Cidades de papel

John Green · Capítulo 11 de 53

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Cidades de papel

Capítulo 9

Compramos panos de prato numa lojinha de conveniência na International Drive e nos esforçamos ao máximo para limpar o lodo e o fedor do fosso de nossas roupas e pele. Antes de contornarmos Orlando, enchi o tanque até o mesmo nível do início da noite. Os assentos estariam um pouco úmidos quando mamãe fosse para o trabalho, mas eu torcia para que ela não notasse, já que era muito distraída. Em geral, meus pais acreditavam que eu era a pessoa mais equilibrada do mundo e menos inclinada a invadir o SeaWorld. Afinal, meu bem-estar psicológico era uma prova do talento profissional deles.

Voltei para casa sem pressa, evitando a rodovia e pegando as ruas menores.

Margo e eu estávamos ouvindo rádio, tentando descobrir em que estação tinha tocado “Stars Fell on Alabama”, mas então ela desligou:

— No geral, acho que foi um sucesso.

— Com certeza — falei, embora naquele ponto estivesse me perguntando como seria o dia seguinte. Será que ela iria aparecer na sala de ensaios para ficar com a gente antes do início da aula? Iria almoçar comigo e com Ben? — Eu me pergunto se amanhã vai ser diferente.

— É — disse ela. — Eu também. — Ela deixou a questão no ar, e então acrescentou: — Ah, por falar em amanhã, como agradecimento por todo o seu trabalho duro e dedicação nesta noite extraordinária, eu gostaria de lhe dar um presente. — Ela deu uma vasculhada junto aos pés e então pegou uma câmera digital. — Pegue — ofereceu. — E use o Poder do Pequeno Bigulinho sabiamente.

Eu ri e enfiei a câmera no bolso.

— Vou baixar a foto em casa e amanhã devolvo a máquina na escola, tudo bem? — perguntei. Eu ainda queria que ela respondesse: Na escola, onde as coisas vão ser completamente diferentes, onde vamos ser amigos em público e também decididamente solteiros. Mas ela só respondeu:

— Ok, tanto faz.

Eram 5h42 quando entrei em Jefferson Park. Dirigimos pela Jefferson Drive até o Jefferson Court e viramos em nossa rua, a Jefferson Way. Apaguei os faróis

pela última vez e subi na entrada de carros. Eu não sabia o que dizer, e Margo estava calada. Enchemos uma sacola de compras com o lixo, tentando fazer o Chrysler parecer como se as últimas seis horas não tivessem acontecido. Em outra sacola, ela me deu o restante da vaselina, a tinta spray e as últimas latas de Mountain Dew. Meu cérebro estava acelerado de cansaço.

Com uma bolsa em cada mão, parei por um instante do lado de fora do carro, olhando para ela:

— Bem, foi uma noite e tanto — falei, afinal.

— Venha cá — disse ela, e eu dei um passo adiante. Ela me abraçou, e as sacolas me atrapalharam ao abraçá-la de volta, mas se eu as soltasse alguém poderia acordar. Dava para sentir que Margo estava na ponta dos pés, e sua boca estava bem juntinho ao meu ouvido. Ela disse com muita clareza: — Vou. Sentir.

Falta. De. Me. Divertir. Com. Você.

— Não precisa sentir — respondi em voz alta, tentando disfarçar a decepção.

— Se você não gosta mais deles, é só sair comigo. Meus amigos são bem legais, na verdade.