Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 18 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo I

 

Tudo se tinha passado bem em French-den durante a ausência de Gordon. O chefe da pequena colónia estava satisfeitíssimo com Briant, a quem os pequenos testemunhavam verdadeira afeição. Doniphan, se não fosse o seu caráter altivo e invejoso, também teria apreciado — como devia — as qualidades do seu camarada; mas não era assim, e graças ao ascendente que exercia em Wilcox, Webb e Cross, estes ajudavam-no sempre quando se tratava de fazer oposição ao moço francês, tão diferente, nos modos e no caráter, dos seus companheiros de origem anglo-saxónica.

Briant não fazia caso. Fazia o que julgava o seu dever, sem se preocupar com o que pensavam dele. O seu maior cuidado era a atitude inexplicável de seu irmão.

Ultimamente, Briant tornara a fazer perguntas a Jaime, sem obter outra resposta além desta:

— Não... meu irmão... não! Não tenho nada!

— Não queres falar, Jaime? — dissera ele. — Fazes mal!... Era um alívio, tanto para ti como para mim!... Estás cada vez mais triste, mais sombrio! Vamos!... Eu sou o teu irmão mais velho!... Tenho o direito de saber qual é a causa do teu desgosto!... De que te acusas?...

— Meu irmão!... — respondeu finalmente Jaime, como se não pudesse resistir a algum remorso secreto. — Queres saber o que fiz?... Tu talvez... me perdoasses.. mas os outros...

— Os outros?... Os outros!... — exclamara Briant. — Que queres dizer, Jaime?

Os olhos da criança encheram-se de lágrimas; mas, apesar da insistência do irmão, não acrescentara senão isto:

— Mais tarde saberás... mais tarde!...

Depois desta resposta compreende-se a inquietação de Briant. O que haveria, tão grave, no passado de Jaime? Era o que ele queria saber a todo o custo. Assim, logo que Gordon regressou, Briant falou-lhe nas meias confissões que arrancara a seu irmão, pedindo-lhe que interviesse no assunto.

— Para quê? — respondeu acertadamente Gordon. — É melhor deixar Jaime falar espontaneamente!. Quanto ao que ele fez... foi decerto alguma diabrura cuja Importância exagera!... Esperemos que ele se explique!

No dia seguinte — 9 de novembro — os moços colonos puseram-se de novo ao trabalho. E este não faltava. Primeiro que tudo foi necessário atender às reclamações de Moko, que tinha a despensa quase vazia, posto que os laços, armados nas proximidades de French-den, tivessem funcionado por diversas vezes. Na realidade, o que faltava era a caça grossa. Portanto, tratava-se de construir armadilhas bastante sólidas para que as vicunhas, os pecaris e os guaçulis pudessem cair nelas sem custarem um grão de chumbo nem de pólvora.

Foi a trabalhos deste género que os mais velhos consagraram todo o mês de novembro — o mês de maio das latitudes do hemisfério setentrional.

Logo que chegaram, o guanaco e a vicunha com as duas crias tinham sido instalados provisoriamente debaixo das árvores mais próximas de French-den. Aí, podiam mover-se num certo espaço, o que lhes permitiam as cordas que os prendiam. Isto era suficiente durante o período dos dias grandes; mas, antes que voltasse o inverno, devia-se estabelecer um abrigo mais conveniente. Assim, Gordon decidiu que se dispusessem imediatamente um alpendre e um cerrado, protegidos por grandes paliçadas, ao pé de Auckland-hill, do lado do lago, um pouco adiante da porta do hall.

