Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 27 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo X

 

No dia seguinte, depois de uma noite durante a qual Moko estivera de guarda a French-den, os moços colonos, fatigados pelas comoções da véspera, acordaram muito tarde. Logo que se levantaram, Gordon, Doniphan, Briant e Baxter foram para Store-room, onde Kate andava entretida com os trabalhos do costume.

Aí, conversaram acerca da situação, que, realmente, era pouco tranquilizadora.

Efetivamente — assim como o observou Gordon —, já havia mais de quinze dias que Walston e os seus companheiros estavam na ilha. Portanto, se as reparações da chalupa não estavam ainda feitas, era porque lhes faltavam as ferramentas indispensáveis para um trabalho daquele género.

— Deve ser isso — disse Doniphan —, porque, afinal, aquela embarcação não estava muito deteriorada. Se o nosso Sloughi não tivesse ficado bastante maltratado já o tínhamos posto em estado de navegar!

Contudo, se Walston ainda não partira, também não parecia ter ideias de se estabelecer na ilha Chairman, pois, nesse caso, já teria feito algumas excursões ao interior e visitado French-den.

E, a propósito disso, Briant falou do que observara durante a sua ascensão com respeito às terras que deviam existir a pouca distância dali, a leste da ilha.

— Devem lembrar-se — disse ele — que, por ocasião da nossa expedição à embocadura do East-river, avistei uma mancha esbranquiçada, um pouco acima do horizonte, e que não sabia como havia de explicar a sua presença...

— Contudo, Wilcox e eu não avistámos nada que se parecesse com isso — observou Doniphan —, apesar de procurarmos muito...

— Moko viu-a tão claramente como eu — respondeu Briant.

— Pode ser! — replicou Doniphan. — Mas o que te leva a crer, Briant, que estamos próximos de um continente ou de um grupo de ilhas?

— O seguinte — informou Briant. — Ontem, enquanto observava o horizonte naquela direção, avistei um clarão muito visível fora dos limites da Ilha, e que só pode ser causado por um vulcão em erupção. Concluo daí que existe uma terra próxima nestas paragens. Ora, os marinheiros do Severn não podem ignorá-lo, e hão de fazer toda a diligência para lá chegarem...

— Com certeza! — concordou Baxter. — Que ganhavam eles em ficar aqui? Se não estamos livres da sua presença é porque ainda não puderam calafetar a chalupa!

O que Briant acabava de participar aos seus camaradas era extremamente importante. Certificava-os de que a ilha Chairman não estava isolada — como eles julgavam — naquela parte do Pacífico. Mas o que agravava as coisas é que, segundo indicava a fogueira do acampamento, Walston estava agora nos arredores da embocadura do East-river. Depois de ter abandonado a costa de Severn-shores, aproximara-se uma dúzia de milhas. Agora, bastava-lhe subir o East-river para avistar o lago, e rodear este pelo sul para descobrir French-den.

Briant teve, pois, de tomar as maiores precauções em vista desta eventualidade. As excursões foram reduzidas ao estritamente necessário, sem mesmo chegarem, na margem esquerda do rio, até aos maciços de Bog-woods. Baxter ocultou as paliçadas do cerrado debaixo de uma camada de ervas bravas, assim como as entradas do Hall e de Store-room. Finalmente, foi proibido aparecer na parte compreendida entre o lago e Auckland-hill!. Realmente, terem de submeter-se a precauções tão rigorosas, eram bastantes contrariedades a acrescentar às dificuldades da situação!

Nesta época houve ainda outros motivos de inquietação. Costar foi atacado de febres que lhe puseram a vida em perigo. Gordon teve de recorrer à farmácia da escuna, não sem receio de cometer algum erro! Felizmente Kate fez pelo pequenito o que a mãe dele teria feito. Tratou-o com a afeição prudente que é como que um instinto das mulheres, e não se afastou dele noite e dia. Graças à sua dedicação a febre acabou por ser debelada, e a convalescença, tendo-se declarado francamente, seguiu o seu curso com regularidade. Costar tinha estado em perigo de morte? Seria difícil emitir opinião a esse respeito. Mas, se não fossem os cuidados inteligentes de Kate, talvez a febre tivesse prostrado o pequeno enfermo.

