Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 20 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo III

 

Briant julgara conveniente guardar silêncio a respeito da cena surpreendida por Moko entre seu irmão e ele — mesmo em relação a Gordon. Quanto à descrição da exploração, fê-la aos seus camaradas, que estavam reunidos no hall.

Descreveu a costa oriental da ilha Chairman, em toda a parte que circunscrevia Deception-bay, o curso do East-river através das florestas próximas do lago, tão ricas de árvores verdejantes.

Afirmou que a instalação seria mais cómoda naquele litoral do que no do oeste, acrescentando que isso não era razão para se abandonar French-den. Pelo que dizia respeito àquela parte do Pacífico, não se avistava terra alguma.

Contudo, Briant mencionou a mancha esbranquiçada que distinguira ao longe, e cuja presença por cima do horizonte não podia explicar. Provavelmente, era apenas uma voluta de vapores, e era conveniente verificá-lo quando se tornasse a visitar Deception-bay. Finalmente, o que parecia muito certo era a ilha Chairman não estar próxima de terra alguma naquelas paragens, e era, com certeza, separada por muitas centenas de milhas do continente ou dos arquipélagos mais próximos.

Era necessário, pois, recomeçar corajosamente a luta pela vida, esperando que a salvação viesse de fora, que parecia pouco provável que os moços colonos pudessem obtê-la por suas mãos.

Todos se puseram ao trabalho.

Tomaram-se todas as medidas para se poder afrontar os rigores do inverno próximo. Briant aplicou-se a isso com mais zelo do que tivera até ali. Contudo, parecia estar menos comunicativo, e, a exemplo de seu Irmão, mostrava alguma tendência para se afastar dos outros rapazes.

Gordon, notando esta mudança de caráter, observou também que Briant procurava pôr Jaime à frente todas as vezes que era necessário mostrar coragem, afrontar algum perigo — o que Jaime aceitava imediatamente. No entanto, como Briant nunca disse nada que desse ocasião a ser interrogado, a esse respeito, por Gordon, este guardou silêncio, apesar de suspeitar que tinha havido qualquer explicação entre os dois irmãos.

O mês de fevereiro passou-se em trabalhos de diferentes géneros.

Wilcox descobriu grande número de salmões na água doce de Family-lake, e apanharam-se alguns por meio de redes estendidas de uma margem do rio Zealand para a outra.

A necessidade de conservá-los exigia grande quantidade de sal. Isto ocasionou muitas viagens a Sloughi-bay, onde Baxter e Briant estabeleceram uma pequena marinha de sal — um simples quadrado, aberto na areia, e no qual se depositava o sal, depois de as águas do mar se terem evaporado debaixo da ação dos raios solares.

Durante a primeira quinzena de março, três ou quatro dos moços colonos puderam explorar uma parte da região pantanosa dos South-moors, que se estendia sobre a margem esquerda do rio Zealand.

Foi Doniphan quem se lembrou desta exploração, e Baxter, aconselhado por ele, fabricou alguns pares de andas, servindo-se para isso de restos do Sloughi. Como o pântano era coberto, em alguns pontos, por uma leve porção de água, as andas permitiam que passassem a pé enxuto até às superfícies sólidas.

No dia 17 de abril, pela manhã, Doniphan, Webb e Wilcox, depois de terem atravessado o rio na canoa, desembarcaram na margem esquerda. Traziam as espingardas a tiracolo. Doniphan armara-se até com o espingardão que o arsenal de French-den possuía, pensando que era uma ocasião excelente para se servir dele.

Logo que os três caçadores chegaram à praia, calçaram as andas, a fim de chegarem às elevações do pântano, que emergiam também do mar alto.

Phann acompanhava-os.

Esse não precisava de andas, e não tinha receio de molhar as patas, saltando através das poças de água.

Depois de terem percorrido uma milha na direção do sudoeste, Doniphan, Wilcox e Webb chegaram à parte seca do pântano. Tiraram então as andas, a fim de estarem mais à vontade para seguir a caça.

Daquela vasta extensão dos South-moors, o olhar não via o mar, a não ser a leste, onde a linha azul do mar se arredondava no horizonte.