Deitaram-se à obra, e organizou-se um verdadeiro estaleiro dirigido por Baxter. Dava gosto ver aqueles rapazes ativos, manejando mais ou menos habilmente as ferramentas que tinham encontrado na caixa de marceneiro da escuna, uns a serra, outros o machado ou a enxó. Se às vezes estragavam a obra, não desanimavam com isso. Algumas árvores de grossura média, cortadas pela raiz e podadas, forneceram o número de estacas necessárias para cercar um espaço onde uma dúzia de animais pudessem viver à vontade. Estes troncos, enterrados solidamente na terra e ligados uns aos outros por travessas, eram capazes de resistir a todas as tentativas dos animais ferozes que diligenciassem derrubá-los ou transpô-los. Quanto ao alpendre, foi construído com as cintas do costado do Sloughi — o que evitou aos moços carpinteiros o trabalho de cortar as árvores em pranchas, trabalho muito difícil nestas condições. Depois cobriu-se com um oleado espesso, a fim de não ter nada a temer das rajadas. Uma cama de boa e espessa palha, erva fresca para alimento, musgo e folhagem, de que se faria boa provisão, não era preciso mais nada para manter os animais domésticos em bom estado. Garnett e Service, encarregados mais particularmente do arranjo do cercado, foram em breve recompensados dos seus cuidados, vendo o guanaco e a vicunha domesticarem-se de dia para dia.

Além disso, não tardou que o recinto recebesse novos hóspedes. Primeiro foi outro guanaco, que se deixou cair numa das covas da floresta, depois um casal de vicunhas, macho e fêmea, que Baxter agarrou auxiliado por Wilcox,. que também começava a manejar as bolas com muita habilidade. Apanhou-se até um nandu, que “Phann” caçou. Mas viu-se logo que sucederia com este o mesmo que com o primeiro. Apesar da boa vontade de Service, não se pôde fazer nada dele.

É escusado dizer que, enquanto o alpendre não se acabou, o guanaco e a vicunha iam ficar todas as noites em Store-room. Os gritos dos chacais, os guinchos das raposas e os rugidos dos carnívoros ouviam-se muito perto de French-den, pelo que não era prudente deixar os animais de fora.

Entretanto, enquanto Garnett e Service tratavam especialmente dos animais, Wilcox e alguns dos seus camaradas não cessavam de preparar armadilhas e laços, que iam visitar diariamente. Além disso, também houve trabalho para dois dos pequenos, Iverson e Jenkins. Efetivamente, as abetardas, as galinhas do campo, as galinhas-da-índia e os tinamus precisavam de uma capoeira, que Gordon fez construir num canto do cerrado, e os dois pequenos foram encarregados de tratar dela — o que eles fizeram com muito zelo.

Como se vê, Moko tinha agora à sua disposição, não só o leite das vicunhas, mas também os ovos dos animais de penas. E decerto que teria fabricado algum doce da sua invenção se Gordon não lhe tivesse recomendado que economizasse o açúcar. Assim, só aos domingos e alguns dias de festa é que se via aparecer na mesa um prato extraordinário, que Dole e Costar saboreavam com delícia.

No entanto, se era impossível fabricar açúcar, talvez se pudesse encontrar qualquer matéria suscetível de o substituir. Service — com os seus Robinsons na mão — afirmava que não era preciso mais que procurar. Gordon procurou, portanto, e acabou por descobrir, no meio do mato de Traps-woods, um grupo de árvores, que três meses mais tarde, nos primeiros dias do outono, deviam cobrir-se de uma folhagem cor de púrpura lindíssima.

— São áceres — disse ele —, árvores de açúcar!

— Árvores de açúcar! — exclamou Costar.

— Não, guloso! — esclareceu Gordon. — Árvores que dão açúcar, é que é! Não mudes o sentido às palavras!

Esta descoberta era das mais importantes que os moços colonos tinham feito depois da sua instalação em French-den. Dando um golpe no tronco de um dos áceres, Gordon obteve líquido, produzido pela condensação da seiva, e esta seiva, solidificando-se, deu uma matéria açucarada. Apesar de inferior em qualidades sacaríferas ao suco da cana e da beterraba, esta substância não era menos preciosa para as necessidades da despensa, e era melhor, em todo o caso, do que os produtos similares que se tiram da bétula, durante a primavera.