Sim! Se Kate não estivesse ali, quem sabe o que teria sucedido? A excelente criatura concentrava nos pequenos da colónia toda a ternura do seu coração bondoso, e nunca lhes regateava carícias.

— Sou assim, meus papooses! — dizia ela. — O meu génio é trabalhar, arrumar e cozinhar!

E, realmente, quase todas as mulheres são assim!

O que mais preocupava Kate era conservar o melhor possível a roupa branca de French-den. E estava bem usada essa roupa, que servia havia perto de vinte meses! Como haviam de substituí-la quando ela já não pudesse servir de modo nenhum? E o calçado, apesar de o pouparem quanto podiam e de ninguém se importar de andar descalço quando o tempo o permitia, também estava em muito mau estado! Tudo isto preocupava a previdente mulher.

Na primeira quinzena de novembro houve aguaceiros frequentes. Depois, a partir do dia 17, o barómetro marcou bom tempo fixo, e o período do calor estabeleceu-se com bastante regularidade.

Árvores, arbustos, toda a vegetação era verdura e flores. Os moradores habituais dos South-moors tinham voltado em grande número. Que desgosto profundo para Doniphan ver-se privado das suas caçadas através dos pântanos, e para Wilcox, impossibilitado de não poder armar laços, com receio de que fossem vistos das margens inferiores do Family-lake! Aqueles voláteis não só abundavam naquele lado da ilha, mas alguns até caíram nas armadilhas, nas proximidades de French-den.

Um dia Wilcox achou, entre estes últimos, um dos que, no inverno, se tinham dirigido para os países desconhecidos do Norte. Era uma andorinha, que trazia ainda o saquinho preso debaixo da asa. O saco conteria algum bilhete dirigido aos moços náufragos do Sloughi? Não!... O mensageiro voltava sem resposta!

Quantas horas desocupadas se passavam agora no hall! Baxter, encarregado do jornal quotidiano, já não tinha incidente algum a relatar. E, antes de quatro meses, ia começar o terceiro inverno para os moços colonos da ilha Chairman!

Podia-se, pois, observar, não sem profunda ansiedade, o desânimo que se apoderava dos mais enérgicos — à exceção de Gordon, sempre absorvido nos pormenores da sua administração. Briant também às vezes se sentia abatido, apesar de empregar toda a sua energia para não o dar a conhecer. Tentava reagir excitando os seus camaradas para continuarem os estudos e fazerem conferências e leituras em voz alta. Recordava-lhes constantemente o seu país, as suas famílias, afirmando-lhes que as tornariam a ver! Enfim, fazia o que estava ao seu alcance para os animar, mas sem o conseguir, e o seu maior receio era que o desespero o vencesse. Não sucedeu assim. Além disso, factos extremamente graves obrigaram todos a arriscar as suas pessoas.

No dia 21 de novembro, pelas duas horas da tarde, Doniphan estava entretido a pescar nas margens do Family-lake quando os gritos dissonantes de algumas dúzias de pássaros que esvoaçavam por cima da margem esquerda do rio lhe atraíram a atenção. Se aqueles voláteis não eram corvos — com os quais se pareciam um pouco —, mereciam pertencer a essa espécie voraz e grasnadora.

Doniphan não se teria preocupado com o bando se as maneiras dele não o surpreendessem. Efetivamente, aquelas aves descreviam grandes órbitas, cujo raio diminuía à medida que se aproximavam da terra; depois, reunidas num grupo compacto, precipitaram-se para o solo.

Aí, os seus gritos redobraram; mas foi em vão que Doniphan procurou distingui-las no meio das altas ervas entre as quais tinham desaparecido.

Lembrou-se então de que naquele lugar devia existir algum cadáver de animal. Por Isso, com curiosidade de saber o que era, voltou para French-den e pediu a Moko que o transportasse com a canoa para o outro lado do rio Zealand.

