Simão. O certo é que Davi ordenara a um
dos “correios” que o acompanhasse à casa de Nicodemos, na Cidade Santa, lugar
de concentração de seu irmão André e dos outros três apóstolos.
Aquele mesmo emissário que acompanhava José de Arimateia informou
também que, pouco depois da partida de Pedro, chegara ao horto Judas, um dos
irmãos de sangue do Mestre. Havia-se antecipado ao resto da família e ali soubera
da trágica prisão de Jesus. A pedido de Davi Zebedeu, regressara rapidamente pelo
caminho que atravessa o monte das Oliveiras para reunir-se com Maria, sua mãe, e
com os demais componentes da família As ordens de Davi eram para que a família
do Mestre permanecesse, no momento, na casa de Maria e Marta, em Betânia. E
assim se fez.
Isso significava que Maria, a mãe de Jesus de Nazaré, estava nas proximidades
de Jerusalém... e que, certamente, devia estar ciente de tudo o que ocorria com
seu filho.
Estremeci diante da possibilidade desse encontro com Maria...
O vento soprava com mais força. Quando alcançamos Caifás e seus homens,
um sentinela, que montava guarda na parte norte do muro externo da fortaleza,
havia ido ao interior do quartel e anunciara a presença daquele destacado grupo de
sacerdotes. Parece que o sumo sacerdote havia dito ao soldado que o governador
já sabia daquela visita que viria tão cedo. José e eu nos olhamos, deduzindo que
Pôncio Pilatos podia ter tomado conhecimento do fato por meio dos judeus que lhe
haviam solicitado uma escolta na noite anterior.
De qualquer forma, o certo é que Pôncio fazia tempo aguardava a chegada
dessa representação do Sinédrio.
Enquanto esperávamos junto ao parapeito de pedra, anunciei a José de
Arimateia que, aproveitando a ordem que o próprio governador me havia
concedido, tentaria adiantar-me a Caifás e seu pelotão. José assentiu,
acrescentando que ele tinha a intenção de continuar ao lado do Mestre e que,
presumivelmente, voltaríamos a nos ver no interior da fortaleza.
Assim, abandonando meu projeto de entrar na torre Antônia pelo túnel da ala
ocidental, tirei o salvo-conduto e o mostrei ao mercenário. Este, ao ler a
autorização e escutar o nome de Civílis, franqueou-me a passagem e recomendou-
me, por meio de sinais, a vários soldados que montavam guarda do outro lado do
fosso, junto a uma grande porta aberta na muralha e ladeada por duas pequenas
torres de vigilância.
Ao transpor a ponte levadiça, igual à que dava acesso pelo túnel, um dos
guardas barrou-me a passagem. Tive de repetir a operação. O soldado examinou a
ordem e mandou-me esperar. Depois saiu do posto de guarda e entrou na
fortaleza. Aquela porta monumental, coroada por um arco de meio ponto, era
provida de grandes batentes de madeira, fixados a postes verticais que podiam
girar em caixas de pedra. Supus que, dessa maneira, em momentos de perigo ou
ataque, os batentes poderiam fechar-se e ser trancados por dentro.
Poucos minutos depois, o infante me chamava do alto da escadaria de pedra
existente ao fundo. Caminhei solitário até a sentinela, transpondo um largo pátio
de pedras talhadas com cantos arredondados. Ao pé das escadas, o soldado
indicou-me um oficial, dizendo:
– Este te levará até Civílis...
E assim foi. No final daqueles quinze degraus, um centurião me aguardava.
A escadaria permitia o acesso a uma espécie de terraço retangular,
caprichosamente ladrilhado e cercado de ambos os lados por uma série de
balaústres de mármore de um metro de altura.
Aquela era a entrada principal do que poderíamos denominar a residência
privada de Pôncio: um edifício suntuoso e relativamente isolado do conjunto, ainda
que dentro da fortaleza.
O oficial conduziu-me ao interior: um vestíbulo de extraordinárias dimensões,
do qual projetavam-se três escadarias, todas de mármore branco.
– Espere aqui – disse-me, enquanto subia as escadas situadas diante da porta
de folhas duplas do vestíbulo. Ao pé da escadaria, montavam guarda outros dois
soldados, com suas lanças e cotas de malha.
Obedeci, e fiquei contemplando com admiração a série de grandes vitrais
multicoloridos que se alinhavam ao longo das paredes, proporcionando ao recinto
abundante luz natura1. As paredes eram revestidas de granito procedente de Sena
e tinham numerosos nichos em que repousavam bustos do Imperador, jarrões
gregos decorados com cenas mitológicas e candelabros de prata.
O piso do vestíbulo havia sido recoberto com um extenso mosaico, que nada
ficava a dever aos que eu havia visto nas ruínas de Pompeia.
Absorto na contemplação daquela delicada decoração, não me apercebi da
chegada de Civílis. O centurião e comandante da legião saudou-me sorridente.
Trazia um capacete de metal muito polido, arrematado por um penacho de penas
vermelhas.
Antes que eu lhe pudesse dizer que desejava alterar meus planos, Civílis se
adiantou até a porta do vestíbulo e, apontando o portão da muralha, comentou que
“o dia acabava de ficar complicado”.
– Pôncio deverá receber nesta manhã – disse-me com um gesto de desgosto –
vários representantes do Conselho de Justiça dos judeus...
– Eu sei – respondi – e é exatamente sobre isso que gostaria de falar...
O centurião olhou-me surpreso.
– ... Ouvi dizer que os judeus querem julgar um mago. Eu o vi passar. Sabes
que me interesso pelos astros e seus desígnios e gostaria de te pedir, e pedir ao
governador, uma pequena alteração de planos.
Civílis continuou ouvindo-me com atenção.
– Tenho ouvido – prossegui – que esse homem a quem chamam de Jesus de
Nazaré tem operado grandes portentos e, abusando de vossa hospitalidade,
desejaria estar presente quando ele for apresentado a Pôncio.
E antes que o centurião pudesse responder, arrematei minhas palavras com
uma afirmação que, tal como eu esperava, apenas em parte despertou a
curiosidade do romano:
– ... Fiquei sabendo que, hoje mesmo, tu, o governador, eu e toda a cidade
teremos a oportunidade de assistir a um estranho acontecimento celeste...
O pragmático e incrédulo oficial sorriu, zombeteiro, limitando-se a responder:
– Está bem, Jasão, eu direi a Pôncio...
