Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 26 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo IX

 

Na manhã de 5 de novembro, Briant e Baxter puseram-se à obra. Antes de darem dimensões mais consideráveis ao aparelho, quiseram saber que peso ele poderia levar tal como era. Isso permitiria que lhe dessem pouco mais ou menos, à falta de fórmulas científicas, a superfície suficiente para suportar — não compreendendo o seu — um peso que não devia ser inferior a cento e vinte ou cento e trinta libras.

Não foi preciso esperar que anoitecesse para fazer a primeira experiência. A brisa soprava de sudoeste, e Briant pensou que não haveria inconveniente em aproveitá-la, com a condição de conservarem o papagaio a pouca altura, de maneira que não pudesse ser visto da margem oriental do lago.

A operação deu ótimo resultado, e verificou-se que o aparelho, com um vento ordinário, erguia um saco que pesava vinte libras. Uma balança romana, pertencente ao material do Sloughi, permitira que se soubesse este peso com exatidão.

O papagaio foi então puxado para terra e deitado no solo de Sport-terrace.

Baxter, em primeiro lugar, fez-lhe a armação extremamente sólida, por meio de cordas que se prendiam a um nó central, como as varetas de um guarda-chuva ao anel que corre pelo cabo. Em seguida aumentou-lhe a superfície, com um suplemento de armação e uma adjunção de tela nova.

Kate foi de muita utilidade para este arranjo. As agulhas e a linha, que estavam nas caixas do iate, não faltavam em French-den, e a hábil governanta era muito entendida em trabalhos de costura.

Se Briant ou Baxter fossem mais fortes em mecânica, teriam considerado, na construção do aparelho, os elementos principais, que são o peso, a superfície plana, o centro de gravidade, o centro de pressão do vento — que se confunde com o centro da figura — e, finalmente, o ponto onde se devia ligar a corda. Depois, estabelecidos estes cálculos, teriam deduzido qual era a força ascensional do papagaio e a altura a que podia chegar. O cálculo ter-lhes-ia também indicado a força que a corda devia ter para resistir à tensão — condição muito importante para aumentar a segurança do observador.

Felizmente, a linha fornecida pela barquinha da escuna, e que media, pelo menos, dois mil pés de comprimento, era muito conveniente. Além disso, mesmo com uma brisa muito fresca um papagaio puxa com moderação, quando o ponto em que se prende a corda é escolhido judiciosamente. Era necessário regular cuidadosamente esse ponto de prisão, do qual depende a inclinação do aparelho e a sua estabilidade.

Com este novo destino, o papagaio não devia ter cauda no apêndice inferior — o que foi causa de grande despeito da parte de Costar e Dole.

Era inútil, e o peso que levava impedi-lo-ia de cair de cabeça para baixo.

Depois de muitos ensaios, Briant e Baxter observaram que convinha prender o peso ao terço de armação, fixando-o a uma das travessas que sustentavam a tela à largura do aparelho. Duas cordas, amarradas a essa travessa, segurá-lo-iam de maneira que ficasse suspenso a uns vinte pés de altura.

Quanto à corda, preparou-se uma de mil e duzentos pés, pouco mais ou menos, que, deduzindo a curva, permitiria que se elevasse a setecentos ou oitocentos pés acima do solo. Enfim, para evitar quanto fosse possível os perigos de uma queda, no caso de esta se produzir por uma rotura da corda ou uma fratura da armação, combinou-se que a ascensão seria feita por cima do lago. A distância horizontal a que se efetuaria esta queda nunca seria bastante considerável, em todo o caso, para que um bom nadador não pudesse alcançar a margem do oeste.

O aparelho, depois de concluído, apresentava uma superfície de setenta metros quadrados, em forma de um octógono, cujo raio tinha perto de quinze pés e cada um dos lados perto de quatro. Com as suas armações sólidas, a sua tela impermeável, devia levantar facilmente um peso de cem a cento e vinte libras.