Embarcaram ambos, e dez minutos depois introduziam-se por entre os maciços de ervas na praia. Os voláteis fugiram Imediatamente, protestando, por meio de gritos, contra os importunos que iam assim perturbar-lhes o repasto.

Naquele lugar jazia o corpo de um guanaco pequeno, morto havia poucas horas, pois ainda não perdera todo o calor vital.

Doniphan e Moko, com poucos desejos de aproveitarem para a despensa os restos dos jantares dos carnívoros, dispunham-se a abandonar-lhos quando se apresentou uma questão: como e porque caíra o guanaco à entrada do pântano, longe das florestas de leste, que os seus congéneres não costumavam abandonar? Doniphan examinou o animal. Tinha, na ilharga, uma ferida ainda ensanguentada — ferida que não tinha sido feita pelos dentes de um jaguar ou de outro carnívoro.

— Este guanaco foi morto com um tiro! — observou Doniphan.

— Aqui está a prova! — confirmou o grumete, que, depois de ter revolvido a fenda com uma faca, fez sair de lá uma bala.

Esta bala era mais do calibre das espingardas de bordo que do das espingardas de caça. Não podia ter sido disparada senão por Walston ou algum dos seus companheiros.

Doniphan e Moko abandonaram o corpo do guanaco aos voláteis e voltaram para French-den, onde conferenciaram com os seus camaradas.

Que o guanaco tinha sido ferido por um dos marinheiros do Severn não admitia dúvida, pois nem Doniphan nem nenhum deles disparara um tiro de espingarda havia mais de um mês. O que era preciso saber era em que momento e em que lugar recebera o guanaco aquela bala.

Examinadas todas as hipóteses, pareceu admissível que o facto se tivesse dado cinco ou seis horas antes — lapso de tempo necessário para o animal, depois de ter atravessado os Down-lands, poder chegar a alguns passos do rio. Por consequência, naquela manhã, um dos homens de Walston devia ter caçado aproximando-se da ponta meridional do Family-lake, e o bando, depois de ter atravessado o East-river aproximava-se a pouco e pouco dos lados de French-den.

De maneira que a situação agravava-se, ainda que o perigo talvez não fosse iminente, pois ao sul da ilha estendia-se aquela vasta planície, cortada por regatos, salpicada de lagos e de dunas, e onde a caça não devia ser bastante para a alimentação diária do bando. Portanto, era provável que Walston não se tivesse aventurado através dos Down-lands. Além disso, não se ouvira nenhuma detonação suspeita, que o vento poderia levar até Sport-terrace e havia razão para esperar que a posição de French-den ainda não tivesse sido descoberta.

Contudo, foi necessário tomarem novas precauções, ainda mais rigorosas. Para haver alguma probabilidade de se poder repelir uma agressão, era necessário que os moços colonos não fossem surpreendidos fora do hall.

Três dias depois as apreensões foram aumentadas por um facto mais significativo, e reconheceu-se que a segurança estava mais comprometida que nunca.

No dia 24, pelas nove horas da manhã, Briant e Gordon dirigiram-se para além do rio Zealand, a fim de verem se não seria conveniente erguer uma espécie de paredão através do atalho estreito que circulava entre o lago e o pântano. Doniphan e os melhores atiradores podiam assim emboscar-se rapidamente no caso de descobrirem a tempo a chegada de Walston.

Estavam ambos a trezentos pés além do rio quando Briant pôs o pé em cima de um objeto, que esmagou. Não fez caso, pensando que era um dos milhares de mariscos lançados pelas grandes marés, quando invadiam a planície dos South-moors. Mas Gordon, que ia atrás, parou e disse:

— Espera, Briant, espera!

— O que há?

Gordon curvou-se e apanhou o objeto esmagado.

— Olha! — disse ele.

— Não é um marisco, isso — respondeu Briant —, é...

— É um cachimbo!

Efetivamente, Gordon tinha na mão um cachimbo enegrecido, cujo tubo fora partido rente ao pipo.