Que quantidade de caça à superfície, narcejas, patos, francolins, tarambolas, cercetas e milhares desses patos negros, mais estimados pela plumagem do que pela carne, mas que, preparados convenientemente, dão um manjar muito aceitável!

Doniphan e os dois camaradas teriam podido atirar a centenas destas inumeráveis aves aquáticas, sem perderem um único grão de chumbo. Mas foram razoáveis e contentaram-se com algumas dúzias de voláteis que Phann rapidamente ia apanhar até ao meio dos grandes charcos do pântano.

Contudo, Doniphan teve grandes tentações de matar uns outros animais, que não poderiam figurar na mesa de Store-room, apesar de todo o talento culinário do grumete.

Eram alguns tinócoros, pertencentes à família dos pernaltas e das garças, ornados com um brilhante penacho de penas brancas.

Se o moço caçador se conteve — pois seria queimar pólvora sem resultado —, não sucedeu o mesmo quando avistou um bando de flamingos, de asas cor de fogo, que têm predileção pelas águas salobras, e cuja carne não é inferior à da perdiz. Estes voláteis, enfileirados em boa ordem, eram guardados por sentinelas, que deram sinal logo que sentiram o perigo.

À vista destes magníficos exemplares da ornitologia da ilha, Doniphan entregou-se aos seus instintos. Wilcox e Webb não foram mais prudentes do que ele. Correram, pois, todos três para aquele lado — inutilmente. Ignoravam que, se se tivessem aproximado sem serem vistos, podiam ter morto aqueles flamingos à sua vontade, porque as detonações deixavam-nos estupefactos, mas não os punham em fuga.

Portanto, foi em vão que Doniphan, Webb e Wilcox tentaram alcançar aqueles soberbos palmípedes, que mediam mais de quatro pés desde a extremidade do bico até ao fim da cauda.

As sentinelas tinham dado alarme e o bando desapareceu para o sul, antes de ser possível alcançá-lo, mesmo com a espingarda de grande alcance.

Contudo, os três caçadores voltaram com bastante caça para não terem que lastimar o seu passeio através dos South-moors. Chegando ao limite das poças de água, tornaram a pôr as andas e voltaram para a margem do rio, prometendo renovar uma excursão que os primeiros frios tornariam ainda mais frutuosa.

Além disso, Gordon não devia esperar que chegasse o inverno para pôr French-den em estado de lhe suportar os rigores.

Era necessário fazer boa provisão de combustível, a fim de ter certa a lenha para os currais e para a capoeira. Organizaram-se numerosas visitas para esse fim à entrada de Bog-woods.

O carro, puxado pelos dois guanacos, desceu e subiu a praia umas poucas de vezes por dia, durante uma quinzena.

E agora, ainda que o inverno durasse seis meses ou mais, com uma porção de lenha considerável e a reserva do óleo de foca, French-den não tinha que recear o frio nem a escuridão.

Estes trabalhos não impediam que se seguisse o programa organizado para a Instrução da pequena colónia.

Os mais velhos davam lição, alternadamente, aos mais pequenos.

Durante as conferências que se realizavam duas vezes — por semana, Doniphan continuava a ostentar a sua superioridade — o que não contribuía para que ele adquirisse muitos amigos.

Assim, à exceção dos seus partidários do costume, não era bem visto pelos outros. E, contudo, antes de dois meses, quando terminassem as funções de Gordon, Doniphan contava suceder-lhe como chefe da colónia. O seu amor-próprio dizia-lhe que tinha direito a esta situação. Não era uma verdadeira injustiça não ter sido eleito na primeira votação? Wilcox, Cross e Webb animavam desastradamente estas ideias; sondavam, mesmo, o terreno a propósito da eleição futura e pareciam estar certos do triunfo.

Contudo, Doniphan não tinha a maioria entre os seus camaradas. Os mais novos, sobretudo, não pareciam dispostos a declarar-se por ele — nem também por Gordon.

Este via claramente toda a intriga, e, apesar de ser reelegível, não tinha empenho, como se sabe, em conservar esta situação. Compreendia que a severidade que mostrara durante “o seu ano de presidência” não podia granjear-lhe votos. As suas maneiras um pouco rudes, o seu espírito talvez excessivamente prático, tinham desagradado muitas vezes, e Doniphan esperava que esse desagrado lhe fosse proveitoso. Na época da eleição devia haver uma luta interessante de observar.

