Cidades de papel

John Green · Capítulo 37 de 53

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Cidades de papel

Hora seis

Mas, quando Ben desdobra as camisetas, percebemos dois pequenos problemas. Primeiro, aparentemente, uma camiseta grande em uma loja de conveniência da Geórgia não é do mesmo tamanho que uma camiseta grande da Old Navy, por exemplo. A camiseta do posto é gigante — está mais para um saco de lixo do que para uma camiseta. É menor do que as becas, mas não muito. Mas isso não é nada comparado ao segundo problema: ambas estão estampadas com bandeiras enormes da Confederação norte-americana. E sobre elas o lema herança, não ódio.

— Ah, não. Você não fez isso — diz Radar quando mostro a ele do que estamos rindo. — Ben Starling, é melhor você não ter comprado para mim, seu amigo negro, uma camiseta com um lema racista.

— Eu peguei as primeiras que vi, cara.

— Não venha com “cara” para cima de mim agora — diz Radar, mas ele está sacudindo a cabeça e rindo. Entrego a camiseta a ele, que se contorce para dirigir com os joelhos enquanto a veste. — Tomara que um guarda me pare. Queria muito ver a reação dele ao ver um negro usando uma camiseta da Confederação sobre um vestido preto.

HORA SEIS

Por algum motivo, aquele trecho da I-95 ao sul de Florence, na Carolina do Sul, parecia ser um point para motoristas na sexta-feira à noite. Ficamos presos em um engarrafamento por vários quilômetros, e, embora Radar esteja desesperado para ultrapassar o limite de velocidade, ele tem sorte quando consegue ir a mais de cinquenta por hora. Estou no banco do carona, e tentamos não nos preocupar brincando de “Aquele cara é um gigolô”, um jogo que inventamos. A ideia é imaginar a vida das pessoas nos carros em volta.

Estamos dirigindo ao lado de uma mulher latina em um Toyota Corolla bem ferrado. Eu a observo na penumbra.

— Largou a família para vir para cá — digo. — Imigrante ilegal. Manda dinheiro para casa na última terça-feira do mês. Tem dois filhos pequenos… o marido viaja muito a trabalho. Ele está em Ohio agora… só passa três ou quatro meses por ano em casa, mas eles ainda se dão muito bem.

Radar se inclina para a frente e dá uma olhada nela por meio segundo.

— Caramba, Q, não seja tão melodramático assim. Ela é secretária de um escritório de advocacia… veja só a roupa dela. Levou cinco anos, mas já está quase terminando o curso de direito que bancou sozinha. E não tem filhos, nem é casada. Mas tem um namorado. Ele é meio irresponsável. Tem medo de compromisso. Branco, um pouco bolado com essa questão meio Febre da Selva.

— Ela está de aliança — o corrijo.

Diferente de Radar, tive bastante tempo para analisá-la. Ela está à minha direita, um pouco abaixo de mim. Consigo vê-la pelo insulfilme, e a observo enquanto ela cantarola alguma música do rádio, os olhos fixos na pista. São tantas pessoas. É tão fácil se esquecer de como o mundo é cheio de pessoas, lotado, e cada uma delas é imaginável e sistematicamente mal interpretada. Acho que esse é um pensamento importante, uma daquelas ideias que o cérebro precisa cozinhar lentamente, na mesma velocidade que as pítons digerem o alimento.

Mas, antes que eu possa elaborar um pouco mais, Radar fala:

— Ela só está de aliança para que nenhum pervertido dê em cima dela —

explica ele.

— Talvez.