Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 12 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo X

 

É fácil imaginar como Briant e os seus três companheiros foram recebidos no Sloughi. Gordon, Cross, Baxter, Garnett e Webb abriram-lhes os braços, enquanto os mais pequenos lhes saltavam ao pescoço. Foi uma troca de gritos de alegria e de apertos de mão afetuosos. Phann tomou parte nesta receção cordial e juntou os seus latidos aos hurras das crianças. A ausência parecera tão grande!

— Perder-se-iam... Cairiam nas mãos dos indígenas?... Seriam atacados por alguns carnívoros?... — eis os pensamentos dos que tinham ficado no acampamento do Sloughi.

Mas Briant, Doniphan, Wilcox e Service haviam regressado, e já não se tratava de saber os incidentes da expedição.

Contudo, como estavam muito fatigados por um dia inteiro de marcha, adiou-se a narração para o dia seguinte.

— Estamos numa ilha!

Foi tudo o que Briant pôde dizer, e era o suficiente para o futuro aparecer com todas as suas eventualidades inquietadoras. Gordon, contudo, recebeu a notícia sem mostrar grande desânimo.

— Já o esperava — parecia dizer — e não é coisa que me embarace muito!

No dia seguinte — 5 de abril —, ao amanhecer, Gordon, Briant, Doniphan, Baxter, Cross, Wilcox, Service, Webb, Garnett — e Moko também, que era bom conselheiro — reuniram-se na proa do iate, enquanto os outros dormiam ainda. Briant e Doniphan tomaram a palavra, cada um por sua vez, e puseram os camaradas ao facto do que se passara. Disseram como uma ponte de pedra que atravessava um regato e os restos de uma choça oculta sob um arvoredo espesso lhes tinham feito crer que o território era ou tinha sido habitado. Explicaram que a vasta porção de água, que primeiro haviam tomado por um mar, era apenas um lago, e como novos indícios os tinham conduzido à caverna, próximo do sítio em que o rio saía do lago; como os restos de Francisco Baudoin, francês de origem, tinham sido descobertos, e finalmente, como o mapa, desenhado pelo náufrago, indicava que o território onde o Sloughi se perdera era uma ilha.

Esta narração foi feita minuciosamente, pois Briant e Doniphan não esqueceram o mínimo pormenor. E todos, agora, contemplando aquele mapa, compreendiam bem que a salvação não podia vir-lhes senão de fora!

Contudo, posto que o futuro se apresentasse com as cores mais sombrias e os moços náufragos já não pudessem ter esperança senão em Deus, quem se assustou menos — convém insistir neste ponto — foi Gordon. O moço americano não tinha família que o esperasse na Nova Zelândia.

Por isso, com o seu espírito prático, metódico, organizador, o trabalho de fundar, por assim dizer, uma pequena colónia não tinha nada de assustador para ele. Via nisso uma ocasião de exercer os seus gostos naturais, e não hesitou em animar os seus camaradas, prometendo-lhes uma existência suportável se quisessem auxiliá-lo.

E, em primeiro lugar, visto que a ilha apresentava dimensões bastante consideráveis, parecia impossível que não estivesse indicada no mapa do Pacífico, nas proximidades do continente sul-americano. Contudo, depois de o examinar, reconheceu-se que o Atlas de Stieler não indicava nenhuma ilha de alguma importância fora dos arquipélagos, os quais compreendem as terras fueguianas ou magalânicas, as da Desolação, da Rainha Adelaide, de Clarence, etc. Ora, se a ilha fizesse parte desses arquipélagos, que não são separados do continente senão por canais estreitos, Francisco Baudoin tê-lo-ia decerto indicado no mapa — o que ele não fizera. Portanto, era uma ilha isolada, e devia concluir-se daí que se achava mais ao norte ou mais ao sul daquelas paragens. Mas, sem os dados suficientes, sem os instrumentos necessários, era impossível determinar-lhe a situação no Pacífico.

