Cidades de papel

John Green · Capítulo 17 de 53

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Cidades de papel

Capítulo 6

O sinal abriu e Ben pisou fundo. O PNC tremeu como se fosse se desfazer, mas aí começou a andar.

— Não é poesia. Não é metáfora. São instruções. O que a gente tem que fazer é ir até o quarto de Margo e arrancar o trinco da porta dela, arrancar a própria porta do batente.

Radar me fitou pelo retrovisor e eu o encarei de volta.

— Às vezes ele é tão retardado que chega a ser genial — disse ele.

6

Depois de estacionar na entrada de carros lá de casa, atravessamos o gramado que separava a casa de Margo da minha, exatamente como tínhamos feito no sábado. Ruthie atendeu à porta e disse que os pais ficariam fora até as seis.

Myrna Mount weazel correu a nosso redor, agitada; nós subimos a escada. Ruthie trouxe uma caixa de ferramentas da garagem, e então encaramos a porta do quarto de Margo por um tempo. Ninguém ali era muito bom com ferramentas.

— E aí, que diabos a gente faz agora? — perguntou Ben.

— Não fale assim na frente de Ruthie — repreendi.

— Ruthie, você se importa que eu diga “diabos”?

— A gente não acredita no diabo — foi a resposta dela.

— Gente — interrompeu Radar —, a porta.

Ele tirou uma chave Phillips da bagunça na caixa de ferramentas e se ajoelhou para desaparafusar a maçaneta. Peguei uma chave maior e pensei em soltar as dobradiças, mas elas não pareciam estar presas por parafusos. Encarei a porta um pouco mais. Por fim, Ruthie ficou entediada e desceu para assistir à teve.

Radar arrancou a maçaneta e, um de cada vez, fitamos o buraco na madeira mal arrematada e sem pintura. Nenhuma mensagem. Nenhum bilhete.

Nada. Irritado, eu me voltei para as dobradiças, me perguntando como soltá-las.

Abri e fechei a porta, tentando entender como o mecanismo funcionava.

— O poema é tão comprido… — falei. — E o bom e velho Walt nem para incluir uma linha ou duas sobre como arrancar a própria porta do batente.

Só quando Radar falou foi que me dei conta de que ele estava no computador de Margo:

— De acordo com o Omnictionary — disse ele —, isso aí é uma dobradiça macho-fêmea. Para tirar o pino, é necessário usar a chave de fendas feito uma alavanca. Aliás, algum vândalo acrescentou que a dobradiça macho-fêmea funciona melhor se for lubrificada com KY. Ah, Omnictionary. Algum dia estarás livre de erro?

Uma vez que o Omnictionary nos ensinou o que fazer, a tarefa pareceu surpreendentemente fácil. Tirei os pinos das três dobradiças e Ben removeu a porta. Examinei as dobradiças e a madeira exposta do batente. Nada.

— Nada na porta — disse Ben.

Recolocamos a porta no lugar e Radar martelou os pinos com o cabo da chave de fenda.

* * *

Radar e eu fomos jogar Arctic Fury na casa de Ben, que tinha a mesma planta baixa que a minha. A gente estava em uma fase na qual os jogadores em uma geleira têm que atirar com armas de paintball. Quem acerta o saco do adversário ganha pontos extras. Coisa bem sofisticada.

— Cara, com certeza ela está em Nova York — disse Ben.

Eu vi o cano do rifle dele atrás de um muro, mas, antes que eu pudesse me mexer, ele me acertou bem no meio das pernas.

— Merda — murmurei.

— Em todas as outras vezes ela deixou pistas que apontavam para um lugar específico — disse Radar. — Primeiro ela fala com Jase sobre Nova York; e então deixa pistas envolvendo duas pessoas que moraram lá durante a maior parte da vida delas. Realmente faz sentido.

— Cara, é isso que ela quer. — Quando consegui cercar Ben, ele pausou o jogo e acrescentou: — Ela quer que você vá para Nova York. E se ela tiver feito tudo de forma que esse seja o único de jeito de você encontrá-la? Indo até Nova York?

— Ficou maluco? É uma cidade com doze milhões de habitantes.

— Talvez ela tenha um cúmplice aqui — disse Radar. — Alguém para avisar se você for.

— Lacey! — exclamou Ben. — É ela, com certeza! Você tem que pegar um avião para Nova York agora. E, quando Lacey souber, Margo vai buscar você no aeroporto. É isso. Cara, vou levar você para casa e você vai arrumar a mala, aí eu levo você até o aeroporto e você compra uma passagem com seu cartão de crédito para emergências, e aí, quando a Margo descobrir como você é foda, o tipo de foda que Jase Worthington nem sonha ser, nós três vamos para a formatura com as meninas mais gostosas do colégio.

Eu não duvidava de que a todo instante houvesse um voo para Nova York.

Em Orlando, tem voo saindo para qualquer lugar do mundo a todo instante. Mas

eu tinha dúvidas a respeito de todo o resto do plano.

— Se você ligar para Lacey… — comecei.

— Ela nunca vai admitir! — disse Ben. — É só ver todas as pistas falsas que elas plantaram. Elas provavelmente fingiram que estavam brigadas só para você não suspeitar que Lacey é a cúmplice.

— Não sei, não — disse Radar. — Não faz muito sentido.

E ele continuou falando, mas eu não estava prestando atenção. Encarando a tela pausada do jogo, pensei na história toda. Se Margo e Lacey estavam brigadas de mentira, então será que Lacey tinha terminado com o namorado só de mentira também? A preocupação dela… era tudo fingimento? Lacey estava recebendo dúzias de e-mails — nenhum deles com informação relevante — em resposta aos panfletos que a prima havia colocado nas lojas de discos de Nova York. Ela não era cúmplice, e o plano de Ben era ridículo. Ainda assim, a simples ideia de ter um plano me agradava. Só que as aulas acabariam dali a duas semanas e meia, e eu teria que faltar pelo menos dois dias caso fosse mesmo para Nova York. Sem contar que meus pais me matariam se eu usasse o cartão de crédito para comprar uma passagem de avião. Quanto mais eu pensava no plano, mais idiota ele parecia. Ainda assim, se eu pudesse vê-la no dia seguinte…

Mas não.

— Não posso matar aula — disse, afinal. E retomei o jogo. — Tenho prova de francês amanhã.

— Quer saber — disse Ben —, seu romantismo é realmente inspirador.