Cidades de papel
Hora sete
Sorrio, pego o resto da barrinha de cereal no meu colo e dou uma mordida.
Permanecemos em silêncio por um tempo, e fico pensando no jeito como você pode enxergar ou deixar de enxergar as pessoas, pensando na janela escura entre mim e essa mulher que ainda está dirigindo bem ao nosso lado, nós dois dentro de carros com janelas e espelhos para todos os lados, enquanto ela se arrasta conosco pela rodovia engarrafada. Quando Radar volta a falar, percebo que ele também estava pensando:
— O lance do “Aquele cara é um gigolô” é que, no final das contas, ele revela mais sobre a pessoa que está imaginando do que sobre a que está sendo imaginada.
— É — concordo. — Eu estava pensando exatamente nisso.
E não consigo deixar de pensar que Whitman, com toda aquela beleza exagerada, talvez estivesse sendo otimista demais. Conseguimos escutar os outros e podemos viajar até eles sem sair do lugar, imaginá-los, e estamos todos interligados por um sistema radicular meio doido, como o das folhas de relva —
mas o jogo me faz imaginar se somos realmente capazes de nos tornar os outros.
HORA SETE
Finalmente passamos por um caminhão atravessado na pista e voltamos à velocidade normal, mas Radar faz as contas de cabeça e diz que precisamos manter a velocidade média de cento e vinte e cinco quilômetros por hora daqui até Agloe. Já se passou uma hora inteirinha desde que Ben avisou que precisava ir ao banheiro, e o motivo é um só: ele está dormindo. Exatamente às seis da tarde ele tomou um pouco do remédio para gripe. Se deitou no último banco, e então Lacey passou os dois cintos de segurança nele. O que o fez ficar ainda mais desconfortável, mas 1) Era para o próprio bem dele e 2) Todos nós sabíamos que em vinte minutos nenhum desconforto faria diferença, porque ele iria apagar de qualquer jeito. E é assim que ele está agora. Vamos acordá-lo à meia-noite. E eu acabei de colocar Lacey para dormir, às nove da noite, na mesma posição no banco atrás de mim. Vamos acordá-la às duas da manhã. A ideia é dormir em turnos para não ficarmos caindo no sono de manhã, quando estivermos chegando a Agloe.
* * *
A minivan se tornou uma espécie de casa: eu estou no banco do carona, que é a sala de visitas. A meu ver, é o melhor cômodo: tem bastante espaço e o assento é bem confortável.
Sob o banco do carona fica o escritório, que contém o mapa dos Estados Unidos que Ben comprou no posto, o itinerário que eu imprimi da internet e o pedaço de papel no qual Radar fez as contas de velocidade e distância.
Radar está no banco do motorista. A sala de estar. É bem parecida com a sala de visitas, só que você não pode relaxar enquanto está nela. É mais limpa também.
Entre a sala de estar e a sala de visitas, fica o console central, ou a cozinha.
É ali que guardamos um vasto estoque de tirinhas de carne-seca, barrinhas de
cereal e um energético milagroso chamado Bluefin, que Lacey incluiu na lista de compras. O Bluefin vem em uma garrafinha de vidro toda enfeitada e tem gosto de algodão-doce azul. Também deixa a pessoa mais acordada do que qualquer outra coisa na história da humanidade, embora cause alguns tremeliques. Radar e eu concordamos em continuar bebendo Bluefin até duas horas antes do nosso turno de descanso. O meu começa à meia-noite, quando Ben acordar.