Havendo açúcar, não tardou que houvesse licor. Por conselho de Gordon, Moko tratou de fermentar as sementes de trulca e de alfarroba. Depois de terem sido previamente esmagadas numa vasilha por meio de um pesado pilão de madeira, estas sementes produziram um líquido alcoólico, cujo sabor bastaria para adoçar as bebidas quentes, à falta de açúcar. Quanto às folhas colhidas na árvore do chá, reconheceu-se que eram quase tão boas como a odorífera planta chinesa. Assim, durante as suas excursões à floresta, os exploradores nunca deixaram de fazer uma colheita abundante.

Como se vê, a ilha Chairman dava aos seus habitantes, se não o supérfluo, pelo menos o necessário. O que faltava — e sentia-se muito esta falta — eram os legumes frescos. De modo que era preciso contentarem-se com os legumes de conserva, de que havia um cento de caixas, que Gordon economizava o mais que podia. Briant tentara cultivar os inhames, de que o náufrago francês semeara algumas plantas junto da penedia, e que se haviam tornado bravos. Foi em vão. Felizmente, o aipo — como já dissemos — crescia com abundância nas margens do Family-lake, e, como não era necessário economizá-lo, substituia com vantagem os legumes frescos.

É inútil dizer que as armadilhas, estendidas durante o inverno na margem esquerda do rio, tinham sido transformadas em redes de caça quando voltou o bom tempo. Apanharam-se aí, entre outros voláteis, algumas perdizes pequenas que vinham, decerto, das terras situadas ao largo da ilha.

Doniphan tinha grande desejo de explorar a vasta região dos South-moors, do outro lado do rio Zealand. Mas era perigoso arriscarem-se através daqueles pântanos, cobertos em parte pelas águas do lago, misturadas com as do mar na época das cheias.

Wilcox e Webb capturaram também um bom número de cutias, do tamanho de lebres, e cuja carne esbranquiçada, um pouco seca, fica entre a do coelho e a do porco. Seria difícil com certeza apanhar estes velozes roedores, mesmo com o auxílio de Phann; mas, quando eles estavam na toca, era bastante assobiar levemente para os atrair ao orifício e agarrá-los. Os moços caçadores apanharam também, por diversas vezes, fuetas, glutões, texugos e zorrilhos, muito semelhantes às martas, com a sua formosa pele preta e riscas brancas, mas que espalhavam emanações fétidas.

— Como podem eles suportar um tal cheiro? — perguntou um dia Iverson.

— Ora! Questão de hábito! — respondeu Service.

Se o rio fornecia o seu contingente de galáxias, Family-lake, povoado de espécies maiores, dava, entre outras, algumas trutas magníficas, que, apesar da cocção, conservavam o sabor um pouco salobro. É verdade que havia sempre o recurso de ir pescar, entre as algas e os sargaços de Sloughi-bay, uma espécie de badejos que se refugiavam ali aos milhares. E depois, quando chegasse o momento em que os salmões tentassem subir o curso do rio Zealand, Moko iria fazer boa provisão desses peixes, que, conservados em sal, seriam um alimento magnífico para a estação invernosa.

Foi nesta época a pedido de Gordon, que Baxter fabricou arcos com ramos elásticos de freixos, e setas de caniços, armadas com um prego na ponta, o que permitiu que Wilcox e Cross — os mais hábeis depois de Doniphan — matassem, de vez em quando, alguma caça miúda.

Contudo, apesar de Gordon se opor sempre ao gasto de munições, sobreveio uma circunstância na qual foi obrigado a pôr de parte a sua economia do costume.

Um dia — foi a 7 de dezembro — Doniphan chamou-o de parte e comunicou-lhe:

— Gordon, estamos infestados pelos chacais e pelas raposas! Vêm aos bandos durante a noite, e destroem as nossas redes e a caça que se deixou cair nelas!... É preciso acabar com eles por uma vez!

