Cidades de papel
Hora vinte
— Que horas são?
— São 9h42. — Os cabelos dela estão presos em um rabo de cavalo, mas as mechas mais curtas se soltaram. — Como você está? — pergunta ela.
— Com medo — respondo.
Lacey sorri e assente.
— É, eu também. É como se tivesse coisas demais para as quais se preparar.
— Pois é.
— Espero que a gente continue amigos neste verão — diz ela.
E, por algum motivo, isso ajuda. Nunca se sabe o que pode ajudar.
Radar agora está dizendo que o carro devia se chamar Gray Goose. Eu me inclino para a frente de modo que todos possam me ouvir e digo:
— Dreidel. Quanto mais forte girar, melhor.
Ben concorda. Radar vira para trás.
— Acho que você deveria ser nosso escolhedor oficial de nomes.
HORA VINTE
Estou sentado no primeiro quarto com Lacey. Ben dirige, com Radar no carona.
Eu estava dormindo durante a última parada, mas eles compraram um mapa do estado de Nova York. Agloe não está marcada, mas existem apenas cinco ou seis cruzamentos ao norte de Roscoe. Sempre pensei em Nova York como uma metrópole gigante e em constante crescimento, mas estamos em um mar de morros, os quais a minivan vence heroicamente a cada subida. Quando a conversa se acalma e Ben estende a mão em direção ao botão do rádio, eu digo:
— “Adivinhação Metafísica”!
Ben começa:
— O que é, o que é… algo de que gosto muito?
— Ah, eu sei — diz Radar. — O gosto de bolas.
— Não.
— O gosto de pênis? — chuto.
— Não, seu idiota — responde Ben.
— Hum — diz Radar. — O cheiro de bolas?
— A textura de bolas? — tento de novo.
— Fala sério, seus descerebrados, não tem nada a ver com genitália. Lace?
— Hum, a sensação de saber que você acabou de salvar três vidas?
— Não. E acho que as chances de vocês acabaram.
— Tá, o que é, então?
— Lacey — fala ele, e o vejo fitando-a pelo retrovisor.
— Seu burro — digo —, era para ser “Adivinhação Meta física”. Tem que ser uma coisa que não dá para ver.
— E é — diz ele. — É disso que gosto: de Lacey, mas não da Lacey visível.
— Ai, acho que vou vomitar — diz Radar, mas Lacey solta o cinto de segurança, se debruça sobre a cozinha e fala algo ao ouvido de Ben, que fica vermelho em resposta. — Certo, prometo não ser tão meloso — continua. — O
que é, o que é… algo que todos nós estamos sentindo?
— Cansaço extremo? — tento.
— Não, mas é um belo chute.
— É aquela sensação esquisita que a gente tem quando bebe muita cafeína e parece que o corpo inteiro está pulsando, e não só seu coração? — pergunta Lacey.
— Não. Ben?
— Hum, está todo mundo sentindo vontade de ir ao banheiro ou sou só eu?
— Como sempre, é só você. Mais alguém?
Ficamos em silêncio.
— A resposta certa é que todos nós estamos sentindo que vamos ficar muito mais felizes depois de cantar “Blister in the Sun” a capella.
E é verdade. Por pior que seja minha surdez musical, canto tão alto quanto todo mundo. E, quando terminamos, comento:
— O que é, o que é… uma história e tanto?
Ninguém diz nada por um instante. Só existe o som de Dreidel comendo o asfalto enquanto acelera ladeira abaixo. E depois de um tempo, Ben diz:
— É isso, não é?