Por consequência, não havia coisa alguma mais a fazer senão instalarem-se ali definitivamente, antes que o mau tempo o impedisse.

— O melhor é escolhermos para morada a caverna que descobrimos nas margens do lago — propôs Briant. — É um abrigo excelente.

— Tem o tamanho suficiente para nos alojar a todos? — perguntou Baxter.

— Não, com certeza — respondeu Doniphan —, mas creio que será possível fazê-la maior, abrindo outra cavidade no maciço! Temos ferramentas...

— Primeiro, aceitemo-la assim como está — replicou Gordon —, mesmo que fiquemos apertados...

— E, sobretudo — acrescentou Briant —, tratemos de transportar tudo para lá o mais depressa possível!

Era urgente.

A escuna, segundo observou Gordon, tornava-se menos habitável de dia para dia. As últimas chuvas, às quais devia suceder um calor fortíssimo, tinham aberto as costuras do casco e da coberta. As velas esfarrapadas deixavam penetrar o ar e a água no interior. Além disso, no porão formavam-se algumas escavações, através da areia da praia corriam infiltrações, e o costado do iate acentuava-se, ao mesmo tempo que se enterrava visivelmente no solo, que se tornara muito móvel. Se uma tempestade como as que se produzem no período do equinócio, o qual ainda durava, se desencadeasse naquela costa, o Sloughi estava arriscado a ser feito em pedaços em poucas horas.

Tratava-se, portanto, não só de o abandonar sem demora, mas também de o demolir metodicamente, de maneira que se pudesse tirar dele tudo o que fosse útil, traves, pranchas, ferro, cobre, para a instalação em French-Den (Gruta Francesa) — nome que deram à caverna como recordação do náufrago francês.

— E enquanto não pudermos ir para lá — perguntou Doniphan — onde viveremos?

— Debaixo de uma tenda — respondeu Gordon —, uma tenda que havemos de erguer na margem direita do rio, entre as árvores.

— É o melhor que há a fazer — aprovou Briant —, e sem perda de uma hora!

Efetivamente, a demolição do iate, a descarregação do material e das provisões, a construção de uma jangada para transportar a carga, tudo isto exigia um mês de trabalho, pelo menos, e, antes de se abandonar Sloughi-bay, chegariam os primeiros dias de maio, que correspondem aos primeiros dias de novembro no hemisfério boreal, isto é, ao princípio do inverno.

Gordon tivera razão em escolher a margem direita do rio para estabelecer o novo acampamento, porque assim o transporte devia efetuar-se por mar. Não havia outro caminho mais direito nem mais cómodo. Acarretar através da floresta ou pela praia tudo o que ficasse do iate depois da demolição era uma tarefa quase irrealizável.

Pelo contrário, aproveitando, durante umas poucas de marés, o fluxo que se fazia sentir até ao lago, far-se-ia chegar uma jangada ao seu destino, sem muito custo.

Como se sabe, o rio não apresentava obstáculo algum no seu curso superior, nem catadupas, nem barreiras. Fez-se com a canoa nova exploração, com o fim de reconhecer o curso inferior desde o pântano até à embocadura. Briant e Moko puderam certificar-se de que esse curso era igualmente navegável. Portanto, estava indicado o meio de comunicação entre Sloughi-bay e French-Den.

Os dias seguintes foram empregados em dispor o acampamento na margem do rio. Os ramos inferiores de duas faias, ligados por grandes varas aos ramos de uma outra, serviram de apoio à grande vela sobresselente do iate, deixando-a cair dos lados até ao chão. Foi para debaixo desta tenda, presa solidamente por amarras, que se transportaram as camas, os utensílios de mais necessidade, as armas, as munições e os pacotes de provisões. Como a jangada devia ser construída com os destroços do iate, era preciso esperar que a demolição estivesse concluída.

O tempo auxiliou os náufragos, conservando-se seco.

Quando havia algum vento, era de terra, e o trabalho pôde fazer-se em boas condições.

