Cidades de papel
Hora quinze
Passado o choque inicial, começamos a limpeza. Tentamos juntar a maior quantidade possível de cacos das garrafas quebradas de Bluefin em pedaços de papel e depois reuni-los em um único saco de lixo. O carpete do carro está ensopado e grudento de Mountain Dew, Bluefin e Coca Diet, e nós tentamos secá-lo com os poucos guardanapos que temos. Na verdade a sujeira só vai sair de verdade com uma boa lavagem, mas não temos tempo para isso até chegarmos a Agloe. Radar pesquisou o preço para trocar a porta de correr: trezentas pratas, mais a pintura. O custo desta viagem está subindo cada vez mais, mas durante as férias vou juntar dinheiro trabalhando no escritório do meu pai e, de qualquer forma, é pouco pelo resgate de Margo.
O sol está nascendo à nossa direita. Minha bochecha ainda sangra. A bandeira da Confederação grudou no corte, então não preciso mais ficar segurando.
HORA QUINZE
Uma fileira estreita de carvalhos esconde os milharais que se estendem até o horizonte. A paisagem muda, mas só ela. Grandes rodovias como esta transformam os Estados Unidos em um único lugar: McDonald’s, postos BP, Wendy’s. Eu sei que deveria odiar rodovias por isso e ansiar pelos dias despreocupados de outrora, quando se é invadido pelos matizes locais a cada curva — mas tanto faz. Gosto disso. Gosto de estabilidade. Gosto do fato de poder dirigir por quinze horas sem que o mundo mude tanto assim. Lacey me coloca no último banco, com dois cintos de segurança.
— Você precisa descansar — diz ela. — Já passou por muita coisa hoje.
Impressionante como até agora ninguém me culpou por não ter sido mais proativo na batalha contra a vaca.
Eu começo a adormecer ouvindo-os rir uns dos outros — não chego a escutar as palavras exatas, mas sinto o ritmo, os altos e baixos da conversa.