— Não se podem armar laços? — sugeriu Gordon, vendo perfeitamente aonde o seu camarada queria chegar.

— Laços... — respondeu Doniphan, que não perdera o seu desdém por estes vulgares instrumentos de caça. — Laços!... Para os chacais, ainda vá, porque são bastante estúpidos para se deixarem apanhar algumas vezes. Agora as raposas, é outra coisa! São muito espertas e desconfiam, apesar de todas as precauções de Wilcox! Qualquer noite teremos o nosso cerrado devastado, e não acharemos nem uma ave na capoeira!...

— Bem, já que é necessário — condescendeu Gordon — concedo algumas dúzias de cartuchos. Mas tratem de só disparar com muita certeza!...

— Podes estar descansado, Gordon! Esta noite emboscar-nos-emos na passagem desses animais, e faremos uma tal matança que desaparecerão por muito tempo!

Esta destruição era urgente. As raposas destas regiões parecem ser ainda mais astutas do que as suas congéneres da Europa — as da América do Sul, principalmente. Efetivamente, fazem devastações incessantes pelos arredores das haciendas, tendo bastante inteligência para cortar as correias de couro que prendem os cavalos ou o gado nas pastagens.

Assim, quando anoiteceu, Doniphan, Briant, Wilcox, Baxter, Webb, Cross e Service foram postar-se nas proximidades de um covert — nome que se dá, no Reino Unido, a grandes espaços de terreno semeados de moitas e de sarças. Este covert estava situado próximo de Traps-woods, do lado do lago.

Phann não acompanhou os caçadores. Podia servir-lhes de obstáculo dando sinal de si às raposas. Não se tratava, além disso, de farejar uma pista. De mais a mais, mesmo quando está aquecida pela carreira, a raposa não deixa rasto algum atrás de si, ou, pelo menos, as emanações são tão ligeiras que os melhores cães não podem reconhecê-las.

Eram onze horas quando Doniphan e os seus camaradas se puseram de emboscada entre os maciços de urzes bravas que cercavam o covert.

A noite estava muito sombria. Um profundo silêncio, que não era perturbado pela mais leve aragem, permitia que se ouvisse o deslizar das raposas pelas ervas secas.

Um pouco depois da meia-noite, Doniphan indicou a aproximação de um bando destes animais, que atravessavam o covert para irem matar a sede ao lago.

Os caçadores esperaram, não sem impaciência, que estivessem reunidas em número de vinte, pouco mais ou menos — o que levou um certo tempo, porque elas não avançavam senão com prudência, como se pressentissem alguma cilada. De repente, a um sinal de Doniphan, dispararam-se uns poucos de tiros. Todos acertaram. Cinco ou seis raposas caíram no solo, enquanto que as outras, correndo para a direita e para a esquerda, como doidas, foram quase todas feridas mortalmente.

Quando rompeu o dia, acharam-se dez destes animais estendidos entre as ervas do covert. E, como a matança continuou durante três noites consecutivas, a pequena colónia viu-se em breve livre destas visitas perigosas, que ameaçavam a vida dos hóspedes do cerrado. Além disso, ganharam no fim umas cinquenta peles de um pardo-prateado, muito bonitas, que, ou para tapetes, ou para abafos, seriam muito úteis em French-den.

No dia 15 de dezembro, grande expedição a Sloughi-bay. Como o tempo estava muito bom, Gordon resolveu que todos tomassem parte nela — o que foi recebido pelos mais novos com grandes demonstrações de alegria.

Era provável que, partindo ao romper do dia, pudessem regressar antes da noite. Se houvesse alguma demora, acampar-se-ia debaixo das árvores.

Esta expedição tinha por objetivo principal uma caçada às focas que frequentavam o litoral de Wreck-coast na época dos frios. Efetivamente, a iluminação, de que muito se usou durante as tardes e as noites deste longo inverno, estava quase no fim. Da provisão de velas fabricadas pelo náufrago francês já não restavam senão duas ou três dúzias. Quanto ao azeite contido nos barris do Sloughi, e que servia para a alimentação dos faróis do hall, a maior parte dele estava gasto, e Isto preocupava seriamente Gordon.