No dia 15 de abril já não estava nada a bordo da escuna, a não ser os objetos muito pesados, que não se podiam retirar senão depois da demolição — entre outros, as barras de chumbo que serviam de lastro, os tanques de água introduzidos no porão, o cabrestante e a cozinha, muito pesados para serem removidos sem um aparelho. Quanto ao aparelho do navio, mastro de traquete, vergas, ovéns e brandais de ferro, cadeias, âncoras, cordames, amarras, cabos e outros objetos, dos quais havia uma provisão considerável, tudo fora transportado para as proximidades da tenda.

É inútil dizer que, embora o trabalho fosse urgente, não se esqueciam de prover às necessidades diárias. Doniphan, Webb e Wilcox consagravam algumas horas à caça dos pombos bravos e dos outros voláteis que vinham do pântano.

Os pequenos entretinham-se a apanhar moluscos, logo que a maré deixava o banco de recifes a descoberto. Jenkins, Iverson, Dole e Costar corriam e mexiam-se como uma ninhada de pintos pelo meio das poças de água. Às vezes molhavam-se até à cintura — pelo que eram repreendidos pelo severo Gordon, enquanto que Briant os desculpava o melhor que podia.

Jaime também trabalhava com os seus camaradas, mas sem tomar parte nas suas gargalhadas.

Tudo corria bem, e com um método onde se sentia a intervenção de Gordon, cujo bom senso prático não errava nunca.

Doniphan admitia-lhe o que não admitiria a Briant nem a nenhum dos outros. Enfim, a união reinava entre os pequenos náufragos: era o principal.

Entretanto era necessário apressarem-se. A segunda quinzena de abril foi menos agradável. A temperatura baixou sensivelmente e muitas vezes, pela manhã, a coluna termométrica desceu a zero. O inverno aproximava-se, e com ele o seu cortejo de granizo, de neve, de rajadas de vento, tão temíveis nas paragens altas do Pacífico.

Por precaução, vestiram-se todos mais confortavelmente, com as meias fortes, as calças de pano grosso e as camisolas de lã, arranjadas para um inverno rigoroso.

Não foi preciso mais do que consultar a carteira de Gordon para se saber onde estavam os vestuários, classificados segundo a qualidade e o tamanho.

Com os mais novos, sobretudo, é que Briant se preocupava. Evitava, sempre que podia, que eles tivessem os pés frios ou se expusessem ao ar quando estavam banhados em suor. A mais leve constipação, obrigava-os a deitarem-se ao lado de um braseiro que estava aceso de dia e de noite.

Dole e Costar estiveram encerrados, por várias vezes, na tenda, à falta de quarto, e Moko não poupou as tisanas, cujos ingredientes eram fornecidos pela farmácia de bordo.

Logo que se tirou do iate tudo o que ele continha, atacou-se o casco, que já estalava por todos os lados.

As folhas do forro de cobre foram tiradas com cuidado a fim de servirem para a instalação em French-Den. Em seguida, as tenazes, as pinças e o martelo fizeram o seu ofício para arrancarem as cintas que os pregos e as cavilhas prendiam ao cavername. Foi um trabalho rude para aquelas mãos inexperientes e para aqueles braços ainda pouco vigorosos. Por isso a demolição fazia-se lentamente, quando, a 25 de Abril, sobreveio uma borrasca que auxiliou os trabalhadores.

Durante a noite, apesar de já ter chegado a estação fria, desencadeou-se uma tempestade muito violenta, que tinha sido anunciada pela perturbação do storm-glass. Os raios abrasaram o espaço, o estampido dos trovões não cessou desde a meia-noite até ao romper do dia — com grande susto dos mais pequenos. Não choveu, felizmente, mas foi necessário, por duas ou três vezes, defender a tenda das fúrias do vento.

Contudo, se ela resistiu, graças às árvores entre as quais estava amarrada, não sucedeu o mesmo ao iate, exposto diretamente ao vento do largo e açoutado pelas ondas embravecidas.