O que os pequenos censuravam, principalmente, a Gordon era a sua economia, muito rigorosa com respeito aos pratos doces. Além disso, repreendia-os quando eles não tinham cuidado no fato, quando entravam em French-den com uma nódoa ou um rasgão, e, sobretudo, com os sapatos esburacados —, o que exigia consertos incessantes e tornava muito grave esta questão de calçado.

E depois, por causa de botões perdidos, quantas repreensões, e, às vezes, quantos castigos! Esta questão de botões de casaco ou de calção era muito importante, e Gordon obrigava-os a apresentar todas as noites a conta do costume, senão eram privados de sobremesa ou presos toda a noite.

Briant então intercedia, ora por Jenkins, ora por Dole, e isto adquiria-lhe muita popularidade. Além disso, os pequenos sabiam que os dois funcionários da despensa, Service e Moko, eram dedicados a Briant, e, se este viesse a ser chefe da ilha Chairman, proporcionar-lhes-ia um futuro saboroso em que as gulodices não seriam poupadas!...

De que dependem as coisas neste mundo! Esta colónia de rapazes não era realmente a imagem da sociedade, e as crianças não têm tendência para se “fazerem homens”, mesmo no começo da vida?

Briant não se interessava por estas questões. Trabalhava sem descanso, não poupando seu irmão; eram sempre os primeiros a começar e os últimos a acabar, como se ambos tivessem mais particularmente um dever a cumprir.

Entretanto, os dias não eram consagrados inteiramente à instrução comum. O programa reservara algumas horas para o recreio.

Uma das condições para ter saúde é fazer uso dos exercícios de ginástica. Pequenos e grandes, todos tomavam parte neles. Trepavam às árvores, içando-se até aos primeiros ramos por meio de uma corda enrolada à roda do corpo. Saltavam grandes espaços com o auxílio de varas compridas. Banhavam-se nas águas do lago, e os que não sabiam nadar aprenderam depressa. Organizavam corridas com prémios para os que chegavam primeiro. Exercitavam-se no manejo das bolas e do lazzo.

Havia também alguns destes jogos muito usados pelos moços ingleses, e, além dos que já se mencionaram, o cricket, os rounders, nos quais a bola é arremessada por um grande pau em cima de cavilhas de madeira dispostas em cada um dos ângulos de um vasto pentágono regular, e os quoits, que exigem, particularmente, força no braço e golpe de vista.

Mas é necessário descrever este jogo com mais minuciosidade porque, um dia, foi causa de uma cena lamentável entre Briant e Doniphan.

Foi o dia 25 de Abril, à tarde. Divididos em dois campos, em número de oito, Doniphan, Webb, Wilcox e Cross, de um lado, Briant, Baxter, Garnett e Service, do outro, jogavam uma partida de quoits no prado de Sport-terrace.

Na superfície deste terreno plano tinham sido colocadas duas cavilhas, dois hobs, a cinquenta pés, pouco mais ou menos, uma da outra. Cada um dos jogadores estava munido de dois quoits, espécie de rodelas de metal, com um buraco no centro, e mais delgadas na circunferência do que no meio.

Neste jogo, cada jogador deve atirar os seus quoits sucessivamente e com muita destreza, para eles poderem encaixar-se primeiro na primeira cavilha, e depois na segunda. Se consegue atingir um dos hobs, o jogador marca dois pontos, e quatro se consegue atingir dois. Quando os cuoits chegam apenas a aproximar-se do hob, marca-se dois pontos pelos dois que estão mais perto do alvo, e um ponto se há apenas um quoit colocado em boa posição.

Naquele dia os jogadores estavam muito animados, e isto pelo facto de Doniphan estar num campo oposto ao de Briant, o que fazia com que todos tomassem um interesse extraordinário pelo jogo.

Já se tinham jogado duas partidas. Briant, Baxter, Service e Garnett tinham ganho a primeira, marcando sete pontos, enquanto que os seus adversários tinham ganho a segunda com seis, apenas.

Estava-se então a jogar la belle. Ora, os dois campos tinham chegado ambos a cinco pontos, e faltava só atirar dois quoits.