Civílis desapareceu pela escadaria central, não sem antes advertir-me de que
não saísse dali.
– Essas ratazanas – comentou, referindo-se aos sacerdotes que aguardavam
junto ao parapeito externo – não têm escrúpulos em nos pedir que executemos um
dos seus e, no entanto, não querem entrar no Pretório, de medo de se contaminar
e não poder celebrar sua maldita Páscoa...
Civílis tinha razão. Os judeus – e muito especialmente os membros das
diferentes castas sacerdotais – eram proibidos de entrar, durante a celebração da
festa anual da Páscoa, nas casas dos gentios (todas eram suspeitas de abrigar
alimentos que pudessem conter levedura, e esse contato com substâncias
fermentativas era rigorosamente proibido).164
Isso me levou a pensar que o governador e seus homens não teriam outro
remédio a não ser escutar Caifás e os saduceus “às portas” do Pretório. (“É quase
certo que será bem próximo desta escadaria que acabo de subi” – deduzi) E
aprontei minha “vara de Moisés” para aquele que iria ser o primeiro encontro oficial
de Pôncio com os membros do Sinédrio.
De fato, por volta das oito e quinze daquela manhã de sexta-feira, 7 de abril, o obeso governador apareceu no alto da escada central do átrio onde eu esperava.
Vinha acompanhado de Civílis e mais três ou quatro centuriões.
Ao me ver, apressou-se a descer as escadas e saudar-me com o braço erguido.
Pôncio havia mudado as vestes. Na ocasião e dada a sua qualidade de
representante de César, estava metido em uma couraça de metal, curta e
“musculada’, belamente trabalhada, brilhante como um espelho, ao estilo das
melhores blindagens gregas da época. Sob a armadura, vestia uma túnica curta de
seda, de meia manga, cor clara, meticulosamente passada e arrematada por
pequenos flocos de ouro. O volumoso ventre do governador ressaltava por baixo da
couraça, proporcionando-lhe um perfil muito pouco cavalheiresco.
Ao redor do pescoço e pendendo pelas costas, trazia um manto ou sagun, de
uma tonalidade bordô muito apagada. Mas o que mais me chamou a atenção foram
suas pernas: estavam inteiramente revestidas de faixas de linho. Aquilo me fez
suspeitar que padecia de varizes.
O centurião-chefe o havia posto a par dos meus novos planos e do “presságio”
celeste que eu havia adiantado a Civílis e ele, sem conseguir conter sua
curiosidade, perguntou-me a respeito, ao mesmo tempo que me convidava para
caminharmos juntos até a porta de entrada de sua residência.
Expliquei-lhe como pude que os astros haviam anunciado para aquela mesma
manhã um funesto augúrio e que, para o bem de todos, deveríamos extremar
nossas precauções...
Não houve tempo para mais nada. Pôncio Pilatos e seus oficiais pararam no
terraço, enquanto um dos centuriões descia as escadas, em busca, sem dúvida, de
Caifás e daquele galileu que havia começado a perturbar o pacífico dia do
governador. O vento despenteou Pôncio, desequilibrando sua peruca, o que deve
ter aumentado seu já visível mau humor. O fato de ter de sair às portas do Pretório
para receber o sumo sacerdote e os membros do Sinédrio não o havia deixado
muito feliz...
Dali a pouco, aparecia pelo arco da muralha o grupo encabeçado por Caifás.
Imediatamente atrás dele, Jesus, o mercenário romano que o havia custodiado
durante toda a noite, João Zebedeu, levitas e criados do Sinédrio.
Ao chegar ao pé da escadaria, os saduceus pararam, avisando o governador de
que sua religião os impedia de dar um só passo a mais. Pôncio olhou para Civílis e,
com um gesto de desagrado, avançou até a borda do degrau. Ali, em tom áspero,
perguntou-lhes também em grego:
– Quais são as acusações que tendes contra esse homem?
Os juízes se entreolharam e, a uma ordem de Caifás, um dos saduceus
respondeu:
– Se esse homem não fosse um malfeitor, não o teríamos trazido a ti...
Pôncio ficou em silêncio. Arregaçou o manto e começou a descer mais alguns
lances de escada. Imediatamente, Civílis e os centuriões se apressaram a segui-lo.
O romano, sempre em silêncio, aproximou-se de Jesus e o observou com curiosidade. O Mestre permanecia de cabeça baixa e as mãos atadas às costas.
Seus cabelos, revoltos pelo forte vento, ocultavam em parte as escoriações de seu
rosto.
Pôncio deu uma volta completa em torno do Nazareno. Depois, sem comentário
algum, mas com uma mal disfarçada careta de repugnância, voltou a subir os
degraus. Sem dúvida – e Civílis me confirmaria isso pouco depois –, o governador
havia sido previamente informado da sessão matinal do Sinédrio, assim como das
discrepâncias surgidas entre os juízes na hora de estabelecer as acusações.
(Segundo Civílis, uma das criadas e também o intérprete da esposa de Pilatos,
Cláudia Prócula, conheciam os ensinamentos de Jesus de Nazaré e haviam
informado o governador dos prodígios e da pregação do rabi.)
Quando chegou à metade da escada, Pilatos parou e, girando sobre os
calcanhares, encarou de novo os hebreus e lhes disse:
– Dado que não chegais a um acordo quanto às acusações, por que não levais
este homem para que seja julgado segundo vossas próprias leis?
Aquelas frases do governador caíram como um jato de água fria sobre os
sinedristas, que não esperavam tal relutância de sua parte. E, visivelmente
nervosos, responderam:
– Não temos o direito de condenar um homem à morte. E este perturbador de
nossa nação merece a morte, por tudo o que tem dito e feito. Esta é a razão pela
qual viemos a ti: para que ratifiques essa decisão.
Pilatos sorriu maliciosamente. Aquele reconhecimento público de impotência
dos judeus para pronunciar e executar uma sentença de morte, mesmo contra um
dos seus, enchera-o de satisfação. Seu ódio pelos judeus era muito mais profundo
do que se podia supor.
– Eu não condenarei este homem – interveio o romano, apontando Jesus com
sua mão direita – sem julgamento. E nunca consentirei que o interroguem
enquanto não receber, por escrito – acentuou Pilatos com ênfase –, as acusações...
No entanto, o romano havia subestimado os sinedristas. E quando Pilatos
considerava que o aborrecido assunto tinha ficado resolvido, Caifás entregou um
dos rolos que trazia a um escriba judicial que os acompanhava, pedindo ao
governador que ouvisse as “acusações que havia solicitado”.
