Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 29 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo XII

 

Um estreito, com trezentas e oitenta milhas de comprimento pouco mais ou menos, e cuja curva se desenha de oeste para leste, desde o cabo das Virgens, no Atlântico, até ao cabo dos Pilares, no Pacífico — emoldurados em costas muito acidentadas, dominado por montanhas de três mil pés acima do nível do mar, com baías no fundo das quais se multiplicam os portos de refúgio, rico em aguadas, onde os navios podem, sem custo, renovar a sua provisão de água, ladeado de florestas espessas onde a caça é abundante, ressoando com o estrondo das cascatas que se precipitam aos milhares nas suas enseadas numerosas, apresentando aos navios que vêm de leste ou de oeste uma passagem mais curta do que a de Lemaire, entre a Terra dos Estados e a Terra de Fogo e menos açoutada pelas tempestades do que a do cabo de Horn —, tal é o estreito de Magalhães, que o ilustre navegador português descobriu no ano de 1520.

Os Espanhóis, os únicos que visitaram as terras magalânicas durante meio século, fundaram, na península de Brunswick o Porto da Fome. Aos Espanhóis sucederam-se os ingleses, com Drake, Cavendish, Chidley e Hawkins. Depois os holandeses, com de Weerth, de Cord, de Noort, com Lemaire e Schouten que descobriram, em 1610, o estreito deste nome.

Finalmente, de 1696 a 1712, apareceram lá os Franceses, com Degennes, Beauchesne-Gouin e Frezier, e desde essa época aquelas paragens abriram-se aos navegadores mais célebres do fim do século, como Anson, Cook, Byron, Bougainville e outros.

Desde então, o estreito de Magalhães tornou-se um caminho frequentado para a passagem de um oceano para outro — sobretudo desde que a navegação a vapor,, que não conhece vento desfavorável nem correntes contrárias, permitiu que o atravessassem em condições de navegação excecionais.

Tal é, pois, o estreito que — no dia seguinte, 28 de novembro — Evans mostrou, no mapa do Atlas de Stieler, a Briant, a Gordon e aos camaradas destes.

Se a Patagónia — a última província da América do Sul —, a Terra do Rei Guilherme e a península de Brunswiick formam o limite setentrional do estreito, ao sul é este cercado pelo arquipélago magalânico, que compreende vastas ilhas, a Terra de Fogo, a Terra da Desolação, as ilhas Clarence, Hoste, Gordon, Navarin, Wollaston, Stewart e muitas outras menos importantes, até ao último grupo das Hermittes, a maior das quais entre os dois oceanos é apenas o último cume da cordilheira dos Andes e chama-se o cabo Horn.

A leste, o estreito de Magalhães alarga-se por uma ou duas embocaduras, entre o cabo das Virgens, da Patagónia, e o cabo Espírito Santo, da Terra de Fogo. Mas não sucede o mesmo a oeste — o que Evans fez observar. Desse lado, ilhotas, ilhas, arquipélagos, estreitos e canais misturam-se sem limites. É por um canal situado entre o promontório dos Pilares e a extremidade meridional da grande ilha da Rainha Adelaide que o estreito desemboca no Pacífico. Por cima desenvolve-se uma série de ilhas, caprichosamente agrupadas, desde o estreito de Lord Nelson até ao grupo dos Chonos e dos Chiloe, limitando a costa chilena.

— E agora — acrescentou Evans — veem, para lá do estreito de Magalhães, uma ilha separada por simples canais da ilha Cambridge, ao sul, e das ilhas Madre de Deus e Chatam, ao norte? Pois essa ilha, a cinquenta e um graus de latitude, é a ilha Hanovre, a que os senhores chamam a ilha Chairman, e onde vivem há mais de vinte meses!

Briant, Gordon e Doniphan, inclinados sobre o atlas, olhavam cheios de curiosidade para essa ilha que tinham julgado afastada de todas as terras e que tão próxima estava da costa americana!

— Pois quê! — disse Gordon — não estamos separados da Patagónia senão por alguns braços de mar?