— É a tua vez, Doniphan — advertiu Webb —, aponta bem! É o nosso último quoit, e trata-se de ganhar!

— Não tenhas medo! — respondeu Doniphan.

E pôs-se em posição de atirar, com um dos pés colocado adiante do outro, a rodela na mão direita, o corpo um pouco inclinado, o busto levemente descaído sobre a ilharga esquerda, a fim de atirar com mais certeza.

Via-se que o vaidoso rapaz tinha verdadeiro desejo de ganhar, com os dentes cerrados, as faces um pouco pálidas, o olhar vivo e as sobrancelhas carregadas.

Depois de ter apontado cuidadosamente, balouçando a rodela, projetou-a horizontal e vigorosamente, porque o alvo estava colocado a uns cinquenta pés.

A rodela não alcançou a borda extrema do hob, e, em vez de se encaixar na cavilha, caiu no chão — o que não deu mais de seis pontos, ao todo.

Doniphan não pôde conter um gesto de despeito e bateu o pé, encolerizado.

— É pena — disse Cross —, mas não perdemos por isso, Doniphan!

— Não, decerto — acrescentou Wilcox —, e, a não ser que Briant encaixe o seu, não se pode fazer melhor.

Efetivamente, se a rodela que Briant ia atirar — era agora a sua vez — não se fixasse no hob, o seu campo perdia a partida, porque era quase impossível colocá-la mais perto do que a de Doniphan.

— Aponta bem!... Aponta bem! — recomendou Service.

Briant não respondeu, não querendo desagradar a Doniphan.

Não pensava senão numa coisa: ganhar a partida, ainda mais pelos seus camaradas do que por ele.

Colocou-se, portanto, em posição, e enviou com tanta certeza a sua rodela que esta foi encaixar-se no hob.

— Sete pontos! — exclamou Service com ar de triunfo. — Está ganha a partida, está ganha!

Doniphan adiantou-se vivamente.

— Não, a partida não está ganha! — disse ele.

— Porquê? — perguntou Baxter.

— Porque Briant fez trapaça!

— Trapaça? — respondeu Briant, que empalideceu ao ouvir esta acusação.

— Sim!... trapaça! — repetiu Doniphan. — Briant não tinha os pés na linha onde deviam estar!... Aproximou-se dois passos!

— É falso! — exclamou Service.

— Sim, é falso! — reforçou Briant. — Admitindo, mesmo, que fosse verdade, era apenas um engano da minha parte, e eu não tolero que Doniphan me acuse de ter feito trapaça...

— Sério!... Não toleras?... — disse Doniphan, encolhendo os ombros.

— Não — volveu Briant, que começava a não estar senhor de si. — E, primeiro que tudo, vou provar que tinha os pés colocados exatamente na linha...

— Sim!... Sim!... — exclamaram Baxter e Service.

— Não!... Não!... — replicaram Webb e Cross.

— Vejam o sinal dos meus sapatos na areia! — tornou Briant.

— E, como Doniphan não podia ter-se enganado, foi ele que mentiu.

— Menti! — exclamou Doniphan, que se aproximou lentamente do seu camarada.

Webb e Cross colocaram-se atrás dele, a fim de o defenderem, enquanto Service e Baxter se preparavam para auxiliar Briant, no caso de haver luta.

Doniphan tomara a posição de jogador de murro, com a jaqueta despida, as mangas arregaçadas até ao cotovelo, o lenço enrolado à roda do pulso.

Briant, que recuperara o sangue-frio, conservava-se imóvel, como se lhe repugnasse bater-se com um dos seus camaradas e dar semelhante exemplo à colónia.

— Fizeste mal em insultar-me, Doniphan — disse ele —, e agora fazes mal em vires provocar-me!...

— Efetivamente — respondeu Doniphan, com ar de profundo desprezo —, é sempre tolice provocar os que não sabem responder às provocações!

— Se não lhes respondo — retorquiu Briant —, é porque não me convém responder!...

— Se não respondes — replicou Doniphan — é porque tens medo!

— Medo!... eu!...

— E porque és um cobarde!.

Briant arregaçou as mangas e dirigiu-se resolutamente para Doniphan.

Os dois adversários estavam prontos para começarem o combate, um em frente do outro.