Quanto à barquinha destinada ao observador, foi adaptado um simples cesto de vime, que têm diferentes usos a bordo dos iates. Era bastante funda e espaçosa a fim de que o observador se pudesse abrigar e movimentar à vontade, possuindo larga abertura para, em caso de necessidade, sair dela rapidamente. Este trabalho não se fizera em um dia, nem mesmo em dois. Começou-se no dia 5 de manhã e não ficou pronto senão na tarde do dia 8. Adiou-se, pois, para a noite a experiência preparatória que ajudaria a conhecer a força ascensional do aparelho e o seu grau de estabilidade no ar.

Durante estes últimos dias nada modificara a situação. Os moços colonos iam muitas vezes à penedia, onde se conservavam em observação durante muitas horas. Não tinham visto nada suspeito, nem a norte, entre o começo de Traps-woods e French-den, nem a sul, para além do rio, nem a oeste, do lado de Sloughi-bay, nem no Family-lake, que Walston podia ter querido visitar antes de deixar a ilha. Não se ouvira detonação alguma nas proximidades de Auckland-hill. No horizonte não aparecera o mais leve fumo.

Briant e os seus camaradas poderiam, pois, esperar que aqueles malfeitores tivessem abandonado definitivamente a ilha Chairman? Ser-lhes-ia dado retomarem com segurança os hábitos de outrora Era o que a experiência projetada ia permitir que se verificasse.

Agora, outra questão: o rapaz que fosse na barquinha como faria sinal para a puxarem para terra, quando o julgasse conveniente?

Aqui está o que Briant expôs, quando Doniphan e Gordon o interrogaram.

— Um sinal luminoso é impossível — ponderou Briant —, porque depois podia ser avistado por Walston. Assim, Baxter e eu recorreremos ao seguinte meio: um cordel do mesmo comprimento que a corda do papagaio, depois de ter sido enfiado numa bola de chumbo furada no meio, será preso na barquinha por uma das extremidades, e a outra ficará em terra nas mãos de um de nós. Basta deixar escorregar a bola ao longo do cordel para se saber que se deve puxar o papagaio.

— Bem imaginado! — aprovou Doniphan.

Estando tudo assim combinado, não foi preciso mais do que proceder a uma experiência preliminar. A Lua só devia aparecer pelas duas horas depois da meia-noite, e soprava uma brisa agradável de sudoeste. As condições pareciam particularmente favoráveis para começar nessa mesma noite.

Às nove horas, a escuridão era profunda. Algumas nuvens, bastante espessas, corriam através do espaço num firmamento sem estrelas. Qualquer que fosse a altura a que subisse o aparelho, não podia ser distinguido nem sequer dos arredores de French-den.

Todos deviam assistir a esta primeira experiência, e, visto que se tratava apenas de uma operação “a seco”, como se costuma dizer, as diversas peripécias seriam seguidas com mais prazer do que comoção.

O molinete do Sloughi tinha sido instalado no centro do Sport-terrace, e fixado solidamente na terra, a fim de resistir à tração do aparelho. A comprida corda, enovelada cuidadosamente, foi disposta de maneira que se desenrolasse sem esforço, ao mesmo tempo que o cordel destinado a dar o sinal. Briant colocara na barquinha um saco de terra que pesava exatamente cento e trinta libras — peso superior ao do mais pesado dos seus camaradas.

Doniphan, Baxter, Wilcox e Webb foram postar-se junto do papagaio, estendido no chão, a cem passos do molinete.

A uma ordem de Briant deviam erguê-lo a pouco e pouco, por meio de cordas, que estavam presas nas travessas da armação. Logo que o aparelho tivesse cedido ao vento segundo a sua inclinação determinada pela disposição do balancim, Briant, Gordon, Service, Cross e Garnett, encarregados da manobra do molinete, iriam desenrolando a corda à proporção que ele se elevasse nos ares.

— Atenção! — gritou Briant.

— Estamos prontos! — declarou Doniphan.

— Vá! O aparelho ergueu-se a pouco e pouco, estremeceu debaixo da ação da brisa e inclinou-se sobre o leito do vento.

— Desenrolem!... Desenrolem! — ordenou Wilcox.

E o molinete girou imediatamente sob a tensão da corda, enquanto o papagaio e a barquinha subiam lentamente através do espaço.