Aquela manobra surpreendeu Pilatos, que não teve outro remédio senão
interromper seus passos quando estava a ponto de entrar em casa. Cada vez mais
irritado pela tenaz insistência de Caifás e dos saduceus, dispôs-se a ouvir o
conteúdo do pergaminho.
O escriba o desenrolou e, adotando um tom solene, procedeu à sua leitura:
– O tribunal sinedristas entende que este homem é um malfeitor e um
perturbador de nossa nação, com base nas seguintes acusações:
“1ª Perverter nosso povo e incitá-lo à rebelião.
“2ª Impedir o pagamento do tributo a César.
“3ª Considerar-se a si mesmo rei dos judeus e propagar a criação de um novo reino.”
Ao ouvir aquelas acusações oficiais, compreendi que esse texto – que nada
tinha a ver com o discutido no julgamento – havia sido forjado por Anás e demais
membros do Conselho em sua segunda entrada na sala do tribunal, enquanto o
Mestre e todos os demais esperávamos no pátio central do edifício do Sinédrio.
Agora eu compreendia o porquê daquelas ásperas discussões entre Caifás, Anás e
os juízes e da súbita aparição de um segundo pergaminho nas mãos do sumo
sacerdote, momentos antes da saída para a torre Antônia.
Muito astutamente, os saduceus haviam preparado aquelas três acusações de
forma que o governador romano se visse inevitavelmente envolvido no processo.
Pôncio pediu a Civílis que se aproximasse e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido.
O centurião assentiu com a cabeça. (Com aquela consulta confidencial – segundo
eu soube pelo comandante-em-chefe da legião –, ele quis munir-se de informações
que comprovassem o que todos sabíamos, isto é, que o complô contra o Nazareno
tinha raízes estritamente religiosas.)
Pilatos compreendeu logo que aquela “mudança” de estratégia dos sacerdotes
obedecia unicamente ao seu fanatismo e ao cego ódio por aquele visionário, que
havia sido capaz de desafiar a autoridade do sumo pontífice e ridicularizar as castas
sacerdotais. Sem perceber, Caifás e seus esbirros haviam conseguido, com aquele
erro, que Pôncio se inclinasse, desde o princípio, não em favor de Jesus – a quem
praticamente ignorava –, mas contra “aquela ralé bastarda”, segundo as palavras
do próprio romano. (Era extremamente importante considerar esses fatos na
atuação do representante do Imperador Romano e em suas sucessivas tentativas
de libertar o Mestre. Nada satisfaria mais seu desprezo pela suprema autoridade
judaica do que fazer com que todos aqueles sacerdotes engolissem o pó da
derrota, tendo de libertar o prisioneiro.)
Mas os acontecimentos – a despeito do governador – tomariam caminhos
inesperados...
Pôncio ficou em silêncio. Dirigiu um olhar de desprezo aos juízes e, descendo as
escadas pela segunda vez, caminhou até o Galileu. Ante a expectativa geral,
perguntou ao Mestre o que tinha a alegar em sua defesa. Jesus não levantou o
rosto.
Civílis, que havia seguido os passos de seu chefe, levantou o bastão, disposto a
golpear o Galileu pelo que considerou falta de respeito. Mas Pôncio o deteve. Ainda
que sua confusão e aborrecimento fossem cada vez maiores, o romano
compreendeu que aquele não era o cenário mais adequado para interrogar o
prisioneiro. A simples presença dos sinedristas podia representar um freio, tanto
para ele como para o réu. E, voltando-se para o primeiro centurião, deu ordens
para conduzirem o preso ao interior de sua casa.
Civilis fez um sinal ao soldado que custodiava o rabi e ambos, em companhia
de João Zebedeu e alguns domésticos do Sinédrio, seguiram Pilatos e os oficiais.
Caifás e os juízes permaneceram no pátio. A contrariedade refletida em seus rostos mostrava sua frustração por não poderem seguir Jesus e acompanhar o
interrogatório privado. Seu próprio fanatismo religioso acabava de prejudicá-los.
Aliás, duvido muito que Pilatos houvesse autorizado a presença deles no
interrogatório.
Ao passar do meu lado, o governador fez um gesto, convidando-me a que o
acompanhasse.
– Diz-me, Jasão – perguntou-me Pilatos enquanto atravessávamos o saguão
em direção à escadaria em frente –, conheces este mago? Crês que pode ser um
zelote?
Aquele foi um momento especialmente delicado para mim. Umas poucas
explicações teriam sido suficientes para inclinar a balança do instável governador
em favor do Mestre. Mas aquela não era minha missão. Então respondi à pergunta
com outra pergunta:
– Segundo entendi, teus homens foram destacados à noite até uma
propriedade em Getsêmani, com o propósito de averiguar a existência de um
acampamento zelote. Encontraram esses guerrilheiros?
O governador, a quem custava subir os 28 degraus, parou ofegante.
– E tu, como sabes disso?
Enquanto Civílis conduzia o Nazareno e o pequeno grupo por um claro corredor
de mármore da Numídia, ornado, à direita e à esquerda, de estátuas que
descansavam sobre pedestais de Carrara, tranquilizei Pôncio, narrando-lhe meu
“casual” encontro com os dois soldados que perseguiam um dos adeptos do
“mago”.
Pôncio então me confessou que suas informações sobre Jesus de Nazaré
remontavam a anos atrás, especialmente desde que um de seus centuriões lhe
contara como aquele mago havia curado um de seus criados mais queridos, em
Cafarnaum. Pouco a pouco, Pilatos tinha reunido dados e confidências suficientes
para saber se aquele grupo que o rabi encabeçava era ou não perigoso, do único
ponto de vista que realmente podia interessá-lo: o da rebelião contra Roma.
Os agentes do governador, nas proximidades do Sinédrio, haviam avisado das
numerosas reuniões celebradas para tratar da prisão e eliminação do Nazareno.
Pilatos, portanto, estava a par das intenções daqueles que ficaram esperando no
pátio e do caráter “místico e visionário” – segundo expressão própria – do
movimento dirigido por Jesus.
– Por que iria satisfazer esses invejosos – concluiu Pilatos – detendo esses
pobres diabos, cujo único mal é crer em fantasias e sortilégios?...
