Cidades de papel
Hora oito
O banco atrás de mim é o primeiro quarto. É o pior quarto, porque fica perto da cozinha e da sala de estar, onde as pessoas estão acordadas e conversando, e de vez em quando o rádio fica ligado.
Atrás dele fica o segundo quarto, que é mais escuro, silencioso e, em geral, muito melhor do que o primeiro.
E no porta-malas fica a geladeira, ou o isopor, que atualmente contém duzentas e dez garrafas de cerveja nas quais Ben ainda não mijou, os sanduíches de peito de peru que parece muito mais com presunto e algumas Cocas.
A casa como um todo tem muitos pontos positivos. É toda acarpetada. Tem ar-condicionado e aquecimento central. Sistema de som em todos os cômodos. É
verdade que possui apenas dezesseis metros quadrados de área útil. Mas o layout aberto é imbatível.
HORA OITO
Assim que passamos pela Carolina do Sul, flagro Radar bocejando e insisto em trocar de lugar com ele. Eu gosto de dirigir — e este carro pode até ser uma minivan, mas é minha minivan. Radar vai para o primeiro quarto enquanto seguro o volante, pulando depressa sobre a cozinha para assumir o banco do motorista.
Estou descobrindo que viajar ensina muito sobre você mesmo. Por exemplo, nunca pensei que pudesse ser o tipo de pessoa que mija em uma garrafa quase vazia de Bluefin enquanto dirige pela Carolina do Sul a cento e vinte e cinco quilômetros por hora — mas, na verdade, eu sou esse tipo de pessoa. Também nunca soube que quando se mistura um monte de xixi com um restinho de Bluefin, o resultado é uma cor turquesa fosforescente maravilhosa. É tão bonito que tenho vontade de tampar a garrafa e deixá-la no porta-copos para que Lacey e Ben vejam quando acordarem.
Mas Radar discorda de mim.