Cidades de papel
Nota do autor
Fico pensando que Margo vai entrar no carro, mas não entra, e por fim ela se vira para mim, e vejo seus olhos cheios d’água. O espaço físico entre nós desaparece. Entrelaçamos nossos fios arrebentados uma última vez.
Sinto as mãos dela em minhas costas. E está escuro quando a beijo, mas fico de olhos abertos, e Margo faz o mesmo. Ela está perto o bastante para que eu possa enxergá-la, porque mesmo agora existem sinais visíveis da luz invisível, mesmo à noite naquele estacionamento na periferia de Agloe. Depois de nos beijarmos, nossas testas se tocam e fitamos um ao outro. Sim, consigo enxergá-la quase perfeitamente através desta escuridão rachada.
NOTA DO AUTOR
Descobri o que eram as cidades de papel quando me deparei com uma durante uma viagem no terceiro ano de faculdade. Meu colega de viagem e eu ficamos subindo e descendo um mesmo trecho desolado de uma rodovia em Dakota do Sul, procurando por uma cidade indicada no mapa — pelo que me lembro, o nome era Holen. Até que resolvemos encostar o carro e bater à porta de alguém. A senhora simpática que atendeu já tinha respondido àquela pergunta antes.
Explicou que a cidade pela qual estávamos procurando só existia no mapa.
A história de Agloe, em Nova York — tal como descrita neste livro —, é quase toda verídica. Agloe começou como uma cidade de papel criada como proteção contra quebra de copyright. Mas então pessoas que tinham velhos mapas da Esso começaram a procurar por ela, e alguém acabou construindo uma loja, tornando Agloe um lugar real. O ramo da cartografia mudou muito desde que Otto G.
Lindberg e Ernest Alpers inventaram Agloe, mas muitos cartógrafos ainda incluem cidades de papel como armadilhas contra quebra de copyright, como minha experiência desconcertante em Dakota do Sul pode comprovar.