— Visto que nenhum de nós fuma — disse Gordon —, este cachimbo foi perdido por...

— Por um dos homens do bando — concluiu Briant —, a não ser que pertencesse ao náufrago francês, que nos precedeu na ilha Chairman...

Não! Aquele pipo, cujas fraturas eram recentes, nunca podia ter pertencido a Francisco Baudoin, morto havia mais de vinte anos. Devia ter caído recentemente naquele lugar, e o tabaco, que ainda aderia a ele, demonstrava-o de maneira indiscutível. Portanto, alguns dias antes, algumas horas talvez, um dos companheiros de Walston, ou ele mesmo, tinha avançado até àquela margem do Family-lake.

Gordon e Briant voltaram imediatamente para French-den.

Aí, Kate, a quem Briant mostrou o pipo do cachimbo, afirmou que o tinha visto nas mãos de Walston.

Assim, era evidente que os malfeitores haviam tomado a extremidade do lago. Talvez mesmo, durante a noite, tivessem avançado até à margem do rio Zealand. E se French-den tinha sido descoberto, se Walston sabia qual era o pessoal da colónia, não era natural que se lembrasse de que havia ali ferramentas, instrumentos, munições, provisões, tudo o que lhe faltava a ele, ou quase tudo, e que a sete homens vigorosos não metiam medo uns quinze rapazitos — sobretudo se conseguissem surpreendê-los? Em todo o caso, a verdade era que o bando se aproximava cada vez mais.

Perante estas eventualidades ameaçadoras, Briant, de acordo com os seus camaradas, resolveu organizar uma inspeção mais ativa. Durante o dia, estabeleceu-se um posto de observação permanente no cume de Auckland-hill, a fim de que qualquer aproximação suspeita, do lado do pântano, do lado de Traps-woods ou do lado do lago, fosse assinalada imediatamente.

Durante a noite, dois dos mais velhos deviam ficar de guarda à entrada do hall e de Store-room, para espiarem os ruídos do exterior. As duas portas foram consolidadas por meio de espeques, e podia-se barricá-las num momento com grandes pedras que se amontoaram no interior de French-den. Quanto às janelas estreitas, abertas na parede, e que serviam de canhoneiras aos dois canhões pequenos, uma defendia a fachada do lado do rio Zealand e a outra a do lado de Family-lake. Além disso, as espingardas e os revólveres estavam prontos para se dispararem ao mínimo alarme.

Kate aprovava todas estas precauções, está claro. Esta mulher enérgica não dava a conhecer as suas inquietações — bem justificadas, infelizmente! — quando pensava nas incertezas de uma luta com os marinheiros do Severn. Conhecia-os, a eles e ao chefe. Não tinham armas suficientes, é verdade, mas não podiam surpreendê-los, apesar da maior vigilância? E que adversários encontravam? Alguns rapazes, o mais velho dos quais ainda não tinha dezasseis anos! Realmente era um partido muito desigual! Ah! Porque não estava o corajoso Evans com eles? Porque não seguira Kate? Talvez soubesse organizar melhor a defesa e pôr French-den em estado de resistir aos ataques de Walston.

Infelizmente, Evans devia estar guardado à vista, se os seus companheiros não se tivessem já desembaraçado dele, como de uma testemunha perigosa, da qual já não precisavam para conduzir a chalupa às terras vizinhas! Assim refletia Kate. Não era por ela que temia, era por aquelas crianças, que velava constantemente, secundada por Moko, cuja dedicação igualava a sua.

Estavam a 27 de novembro. O calor era de abrasar, havia dois dias. Sobre a ilha passavam grandes nuvens, carregadas, e alguns bramidos longínquos anunciavam a tempestade. O storm-glass indicava a luta dos elementos.

Naquela noite, Briant e os seus camaradas entraram no hall mais cedo do que de costume, depois de terem tomado a precaução — o que faziam agora todos os dias — de puxar a canoa para o interior de Store-room. Em seguida fecharam bem as portas, e esperaram a hora do descanso, depois de rezarem em comum e pensarem nas famílias que estavam longe.