Apesar de ser imprudente, soltaram-se hurras quando o “gigante dos ares” deixou o solo. Mas, quase em seguida, desapareceu na sombra, com grande desapontamento para Iverson, Jenkins, Dole e Costar, que não queriam perdê-lo de vista enquanto ele se balouçava por cima de Family-lake. Kate disse-lhes então:

— Não se desconsolem, meus papooses!... Em outra ocasião, quando já não houver perigo, largar-se-á o gigante em pleno dia, e, se tiverem juízo, podem enviar-lhe postilhões!

Apesar de já não se poder distinguir o papagaio, sentia-se que subia regularmente, prova de que a brisa estava bem estabelecida e soprava nas zonas elevadas, e que a sua tração era moderada, prova também de que o balancim estava disposto como devia ser.

Briant, querendo que a experiência fosse tão completa quanto as circunstâncias o permitiam, deixou a corda desenrolar-se até à extremidade. Pôde então apreciar o seu grau de tensão, que não tinha nada de anormal. O molinete desenrolara mil e duzentos pés de corda, e o aparelho devia ter-se elevado a uma altura de setecentos a oitocentos pés. Este trabalho não levara mais de dez minutos.

Feita a experiência, todos deram, alternadamente, às manivelas, a fim de enrolar a corda. Esta segunda parte da operação foi muito mais longa, e foi preciso quase uma hora para enrolar os mil e duzentos pés de corda.

Do mesmo modo que para um aeróstato, a ação de puxar um papagaio para terra é sempre a manobra mais delicada, quando se quer que desça sem choque. A brisa, porém, era tão constante, que tudo foi bem sucedido. O octógono depressa tornou a aparecer na sombra, e foi cair brandamente no solo, pouco mais ou menos no ponto de onde partira.

A sua chegada foi recebida por hurras, os mesmos que o tinham saudado à partida.

Agora tratava-se apenas de conservá-lo em terra, para que não fosse levado pelo vento.

Baxter e Wilcox ofereceram-se para tomarem sentido nele até amanhecer.

No dia seguinte — 9 de novembro —, à mesma hora, realizar-se-ia a operação definitiva.

E agora esperavam-se só as ordens de Briant para se regressar a French-den.

Briant não dizia nada, e parecia estar absorto nas suas reflexões.

Em que pensava? Nos perigos que apresentava a ascensão tentada em condições tão excecionais? Na responsabilidade que assumia, deixando um dos seus camaradas arriscar-se naquela barquinha?

— Voltemos para casa — aconselhou Gordon. — É tarde...

— Gordon, Doniphan, esperem um momento... — respondeu Briant. — Tenho uma proposta a fazer-lhes!

— Fala — convidou” Doniphan.

— Acabamos de experimentar o nosso papagaio. — prosseguiu Briant —, e esta experiência teve bom resultado porque as circunstâncias eram favoráveis; o vento está regular — nem muito fraco nem muito forte. Ora, quem nos diz que amanhã está o mesmo tempo e que o vento consente que o aparelho se conserve por cima do lago? Parece-me melhor não adiar a operação!

Era o mais razoável, efetivamente, logo que estavam resolvidos a fazê-la.

Contudo, ninguém respondeu a esta proposta. No momento de correr tais perigos, a hesitação era natural — mesmo da parte dos mais arrojados.

E, não obstante, quando Briant acrescentou:

— Quem quer subir?...

— Eu! — disse Jaime, vivamente.

E quase em seguida:

— Eu! — exclamaram ao mesmo tempo Doniphan, Baxter, Wilcox, Cross e Service.

Depois houve um momento de silêncio que Briant não teve pressa de interromper.

Jaime foi o primeiro que falou:

— Meu irmão, sou eu que devo sacrificar-me!... Sim... sou eu! Peço-te que me deixes ir!...

— Porque hás de ser tu, e não eu... ou qualquer dos outros? — perguntou Doniphan.

— Sim!... Porquê?... — insistiu Baxter.

— Porque é o meu dever! — respondeu Jaime.

— O teu dever?... — disse Gordon.

— Sim!