A demolição foi completa.

As cintas do casco foram arrancadas, as cavernas deslocadas, a quilha despedaçada por algumas pancadas violentas do leme.

Não houve nada a lastimar, porque as ondas, ao retirarem-se, não arrastavam senão uma parte destes objetos, e esses mesmos foram detidos pelos recifes. Quanto às ferragens, não era difícil achá-las debaixo da areia.

Foi a esse trabalho que se entregaram nos dias seguintes.

Os barrotes, as pranchas, as barras do porão, os objetos que não se tinham podido arrancar estavam espalhados na praia. Tratava-se apenas de transportá-los para a margem direita do rio, a alguns passos da tenda.

Trabalho penoso, é verdade; mas com o tempo e muita fadiga, conseguiu-se terminá-lo.

Era curioso vê-los todos agarrados a uma peça de madeira, alando ao mesmo tempo, e animando-se uns aos outros com mil gritos. Serviram-se de espeques, que faziam as vezes de alavancas e de bocados de madeira redondos, que facilitavam o rodar das peças maiores e mais pesadas.

O pior foi conduzir ao seu destino o cabrestante, o forno da cozinha e os tanques de folha de ferro para água, cujo peso era bastante considerável.

Se aquelas crianças fossem guiadas por um homem prático! Se tivessem ao seu lado o pai de Briant e o de Garnett, o engenheiro e o capitão, teriam evitado muitos erros que elas cometeram e que deviam ainda cometer.

Contudo, Baxter, que era muito inteligente para tudo o que dizia respeito à mecânica, auxiliou os outros com a sua habilidade. Foi ele quem, aconselhado por Moko, fixou poleames em estacas enterradas na areia — o que duplicou as forças àquela equipagem de rapazes e lhes permitiu que acabassem o trabalho.

No dia 28, à noite, tudo o que restava do Sloughi tinha sido levado para o lugar do embarque. E o mais difícil estava feito, porque o rio é que ia encarregar-se de transportar todo o material para French-Den.

— Amanhã — disse Gordon — começamos a tratar da construção da nossa jangada...

— Sim — apoiou Baxter —, e para não termos o trabalho de deitá-la à água, é melhor construí-la à superfície do rio...

— Não deve ser cómodo! — observou Doniphan.

— Não tem dúvida, experimenta-se! — volveu Gordon.

— Dá-nos mais trabalho a construir, mas em compensação não temos de pensar em deitá-la à água.

Efetivamente, era o melhor que tinham a fazer, e eis como no dia seguinte se começou a construção da jangada, a qual devia ter as dimensões suficientes para receber uma carregação pesada e volumosa.

As traves arrancadas à escuna, a quilha partida em dois bocados, o mastro de traquete, o resto do mastro grande, quebrado três pés acima da coberta, as barras pequenas e a viga mestra, o mastro da proa, a verga de traquete, a retranca da mezena, a carangueja, tudo foi transportado para um ponto da praia que não era coberto pelo mar senão à hora da maré cheia.

Esperou-se esse momento e, quando o fluxo ergueu estas peças, foram lançadas para a superfície do rio. Aí, as mais compridas, reunidas umas às outras pelas mais pequenas atravessadas por cima, foram amarradas solidamente.

Obteve-se assim uma embarcação sólida, com perto de trinta pés de comprimento e quinze de largura. Trabalhou-se sem descanso durante todo o dia, e quando veio a noite estava a embarcação concluída.

Briant teve o cuidado de amarrá-la às árvores da praia, a fim de que a maré, ao encher, não pudesse arrastá-la para cima, para o lado de French-Den, nem a vazante, para baixo, para o lado do mar. , Exaustos, depois de um dia tão trabalhoso, cearam com um apetite formidável e dormiram profundamente até pela manhã.