— Sim, meus rapazes — informou Evans. — Mas entre a ilha Hanovre e o continente americano não há senão ilhas tão desertas como esta. E quando tivéssemos chegado ao dito continente ter-nos-ia sido necessário atravessar centenas de milhas antes de alcançar os estabelecimentos do Chile ou da República Argentina! E quantas fadigas sem contar os perigos, porque os índios Puelches, que andam errantes por meio dos Pampas, são pouco hospitaleiros! Julgo, portanto, que mais lhes valeu não abandonarem a sua ilha, visto que estava aí certa a existência material, e que, com a ajuda de Deus, espero que poderemos deixar juntos!

Assim, esses diversos canais que rodeiam a ilha Hanovre não excediam em certos sítios quinze a vinte milhas de largura, e Moko com bom tempo teria podido atravessá-las sem custo só com a sua canoa.

Se Briant, Gordon e Doniphan, por ocasião das suas excursões ao norte e a leste, não tinham visto essas terras, é porque elas são absolutamente baixas. Quanto à mancha esbranquiçada, era ela uma das geleiras do interior, e a montanha em erupção um dos vulcões das regiões do arquipélago de Magalhães.

Além disso... — outra observação feita por Briant ao examinar atentamente a carta —, o acaso, que presidira às suas excursões, tinha-os precisamente conduzido para os pontos do litoral que mais se afastavam das ilhas próximas.

Quando Doniphan chegou ao Severn-shores, talvez que tivesse podido ver a parte meridional da ilha Chatam se nesse dia o horizonte, escurecido pelos vapores da borrasca, não fosse visível senão em pequena parte. Quanto a Deception-bay, que escava profundamente a ilha Hanovre, da embocadura do East-river e das alturas de Bear-rock, nada se pode ver da ilhota, situada a este, nem da ilha da Esperança, que está para trás umas vinte milhas.

Para distinguir as terras próximas teria sido preciso ir ou ao North-cape, de onde a extremidade da ilha Chatam e da ilha Madre de Deus são visíveis além do estreito da Conceção, ou ao South-cape, de onde se podem ver as pontas das ilhas Rainha, Rainha Adelaide ou Cambridge, ou, finalmente, no litoral extremo dos Down-lands, que dominam os vértices da ilha Owien ou as geleiras das terras de sueste.

Ora, os moços colonos nunca tinham levado os seus reconhecimentos até esses pontos afastados. Quanto à carta de Francisco Baudoin, não pôde Evans explicar por que razão essas ilhas e essas terras não estavam aí indicadas.

Visto que o náufrago francês tinha podido determinar com bastante exatidão a configuração da ilha Hanovre, é porque tinha dado volta à roda dela. Seria preciso pois, admitir-se que as brumas tivessem restringido o alcance da vista a menos de algumas milhas? Por fim, isto era admissível. E agora, no caso de Briant e os seus camaradas chegarem a apoderar-se da chalupa do Severn e a consertá-la para que lado a dirigiria Evans?

Foi a pergunta que lhe dirigiu Gordon.

— Meus rapazes — elucidou Evans —, não procurarei subir nem para o norte nem para o este. Quanto mais caminho por mar fizermos, melhor será. Evidentemente, com uma boa brisa, a chalupa poderia conduzir-nos para qualquer porto chileno, onde nos fariam bom acolhimento. O mar é, porém, forte em extremo nestas costas, enquanto que os canais do arquipélago nos oferecerão sempre uma travessia muito fácil.

— Com efeito, é assim — concordou Briant. — Mas acharemos nós estabelecimentos nestas paragens? E, nesses estabelecimentos, o meio de voltarmos à pátria?

— Não duvido disso — respondeu Evans. — Olhem, vejam a carta. Depois de termos atravessado as paragens do arquipélago da Rainha Adelaide, aonde chegaremos pelo canal de Smith? Ao estreito de Magalhães, não é verdade? Pois bem, quase à entrada do estreito está situado o Porto Tamar, que pertence à Terra da Desolação, e aí estaremos já no caminho de volta.

— E se não encontrarmos aí nenhum navio — perguntou Briant —, esperaremos que ele passe?