Cerca das nove horas e meia a tempestade estava em toda a sua força. O reflexo intenso dos relâmpagos iluminava o hall, penetrando através das janelas. As detonações dos raios propagavam-se sem interrupção e o maciço de Auckland-hill parecia tremer, repercutindo aqueles ruídos atroadores. Era um desses meteoros sem chuva nem vento, que são os mais terríveis, porque as nuvens imóveis descarregam no mesmo lugar toda a matéria elétrica acumulada nelas, e às vezes uma noite inteira não é bastante para esgotá-la.

Costar, Dole, Iverson e Jenkins, encolhidos dentro das camas, sobressaltavam-se ao ouvir aqueles estalidos formidáveis de pano rasgado que indicam a proximidade das descargas. E, contudo, não tinham nada a recear naquela caverna inabalável. O raio podia ferir mil vezes o cume da penedia, mas não atravessaria nunca as paredes de French-den, tão impermeáveis ao fluido elétrico como inacessíveis às tempestades. Briant, Doniphan ou Baxter levantavam-se de tempos a tempos, entreabriam a porta, e fechavam-na logo, meio cegos pelos relâmpagos, depois de lançarem um olhar rápido para o exterior. O espaço estava abrasado, e o lago, refletindo as fulgurações do firmamento, parecia desdobrar uma enorme toalha de chamas.

Das dez para as onze horas, os relâmpagos e os trovões seguiam-se sem descanso. Só um pouco antes da meia-noite é que principiaram a abrandar. Intervalos cada vez maiores separavam os trovões, cuja violência diminuíra com a distância. O vento ergueu-se então, espalhando as nuvens que se tinham aproximado do solo, e a chuva começou a cair em torrentes.

Os pequenos sossegaram, então, um pouco. Duas ou três cabeças, escondidas debaixo dos cobertores, atreveram-se a aparecer, embora fossem horas de dormir. Briant e os outros, depois de tomarem as precauções do costume, iam meter-se na cama quando Phann manifestou sinais de inexplicável agitação. Levantava-se sobre as patas traseiras, corria para a porta do hall e soltava grunhidos surdos e contínuos.

— Phann ouviria alguma coisa? — disse Doniphan, tendo sossegado o cão.

— Já em muitas circunstâncias — observou Baxter — lhe temos notado esta agitação singular, e o inteligente animal nunca se enganou!

— É preciso saber o que isto significa, antes de nos deitarmos — declarou Gordon.

— Sim — aprovou Briant —, mas não deixemos sair ninguém, e estejamos prontos para a defesa!

Cada um pegou na sua espingarda e no seu revólver. Em seguida, Doniphan encostou-se à porta do hall e Moko à de Store-room. Ambos encostaram o ouvido às gretas, mas não surpreenderam ruído algum, apesar de Phann continuar com a mesma agitação, e começar até a ladrar com tal violência que não foi possível sossegá-lo. Era uma circunstância muito desagradável. Se, nos momentos de calma, era possível ouvir o ruído de passos na praia, com mais razão se ouviria lá fora o ladrar de Phann.

De repente, ouviu-se uma detonação, que não se podia confundir com o estrondo dos trovões. Era um tiro que acabava de ser disparado a menos de duzentos passos de French-den.

Todos se conservaram na defensiva. Doniphan, Baxter, Wilcox e Cross, armados de espingardas e colocados junto das duas portas, estavam prontos para fazer fogo sobre quem tentasse arrombá-las. Os outros começavam a especá-las com pedras acumuladas para esse fim, quando uma voz gritou de fora:

— Socorro!... Socorro!...

Estava ali um ser humano, em perigo de morte, com certeza, e pedindo auxílio...

— Socorro! — repetiu a voz, e desta vez a poucos passos da caverna.

Kate, junto da porta, escutava...

— É ele! — exclamou.

— Ele?... — disse Briant.

— Abram! Abram!... — repetia Kate.

A porta abriu-se e um homem, escorrendo água, precipitou-se no hall.

Era Evans, o mestre do Severn.