No dia seguinte, 30, ao amanhecer, todos voltaram ao trabalho. , Tratava-se agora de construir a plataforma da jangada. Para isso serviram as pranchas da coberta e as cintas do costado do Sloughi.

Alguns pregos, enterrados a martelo, e cordas, ligadas debaixo das traves, formaram amarras sólidas que fortaleceram o todo.

Empregaram-se três dias neste trabalho, apesar de todos se apressarem, porque não havia uma hora a perder.

Já apareciam algumas cristalizações à superfície dos charcos, entre os recifes e nas margens do rio. O abrigo da tenda começava a ser insuficiente, apesar do calor do braseiro.

Gordon e os seus companheiros chegavam-se uns para os outros e embrulhavam-se nas mantas, a fim de combaterem o abaixamento da temperatura, o que já era difícil.

Portanto, era necessário ativar a tarefa para começar a instalação definitiva em French-Den. Aí talvez fosse possível afrontar os rigores do inverno, tão rude naquelas latitudes.

É inútil dizer que a plataforma fora construída o melhor possível, para não se desmanchar no caminho — o que faria perder o material no leito do rio. Assim, para evitar essa catástrofe, antes demorar a partida vinte e quatro horas.

— Contudo — observou Briant —, é conveniente não esperar mais do que até 6 de maio.

— Porquê? — perguntou Gordon.

— Porque depois de amanhã é lua-nova — explicou Briant — e as marés vão crescer durante alguns dias. Ora, sendo elas mais fortes, ajudar-nos-ão melhor a subir o curso do rio. Ora pensa bem, Gordon! Se fôssemos obrigados a alar a jangada a cabo ou a empurrá-la a croque, nunca chegaríamos a vencer a corrente!...

— Tens razão — concordou Gordon —, é necessário partir daqui a três dias, o mais tardar!

Todos concordaram em não descansar antes de concluir a tarefa.

No dia 3 de maio tratou-se da carregação, que era necessário arrumar com cuidado, a fim de que a jangada fosse equilibrada convenientemente.

Todos se empregaram nesse trabalho, cada um segundo as suas forças.

Jenkins, Iverson, Dole e Costar foram encarregados de transportar os objetos miúdos, utensílios, ferramentas, instrumentos, para a plataforma, onde Briant e Baxter os dispunham metodicamente segundo as indicações de Gordon.

Quanto aos objetos de peso mais considerável, o fogão, os tanques da água, o cabrestante, as ferragens, as cintas do forro e, depois, o resto dos fragmentos do Sloughi, as cavernas, as cintas do casco, as barras da coberta — foi aos mais velhos que pertenceu o trabalho de embarcar tudo isto, assim como os pacotes de provisões, os barris de vinho, de cerveja e de aguardente, não esquecendo muitas sacas de sal, que tinha sido apanhado entre as rochas da baía.

Para facilitar o embarque, Baxter ergueu dois espeques, sustentados por quatro cordas. Na extremidade desta espécie de cabrilha, ajustou-se uma roldana, devidamente gornida por um cabo, o qual ia passar numa polé, pertencente a um pequeno sarilho do iate — sendo assim os objetos levantados do chão e colocados sem choque na plataforma.

Todos trabalharam com tanta prudência e tanto zelo que no dia 5 de maio, à tarde, cada objeto estava no lugar que lhe pertencia. Faltava só largar as amarras da jangada. Isso far-se-ia no dia seguinte de manhã, pelas oito horas, logo que a maré cheia se manifestasse na embocadura do rio.

Os pequenos náufragos imaginavam que, estando o trabalho terminado, iam gozar até à noite um descanso bem merecido. Mas não foi assim: uma proposta de Gordon deu-lhes ainda ocupação para o resto do dia.

— Meus amigos — disse ele —, como vamos para longe da baía, não podemos observar tão bem o mar, e, se aparecesse algum navio deste lado da ilha, não podíamos fazer-lhe sinais. Parece-me, pois, conveniente colocar um mastro na penedia, e içar aí um dos nossos pavilhões.