É verdade que Moko pudera pôr de reserva uma certa quantidade do sebo que lhe fornecia a caça, ruminantes, roedores ou voláteis; mas esse mesmo esgotar-se-ia rapidamente pelo consumo diário. Ora, não seria possível substituí-lo por qualquer substância que a Natureza desse já preparada, ou pouco menos? À falta de azeite vegetal, a pequena colónia não poderia arranjar uma reserva, por assim dizer infinita, de azeite animal?

Sim, com certeza, se os caçadores conseguissem matar um certo número daquelas focas, daquelas otárias de peles, que iam folgar para o banco de recifes de Sloughi-bay durante a estação quente. Era preciso, mesmo, andar depressa, porque estes anfíbios não tardariam em ir procurar águas mais meridionais nas paragens do oceano Antártico.

Como se vê, a expedição projetada tinha muita importância, e os preparativos fizeram-se de maneira que pudesse dar um bom resultado.

Havia algum tempo que Service e Garnett se aplicavam com êxito a ensinar os dois guanacos como bestas de tiro. Baxter fabricara-lhes um cabresto de ervas, metidas em pano grosso de velas, e, se ainda não se montava neles, podia-se, pelo menos, atrelá-los ao carro. Sempre era melhor do que atrelarem-se os rapazes a si mesmos.

Nesse dia, o carro foi carregado de munições, provisões e diferentes utensílios, entre outros, uma grande vasilha de cobre e meia dúzia de barris vazios, que voltariam cheios de óleo de foca. Efetivamente, era melhor despedaçar logo aqueles animais do que trazê-los para French-den, onde o ar seria empestado por cheiros insalubres.

A partida efetuou-se ao nascer do Sol, e a marcha fez-se sem dificuldade durante as duas primeiras horas. Se o carro não ia muito depressa, era porque o solo desigual da margem direita do rio Zealand não se prestava à tração dos guanacos. Mas onde se tornou muito difícil a marcha foi quando o pequeno rancho contornou o pântano de Bog-woods, entre as árvores da floresta. As pernitas de Dole e de Costar sentiram-se fatigadas. Por isso, Gordon, a pedido de Briant, permitiu-lhes que tomassem lugar no carro, a fim de descansarem sem se perder tempo.

Perto das oito horas, enquanto os guanacos costeavam penosamente os limites do pântano, os gritos de Cross e de Webb, que marchavam um pouco adiante, fizeram acudir Doniphan, primeiro, e os outros logo em seguida.

No meio do lodo de Bog-woods, a uma distância de cem passos, revolvia-se um animal enorme, que o pequeno caçador reconheceu imediatamente. Era um hipopótamo, gordo e rosado. Felizmente para ele, desapareceu debaixo dos montes espessos do pântano antes que fosse possível fazer pontaria. Além disso, para que se havia de disparar um tiro de espingarda tão inutilmente!

— Que animal é aquele, tão grande? — perguntou Dole, muito inquieto só de avistá-lo.

— É um hipopótamo — informou Gordon.

— Um hipopótamo!... Que nome tão esquisito! como quem diz um cavalo-marinho — ensinou Briant.

— Mas não se parece com um cavalo! — observou Costar.

— Não — exclamou Service —, parece-me que seria mais razoável chamar-lhe porcopótamo!

Esta reflexão não deixava de ser acertada e provocou o riso alegre dos pequenos.

Eram pouco mais de dez horas da manhã quando Gordon desembocou na praia de Sloughi-bay. Pararam junto da margem do rio, no lugar onde se estabelecera o primeiro acampamento durante a demolição do iate.

Estavam aí umas cem focas, saltando entre as rochas ou aquecendo-se ao sol. Havia até algumas que brincavam na areia, para cá do cordão de recifes.