Gordon agarrou a mão de Briant, como para lhe perguntar o que seu irmão queria dizer, e sentiu-a tremer na dele. E, se a noite não estivesse tão sombria, teria visto o seu camarada empalidecer e baixar as pálpebras sobre os olhos húmidos de lágrimas.

— Então, meu irmão?... — inquiriu Jaime, em tom resoluto, surpreendente numa criança da sua idade.

— Responde, Briant! — disse Doniphan. — Jaime diz que tem o direito de se sacrificar!... Mas esse direito não o temos nós, também?... Que fez ele para o reclamar?...

— O, que fiz? — respondeu Jaime. — Vou dizer-lhes!

— Jaime! — exclamou Briant, que queria impedir seu irmão de falar.

— Não — replicou Jaime com voz entrecortada pela comoção. — Deixa-me confessar!... Já não posso mais!... Gordon, Doniphan, se estão aqui... todos... longe das vossas famílias... nesta ilha... a culpa é minha... só minha!... Se o Sloughi foi levado pelas ondas... foi porque eu, por imprudência... não!... por brincadeira... desatei a amarra que o prendia ao cais de Auckland!... Sim!. Foi uma brincadeira, uma travessura!... E depois, quando vi o iate desviar-se, perdi a cabeça!... Não chamei quando era tempo ainda!... E uma hora depois... no meio da noite... no mar alto!... Perdão, meus camaradas, perdão!...

E o pobre pequeno soluçava, apesar de Kate tentar, debalde, consolá-lo.

— Bem, Jaime! — disse então Briant. — Confessaste a tua culpa, e agora queres arriscar a vida para reparares... ou pelo menos para resgatares, em parte, o mal que fizeste?...

— Pois ele não o resgatou já? — exclamou Doniphan, entregando-se à sua generosidade natural. — Não arriscou a vida tantas vezes para nos auxiliar?... Ah! Briant, compreendo agora por que motivo apresentavas sempre teu irmão quando havia algum perigo a afrontar e porque estava ele sempre pronto para se sacrificar! Aí está porque foi procurar-nos, a mim e a Cross, no meio do nevoeiro!... com risco de morrer!... Sim! Jaime, perdoamos-te de boa vontade, não tens necessidade de reparar a tua falta!

Todos cercavam Jaime, pegavam-lhe as mãos, e, contudo, ele não deixava de soluçar. Compreendiam, agora, por que razão aquela criança, a mais alegre do Colégio Chairman, e também uma das mais travessas, se tornara tão triste, fugindo dos seus companheiros!... Depois, por ordem de seu irmão, e por sua própria vontade, arriscara-se todas as vezes que se oferecia ocasião para isso!...

E julgava não ter feito ainda bastante!... Queria sacrificar-se ainda pelos outros!... E, logo que pôde falar, disse:

— Bem veem, sou eu, eu só, que devo partir!... Não é verdade, meu irmão?...

— Bem, Jaime, muito bem! — repetiu Briant, afagando o irmão.

À vista da confissão que Jaime acabava de fazer e do direito que ele reclamava, foi debalde que Doniphan e os outros diligenciaram intervir. Não tinham nada a fazer senão deixá-lo entregar-se à brisa, que mostrava certa tendência para refrescar.

Jaime apertou a mão dos seus camaradas. Depois, antes de entrar na barquinha, que já fora desembaraçada do saco de terra, voltou-se para Briant. Este estava imóvel, alguns passos atrás do molinete.

— Deixa-me abraçar-te! — pediu Jaime.

— Sim!... Abraça-me! — respondeu Briant, reprimindo a comoção. — Ou antes... sou eu que te abraço... porque sou eu que vou partir...

— Tu? — exclamou Jaime.

— Tu?... — repetiram Doniphan e Service.

— Sim... eu. Que a falta de Jaime seja reparada por ele ou por seu irmão, pouco importa! Além disso, imaginam que, quando eu tive esta ideia, foi porventura para que outro a realizasse?

— Meu irmão — insistiu Jaime —, peço-te!...

— Não, Jaime!

— Então reclamo eu — disse Doniphan.

— Não, Doniphan! — redarguiu Briant, em tom que não admitia réplica. — Eu é que quero ir!