Aquelas revelações abriram-me definitivamente os olhos. Estava claro que eu
havia subestimado o poder de Pôncio. Era lógico que, em uma província como
aquela, tão rebelde e difícil, o poder de Roma tivesse molas e tentáculos
suficientes para saber quem era quem. E, evidentemente, Pôncio sabia quem era o
Mestre.
– Todavia – intervi com curiosidade –, por que concordaste em enviar um pelotão a Getsêmani?
O governador voltou a sorrir maliciosamente.
– Tu não conheces ainda essa gente. São cabeçudos como mulas. Além disso,
minhas relações... digamos “comerciais” com Anás sempre foram excelentes. Não
posso negar que o governo recebe importantes somas de dinheiro em troca de
certos favores...
Não me atrevi a indagar sobre a natureza dos “favores” que prestava aquele
corrupto representante de César, mas o próprio Pôncio me forneceu uma pista:
– Anás e esse carniceiro que ele tem como genro têm feito fortunas à custa do
povo e do tráfico de moedas e animais para os sacrifícios... Suponho que estejas
inteirado do descalabro sofrido pelos cambistas e intermediários da esplanada do
Templo, precisamente por causa desse Jesus. Pois bem, meus “interesses” por esse
negócio me obrigavam, em parte, a salvar as aparências e ajudar o ex-sumo
sacerdote em sua intenção de capturar o mago...
Aquele descarado nepotismo da família Anás – colocando os membros de seu
clã nos postos-chave do Templo – era um segredo de polichinelo. A atuação do
governador, portanto, me pareceu totalmente verossímil.
No fim do corredor, Civílis abriu uma porta e deu passagem a Pilatos. Atrás, por
ordem do centurião, entramos Jesus, João Zebedeu, outros dois oficiais e eu. O
mercenário e os criados permaneceram do lado de fora.
Ao entrar naquela câmara, reconheci imediatamente a sala de despachos oval
onde havia tido minha primeira entrevista com o governador. A ala norte da
fortaleza estava, pois, conectada com a sala de audiências do Pôncio. Agora eu
compreendia porque não havia visto guardas naquela porta: ela, possivelmente,
fazia a ligação com as habitações privadas e por ela eu havia visto aparecer, na
manhã de quarta-feira, o criado que nos anunciara o almoço.
Pôncio Pilatos foi diretamente para sua mesa, convidando o Nazareno a se
sentar na cadeira que José de Arimateia ocupara na quarta feira. João,
timidamente, sentou-se na que eu havia ocupado. Os oficiais se colocaram um de
cada lado do rabi, enquanto Civílis ocupava sua posição habitual, na extremidade
da mesa, à esquerda do governador. Eu, discretamente, procurei unir-me ao chefe
dos centuriões.
A luz que penetrava pela grande janela situada às costas do romano permitiu-
me explorar detidamente o rosto do Mestre. Jesus havia abandonado em parte
aquela atitude de permanente ausência. Sua cabeça agora estava erguida. O nariz
e o arco zigomático direito (zona malar ou do pômulo) continuavam muito inchados
e o olho, como eu temia, já fora afetado. Quanto ao olho esquerdo, parecia já estar
fechado. Os coágulos de sangue das fossas nasais e dos lábios haviam secado,
enegrecendo parte do bigode e da barba.
Pilatos retomou o fio da conversa, afirmando que, para começar e para sua
própria tranquilidade, “não acreditava na primeira das acusações”.
– Sei de teus passos – disse-lhe em grego com ar conciliador – e custa-me muito acreditar que sejas um agitador político.
Jesus o observou com ar cansado.
– Quanto à segunda acusação, manifestaste alguma vez que não se deve pagar
o tributo a César?
O Mestre fez um sinal com a cabeça para João e respondeu:
– Pergunta a ele ou a qualquer outro que me tenha ouvido.
O Pôncio interrogou Zebedeu com o olhar e João, atropeladamente, explicou
que tanto o Mestre como os demais do grupo pagavam sempre os impostos do
Templo e os de César.
Quando o discípulo já se dispunha a estender-se sobre outros ensinamentos,
Pilatos lhe fez um gesto com a mão, ordenando que ficasse em silêncio.
– É suficiente – disse. – E toma cuidado para não contares a ninguém sobre o
que falaste comigo!
E assim foi. Nem sequer no texto evangélico ditado por João, muitos anos
depois, aparece essa parte da entrevista do governador romano com Jesus. E mais,
o escritor sagrado não faz nenhuma menção de sua participação naquela conversa.
Se essa parte do interrogatório – tal como se depreende do Evangelho de João –
teve lugar no interior do Pretório e, portanto, teve caráter privado, como é possível
que João a descreva referindo-se aos já conhecidos temas do “reino” e da
“verdade”? (João, 18,28-38.) Só existe uma explicação: que ele tenha sido
testemunha auditiva.
Pilatos dirigiu-se novamente ao Galileu:
– No que se refere à terceira acusação, diz-me: tu és o rei dos judeus?
O tom era sincero. Essa, ao menos, foi minha impressão. E o Mestre esboçou
um débil sorriso. Ao fazê-lo, uma das gretas do lábio inferior voltou a se abrir e um
finíssimo filete de sangue precipitou-se entre os pelos da barba.
– Pilatos – tornou o rabi –, fazes essa pergunta por ti mesmo ou a recolheste
dos acusadores?
O governador abriu os olhos com ar indignado.
– Será que sou um judeu? Teu próprio povo te entregou e os principais
sacerdotes me pediram sua morte...
Pôncio procurou recobrar a calma e, mostrando os dentes de ouro, acrescentou:
– Duvido da validade dessas acusações e só estou tentando descobrir por mim
mesmo o que foi que fizeste. Por isso te perguntarei pela segunda vez: disseste
que és o rei dos judeus e que tencionas formar um novo reino?
O Galileu não demorou para responder.
– Não vês que meu reino não está neste mundo? Se assim fosse, meus
discípulos teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Minha
presença aqui, diante de ti e amarrado, demonstra a todos os homens que meu
reino é um domínio espiritual: o da confraternização dos homens que, por amor e
fé, passaram a ser filhos de Deus. Esse oferecimento é mesmo para os gentios e
para os judeus.
Pilatos levantou-se e, golpeando a mesa com a palma da mão, exclamou, sem
poder reprimir sua surpresa:
– Por conseguinte, tu és rei!