Estes anfíbios deviam estar pouco familiarizados com a presença do homem. Talvez até nunca tivessem visto seres humanos, porque, depois da morte do náufrago francês, haviam decorrido mais de vinte anos. Por isso, apesar de ser uma precaução usada pelos anfíbios, ao serem perseguidos nas paragens árticas ou antárticas, os mais velhos do bando não estavam de sentinela a fim de escaparem ao perigo. Contudo, era preciso evitar assustá-los prematuramente, pois de contrário desapareceriam daquele lugar rapidamente.

Primeiro, logo que chegaram defronte de Sloughi-bay, os moços colonos dirigiram o olhar para aquele horizonte amplamente recortado entre American-cape è False-Sea-point.

O mar estava absolutamente deserto. Podia-se reconhecer uma vez mais que aquelas paragens pareciam estar situadas fora das estradas marítimas.

Todavia, era possível que passasse algum navio por um ponto donde se avistasse a ilha. Nesse caso, um posto de observação, estabelecido no cume de Auckland-hill ou mesmo no alto do cabeço de False-Sea-point — para o qual se içaria um dos canhões da escuna —, seria melhor para atrair a atenção do que o mastro de sinais. as isso obrigava a permanecer-se dia e noite nesse posto, e, por consequência, longe de French-den. Gordon considerava, pois, esta medida como impraticável. O próprio Briant, que andava sempre preocupado com a questão de regressar à pátria, concordou nisto. Era pena que French-den não estivesse situada deste lado de Auckland-hill, em frente de Sloughi-bay!

Depois de um almoço rápido, no momento em que o sol do meio-dia convidava as focas a aquecerem-se na praia, Gordon, Briant, Doniphan, Cross, Baxter, Wilcox, Garnett e Service prepararam-se para lhes dar caça. Durante esta operação, Iverson, Jenkins, Jaime, Dole e Costar deviam ficar no acampamento, sob a vigilância de Moko — ao mesmo tempo que Phann, que não convinha largar no meio do bando de anfíbios. Além disso, teriam de vigiar os dois guanacos, que se puseram a pastar debaixo das primeiras árvores da floresta.

Todas as armas de fogo da colónia, espingardas e revólveres, tinham vindo com munições em quantidade suficiente, que Gordon não regateara desta vez, porque se tratava de interesse geral.

Era preciso tratar, primeiro que tudo, de cortar a retirada às focas pelo lado do mar. Doniphan, a quem os seus camaradas encarregaram, voluntariamente, de dirigir a manobra, convidou-os a descerem o rio até à embocadura, ocultando-se ao abrigo da praia. Em seguida, feito isto, seria fácil caminhar ao longo dos recifes, de maneira a cercar a praia.

Este plano foi executado com muita prudência. Os nossos caçadores, espalhados de trinta a quarenta passos uns dos outros, formaram, em breve, um semicírculo entre a praia e o mar.

Então, a um sinal dado por Doniphan, ergueram-se todos ao mesmo tempo, as detonações ressoaram simultaneamente e cada tiro fez uma vítima.

As focas que tinham escapado ergueram-se, agitando a cauda e as barbatanas. Em seguida, assustadas, sobretudo com o ruído das detonações, precipitaram-se, saltando, para os recifes.

Perseguiram-nas a tiro de revólver. Doniphan, todo entregue aos seus instintos, fazia maravilhas, enquanto os seus camaradas o imitavam o melhor que podiam.

Esta matança durou apenas alguns minutos, posto que os anfíbios fossem perseguidos até ao pontalete das últimas rochas. Os sobreviventes desapareceram para além destas, deixando na praia uns vinte mortos ou feridos.

A expedição tivera, portanto, bom resultado, e os caçadores, regressando ao acampamento, instalaram-se debaixo das árvores, de maneira que pudessem passar aí trinta e seis horas.