— Já o tinha adivinhado, Briant. — afirmou Gordon, apertando a mão do seu camarada.

Alguns minutos depois, Briant introduziu-se na barquinha, e logo que se instalou convenientemente deu ordem para deixarem subir o papagaio.

O aparelho, inclinado sobre a brisa, subiu, primeiro, muito devagar; depois, Baxter, Wilcox, Cross e Service, colocados junto do molinete, desenrolaram a corda, enquanto Garnett, que segurava o cordel do sinal, o fazia passar por entre os dedos.

Em dez segundos, o “gigante dos ares” desapareceu na sombra, não no meio dos hurras que tinham acompanhado a sua partida de ensaio, mas no meio de profundo silêncio.

O intrépido chefe da pequena colónia, o generoso Briant, desapareceu com ele.

Entretanto, o aparelho elevava-se com lentidão regular. A constância da brisa conservava-o numa estabilidade perfeita. Balouçava-se, apenas, de um lado para o outro.

Briant não sentiu oscilação alguma que tornasse perigosa aquela situação. Conservava-se imóvel, com as duas mãos agarradas às cordas de suspensão da barquinha, levemente agitada por um movimento de balouço.

Ao princípio, Briant sentiu uma impressão extraordinária quando se viu suspenso, no espaço, daquele grande plano inclinado, que estremecia sob o impulso da corrente aérea! Parecia-lhe que era levado por uma fantástica ave de rapina, ou, antes, debaixo das asas de um morcego enorme. Mas, graças à energia do seu caráter, pôde conservar o sangue-frio que a experiência exigia.

Dez minutos depois de o papagaio deixar o solo de Sport-terrace, um pequeno abalo indicou que o seu movimento ascensional terminara. Chegando à extremidade da corda, ergueu-se ainda, não sem algumas sacudidelas, desta vez. A altura atingida verticalmente devia ser de seiscentos a setecentos pés acima da ilha.

Briant, muito senhor de si, entesou, primeiro, o cordel enfiado na bola; em seguida, preparou-se para observar cuidadosamente o espaço. Com uma das mãos segurava-se à corda de suspensão, e com a outra segurava o óculo.

Por baixo dele a escuridão era profunda. O lago, as florestas, a penedia formavam uma massa confusa, da qual não se podia distinguir particularidade alguma. Quanto à periferia da ilha, recortava-se sobre o mar que a cercava, e, do ponto que ocupava, Briant estava em condições de abranger todo o conjunto.

E, realmente, se ele fizesse aquela ascensão em pleno dia e dirigisse o olhar para o horizonte banhado de luz, talvez avistasse outras ilhas, ou mesmo um continente, se existisse algum num raio de quarenta a cinquenta milhas — que a sua vista devia abranger, com certeza.

Se, para o oeste, para o norte e para o sul o céu estava muito enevoado para se poder distinguir alguma coisa, não sucedia o mesmo na direção de leste, onde um cantinho do firmamento, momentaneamente limpo de nuvens, deixava brilhar algumas estrelas.

E, exatamente desse lado, um clarão muito intenso, que se refletia até nas volutas inferiores dos vapores, atraiu a atenção de Briant.

— É o clarão de uma fogueira! — disse ele. — Walston estabeleceria o seu acampamento naquele lugar?... Não!... Este clarão é muito afastado, com certeza muito para além da ilha!... Será um vulcão em erupção, e haverá alguma terra nas paragens de leste?

E lembrou-se de que, durante a sua última expedição a Deception-bay, distinguira uma mancha esbranquiçada.

— Sim — pensou ele —, era daquele lado... E aquela mancha seria o reflexo de alguma geleira?... Para leste deve haver uma terra muito próxima da ilha Chairman.!

Briant assestara o óculo para aquele clarão que a escuridão da noite contribuía para tornar ainda mais aparente. Devia existir ali alguma montanha ignivoma, próximo da geleira, e pertencendo a um continente ou a um arquipélago, cuja distância não media mais de umas trinta milhas.

Neste momento, Briant sentiu nova impressão luminosa. Muito mais perto dele, a cinco ou seis milhas pouco mais ou menos, e por consequência à superfície da ilha, brilhava outro clarão entre as árvores, a oeste do Family-lake.