Em Inglaterra, e mesmo nos colégios ingleses, o jogo do soco faz, por assim dizer, parte da educação. Nota-se, além disso, que os rapazes hábeis neste exercício são mais dóceis e mais pacientes do que os outros, e não questionam a propósito de tudo.

Briant, na sua qualidade de francês, nunca tivera predileção por essa troca de murros que se dirigem unicamente ao rosto.

Achava-se portanto inferior ao seu adversário, que era um pugilista muito hábil, apesar de serem ambos da mesma idade, da mesma estatura e sensivelmente iguais em vigor.

A luta estava prestes a travar-se e ia realizar-se o primeiro assalto quando Gordon, que acabava de ser prevenido por Dole, correu a separá-los.

— Briant!... Doniphan!... — exclamou ele.

— Chamou-me mentiroso!... — explicou Doniphan.

— Depois de ele me acusar de fazer trapaça e de me chamar cobarde — esclareceu Briant.

Neste momento estavam todos reunidos em torno de Gordon. Os dois adversários tinham recuado alguns passos — Briant de braços cruzados, e Doniphan na atitude de jogador de soco.

— Doniphan — disse então Gordon, com voz seca —, eu conheço Briant!... Não foi quem principiou a questão!... Foste tu o primeiro a provocar!...

— Realmente, Gordon — replicou Doniphan —, bem se vê que estás sempre pronto para tomar partido contra mim!

— Decerto... quando tu o mereces! — respondeu Gordon.

— Pois seja! — tornou Doniphan. — Mas, seja quem for o culpado, se Briant recusa bater-se, é porque é um cobarde.

— E tu, Doniphan — redarguiu Gordon —, és um mau rapaz e dás um exemplo detestável aos teus camaradas! O quê! Na grave situação em que estamos, há um de nós que não pensa senão em fazer discórdia, e ataca sempre o melhor de todos...

— Briant, agradece a Gordon! — exclamou Doniphan. — E, agora, defende-te!

— Não! — exclamou Gordon. — Eu, que sou chefe, oponho-me a qualquer cena de violência entre os dois! Briant, volta para French-den! E tu, Doniphan, vai desabafar a cólera para onde quiseres, e não apareças senão quando estiveres em estado de compreender que, não te dando razão, não fiz mais que o meu dever!

— Sim!... Sim!... — exclamaram os outros, menos Webb, Wilcox e Cross. — Hurra por Gordon!... Hurra por Briant!

Perante esta quase unanimidade, não havia mais que obedecer.

Briant entrou no hall, e à noite, quando Doniphan voltou, a horas de dormir, não manifestou desejo algum de dar seguimento à questão.

Contudo, via-se bem que ele nutria um rancor surdo contra Briant, e que a sua inimizade contra este aumentara com a lição que recebera de Gordon. Além disso, recusou-se às tentativas de reconciliação que este queria fazer.

Estas dissensões eram muito desagradáveis e faziam perigar o sossego da pequena colónia. Doniphan tinha por seu lado Wilcox, Cross e Webb, que estavam sempre dispostos a auxiliá-lo e a dar-lhe razão a propósito de tudo, e não se devia recear uma cisão para o futuro?

Em todo o caso, depois deste dia, não se tornou a falar na questão. Ninguém fez alusão ao que se tinha passado entre os dois rivais, e os trabalhos diários continuaram a executar-se, enquanto não chegava o inverno.

Este não podia tardar.

Durante a primeira semana de maio o frio foi tão intenso que Gordon deu ordem para se acenderem os fogões do hall, e conservarem-se acesos de dia e de noite. Daí a pouco foi necessário aquecer o telheiro do cerrado e da capoeira — o que pertencia às funções de Service e de Garnett, Algumas aves preparavam-se, nesta época, para emigrar aos bandos. Para que regiões iam elas? Devia ser para as regiões setentrionais do Pacífico ou do continente americano, cujo clima era menos rigoroso do que o da ilha Chairman.

Entre estas aves figuravam, em primeiro lugar, as andorinhas, esses viajantes maravilhosos, capazes de se transportarem rapidamente a distâncias consideráveis.