A tarde empregou-se num trabalho que não deixava de ser muito repugnante. O próprio Gordon tomou parte nele, e, como era uma tarefa Indispensável, todos se entregaram a ela resolutamente. Primeiro foi preciso trazer para a praia as focas que tinham caído entre os recifes. Isto não se fez sem custo, apesar de todos estes animais serem de tamanho regular.

Durante este tempo, Moko tinha colocado a vasilha de cobre por cima de uma fogueira, estabelecida entre duas grandes pedras. Os quartos de foca, cortados em bocados de cinco a seis libras cada um, foram depositados na vasilha, que se enchera previamente de água doce, tirada do rio, à hora da maré baixa. Alguns minutos foi o suficiente para a fervura produzir um óleo claro, que sobrenadou à superfície, e com o qual se encheram todos os barris.

Este trabalho tornava-se verdadeiramente insuportável pela infeção que espalhava. Todos tapavam o nariz, mas não os ouvidos — podendo assim ouvir os gracejos que esta operação desagradável provocava. Até o delicado lord Doniphan teve de se resignar a este trabalho, que continuou no dia seguinte.

No fim do segundo dia, Moko juntara assim muitas centenas de galões de óleo. Esta quantidade pareceu suficiente; porque a iluminação de French-den ficava assegurada para todo o inverno próximo. Além disso, as focas não voltavam aos recifes nem à praia, e não tornariam, decerto, a frequentar o litoral de Sloughi-bay enquanto o tempo não lhes dissipasse o terror.

O acampamento levantou-se no dia seguinte, de madrugada — com satisfação geral, podemos afirmar.

Na véspera, à noite, o carro tinha sido carregado de barris, de ferramentas e de utensílios. Como devia estar mais pesado do que quando viera, os dois guanacos não poderiam puxá-lo muito depressa, porque o solo subia sensivelmente na direção do Family-lake.

No momento da partida, não se ouviram senão gritos atroadores de mil aves de rapina, busardos e falcões, que vinham do interior da ilha, atraídos pelos restos das focas, das quais não restaria, em breve, o mais leve vestígio.

Então, depois de uma saudação à bandeira do Reino Unido, que flutuava no cume de Auckland-hill, depois do último olhar lançado para o horizonte do Pacífico, o pequeno rancho pôs-se a caminho, subindo a margem direita do rio Zealand.

O regresso não foi marcado por incidente algum. Apesar das dificuldades do caminho, os guanacos desempenharam tão bem o seu papel e os mais velhos ajudaram-nos tanto nas passagens difíceis que entraram todos em French-den antes das seis horas da tarde.

Os dias seguintes foram consagrados aos trabalhos do costume. Experimentou-se o óleo de foca nas lâmpadas dos faróis e verificou-se que a luz dada por ele, apesar de ser muito medíocre, era suficiente para a iluminação do hall e de Store-room. Portanto, já não havia que recear a escuridão durante os longos meses do inverno.

Entretanto, Christmas-day (dia de Natal), festejado tão alegremente pelos Anglo-Saxónicos, aproximava-se. Gordon quis, com razão, que o celebrassem com certa solenidade. Seria como que uma recordação dirigida à pátria, uma saudação do coração para as famílias ausentes! Ah! Se estas crianças pudessem fazer-se ouvir, como gritariam: «Estamos aqui... todos! vivos, com saúde... Tornar-nos-emos a ver!... Deus há de conduzir-nos ao nosso país!»

Sim!... Elas podiam ainda ter uma esperança, enquanto que as suas famílias já haviam desistido completamente, lá em Auckland, de tornar a vê-las!

Gordon anunciou, pois, que nos dias 25 e 26 de dezembro haveria feriado em French-den. Os trabalhos seriam suspensos durante esses dois dias. Celebrar-se-ia este primeiro Christmas na ilha Chairman como em outros países da Europa se festeja o primeiro dia do ano.