— Não, Sr. Briant. Siga-me mais longe, através do estreito de Magalhães. Vê esta grande península de Brunswick? É aqui, ao fundo da baía Fortescue, no Porto Galante, que os navios vêm muitas vezes arribar. Será preciso ir além e dobrar o cabo Forward, ao sul da península? Aqui está a baía São Nicolau, ou baía de Bougainville, onde faz escala a maior parte dos navios que atravessam o estreito. Enfim, para alem ainda, aqui está o Porto da Fome e, mais ao norte, Punta Arena.

O mestre tinha razão.

Uma vez entrados no estreito, a chalupa teria numerosos pontos onde entrar.

Nestas condições estava, pois, seguro o regresso à pátria, sem falar no encontro dos navios que se dirigem para a Austrália ou Nova Zelândia. Se Porto Tamar, Porto Galante e Porto da Fome oferecem poucos recursos, Punta Arena, pelo contrário está provida de tudo o que é necessário à existência. E este grande estabelecimento, fundado pelo Governo chileno, forma uma verdadeira vila, edificada no litoral, com uma linda igreja, cuja flecha se ergue entre as soberbas árvores da península de Brunswick. Está em plena prosperidade, enquanto a estação do Porto da Fome é agora, somente, uma aldeia em ruínas.

Decerto, na época atual, existem — mais ao sul outras colónias que são visitadas por expedições científicas — tais são a estação de Liwyia, ao cimo da ilha Navarino, e principalmente a de Ooshooia, no canal de Beagle, abaixo da Terra de Fogo. Esta última, graças à dedicação dos missionários ingleses, auxilia muito o reconhecimento destas regiões, onde os Franceses deixaram numerosos vestígios da sua passagem, do que dão testemunho os nomes de umas, Clouén Pasteur, Chanzy e Grévy, dados a certas ilhas do arquipélago de Magalhães.

A salvação dos moços colonos seria, portanto, certa se chegassem a alcançar o estreito.

Para o alcançar, é verdade, seria preciso consertar a chalupa do Severn, e, para isto, apoderar-se dela — o que não seria possível senão depois que Walston e os seus cúmplices o não pudessem impedir.

Ainda se essa embarcação tivesse ficado no sítio em que Doniphan a tinha encontrado, na costa do Severn-shores, talvez que fosse possível apoderarem-se dela. Walston, presentemente instalado a quinze milhas daquele ponto, ao fundo de Deception-bay, sem dúvida que nada teria sabido desta tentativa.

Evans teria podido fazer o mesmo que ele tinha feito, isto é, conduzir a chalupa, não à embocadura do East-river, mas à do rio Zealand, ou mesmo, subindo o rio, até à altura de French-den. Aí, as reparações podiam ser feitas em melhores condições, sob a direção do mestre. Em seguida, a embarcação aparelhada e cheia de munições, provisões e alguns objetos que não se deviam abandonar ter-se-ia afastado da ilha antes que os malfeitores tivessem podido atacá-la.

Por desgraça, este plano não era exequível. A questão da partida não podia ser decidida senão pela força ou tomando a ofensiva ou ficando na defensiva. Nada havia a fazer enquanto não se pudesse vencer a equipagem do Severn.

Evans, contudo, inspirava uma confiança absoluta aos moços colonos. Kate tinha-lhes falado tanto dele e em termos tão calorosos! Desde que o mestre tinha podido cortar o cabelo e a barba, a sua fisionomia ousada e franca, serenava completamente os ânimos. Se era bravo e enérgico, era igualmente bom e dotado de um caráter resoluto, capaz de todas as dedicações. Na verdade, como o tinha dito Kate, era um enviado do Céu que acabava de aparecer em French-den, um homem, enfim, no meio daquelas crianças.

Em primeiro lugar, quis o mestre saber quais os recursos de que poderia servir-se para a resistência.

Store-room e o hall pareceram-lhe convenientemente dispostos para a defensiva. Pelas suas posições, um dominava a margem e o curso do rio, e o outro o Sport-terrace até à margem do lago. As seteiras permitiriam atirar nestas direções, ficando-se sempre a coberto. Com as suas oito espingardas, os assaltados poderiam conservar os assaltantes a distância, e metralhá-los com as duas peças pequenas se eles se aventurassem a ir até French-den.