— Desta vez é na floresta — pensou ele —, e mesmo à entrada, do lado do litoral!

Mas aquele clarão parecia ter aparecido para desaparecer logo em seguida, porque, apesar de observar atentamente, Briant não conseguiu tornar a vê-lo.

Sim! O coração batia-lhe com violência, e a mão tremia-lhe a ponto de não poder fixar o óculo com a exatidão suficiente!

No entanto, tinha a certeza de que havia ali uma fogueira de acampamento, a pouca distância da embocadura do East-river! Briant vira-a, e em breve tornou a verificar que o clarão se refletia de novo no maciço de árvores.

Assim, Walston e o seu bando tinham acampado naquele lugar, próximo do pequeno porto de Bear-rock! Os assassinos do Severn não tinham abandonado a ilha Chairman! Os moços colonos estavam, portanto, expostos às suas agressões e não havia já segurança em French-den!

Que grande deceção, a que Briant sentiu! Evidentemente, vendo-se na impossibilidade de consertar a chalupa, Walston tivera de renunciar a lançá-la ao mar a fim de se dirigir para uma das terras próximas. E, contudo, havia-as naquelas paragens. Não podiam existir dúvidas a este respeito.

Briant, tendo concluído as suas observações, julgou inútil prolongar aquela exploração aérea. Preparou-se para descer. O vento refrescava sensivelmente. As oscilações, que eram maiores, imprimiam à barquinha um balanceamento que ia tornar a chegada à terra bastante difícil.

Depois de se ter certificado de que o cordel do sinal estava convenientemente distendido, Briant deixou escorregar a bola, que chegou, alguns segundos depois, à mão de Garnett.

A corda do molinete começou logo a puxar o aparelho para terra.

Mas, ao mesmo tempo que o papagaio descia, Briant olhava ainda na direção dos clarões descobertos por ele. Tornou a ver o da erupção, e depois, mais perto, no litoral, a fogueira do acampamento.

Como é fácil imaginar, Gordon e os outros esperavam o sinal de Briant com a maior impaciência. Como lhes pareceram longos aqueles vinte minutos que ele passara nos ares! Entretanto, Doniphan, Baxter, Wilcox, Service e Webb faziam girar, vigorosamente, as manivelas do molinete. Também tinham notado que o vento se tornava mais forte e soprava com menos regularidade. Sentiam-no pelos empuxões da corda, e pensavam, cheios de angústia, que Briant devia sentir a repercussão.

O molinete funcionou, pois, rapidamente, a fim de enrolar os mil e duzentos pés de corda. O vento continuava a refrescar, e, três quartos de hora depois do sinal de Briant, soprava com violência.

Nesse momento, o aparelho devia estar ainda a mais de cem pés acima do lago.

De repente, sentiu-se um puxão violento. Wilcox, Doniphan, Service, Webb e Baxter, aos quais faltou o ponto de apoio, estiveram quase a ser precipitados no solo. A corda do papagaio quebrara-se.

E, no meio de gritos de terror, repetiu-se este nome vinte vezes:

— Briant!... Briant!...

Mas alguns minutos depois Briant saltava para a praia e chamava com voz forte.

— Meu irmão!... Meu irmão!... — exclamou Jaime, que foi o primeiro a abraçá-lo.

— Walston ainda está na ilha!

Foram as primeiras palavras de Briant, quando os seus companheiros o cercaram.

No momento em que a corda se partiu, Briant sentiu-se levado, não numa queda vertical, mas oblíqua e relativamente vagarosa, porque o papagaio fazia uma espécie de para-quedas por cima dele. O que havia a fazer era sair da barquinha antes que ela chegasse à superfície do lago.

No momento em que ia mergulhar, Briant atirou-se de cabeça para baixo, e, bom nadador como era, não lhe custou a alcançar a praia, distante quatrocentos a quinhentos pés, quanto muito.

E, durante esse tempo, o papagaio, livre do seu peso, desaparecera para os lados do nordeste, levado pela brisa, como uma ave gigantesca.