Imagina-se facilmente como esta proposta foi recebida! É inútil dizer que no dia 25 haveria um banquete aparatoso, para o qual Moko prometia maravilhas. Assim, Service e ele não cessavam de conferenciar misteriosamente a este respeito, enquanto Dole e Costar, cheios de curiosidade, diligenciavam surpreender o segredo das suas deliberações. A despensa estava bem abastecida para fornecer os elementos de um banquete solene.

O grande dia chegou.

Por cima da porta do hall, do lado de fora, Baxter e Wilcox tinham disposto artisticamente a série de bandeiras, galhardetes e pavilhões do Sloughi, o que dava um ar de festa a French-den.

Pela manhã, um tiro de canhão despertou ruidosamente os ecos de Auckland-hill. Era uma peça encostada à canhoneira do hall, que Doniphan acabava de disparar em honra do Natal.

Os pequenos vieram logo desejar boas-festas, que os outros lhes retribuíam afetuosamente. Houve até um cumprimento dirigido ao chefe da ilha Chairman, recitado por Costar, que se saiu menos mal do caso.

Todos tinham vestido o seu fato melhor para a circunstância. Como o tempo estava magnífico, antes e depois do almoço houve passeio ao longo do lago, jogos diversos em Sport-terrace, nos quais todos quiseram tomar parte. Eles haviam levado de bordo do iate todos os brinquedos especiais tão usados na Inglaterra. Eram bolas, pelas, bastões, raquetas — para golfe, que consiste em enviar bolas de cauchu para diferentes buracos abertos a grande distância; para o futebol, cuja bola de couro é atirada com o pé; para os bozuls, bolas de bilhar feitas de madeira, que se atiram à mão, e das quais se deve corrigir habilmente o desvio, devido à sua forma oval; e, finalmente, para as fives, que fazem lembrar o jogo da pela atirada à parede.

O dia foi bem preenchido. Os mais pequenos, sobretudo, não perderam o tempo. Tudo correu bem. Não houve questões nem zangas. É verdade que Briant encarregara-se particularmente de divertir Dole, Costar, Iverson e Jenkins — sem conseguir que seu irmão Jaime se juntasse a eles —, enquanto Doniphan e os seus companheiros do costume, Webb, Cross e Wilcox, faziam rancho à parte, apesar das observações do prudente Gordon.

Finalmente, quando a hora de jantar foi anunciada por nova descarga de artilharia, os moços convivas foram, alegremente, tomar lugar no banquete, servido no refeitório de Store-room.

No centro da grande mesa, coberta por uma bela toalha branca, estava uma árvore de Natal, plantada num grande vaso, rodeado de verdura e de flores. Dos ramos estavam suspensas bandeirinhas com as cores reunidas da Inglaterra, da América e da França.

Moko, realmente, excedera-se na confeção do banquete, e ficou muito orgulhoso com os cumprimentos que lhe foram dirigidos, assim como a Service, seu amável colaborador. Uma cutia estufada, um guisado de tinamus, uma lebre assada, recheada de ervas aromáticas, uma abetarda, com as asas levantadas e o bico para o ar, como um faisão guarnecido, três caixas de legumes de conserva, um pudim — e que pudim! — disposto em forma de pirâmide, com as passas de Corinto tradicionais misturadas com frutos de alfarraba, e que estava metido num banho de brandy havia uma semana; depois, alguns copos de Bordéus, de sherry, de licores, chá, café à sobremesa, era suficiente, parece-me, para festejar condignamente a solenidade do Natal na ilha Chairman.

Briant fez um toast cordial a Gordon, que lhe respondeu bebendo à saúde da colónia e à das famílias ausentes.

Finalmente — o que comoveu mais —, Costar levantou-se e, em nome dos mais novos, agradeceu a Briant a sua dedicação por eles, de que tinham recebido tantas provas.

Briant não pôde deixar de sentir uma comoção profunda, quando os hurras ressoaram em sua honra — hurras que, porém, não acharam eco no coração de Doniphan.