Quanto aos revólveres, machados e facas de bordo, todos saberiam servir-se dessas armas no caso de chegar-se a um combate corpo a corpo.

Evans aprovou a ideia que Briant tivera de ter amontoado no interior as pedras necessárias para impedir que as duas portas pudessem ser arrombadas. Se, da parte de dentro, os defensores eram relativamente fortes, de fora, seriam fracos.

É necessário não esquecer que eles eram apenas seis rapazes de treze a quinze anos contra sete homens vigorosos, habituados a manejar as armas e audaciosos até ao ponto de não recuarem perante o assassínio.

— Considera-os então como malfeitores temíveis, mestre Evans? — perguntou Gordon.

— Sim, Sr. Gordon, e muito temíveis.

— Exceto um deles, que talvez não esteja perdido de todo! — declarou Kate —, esse Forbes que me salvou a vida...

— Forbes? — volveu Evans. — Eh! Com mil diabos! Quer ele tenha sido levado por maus conselhos, quer por medo dos seus companheiros, é certo que não deixou de cooperar no morticínio do Severn! Além disso, não foi esse patife que se lançou em minha perseguição, juntamente com Rock? Não foi ele que atirou sobre mim como se eu fora um animal feroz? Não foi ele que se felicitou por julgar que eu me tinha afogado no rio? Não, minha boa Kate, receio bem que ele não valha mais do que os outros! Se a poupou, é porque bem sabia que esses velhacos tinham ainda necessidade dos seus serviços, e não ficará atrás quando se tratar da marcha contra French-den!

Entretanto, passaram-se alguns dias. Nada de suspeito tinha sido notado pelos moços colonos que observavam os arredores do alto de Auckland-hill. Não deixava isto de surpreender Evans. Conhecendo os projetos de Walston e sabendo o interesse que ele tinha em se apressar, perguntava a si mesmo a razão por que desde 27 de novembro nenhuma demonstração tinha sido ainda feita.

Veio-lhe então à ideia que Walston procuraria. sem dúvida, empregar a astúcia em lugar da força, a fim de penetrar dentro de French-den. E disso preveniu Briant, Gordon, Doniphan e Baxter, com os quais mais frequentemente conferenciava.

— Enquanto estivermos encerrados em French-den — ponderou ele —, Walston não poderá forçar esta ou aquela porta se ninguém lhas abrir! Pode, portanto, tentar os meios astuciosos...

— E como?... — inquiriu Gordon.

— Talvez do modo que me veio à ideia — respondeu Evans. — Bem sabem, meus rapazes, que só Kate e eu é que podíamos denunciar Walston como sendo o chefe de um bando de salteadores, cujos ataques a pequena colónia teria de recear. Ora, Walston não duvida de que Kate tenha morrido no naufrágio. A meu respeito, julga ele que eu me afoguei no rio, depois dos tiros de Rock e de Forbes — e não ignoram que até o ouvi felicitar-se por tal motivo. Walston deve, pois, julgar que de nada estão prevenidos — nem mesmo da presença dos marinheiros do Severn nesta ilha, e que, se um deles se apresentasse em French-den, seria acolhido como qualquer náufrago. Ora, uma vez que o velhaco estivesse cá dentro, ser-lhe-ia muito fácil introduzir os seus companheiros — o que tornaria toda a resistência impossível!

— Pois bem — respondeu Briant —, se Walston ou qualquer outro do bando vier pedir-nos hospitalidade, recebê-los-emos a tiro!

— A não ser que seja de mais esperteza recebê-lo com cumprimentos! — observou Gordon.

— E talvez, Sr. Gordon — admitiu o mestre. — Talvez seja isso melhor! Astúcia contra astúcia. Por isso, no momento próprio, veremos o que se deve fazer!

Sim! Convinha proceder com a maior circunspeção. Com efeito, se as coisas levassem bom caminho, se Evans conseguisse apoderar-se da chalupa do Severn, podia-se julgar que não estava muito afastada a hora da libertação.

Mas quantos perigos havia ainda! E, além disso, estariam ainda vivos todos quando fossem a caminho da Nova Zelândia?