É bastante para atrair a atenção dos navios que passarem ao largo.

Todos aceitaram a proposta, e o mastro da gávea da escuna, que não tinha sido empregado na construção da jangada, foi arrastado para junto da penedia, cujo talude, próximo da margem do rio, apresentava um declive muito praticável. Contudo, tiveram de empregar os maiores esforços para transpor o cerro tortuoso que ia ter ao cume.

Quando chegaram lá, enterraram o mastro no chão, solidamente. Em seguida, Baxter içou o pavilhão inglês, por meio de uma driça, no momento em que Doniphan o saudava com um tiro de espingarda.

— Olha — disse Gordon a Briant —, Doniphan acaba de tomar posse da ilha, em nome da Inglaterra!

— Se ela não lhe pertencesse já é que seria para admirar! — respondeu Briant.

Gordon não pôde deixar de fazer um gesto de aborrecimento, porque, pelo modo como ele falava às vezes da “sua ilha”, parecia que já a considerava americana.

No dia seguinte, ao nascer do Sol, todos estavam de pé. Tratou-se de desmanchar a tenda e de transportar as camas para a jangada, onde se estenderam velas para as protegerem até ao seu destino. Do tempo não parecia haver nada a recear. Contudo, uma mudança na direção do vento podia trazer para a ilha os vapores do largo.

Às sete horas estava tudo concluído.

Os objetos tinham sido colocados na plataforma, de maneira que os pequenos náufragos pudessem instalar-se aí por dois ou três dias, sendo necessário.

Quanto às provisões de boca, Moko pusera de parte o suficiente para a travessia, sem que fosse preciso lume.

Às oito horas e meia todos entraram para a jangada. Os mais velhos iam na proa, armados de croques e de espeques — único meio que tinham de dirigi-la porque um leme não teria ação na corrente.

Um pouco antes das nove horas, quando a maré começava a encher, sentiu-se um estalido no madeiramento da jangada, cujas peças balouçavam dentro das amarras. Mas, depois deste primeiro esforço, não houve mais nada a recear.

— Atenção! — gritou Briant.

— Atenção! — repetiu Baxter.

Estavam ambos pegando nas amarras que seguravam a jangada pela proa e pela ré.

— Estamos prontos! — gritou Doniphan, que estava ao lado de Wilcox na parte anterior da plataforma.

Em seguida, depois de ter verificado que a jangada derivava sob a ação da maré:

— Larga! — ordenou Briant.

A ordem foi executada imediatamente, e o aparelho, depois de livre, subiu lentamente entre as duas margens, arrastando a canoa que levava a reboque.

Foi uma alegria geral quando todos viram a pesada máquina em movimento.

Se tivessem construído um navio de alto bordo, não estavam mais satisfeitos! Perdoe-se-lhes este pequeno sentimento de vaidade!

Como se sabe, a margem direita, orlada de árvores, era muito mais elevada do que a margem esquerda, a qual não era mais do que uma passagem estreita que se estendia ao longo do pântano próximo. Briant, Baxter, Doniphan, Wilcox e Moko empregaram todos os seus esforços para afastarem dela a jangada — porque a profundidade da água permitia que seguissem a margem oposta do rio.

A jangada conservou-se, portanto, tanto quanto foi possível, junto da margem direita, ao longo da qual a corrente do fluxo corria mais diretamente, e que podia apresentar um ponto de apoio aos croques.

Duas horas depois da partida, o caminho percorrido podia calcular-se em uma milha, pouco mais ou menos. Não tinha havido o mínimo choque, e, nestas condições, a embarcação devia chegar sem dano a French-den.

Todavia, segundo o cálculo feito anteriormente por Briant, como, por um lado, aquele curso de água devia medir seis milhas desde o lago até à sua embocadura em Sloughi-bay, e, por outro, a jangada não podia percorrer senão duas milhas enquanto durava a maré cheia, ser-lhes-iam precisas umas poucas de marés para chegarem ao seu destino.