– Sim – respondeu o prisioneiro, encarando-o –, sou um rei desse gênero, e
meu reino é a família dos que creem em meu Pai que está no céu. Nasci para
revelar meu Pai a todos os homens e testemunhar a verdade de Deus. E agora
mesmo declaro que o amante da verdade me ouve.
Pilatos deu alguns passos em torno da mesa e, colocando-se entre João e o
prisioneiro, comentou para si mesmo:
– A verdade!... Que é a verdade?... Quem a conhece?...
E, antes que Jesus chegasse a responder, fez um sinal para Civílis, dando por
encerrado o interrogatório.
Os oficiais obrigaram o rabi a se levantar e Pôncio abriu a porta, ordenando a
seus homens que levassem o Nazareno à presença de Caifás. Quando
caminhávamos novamente pelo corredor, Pilatos colocou-se ao meu lado, fazendo
um único, mas eloquente comentário:
– Esse homem é um estoico. Conheço seus ensinamentos e sei o que eles
pregam: “O homem sábio é sempre um rei”.
Depois daquele pronunciamento, deduzi que o romano estava disposto a
libertar Jesus. Ao apresentar-se pela segunda vez diante dos judeus, sua atitude
confirmou meu pressentimento.
Pouco antes das nove da manhã, Pôncio assomou ao terraço e, adotando um
tom autoritário, sentenciou:
– Interroguei esse homem e não vejo culpa alguma. Não o considero culpado
das acusações formuladas contra ele. Por essa razão, penso que deva ser posto em
liberdade.
Caifás e os saduceus ficaram desconcertados, mas reagiram imediatamente,
gritando com espanto afetado. Civílis interrogou Pilatos com o olhar, ao mesmo
tempo que empunhava a espada. Mas o governador voltou a lhe pedir calma. Um
dos oficiais regressou de modo precipitado ao interior do Pretório, possivelmente
em busca de reforços.
Muito alterado, um dos sinedristas se destacou do grupo e, galgando três ou
quatro degraus, censurou Pilatos com estas frases:
– Este homem incita o povo!... Começou pela Galileia e prosseguiu na Judeia. É
autor de desordens e um malfeitor. Se deixas livre este homem, lamentarás por
muito tempo...
Sem querer, aquele saduceu acabava de proporcionar a Pilatos um motivo para
se esquivar do desagradável assunto, ao menos temporariamente. O governador
aproximou-se de seu centurião-chefe e ordenou:
– Este homem é um galileu. Leva-o imediatamente a Herodes...
Civílis dispôs-se a cumprir a vontade de Pôncio e já se dirigia ao soldado
encarregado da custódia do Mestre quando Pilatos voltou-se para ele do alto da plataforma e acrescentou:
– Ah! E quando Herodes o tiver interrogado, traz-me suas conclusões...
Desta vez foi o próprio Civílis quem se responsabilizou pela condução do
Mestre. O ânimo dos judeus estava tão alterado que o centurião teve de se rodear
de uma pequena escolta de dez soldados, tomando então o caminho para a
residência de Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e, como Pilatos, visitante de
Jerusalém naquela ocasião. Esse Herodes era filho do tristemente célebre Herodes,
o Grande, que havia ordenado a matança das crianças de menos de dois anos em
Belém e arredores. Um massacre muito próprio do caráter e da trajetória daquele
rei odiado pelo povo, a quem chamavam de maneira depreciativa de “criado
idumeu”. Por meio de numerosas pesquisas, o Cavalo de Troia conseguiu averiguar
que a sanguinária matança dos “inocentes” atingiu cerca de vinte crianças.165
Civílis, à frente, cruzou a ponte levadiça. Atrás, os soldados, protegendo o
Mestre, alinhavam-se em duas filas. E a pequena distância, o resto do grupo:
Caifás, os juízes, Judas Iscariotes, João Zebedeu, o ancião José de Arimateia e eu.
Quando saímos da fortaleza, voltei-me para o portão aberto na muralha norte e
a confusão reinou de novo em meu cérebro. Segundo os textos evangélicos, “uma
grande multidão” deveria acorrer às mesmíssimas portas do Pretório. Mas como
isso poderia ocorrer? Até então, as entrevistas com Pilatos haviam se realizado
mais ou menos de forma privada. Só aquela pequena representação do Sinédrio
tivera acesso ao interior da torre Antônia...
“Além disso – continuei raciocinando enquanto descíamos em direção ao bairro
alto da cidade –, sem o expresso consentimento do governador ou de seus oficiais,
nenhum hebreu podia transpor o parapeito externo, muito menos o fosso que
circundava aquela área do quartel-general romano.”
Que iria ocorrer, portanto, para que a multidão judaica pudesse chegar até as
escadarias da residência privada de Pilatos?
João, o discípulo de Jesus, informou imediatamente a José e ao mensageiro
tudo o que havia acontecido ao pé do Pretório e no interrogatório privado,
omitindo, porém, sua própria conversa com o romano. Zebedeu havia recuperado
as esperanças. Vi que ele ficara otimista com as declarações de Pilatos. Na
verdade, tinha razão. Se o processo tivesse se mantido dentro daquela linha,
praticamente circunscrito ao pequeno círculo dos sinedristas e do governador
estrangeiro, talvez a sorte do Mestre houvesse sido outra. Mas as maquinações de
Caifás e seus homens não cessavam...
O “correio”, recolhidas as últimas notícias sobre Jesus, despediu-se dos amigos
do rabi, correndo em direção ao acampamento de Getsêmani.
Quando cruzamos a porta dos Peixes percebi que José de Arimateia estava
desalentado, ao ver o numeroso grupo de hebreus, liderado por vários chefes do
Templo e outros fariseus, que se unia ao sumo sacerdote e aos saduceus. Enquanto
aguardava diante do parapeito de pedra da fortaleza Antônia, José havia recebido
uma informação que viria complicar tudo: Anás, de comum acordo com os juízes, começara a repartir secretamente moedas de ouro do tesouro do Templo. Depois
de anotar os nomes de cada um dos subornados, os três gizbarîm, ou tesoureiros
oficiais, haviam dado uma instrução comum: “clamar perante Pôncio Pilatos pela
morte do impostor da Galileia”.
Ao ver que o grupo inicial de saduceus engrossava sensivelmente, perguntei a
José de Arimateia como Caifás pensava introduzir aquela multidão no recinto da
fortaleza.
– Duvido muito – disse-lhe eu – que Pilatos e suas tropas autorizem.