A manhã do dia seguinte passou-se sem novidade.

O mestre, acompanhado por Doniphan e Baxter, subiu durante meia milha na direção de Traps-woods, escondendo-se atrás das árvores agrupadas na base de Auckland-hill.

Nada viu, porém, de anormal, e Phann, que o seguia, não teve ocasião de o fazer desconfiar.

Pela tarde, contudo, um pouco antes do pôr do Sol, houve um alarme. Webb e Cross, que estavam de sentinela sobre o rochedo, tinham descido precipitadamente, indicando a aproximação de dois homens, que avançavam pela margem meridional do lago, do outro lado do rio Zealand.

Kate e Evans, não querendo ser reconhecidos, entraram sem demora em Store-room. Depois, olhando através de uma das seteiras, observaram os homens indicados. Eram dois dos companheiros de Walston — Rock e Forbes.

— Evidentemente — observou o mestre —, querem empregar a astúcia, e vão apresentar-se aqui como marinheiros que acabam de escapar a um naufrágio!

— Que devemos fazer? — perguntou Briant.

— Fazer-lhes bom acolhimento — aconselhou Evans.

— Bom acolhimento a esses miseráveis! — exclamou Briant. — Nunca poderei...

— Eu me encarrego disso — ofereceu-se Gordon.

— Muito bem, Sr. Gordon! — aprovou o mestre. — E, sobretudo, é necessário que eles não suspeitem da nossa presença. Kate e eu mostrar-nos-emos quando for oportuno!

Evans e a sua companheira foram, então, esconder-se no fundo de um dos redutos do corredor, cuja porta se fechou sobre eles.

Alguns instantes depois, Gordon, Briant, Doniphan e Baxter corriam à borda do rio Zealand.

Ao vê-los, os dois homens fingiram extrema surpresa, à qual Gordon correspondeu também com surpresa não menor.

Rock e Forbes pareciam estar cheios de fadiga; e logo que chegaram junto do rio trocaram-se, de uma a outra margem, as seguintes palavras:

— Quem são?

— Somos náufragos que acabamos de nos perder ao sul da ilha, com o navio Severn.

— São ingleses?

— Não; americanos.

— E os seus companheiros?

— Morreram! Só nós escapámos do naufrágio, e estamos extenuados de forças! Fazem-nos o favor de dizer quem são?

— Os colonos da ilha Chairman.

— Pois tenham piedade de nós e façam-nos bom acolhimento, que estamos sem recursos.

— Os náufragos têm sempre direito ao auxílio dos seus semelhantes — respondeu Gordon. — Serão bem-vindos!

A um sinal de Gordon, Moko saltou para a canoa, que estava amarrada perto do pequeno dique, e, dentro em pouco, trouxe os dois marinheiros para a margem direita do rio Zealand.

É verdade que Walston não pudera escolher, mas é preciso confessar que a fisionomia de Rock não inspirava confiança — nem mesmo a crianças, por muito pouco habituadas que elas estivessem a decifrar uma fisionomia humana.

Apesar dos esforços para parecer um homem de bem, que tipo de bandido o deste Rock, com a fronte estreita, a parte de trás da cabeça larga e as mandíbulas inferiores muito pronunciadas! Forbes — aquele que possuía ainda alguns sentimentos de humanidade, segundo o que dissera Kate — apresentava melhor aspeto. Por esse motivo é que, provavelmente, Walston o mandara com o outro.

Ambos representaram então o seu papel de náufragos. Contudo, temendo provocar suspeitas, se tivessem de responder a perguntas muito precisas, fingiram-se mais exaustos de fadiga que de fome, e pediram que os deixassem descansar e passar a noite em French-den. Foram logo conduzidos para lá.

Quando entraram — o que não escapou a Gordon — não puderam deixar de dirigir olhares bastante investigadores para a disposição do hall. Pareceram até surpreendidos ao verem o material defensivo que a colónia possuía — sobretudo a peça assestada através da canhoneira.

Por consequência, os moços colonos — a quem isso repugnava muito — não tiveram de continuar o seu papel, visto que Rock e Forbes tinham pressa de se deitar depois de terem adiado para o dia seguinte a narração das suas aventuras.