Preocupado constantemente com a ideia de empregar todos os meios possíveis para voltar à sua pátria, Briant lembrou-se então de aproveitar a partida destas aves para indicar a situação atual dos náufragos do Sloughi. Foi muito fácil apanhar algumas dúzias de andorinhas, da espécie das “rústicas”, porque elas iam fazer o ninho até no interior de Store-room. Puseram-lhes ao pescoço um saquinho de pano, que continha um bilhete indicando, pouco mais ou menos, em que parte do Pacífico se devia procurar a ilha Chairman, e pedindo para mandar aviso para Auckland, a capital da Nova Zelândia.

Em seguida, soltaram as andorinhas, e não foi sem verdadeira comoção que os moços colonos exclamaram: — Até à vista! — no momento em que elas desapareciam na direção do nordeste.

Era uma probabilidade de salvação bastante modesta, mas, por muito pouco provável que fosse alguém apanhar aqueles bilhetes, Briant sempre tivera razão não a desprezando.

No dia 25 de maio apareceu a primeira neve; por consequência, alguns dias mais cedo do que no ano precedente. Desta precocidade do inverno dever-se-ia concluir que fosse muito rigoroso? Era para recear, pelo menos. Felizmente, a luz, o calor e a alimentação estavam assegurados em French-den durante muitos meses, sem falar no produto dos South-moors, cuja caça descia muitas vezes às margens do rio Zealand.

A roupa de abafar tinha sido distribuída havia algumas semanas, e Gordon trabalhava para que as medidas higiénicas fossem observadas rigorosamente.

Foi durante este último período que em French-den se sentiu uma agitação secreta que trazia todos inquietos. Efetivamente, o ano para o qual Gordon fora nomeado chefe da ilha Chairman ia acabar no dia 10.

Daí conferências, conciliábulos, e até se pode dizer intrigas, que agitavam seriamente a colónia. Gordon, como se sabe, queria conservar-se indiferente a tudo isto. Quanto a Briant, como era francês de origem, não pensava em governar uma colónia de rapazes quase todos ingleses.

No fundo e sem o dar a conhecer, quem se inquietava mais com esta eleição era Doniphan. Evidentemente, com a sua inteligência pouco vulgar, a sua coragem, de que ninguém duvidava, tinha muitas probabilidades de vencer se não fosse o seu caráter altivo, o seu espírito dominador e os defeitos da sua natureza invejosa.

Contudo, ou porque tivesse a certeza de suceder a Gordon, ou porque a sua vaidade o impedisse de mendigar votos, fingiu não se importar. Mas o que ele não fez fizeram-no os seus amigos por ele. Wilcox, Webb e Cross trabalhavam, com empenho, para convencer os outros a darem o seu sufrágio a Doniphan — sobretudo os mais pequenos, cujo voto era preciso. Ora, como não se falava em outro nome, Doniphan pôde considerar a sua eleição como certa, e com alguma razão.

O dia 10 de Junho chegou.

Era de tarde que se ia proceder ao escrutínio. Cada um devia escrever numa lista o nome daquele em quem queria votar. A maioria dos sufrágios decidiria. Como a colónia se compunha de catorze membros — pois Moko, na qualidade de preto, não podia pretender nem pretendia ser eleitor — sete votos, e mais um, a favor do mesmo nome, fixariam a escolha do novo chefe.

O escrutínio abriu-se às duas horas, presidido por Gordon, e realizou-se com a gravidade que a raça anglo-saxónica emprega em todas as operações deste género.

Depois de feita a contagem, os resultados foram os seguintes:

Briant, 10 votos; Doniphan, 3 votos; Gordon, 1 voto.

Nem Gordon nem Doniphan tinham querido tomar parte no escrutínio. Quanto a Briant, dera o seu voto a Gordon.

Ao ouvir proclamar este resultado, Doniphan não pôde ocultar o seu desapontamento nem a irritação profunda que sentia.

Briant, muito surpreendido por ter obtido o maior número de votos, esteve quase a recusar a honra que lhe faziam. Mas decerto que lhe ocorreu alguma ideia, porque, depois de ter olhado para seu irmão Jaime, declarou:

— Obrigado, meus amigos, aceito!

A partir deste dia, Briant era, por um ano, o chefe dos moços colonos da ilha Chairman.