José dirimiu minhas dúvidas em um segundo. Por coincidência, naquela mesma
manhã de sexta-feira, véspera da Páscoa, os judeus desfrutariam de uma antiga
prerrogativa. Centenas de hebreus subiriam até as imediações do Pretório para
assistir à libertação de um preso. Essa graça, que fazia parte dos poderes do
governador, constituía um dos gestos de amizade e simpatia de Roma para com
seus súditos. Por isso, ela tinha caráter eminentemente festivo e, durante os dias
que a precediam, tanto os vizinhos de Jerusalém como os milhares de peregrinos
discutiam e faziam apostas nesse ou naquele candidato à libertação. Nessa
ocasião, o nome que soava com mais força entre os hebreus era o de Barrabás.
Segundo José de Arimateia, ele era um membro ativo do grupo revolucionário
zelote, um “fulano de pai desconhecido, vil e sanguinário, capturado pelas forças
romanas numa revolta”.166
Aquela informação do velho amigo de Jesus me fez compreender muitas coisas.
Em primeiro lugar, a Cidade Santa havia despertado naquela manhã de sexta-feira,
7 de abril, sem saber da prisão de seu ídolo: Jesus de Nazaré. Só uns poucos
tinham conhecimento do fato. Em segundo lugar, a próxima e iminente
manifestação dos judeus diante da residência de Pilatos nada tinha a ver com o
Mestre da Galileia. Ainda que Jesus não tivesse sido preso, ela ocorreria da mesma
forma.
Foram, como eu disse, as manobras do Sinédrio e a quase total ausência de
amigos e adeptos do Nazareno na citada manifestação popular para pedir a
libertação de um réu que resultaram no que conhecemos hoje.
O palácio dos antigos asmoneus – residência temporária de Herodes Antipas
durante suas breves estadas em Jerusalém – estava muito próximo da muralha que
ia do soberbo conjunto palaciano de Herodes, o Grande (na extremidade ocidental
da cidade) até o Templo. Tratava-se de uma bem antiga construção, à base de
enormes silhares de vinte côvados de comprimento por dez de largura, que, nas
palavras de Josefo, “não podiam ser esburacados nem rompidos com ferro, nem
removidos, mesmo que com todas as máquinas do mundo”.
Às portas do palácio, fomos interceptados por uma parte da guarda pessoal de
Antipas, integrada em sua maioria por mercenários trácios, germanos e gálicos.
Muitos deles haviam servido antes com o pai do atual Herodes.167 Vestiam longas
túnicas verdes, de meia manga, com o tronco e o ventre cobertos por uma espécie
de “camisa”, ou couraça, trançada à base de escamas metálicas. Quase todos traziam às costas grandes aljavas de couro, repletas de flechas. (Herodes, a julgar
pelo considerável número de soldados que detectei no interior do palácio, devia
temer por sua segurança pessoal.)
Civílis trocou algumas palavras com os porteiros e a guarda abriu passagem
para a escolta romana e para o pequeno grupo de sacerdotes. Os demais, inclusive
José de Arimateia, tiveram de esperar à frente do edifício.
Uma vez mais, a sorte ficou do meu lado. Antes de tomar o caminho do interior
do palácio, o centurião me pegou pelo braço, dizendo que o tetrarca era um
entusiasta da Grécia e que, se eu achasse conveniente, ele teria prazer em
apresentar-me a Herodes e falar-lhe de minhas virtudes como astrólogo a serviço
do Imperador. Aceitei agradecido, ainda que nos planos da Operação Cavalo de
Troia não figurasse nenhum tipo de entrevista com aquele personagem.
Logicamente, o centurião não poderia imaginar que o interrogatório de Jesus
por Antipas seria tão breve quanto estéril.
Apesar da antiguidade daquele palácio, Herodes o havia embelezado até os
limites do inimaginável. Do pátio central, ocupado por um tanque retangular, sobre
cujo lajeado revoluteava um bando de pombas, vários criados, conduzidos sempre
por um sõmatophylax, ou “guarda-costas” da corte herodiana (que respondia pelo
nome de Corinto), foram-nos guiando até o piso superior. Nesse pavimento,
totalmente aberta para o jardim interno e coberta por um claustro de mármore,
ficava a sala de audiências de Herodes.
O que primeiro me chamou a atenção naquele salão, perfeitamente iluminado
por três grandes janelas orientadas para o Norte, foi uma poltrona de madeira
negra, magistralmente entalhada, colocada à direita do aposento. Tratava-se, sem
dúvida, de um trono. Estava em um plano mais alto, sobre um tablado também de
madeira escura. A curta distância e ocupando o centro da sala, abria-se uma
piscina circular, de quatro ou cinco metros de diâmetro e profundidade difícil de
precisar, por causa do líquido branco que a enchia. Aos pés do trono, cerca de vinte
indivíduos estavam recostados em volumosos almofadões brancos de plumas. Ao
entrarmos, fez-se um grande silêncio.
Por mais que procurasse identificar Antipas, não consegui. O Mestre foi
colocado pelo centurião diante de uma poltrona de madeira, entre a piscina e
aquela multidão de pedantes “primos e amigos” do tetrarca, que observavam
estupefatos o Galileu e os infantes romanos.
Caifás foi quem rompeu, por fim, aquele violento silêncio. Adiantou-se para o
grupo de cortesãos e estendeu o pergaminho de acusações a um indivíduo
extremamente fraco, também recostado e semioculto entre os coxins.
Ao ficar de pé, apareceu diante de mim um Herodes difícil de imaginar. Apesar
de seus 55 anos, seu aspecto era o de um velho. Sob a túnica, quase transparente,
percebia-se um corpo esquelético, semeado de crostas cinzentas e sujas, que os
romanos denominavam “mal de mentagra”.168
Aquelas úlceras – que hoje nos fariam pensar numa possível sífilis – haviam proliferado especialmente nas mãos, no pescoço e no rosto. Para completar,
Antipas exibia cabelo comprido, recortado na frente e tingido de um chamativo tom
ruivo.
Depois de examinar o pergaminho, Herodes fixou seu olhar em Jesus, enquanto
o sumo sacerdote se desmanchava em explicações de todo tipo sobre o processo
que se havia instaurado contra aquele impostor e sobre o desejo do governador
romano de que o tetrarca interrogasse o galileu.
Antipas atirou o rolo aos pés de Caifás. Confuso pela inesperada reação do
governador da Galileia, o sumo sacerdote emudeceu. Um dos levitas apressou-se a
recolher do chão o pergaminho.