— Não precisamos senão de um feixe de ervas — disse Rock. — Mas, como não queríamos incomodá-los, se tivessem outro quarto sem ser este...

— Temos — respondeu Gordon — o que nos serve de cozinha; podem instalar-se aí até amanhã!

Rock e o seu companheiro entraram em Store-room, cujo interior examinaram num relance de olhos, depois de terem verificado que a porta dava para o rio.

Realmente, o acolhimento feito aos pobres náufragos não podia ser melhor!

Os dois bandidos deviam pensar que, para se desembaraçarem daqueles inocentes, não era preciso grande esforço de imaginação!

Rock e Forbes estenderam-se num canto de Store-room. Não ficaram sós, é verdade, porque era aí que Moko dormia; mas eles não se preocupavam com o grumete, muito decididos a estrangulá-lo num segundo se ele se lembrasse de dormir só com um olho.

À hora combinada, Rock e Forbes abririam a porta de Store-room, e Walston, que rondava na praia com os seus quatro companheiros, tornar-se-ia logo senhor de French-den.

Cerca das nove horas, quando Rock e Forbes fingiam dormir, Moko entrou e deitou-se em cima da cama, pronto para dar sinal.

Briant e os outros tinham ficado no hall. Em seguida, depois de fecharem a porta do corredor, Evans e Kate foram ter com eles.

Tudo se passava como o mestre tinha previsto, e havia a certeza de Walston estar nas proximidades de French-den.

— É preciso estarmos acautelados! — disse ele.

Contudo, decorreram duas horas, e Moko perguntava a si mesmo se Rock e Forbes teriam adiado a sua maquinação para outra noite quando lhe chamou a atenção um leve ruído que se produzia no interior de Store-room.

À luz mortiça da lanterna suspensa da abóbada viu então Rock e Forbes deixarem o canto onde estavam estendidos e arrastarem-se para o lado da porta.

Essa porta estava fortalecida por um montão de pedras enormes — verdadeira barricada que seria difícil, para não dizer impossível, derrubar. Os dois marinheiros começaram a tirar as pedras, uma a uma, arrumando-as à parede da direita. Em alguns minutos a porta ficou completamente livre. Faltava só tirar a barra de ferro que a segurava pelo lado de dentro para que a entrada em French-den fosse a coisa mais fácil do mundo.

Mas no momento em que Rock, depois de tirar a dita barra, ia a abrir a porta, sentiu alguém segurar-lhe o braço. Voltou-se e reconheceu o mestre, em quem a luz da lanterna dava em cheio.

— Evans! — exclamou ele. — Evans aqui!

— Acudam, meus rapazes! — gritou o mestre.

Briant e os seus camaradas precipitaram-se imediatamente em Store-room. Aí, Forbes, agarrado pelos rapazes mais vigorosos, Baxter, Wilcox, Doniphan e Briant, ficou impossibilitado de fugir.

Quanto a Rock, repelira Evans com um movimento rápido, erguendo a faca, que feriu o mestre levemente no braço esquerdo. Em seguida, abriu a porta e correu para fora. Ainda não tinha dado vinte passos quando se ouviu uma detonação.

Era o mestre que acabava de disparar um tiro de espingarda sobre Rock. Mas, segundo todas as aparências, a bala não acertara no fugitivo, porque não se ouviu o mais pequeno grito.

— Com mil diabos! Errei o tiro! — exclamou Evans. — Quanto ao outro... sempre é um de menos!

E com a faca de mato na mão ergueu o braço para Forbes.

— Perdão!... — gritou o miserável, que os rapazes conservavam imóvel, no chão.

— Sim! Perdão, Evans! — repetiu Kate, lançando-se entre o mestre e Forbes. — Perdoe-lhe, porque ele salvou-me a vida!...

— Seja — respondeu Evans. — Perdoo-lhe, Kate, pelo menos nesta ocasião!

E Forbes, amarrado solidamente, foi depositado num dos armazéns do corredor.

Em seguida, a porta de Store-room foi fechada e barricada, e todos estiveram alerta até amanhecer.