Cidades de papel

John Green · Capítulo 41 de 53

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Cidades de papel

Hora dez

— Beleza — diz ele.

Ficamos em silêncio. A estrada está vazia agora; só eu e uns caminhões, e parece que meu cérebro está processando informações onze mil vezes mais rápido do que o normal, e então me dou conta de que o que estou fazendo é muito fácil, de que viajar em uma rodovia interestadual é a coisa mais simples e agradável do mundo: tudo que preciso fazer é me manter no meio da faixa e ter certeza de que ninguém chegue perto demais, ou que eu não chegue perto demais de ninguém, e continuar seguindo. Talvez Margo também tenha passado por isto, mas eu nunca teria me sentido assim se estivesse sozinho.

Até que Radar quebra o silêncio:

— Bem, se a gente não vai dormir até as quatro…

— É, a gente devia abrir outra garrafa de Bluefin — termino a frase por ele.

E é o que a gente faz.

HORA DEZ

Está chegando a hora de pararmos pela segunda vez. São 0h13. Sinto como se meus dedos não fossem dedos; é como se eles fossem movimento. Estou batucando no volante enquanto dirijo.

Depois que Radar localiza o posto BP mais próximo com o tablet, optamos por acordar Lacey e Ben.

— Gente, está quase na hora da parada — digo.

Nenhuma reação.

Radar se vira e coloca a mão no ombro de Lacey.

— Lacey, hora de acordar.

Nada.

Ligo o rádio. Sintonizo em uma estação dedicada a músicas antigas. No momento está tocando “Good Morning”, dos Beatles. Aumento o volume. Zero reação. Então Radar aumenta o volume ainda mais. E aí aumenta mais. E, quando chega o refrão, ele começa a cantar junto. E então eu começo a cantar junto. Acho que é meu berro desafinado que, afinal, faz os dois acordarem.

— FAÇA ISSO PARAR! — grita Ben.

Nós diminuímos o volume.

— Ben, a gente vai parar agora. Você precisa mijar?

Ele fica em silêncio por um instante, então nós ouvimos um farfalhar na escuridão lá trás, e eu fico me perguntando se ele tem algum método para verificar se a bexiga está cheia.

— Pensando bem, acho que não — diz ele.

— Beleza, então você fica abastecendo.

— Como único integrante masculino do carro que ainda não mijou aqui dentro, sou o primeiro a ir ao banheiro — diz Radar.

— Shhh — murmura Lacey. — Calem a boca, todos vocês.

— Lacey, você precisa acordar e ir ao banheiro — diz Radar. — A gente vai parar agora.

— Você pode comprar umas maçãs — digo a ela.

— Hum… maçãs — sussurra ela com uma vozinha de criança. — Lacey ama maçãs.

— E depois quem vai dirigir é você — diz Radar. — Então é melhor acordar agora.

Ela senta e, em sua voz normal, diz:

— Já isso Lacey não ama tanto assim.

Pegamos a saída, e o posto fica a um quilômetro e meio da estrada, o que não parece tão longe, mas Radar diz que vamos levar uns quatro minutos para chegar lá. Além disso, o trânsito na Carolina do Sul já nos tomou muito tempo, e Radar avisa que vamos passar por obras na estrada em mais ou menos uma hora — e isso pode ser um problemão. Mas não tenho o direito de me preocupar.

Lacey e Ben já estão acordados o bastante para esperar junto à porta de correr, como da outra vez, e quando freamos do lado da bomba de gasolina todo mundo pula do carro, e eu jogo as chaves para Ben, que as pega no ar.

Radar e eu passamos depressa pelo cara branco do caixa, até que Radar para ao reparar que o cara o está encarando.

— É isso mesmo — diz ele, sem vergonha alguma. — Estou usando uma camiseta HERANÇA, NÃO ÓDIO por cima da minha beca de formatura. Aliás, vocês vendem calças aqui?

— Tem umas calças camufladas perto dos óleos de motor — responde o caixa, parecendo desconcertado.

— Excelente — diz Radar. Então se vira para mim e fala: — Você pode fazer a gentileza de pegar uma calça camuflada para mim? E talvez uma camiseta melhorzinha?

— Pode deixar.

E então descubro que calças camufladas não seguem a numeração normal.

Só têm dois tamanhos: médio e grande. Pego uma média e uma camiseta grande e cor-de-rosa que diz melhor vovó do mundo. E três garrafas de Bluefin.