Sem pronunciar uma só palavra, o magro tetrarca começou a andar em torno
do Nazareno, depois parou diante dele e explodiu em sonoras gargalhadas. Os
cortesãos não tardaram a imitá-lo, e os risos acabaram por retumbar nas paredes
de mármore do salão.
Herodes levantou então os braços e as gargalhadas cessaram. Depois,
baixando a mão lentamente, comentou divertido:
– Então, afinal, este presunçoso milagreiro veio visitar a velha raposa...
O tetrarca, evidentemente, conhecia o Mestre e sabia das frases pronunciadas
por Jesus, nas quais era qualificado de raposa.
Antipas esperou pela resposta do prisioneiro, mas o rabi, com a cabeça
pendente sobre o peito, nem se dignou a fitá-lo. Durante pouco mais de um quarto
de hora, o filho de Herodes, o Grande, acossou com perguntas o prisioneiro, sem
obter dele uma única resposta. Uma das principais preocupações de Antipas – a
julgar por suas perguntas – centrava-se na possibilidade de que aquele ga1ileu
fosse a reencarnação de João Batista, a quem ele havia executado três anos antes.
Saltava aos olhos que o remorso e o medo haviam tomado conta da alma daquele
governante despótico e cruel.169
Decepcionado pelo silêncio do Ga1ileu, Herodes mudou de tática. Fazendo um
sinal para um dos seus súditos, ordenou:
– Manaen! Chama Herodíades!
O velho syntrophos, ou preceptor, de Herodes Antipas apressou-se a cumprir a
ordem e saiu do salão em busca da amante do senhor.
Herodes, longe de se irritar com o mutismo do Mestre, parecia intimamente
deleitar-se. Aquela atitude era muito estranha, e eu, de modo dissimulado, fui
caminhando pela borda da piscina, com cuidado para não escorregar sobre a polida
pavimentação de mármore com incrustações de coral rosa. A paixão do tetrarca
pelo helenismo, confirmando o que me havia dito o centurião, notava-se não só nas
suas vestes e nas dos homens que o cercavam, mas também na decoração do
palácio. Aquele piso, por exemplo, primorosamente trabalhado à base de diminutas
porções do uniforme e brilhante coral chamado “pele de anjo” – extraído, é possível
do Mediterrâneo –, era uma das provas mais eloquentes do refinamento que o
satisfazia. Os artesãos fenícios a serviço de Antipas haviam conseguido construir um gigantesco e belíssimo “quadro” da legendária Medusa e de Teseu, seu
assassino,170 embutindo nas lajes de mármore milhares de grânulos de coral que
desenhavam a famosa cena mitológica.
Dessa maneira, consegui aproximar-me de Civílis e, em voz baixa, perguntei-
lhe por que o tetrarca estava adotando aquela atitude. O centurião, que conhecia
bem a vida desordenada de Antipas, sugeriu uma explicação nada desprezível:
– Todos em Israel sabem que Herodes temia e respeitava o impetuoso profeta
a quem chamam de Batista. Certa ocasião, esse louco tetrarca chegou a comentar
que Jesus da Galileia podia ser João. Não seria de estranhar que, ao enfrentar o
silêncio do prisioneiro, sua mente desequilibrada tivesse recobrado um pouco da
calma.
Antipas saiu de seus pensamentos e, tomando uma taça de cristal, aproximou-
se do tanque, inclinou-se e a encheu daquele líquido branco. Depois, colocando-a
na altura do rosto do Nazareno, perguntou-lhe velhacamente:
– Diz-me, galileu, poderias converter o leite em vinho?
Jesus, imóvel, não pestanejou. Seu rosto continuava abaixado. Herodes
encolheu os ombros e voltou a seus coxins. Um dos criados, possivelmente um
eunuco, a julgar pelas argolas nas orelhas e por seus trejeitos femininos, ajoelhou-
se diante do tetrarca e calçou seus pés com sandálias de tiras douradas. Essas
sandálias me chamaram a atenção. Seu solado era recoberto por uma série de
finíssimas almofadinhas. Uma vez ajustadas, Antipas ficou novamente de pé e,
para minha surpresa, sob o peso de seu corpo aquelas bolsinhas começaram a
verter um líquido transparente e cheiroso. Eram vaporizadores! (Uma espécie de
desodorante que havia começado a fazer furor entre as classes endinheiradas de
Roma e da Grécia, que eliminava bastante os desagradáveis odores da
transpiração.)
Antipas, inconformado, quis que o Mestre o divertisse com alguns de seus
prodígios. Tomou uma bandeja de prata em que estavam algumas fatias de carne
e, apresentando-a a Jesus, desafiou-o nos seguintes termos:
– Se foste capaz de multiplicar pães e peixes, suponho que não será difícil fazer
o mesmo com estas línguas de flamingo... Farias essa gentileza?
O silêncio foi a única resposta. E Herodes, que havia passado da zombaria à
cólera, ergueu a taça de prata e despejou seu manjar favorito sobre a cabeça e os
ombros do rabi.
O ato de Herodes foi imediatamente acompanhado pelas risadas de seus
acólitos. Mas o Mestre não se alterou.
A grotesca cena foi interrompida pela súbita chegada de uma mulher. Antipas,
ao vê-la, apressou-se a sair ao seu encontro. Tomou-a pela mão e a conduziu até
Jesus. Apesar de haver ultrapassado a casa dos quarenta, a beleza de Herodíades,
a amante de Herodes, era excitante. Suas vestes constavam unicamente de uma
série de gazes de Malta que formavam uma túnica dupla, mas mesmo assim
transparente, permitindo a visão de sua pele azeitonada. Na cabeça trazia uma faixa branca que cingia as têmporas e sobre a qual se erguiam três planos de
tranças, tão negras como seus olhos. Aquele complicado penteado era arrematado
na extremidade por pequenos caracóis, feitos de anéis de cabelo, cilíndricos.
Civílis, ao vê-la, fixou seus olhos nos pequenos seios, perfeitamente visíveis
através da gaze. E, voltando-se para mim, piscou-me um olho.
