Cidades de papel

John Green · Capítulo 34 de 53

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Cidades de papel

Hora três

— Não — diz Radar. — Isso é apenas trágico.

— Um dia vocês vão aprender a gostar de vestidos. — Lacey sorri. — É legal sentir o ventinho.

— Já sei, já sei! — digo do banco do motorista. — É uma viagem de vinte e quatro horas em uma minivan. É descolado porque viagens de carro são sempre descoladas; é trágico porque o gás carbônico que o carro está emitindo vai destruir o planeta.

Radar diz que não, e eles continuam tentando adivinhar. Sigo dirigindo a cento e quinze quilômetros por hora, torcendo para não levar uma multa e jogando “Adivinhação Metafísica”. E descobrimos que a coisa tragicamente descolada é não termos devolvido nossas becas alugadas a tempo. Passo a toda por um carro de polícia estacionado no canteiro central da rodovia. Aperto o volante com força, certo de que ele vai seguir o carro e nos mandar encostar. Mas ele não faz nada. Talvez saiba que só estou indo rápido porque é realmente

necessário.

HORA TRÊS

Ben voltou para o banco do carona. Ainda estou dirigindo. Estamos todos com fome. Lacey distribui um chiclete para cada um, o que não dá nem para o começo. Ela está fazendo uma lista gigantesca com tudo que vamos comprar no BP em nossa primeira parada. É melhor que seja um posto muito bem abastecido, pois vamos fazer a limpa.

Ben está balançando as pernas sem parar.

— Dá para parar com isso?

— Já faz três horas que estou com vontade de ir ao banheiro.

— Você já falou isso.

— Dá para sentir o xixi chegando até as minhas costelas — diz ele. — Estou literalmente cheio de xixi. Cara, neste instante, setenta por cento do meu corpo é feito de xixi.

— Ahã — respondo, mal abrindo um sorriso. É engraçado e tal, mas estou cansado.

— Eu estou prestes a chorar, e vou chorar xixi.

Dessa vez funciona. Rio um pouco.

Quando olho para Ben de novo alguns minutos depois, ele está com uma das mãos na virilha, apertando a beca com força.

— Que diabos…? — pergunto.

— Cara, eu preciso mijar. Estou tentando me segurar aqui. — E então ele se vira para trás: — Radar, quanto mais até o posto?

— Ainda faltam uns duzentos e trinta quilômetros para conseguirmos manter o máximo de quatro paradas, o que significa mais ou menos uma hora, cinquenta e oito minutos e trinta segundos, se Q mantiver a velocidade.

— Estou mantendo a velocidade! — grito.

Já estamos ao norte de Jacksonville, nos aproximando da Geórgia.

— Não vai rolar, Radar. Ache alguma coisa em que eu possa mijar.

E todo mundo grita junto: NÃO. De jeito nenhum. Segura a onda aí, como um homem. Como uma dama vitoriana protege seu hímen. Com dignidade e

graça, como o presidente dos Estados Unidos deve zelar pelo futuro do mundo livre.

— ALGUÉM ME DÊ ALGUMA COISA OU VOU MIJAR NESTE BANCO.

RÁPIDO!

— Ai, caramba — diz Radar, soltando o cinto de segurança.

Ele pula para a parte de trás e abre o isopor no porta-malas. Então volta para o banco, se inclina para a frente e passa uma cerveja para Ben.

— Graças a Deus essa não precisa de abridor — diz Ben, usando a beca para ajudar a abrir a garrafa.

Ele baixa o vidro e, pelo retrovisor do carona, eu vejo a cerveja sendo derramada na pista. Ben dá um jeito de colocar a garrafa debaixo da beca sem expor as supostamente maiores bolas do mundo, e nós ficamos aqui, sentados, aguardando, com nojo demais para olhar.

— Não dá mesmo para segurar? — estava dizendo Lacey quando ouvimos o barulhinho.

Trata-se de um som que eu nunca tinha ouvido, mas reconheço do mesmo jeito: o barulho de xixi batendo no fundo de uma garrafa. É quase musical. Uma música repugnante e muito agitada. Olho para o lado e vejo o alívio nos olhos de Ben. Ele está sorrindo, olhando para o horizonte.

— Quanto mais você espera, melhor é a sensação — diz ele.

O som muda logo em seguida de xixi batendo na garrafa para gotejar de xixi em cima de xixi. E, lentamente, o sorriso no rosto de Ben desaparece.

— Cara, acho que vou precisar de outra garrafa — diz ele, de repente.

— Outra garrafa, RÁPIDO — grito.

— Outra garrafa chegando!

Em um segundo vejo Radar se debruçando sobre o banco traseiro, a cabeça enfiada no isopor, tirando outra garrafa do gelo. Ele a abre sem usar a beca, baixa um pouco o vidro e joga a cerveja pela janela. Então se inclina para a frente, coloca a cabeça no vão entre os bancos e estende a garrafa para Ben, que está olhando ao redor, em pânico.

— Hum… a troca vai ser um tanto complicada — diz ele.

Desajeitado, ele se atrapalha um pouco, as mãos debaixo da beca, e eu fico tentando não imaginar o que está acontecendo quando surge uma garrafa de Miller Lite cheia de xixi (e que surpreendentemente se parece muito com Miller Lite). Ben coloca a garrafa cheia no porta-copos do carro, pega a garrafa vazia das mãos de Radar e suspira de alívio.

Enquanto isso, o restante de nós fica a contemplar o xixi no porta-copos. A

estrada não é particularmente acidentada, mas o carro deixa a desejar em estabilidade, então o xixi balança dentro da garrafa.

— Ben, se você sujar meu carro novinho, eu vou cortar suas bolas.

Ainda mijando, Ben se vira para mim com um meio sorriso no rosto:

— Cara, você vai precisar de uma faca e tanto.

E então finalmente ouço o barulho do fluxo diminuir. Ele termina e em um movimento rápido joga a segunda garrafa pela janela. A primeira vai logo depois.

Lacey finge que está com ânsia de vômito — ou talvez esteja mesmo.

— Você acordou hoje de manhã e bebeu setenta litros d’água? — pergunta Radar.