Efetivamente, pelas onze horas, a vazante começou a levar as águas para baixo, e tratou-se imediatamente de amarrar a jangada, a fim de não a deixar derivar para o mar. Poderiam continuar a avançar quando a maré da noite começasse a encher; mas seria aventurarem-se no meio da escuridão.

— Isso parece-me muito importante — observou Gordon —, porque a jangada expor-se-ia a choques que podiam demoli-la. Na minha opinião, é melhor esperarmos até amanhã, para se aproveitar a maré do dia!

Esta proposta não podia deixar de merecer a aprovação geral.

Mesmo que se precisasse de mais vinte e quatro horas, essa demora era preferível ao risco de comprometer a segurança da preciosa carregação entregue à corrente do rio.

Portanto, era necessário passarem o resto do dia e a noite toda naquele lugar. Por isso Doniphan e os seus companheiros de caça habituais, acompanhados por Phann, desembarcaram na margem direita, prometendo que voltariam antes da noite.

Gordon recomendara-lhes que não se afastassem muito, o que eles prometeram. Quando voltaram, traziam dois casais de abetardas bem gordas e uma enfiada de tinamus magníficos.

Por conselho de Moko, guardou-se esta caça para a primeira refeição, almoço, jantar ou ceia, que houvesse no refeitório de French-den.

Doniphan não descobrira, durante a sua excursão, indício algum que revelasse a presença, antiga ou recente, de seres humanos naquela parte da floresta. A respeito de animais, tinha avistado alguns voláteis de grande estatura que fugiam por entre o arvoredo, mas não pudera reconhecer a que espécie pertenciam.

Passou o dia, e durante a noite Baxter, Webb e Cross estiveram de vigia, prontos, conforme o caso, ou a apertar as amarras da jangada, ou a alargá-las um pouco, no momento da transposição da maré. Tudo correu bem. No dia seguinte, pelas nove horas e três quartos, logo que a maré começou a encher, a navegação continuou nas mesmas condições da véspera. A noite estivera fria. O dia esteve do mesmo modo.

Já era tempo de chegarem ao seu destino. O que seria feito da jangada se as águas do rio gelassem, se alguns pedaços de gelo, vindos do lago, se dirigissem para Sloughi-bay?

Era isto um motivo de inquietação, de que não podiam ver-se livres senão depois da chegada a French-den.

E, entretanto, era Impossível Ir mais depressa do que o fluxo; também era impossível vencer a corrente quando a maré começava a descer; por consequência não se podia transpor mais de uma milha em cada hora e meia, e foi o que se percorreu naquele dia.

Pela uma hora da tarde pararam à altura do barranco que Briant contornara para regressar a Sloughi-bay. Aproveitou-se a ocasião para explorar a parte marginal desse barranco.

Durante milha e meia, a canoa, onde iam Moko, Doniphan e Wilcox, dirigiu-se para o norte, e não parou senão no momento em que lhe faltou a água. O barranco era como que um prolongamento do pântano que se estendia para além da margem esquerda, e parecia ter caça aquática em abundância.

Doniphan matou algumas narcejas, que foram juntar-se às abetardas e aos tinamus na despensa de bordo.

A noite foi tranquila, mas glacial, com uma brisa áspera, que soprava através do vale. Formaram-se até alguns pedaços de gelo flutuantes, que se quebravam ou dissolviam ao mínimo choque.

Apesar de todas as precauções, e de cada um se agachar debaixo das velas, não se estava bem na jangada. Alguns dos mais pequenos, Jenkins e Iverson, principalmente, não puderam vencer o mau humor, e lastimaram-se por terem deixado o acampamento do Sloughi. Foi preciso Briant incutir-lhes coragem com palavras animadoras.

Finalmente, no dia seguinte, de tarde, com o auxílio da maré, que durou até às três horas e meia da noite, a jangada chegou ao lago e atracou junto da praia, em frente da porta de French-den.