Cidades de papel
Hora nove
— Se você não jogar essa merda pela janela agora, termino nossa amizade de onze anos neste instante.
— Não é merda — respondo. — É xixi.
— Agora — ordena ele.
Então descarto a garrafa. Pelo retrovisor do motorista, vejo-a bater no asfalto e explodir feito um balão cheio d’água. Radar também vê.
— Ai, meu Deus — diz ele. — Espero que esta seja uma daquelas situações traumáticas tão nocivas à minha psique que são bloqueadas completamente da memória.
HORA NOVE
Nunca imaginei que fosse possível ficar enjoado de comer barrinhas de cereal. Mas é. Dou apenas duas mordidas na quarta barrinha do dia e meu estômago já está revirando. Abro o console central e jogo a barrinha de volta lá dentro. Nós nos referimos a esta parte da cozinha como despensa.
— Ah, como eu queria que a gente tivesse umas maçãs — diz Radar. — Deus, como seria gostoso comer uma maçã agora!
Suspiro. Bosta de último grupo alimentar. Para completar, embora eu tenha parado de beber Bluefin há algumas horas, ainda estou cheio de tremeliques.
— Ainda estou com uns tremeliques — digo.
— É — concorda Radar. — Não consigo parar de mexer os dedos. — Olho para baixo. Ele está batucando os dedos nos joelhos silenciosamente. — Estou falando sério. Não consigo mesmo parar.
— Certo, eu ainda não estou cansado, então a gente fica acordado até umas quatro da manhã, depois acorda os dois e dorme até as oito.