Antipas se aproximou de Jesus e, sacudindo com os dedos algumas das línguas
de flamingo que haviam ficado enredadas em seus cabelos, tranquilizou a mulher,
assegurando-lhe que aquele mago não era sequer a sombra do aborrecido João
Batista. Herodíades, com as sobrancelhas e cílios tingidos com brilhantina e as
pálpebras sombreadas por alguma mistura de lápis-lazúli moído, observou
detidamente o réu. Depois, rebolando sem o menor pudor, afastou-se do Mestre e
foi sentar-se no trono de madeira. Ali e diante da expectativa geral, fez um sinal
para Antipas, chamando-o. Herodes obedeceu rápido. E, depois de Herodíades
sussurrar-lhe algo, ele sorriu malicioso, desceu do tablado e colocou-se às costas
do rabi. Em seguida, tomou a barra da túnica de Jesus e a levantou devagar, de
forma que Herodíades e os cortesãos pudessem contemplar as pernas do
Nazareno. Antipas prosseguiu até descobrir totalmente as musculosas coxas do
prisioneiro, assim como a tanga que o cobria. Os lábios de Herodíades, de um
vermelho carmesim, abriram-se com visível admiração, ao mesmo tempo que uma
onda de indignação começava a me queimar as entranhas.
Civílis notou minha crescente cólera e, inclinando-se para mim, comentou:
– Não te alarmes. A lei judia concede a esse porco até um total de dezoito
mulheres, mas sua impotência é tão pública e notória que essa rameira busca
consolo até nos escravos das cavalariças... E Herodes sabe disso. Herodíades o
mantém preso pelo trono e pelos testículos...
As palavras do oficial foram tão acertadas quanto proféticas. Antipas nem
sequer suspeitava que exatamente aquela mulher seria a causa de sua desgraça
final!...171
A humilhante cena foi interrompida pelo centurião. O tempo urgia e, com
amáveis, mas firmes palavras, pediu ao tetrarca que comunicasse seu veredicto a
respeito do prisioneiro.
– Veredicto? – perguntou Antipas, que fazia tempo havia compreendido que o
Galileu não desejava abrir a boca. – Diz a Pôncio que agradeço sua gentileza, mas
a Judeia não está sob minha jurisdição. Que ele decida.
Depois deu meia-volta, caminhou até um de seus amigos, tirou-lhe um caro
manto de púrpura com que se cobria e, sem mais explicações, colocou-o sobre os
ombros do Mestre, em meio a uma longa e estridente gargalhada, enquanto seus
amigos e parentes aplaudiam.
Caifás e os sacerdotes, tão decepcionados quanto Antipas, encaminharam-se
para a porta, enquanto Civílis, depois de saudar com o braço erguido o tetrarca e
Herodíades, empurrou Jesus, indicando-lhe que a visita havia terminado.
Ao abandonar a sala, ainda ouvimos os aplausos da camarilha de Herodes, que se divertiu com aquele último gesto de zombaria do idumeu.
(Uma vez mais o testemunho de alguns exegetas não coincidia com a
realidade. Jesus não foi coberto com um manto branco, em sinal de demência,
como afirmaram esses comentadores bíblicos, mas com um vermelho brilhante,
que refletia a zombaria de Herodes, ao considerá-lo um “libertador” ou “rei” de
araque. Um manto que acompanharia Jesus de Nazaré até o momento crítico da
flagelação e com o qual, como veremos mais adiante, os mercenários romanos o
cobriram.)
Às dez da manhã, a escolta se retirou do palácio dos asmoneus, retomando à
fortaleza Antônia. E, como no trajeto de ida, um compacto grupo de hebreus seguiu
silencioso e vigilante os soldados que protegiam o rabi.
Nesse momento, inesperadamente, Judas Iscariotes se desligou da turba
encabeçada por Caifás e me surpreendeu com uma pergunta...
No início, titubeou. Olhou a seu redor com desconfiança e, finalmente, decidiu
falar-me. Judas deve ter pensado que minha constante presença junto ao Mestre
me havia convertido em um de seus seguidores. No entanto, acabou vencendo seu
receio e afastou-me do pelotão da escolta. Então, perguntou-me sobre o desenrolar
do interrogatório no palácio de Antipas. Relatei-lhe o acontecido e Judas, como
único comentário, lamentou o silêncio de Jesus, acrescentando:
– Uma nova oportunidade perdida!...
Disse-lhe que não compreendia e Iscariotes, evitando meu olhar, falou de seus
tempos como discípulo de João Batista e que jamais havia perdoado o Mestre por
não ter intercedido em favor da vida de João. Agora, segundo o traidor, Jesus
também não havia feito nada por beneficiar a memória de seu amigo e primo
distante. Aquela queixa me surpreendeu. Pelo visto, Iscariotes tinha-se unido a
Jesus por causa do encarceramento de João Batista, e cheguei a pensar que boa
parte do seu ódio ao rabi vinha precisamente dessa circunstância.
Ambos continuamos em silêncio. Eu ardia de desejo de lhe perguntar a razão
de sua traição, mas não tive coragem. E só me atrevi a interrogá-lo sobre a causa
pela qual se havia adiantado ao grupo de soldados na noite da prisão de Jesus.
Judas, isolado e humilhado por todos, sentia necessidade de se confessar. Mas sua
resposta foi uma meia verdade...
– Sei que ninguém acredita em mim – lamentou-se –, mas minha intenção foi
boa. Se me adiantei aos soldados e levitas do Templo, foi para advertir o Mestre e
meus companheiros de acampamento da aproximação da tropa que iria prendê-lo.
Fiquei quieto. Aquela explicação, de fato, era difícil de aceitar. É possível que
Judas, dada sua covardia, houvesse podido maquinar tal “arranjo”. Dessa forma, os
discípulos talvez não chegassem a desconfiar de sua presença. Mas, se suas
intenções eram realmente essas, elas foram frustradas diante da inesperada
presença de Jesus na metade do caminho que conduzia ao horto.
Não houve tempo para mais nada. Civílis e seus homens penetraram de novo
na torre pela muralha norte, dirigindo-se para as escadarias do Pretório.
Ao chegar ao terraço onde se havia desenrolado a primeira parte do
interrogatório, fiquei surpreso de ver colocado ali um tablado semicircular sobre o
qual havia sido disposta uma cadeira curul, usada geralmente para repartir justiça.
O centurião deixou Jesus ao cuidado de seus homens e entrou na residência.
Os hebreus, com o sumo sacerdote na primeira linha, aguardaram, como de
costume, ao pé das escadas. Dessa vez, José de Arimateia já havia entrado no
recinto da torre.
Pilatos não tardou a aparecer. Tomando assento na cadeira portátil, dirigiu-se a
Caifás e seus homens: