Dois Anos de Férias
Capítulo XIV
Agora começava uma era nova para os moços colonos da ilha Chairman. Depois de terem lutado para defenderem a existência em condições muito críticas, iam trabalhar com a ideia de saírem dali e tornarem a ver as suas famílias e o seu país.
Depois da excitação causada pelos incidentes da luta, produzia-se neles uma reação muito natural. Estavam fatigados pelo sucesso, no qual não podiam acreditar. O perigo parecia-lhes ainda maior do que quando andavam excitados pela luta. É certo que, depois do primeiro encontro à entrada de Traps-woods, tinham mais probabilidades a seu favor. Mas sem a intervenção de Forbes, Walston, Cook e Brandt ter-lhes-iam escapado! Moko não se atreveria a enviar aquela descarga que teria morto Jaime e Costar ao mesmo tempo que os seus raptores!... Que se teria passado depois disso?... O que seria necessário fazer para salvar as duas crianças?
Assim, quando Briant e os seus camaradas puderam encarar friamente aquela situação, sentiram-se dominados por uma espécie de terror retrospetivo, que durou pouco, apesar de não saberem o que era feito de Rock e de Cope.
Quanto aos heróis da batalha, tinham sido felicitados como mereciam; Moko, pelo seu tiro de canhão, disparado tanto a propósito através da canhoneira de Store-room; Jaime, pelo sangue-frio que mostrara disparando o revólver sobre Walston, e Costar, enfim, que «teria feito o mesmo», disse ele, «se tivesse uma pistola!» Mas não a tinha! Até Phann recebeu uma boa parte das carícias, sem contar um magnífico osso com tutano que Moko lhe deu como gratificação por ele ter atacado às dentadas o celerado que arrastava o rapazinho.
É Inútil dizer que Briant, depois do tiro de canhão de Moko, voltara a toda a pressa para o lugar onde os seus camaradas guardavam a padiola. Alguns minutos depois, Doniphan tinha sido depositado no hall, sem ter recuperado os sentidos, enquanto Forbes, erguido por Evans, era estendido na cama de Store-room. Durante toda a noite, Kate, Gordon, Briant, Wilcox e o mestre velaram à cabeceira dos dois feridos.
Doniphan estava ferido muito gravemente, não havia que duvidar. Contudo, como ele respirava com muita regularidade, era porque a faca de Cope não lhe perfurara o pulmão. Para lhe pensar a ferida, Kate recorreu então a certas folhas muito usadas no Far-West, e que foram tiradas de alguns arbustos das margens do rio Zealand. Eram folhas de amieiro, as quais, esfregadas e dispostas em compressas, são muito eficazes para Impedir a supuração interna, pois todo o perigo estava nisso. Mas não se dava o mesmo caso com Forbes, que Walston ferira no ventre. Ele sabia que a ferida era mortal, e quando voltou a si, enquanto Kate curvada sobre a cama lhe prodigalizava cuidados, murmurou:
— Obrigado, boa Kate! Obrigado!... É inútil!... Estou perdido!
E as lágrimas corriam-lhe dos olhos.
O remorso tinha então despertado o que havia ainda de bom no coração daquele desgraçado!... Sim! Arrastado, sobretudo, pelos maus conselhos e os maus exemplos, se tomara parte nos crimes do Severn todo o seu ser se revoltara perante a sorte horrível que ameaçava os moços colonos, e arriscara a vida por eles.
— Tem esperança, Forbes! — disse-lhe Evans. — Resgataste os teus crimes... hás de viver...
Não! O desgraçado devia morrer! Apesar dos cuidados de que o cercaram, o agravamento do mal tornava-se mais visível de hora para hora. Durante os poucos momentos de descanso que a dor lhe concedia, dirigia o olhar inquieto para Kate, para Evans!... Derramara sangue, e o dele corria para expiar a sua existência passada...
Cerca das quatro horas da manhã Forbes expirou. Morreu arrependido, com o perdão dos homens e o de Deus, que lhe evitou uma agonia demorada, e foi quase sem sofrimento que exalou o último suspiro.
Enterraram-no no dia seguinte numa cova aberta próximo do lugar onde repousava o náufrago francês, e duas cruzes indicam agora o lugar dos dois túmulos.
Contudo, a presença de Rock e de Cope constituía ainda um perigo, e a segurança não podia ser completa enquanto eles não estivessem impossibilitados de fazer mal.
Evans resolvera, portanto, acabar com eles antes de ir ao porto de Bear-rock.
Gordon, Briant, Baxter, Wilcox e ele partiram nesse mesmo dia, de espingarda ao ombro e revólver à cinta, acompanhados por Phann, pois era muito acertado confiarem no seu Instinto para descobrir uma pista.
As pesquisas não foram difíceis nem demoradas e, devemos acrescentar, nem perigosas. Já não havia nada a recear dos dois cúmplices de Walston. Cope, que tinha deixado sinais de sangue no meio dos arvoredos de Traps-woods, foi encontrado morto a uns cem passos do lugar onde lhe acertara uma bala. Achou-se também o cadáver de Pike, morto no princípio da luta. Quanto a Rock, que desaparecera tão inopinadamente como se a terra o engolisse, Evans obteve depressa a explicação desse facto: o miserável caíra numa das covas abertas por Wilcox, depois de ter sido ferido mortalmente. Os três cadáveres foram enterrados nessa cova, que serviu de túmulo. Em seguida, o mestre e os seus companheiros foram dar à colónia a boa notícia de que já não tinham nada a temer.
A alegria seria completa em French-den se Doniphan não estivesse ferido tão gravemente! Os corações, agora, abriam-se à esperança.
No dia seguinte, Evans, Gordon, Briant e Baxter discutiram os projetos que deviam ser realizados o mais cedo possível. O que convinha, primeiro que tudo, era entrar na posse da chalupa do Severn. Isso exigia uma viagem e até uma estada em Bear-rock, onde se procederia aos trabalhos que fossem necessários para pôr a chalupa em estado de aguentar o mar.
Assim, ficou decidido que Evans, Briant e Baxter iriam lá pelo caminho do lago e do East-river. Era o mais seguro e o mais curto ao mesmo tempo.
A canoa, que foi encontrada num remoinho do rio, não sofrera nada com a descarga de metralha, que lhe passara por cima. Meteram-lhe dentro as ferramentas para o conserto, provisões, munições, armas, e, com um bom vento largo, partiu, na manhã de 6 de dezembro, sob a direção de Evans.
A travessia do Family-lake fez-se rapidamente. Nem foi preciso alargar ou retesar a escota, tão igual e constante era a brisa. Antes das onze horas e meia, Briant indicava ao mestre a pequena enseada por onde as águas do lago desaguavam no leito do East-river, e a canoa, ajudada pela baixa-mar, desceu entre as duas margens do rio. Perto da embocadura, a chalupa, posta a secar, estava estendida na areia de Bear-rock.
Depois de um exame muito minucioso dos consertos que deviam ser feitos, Evans disse o seguinte:
— Meus rapazes, nós temos ferramentas, mas falta-nos com que consertar o cavername e as cintas do costado. Ora, em French-den há pranchas e curvas que provêm do casco do Sloughi, e se pudéssemos conduzir a embarcação para o rio Zealand...
— Era nisso que eu pensava — respondeu Briant. — É impossível, mestre Evans?
— Parece-me que não — replicou Evans. — Visto que a chalupa veio bem dos Severn-shores até Bear-rock, também pode ir de Bear-rock até ao rio Zealand. Aí, o trabalho podia fazer-se mais facilmente, e partiríamos de French-den em direção a Sloughi-bay, onde embarcaríamos.
Se este projeto fosse realizável, não se podia imaginar outro melhor. Assim, decidiu-se aproveitar a maré do dia seguinte para subir o East-river, rebocando a chalupa com a canoa.
Primeiro que tudo, Evans tratou de tapar as fendas da embarcação com rolhas de estopa, que trouxera de French-den, e este primeiro trabalho não terminou senão a horas muito adiantadas.
A noite passou-se tranquilamente no fundo da gruta, onde Doniphan e os seus companheiros tinham escolhido domicílio por ocasião da sua primeira visita a Deception-bay.
No dia seguinte, ao amanhecer, pôs-se a chalupa a reboque da canoa, e Evans, Briant e Baxter partiram com a maré a encher. Manejando os remos, enquanto a maré se fez sentir, foram andando menos mal. Mas logo que a vazante tomou força, a embarcação, tornando-se mais pesada por causa da água que lhe entrava dentro, foi rebocada com muito custo. Por isso, eram cinco horas e meia da tarde quando a canoa chegou à margem direita do Family-lake.
O mestre achou prudente não se exporem, nestas condições, a uma travessia noturna.
Além disso, o vento tendia a abrandar com a noite e, provavelmente, o que acontecia durante o bom tempo, a brisa tornava a refrescar com os primeiros raios do Sol.
Acamparam naquele sítio, comeram com apetite, dormiram profundamente, com a cabeça encostada ao tronco de uma faia enorme e os pés diante de uma fogueira, que esteve acesa até de madrugada.
— Embarquemos! — foi a primeira palavra que o mestre pronunciou logo que os clarões matinais iluminaram as águas do lago.
A brisa do nordeste voltara com o dia. O mestre não podia desejar um tempo mais favorável para se dirigirem a French-den.
A vela foi içada e a canoa, arrastando a pesada embarcação, que estava cheia de água até à amurada, seguiu em direção a oeste.
Não houve incidente algum durante esta travessia do Family-lake. Evans, por prudência, ia sempre pronto para cortar a corda que prendia a canoa à chalupa, no caso de esta ir a pique, porque arrastaria a canoa consigo. Grave apreensão, esta! Efetivamente, se a embarcação se submergisse, a partida ficava adiada indefinidamente, e talvez se vissem obrigados a estar ainda muito tempo na ilha Chairman!
Os cumes de Auckland-hill apareceram finalmente a oeste pelas três horas da tarde. Às cinco horas, a canoa e a chalupa entravam no rio Zealand e ancoravam ao abrigo da pequena enseada. Evans e os seus companheiros, que não eram esperados tão cedo, foram recebidos por hurras.
Durante a sua ausência, o estado de Doniphan melhorara um pouco. O corajoso rapaz pôde corresponder aos apertos de mão do seu camarada Briant. Respirava mais livremente, porque o pulmão não tinha sido atacado. Apesar de ter uma dieta muito severa, as forças começavam a voltar-lhe, e com as compressas de ervas, que Kate renovava de duas em duas horas, a ferida não tardaria a fechar. É verdade que a convalescença devia ser muito demorada; mas Doniphan tinha tanta vitalidade que a cura completa era apenas questão de tempo.
No dia seguinte empreenderam-se os trabalhos do conserto da embarcação. Primeiro foi preciso empregarem grande esforço a fim de trazerem a chalupa para terra. Com trinta pés de comprimento e seis de largo na viga mestra, devia chegar para os dezassete passageiros de que se compunha então a colónia, contando com Kate e o mestre.
Terminada esta operação, os trabalhos seguiram o seu curso regularmente. Evans, tão bom carpinteiro como marinheiro, entendia-se com o negócio, e pôde apreciar a habilidade de Baxter. Os materiais não faltavam, nem tão-pouco as ferramentas. Com os restos do casco da escuna puderam consertar-se as curvas, as cintas do costado desunidas e as barras quebradas; finalmente, a estopa velha, molhada em seiva de pinheiro, permitiu que as costuras do casco ficassem hermeticamente fechadas.
A chalupa, que tinha coberta na proa, recebeu-a então até aos dois terços, pouco mais ou menos — o que era um abrigo contra o mau tempo, pouco temível durante aquele segundo período do verão. Os passageiros podiam estar debaixo dessa ponte, ou em cima dela — conforme quisessem. O mastro da gávea do Sloughi serviu de mastro grande, e Kate, com as indicações de Evans, conseguiu formar um traquete com a carangueja sobressalente do iate, assim como uma rebeca para a ré e um cutelo para a proa. Com este aparelho ficava a embarcação mais equilibrada e aproveitava todos os ventos.
Estes trabalhos, que durariam trinta dias, não ficaram concluídos antes do dia 8 de janeiro. Restava apenas terminar algumas particularidades de apropriação.
O mestre quis que tudo fosse feito com o maior cuidado. Era preciso que a chalupa ficasse em estado de navegar através dos canais do arquipélago magalânico, percorrer, sendo necessário, algumas centenas de milhas, e no caso de ser preciso descer até Punta Arena, na costa oriental da península de Brunswick.
Deve-se mencionar que, neste lapso de tempo, o Natal fora celebrado com certo aparato, assim como o primeiro de janeiro daquele ano de 1862-que os moços colonos esperavam não acabar na ilha.
Nesta época, a convalescença de Doniphan estava bastante adiantada para ele poder sair do Hall apesar de estar ainda muito fraco. O ar livre e um alimento mais substancial restituíram-lhe as forças. No entanto os seus camaradas não tencionavam partir enquanto ele não estivesse capaz de suportar uma travessia de algumas semanas sem ter de recear uma recaída.
Entretanto, a vida habitual, interrompida pela aparição de Walston e dos outros, continuava agora em French-den.
As lições e as conferências é que foram mais ou menos abandonadas. Pois Jenkins, Iverson, Dole e Costar não se consideravam em férias? Wilcox, Cross e Webb continuaram as suas caçadas, ou nas margens dos South-moors ou nos arvoredos de Traps-woods. Agora desprezavam as armadilhas e os laços, apesar dos conselhos de Gordon, económico em munições. Por isso, ouviam-se detonações de diferentes lados, e a despensa de Moko enchia-se de caça fresca — o que permitia que guardassem as conservas para a viagem.
Realmente, se Doniphan pudesse continuar as suas funções de primeiro caçador da colónia, com que ardor ele perseguiria aquela caça de pelo e de pena sem ter de economizar os tiros!
Era um desgosto profundo, o dele, por não poder juntar-se com os seus camaradas! Mas era preciso resignar-se e não cometer imprudências.
Finalmente, durante os últimos dez dias de janeiro, Evans procedeu ao carregamento da embarcação. Briant e os outros tinham vontade de levar tudo o que se salvara do naufrágio do Sloughi... Era impossível, por falta de lugar, e foi necessário fazer uma escolha.
Em primeiro lugar, Gordon pôs de parte o dinheiro que fora recolhido a bordo do iate, e que talvez fosse preciso aos moços colonos para voltarem à pátria. Em seguida, Moko embarcou provisões de boca em quantidade suficiente para o sustento de dezassete passageiros, não só prevendo uma travessia de três semanas, ou mais, como também para o caso de serem obrigados por algum acidente marítimo a desembarcar em uma das ilhas do arquipélago, antes de chegarem a Punta Arena, Porto Galante ou Porto Tamar.
Depois, o resto das munições foi colocado nos cofres da chalupa, assim como as espingardas e os revólveres de French-den. Doniphan pediu que não abandonassem os dois canhões pequenos do iate. Se carregassem muito a embarcação, podiam desfazer-se deles no caminho.
Briant embarcou também a roupa, a maior parte dos livros da biblioteca, os principais utensílios que haviam de servir na cozinha de bordo — entre outros, um dos fogões de Store-room — e os instrumentos necessários para a navegação, relógios marítimos, óculos, bússolas, barquinhas, faróis, sem esquecer o halkett-boat. Wilcox escolheu, entre as redes e as linhas, os aparelhos que podiam servir para a pesca durante o caminho.
Quanto à água doce, depois de a tirarem do rio Zealand, Gordon mandou-a meter numa dúzia de barris pequenos, que foram dispostos regularmente ao longo da sobrequilha, no fundo da embarcação, sem esquecer o resto de brandy, de gin e de outros licores fabricados com os frutos do trulca e da alfarroba.
No dia 3 de fevereiro tudo estava pronto. Faltava só marcar o dia da partida, se Doniphan se sentisse em estado de suportar a viagem.
Sim! O valente rapaz respondia por si mesmo! A ferida cicatrizara completamente e o apetite voltara, não tendo de se acautelar senão em evitar comer de mais. Agora, apoiado ao braço de Briant ou ao de Kate, passeava em Sport-terrace durante algumas horas.
— Vamos!... Vamos!... — disse ele. — Tenho pressa de embarcar!... O mar há de curar-me de todo!
Marcou-se definitivamente o dia 5 de fevereiro para a partida.
Gordon, na véspera, dera liberdade aos animais domésticos. Guanacos, vicunhas, abetardas e toda a família de pena, pouco reconhecidos pelos cuidados que lhe tinham prodigalizado, fugiram, uns correndo à desfilada, outros voando, tão irresistível é o instinto da liberdade.
— Ingratos! — exclamou Garnett. — Depois das atenções que tivemos com eles!
— O mundo é assim! — respondeu Service com tanta seriedade que esta reflexão filosófica foi recebida com uma gargalhada geral.
No dia seguinte, os moços passageiros embarcaram na chalupa, que levava a canoa a reboque.
Mas antes de largar a amarra, Briant e os seus camaradas quiseram reunir-se mais uma vez defronte das sepulturas de Francisco Baudoin e de Forbes. Ajoelharam e rezaram com recolhimento em memória daqueles desgraçados.
Doniphan colocara-se na ré da embarcação, junto de Evans, encarregado de governar. Na proa, Briant e Moko iam nas costas das velas, apesar de se dever contar mais com a corrente para descer o rio Zealand do que com a brisa, cuja direção era muito incerta por causa do maciço de Auckland-hill.
Os restantes, assim como Phann, tomaram lugar na parte anterior da ponte, onde ficaram perfeitamente à vontade.
Desatou-se a amarra e os remos bateram na água.
Três hurras saudaram então aquela morada hospitaleira que, durante tantos meses, oferecera um abrigo tão seguro aos moços colonos, e não foi sem comoção — principalmente da parte de Gordon, que ia muito triste por deixar a sua ilha — que viram Auckland-hill desaparecer por detrás das árvores da praia.
A chalupa, descendo o rio Zealand, não podia ir mais depressa do que a corrente, que não era muito rápida. E além disso, cerca do meio-dia, à altura do pântano de Bog-woods, Evans teve de ancorar.
Efetivamente, naquele ponto do rio o leito era pouco profundo, e a embarcação, muito carregada, corria o risco de encalhar. Era melhor esperar e partirem quando a maré começasse a vazar.
A paragem durou seis horas pouco mais ou menos. Os passageiros aproveitaram-na para comer com apetite, indo depois Wilcox e Cross atirar a algumas narcejas, à entrada dos South-moors.
Mesmo de dentro da chalupa, na ré, Doniphan pôde matar dois tinamus soberbos, que esvoaçavam por cima da margem direita. Decididamente, estava curado.
Era muito tarde quando a embarcação chegou à embocadura do rio. Por isso, como a escuridão não permitia que se distinguisse por entre os canais do recife, Evans, como marinheiro prudente, quis esperar pelo dia seguinte para continuar a viagem.
A noite foi o mais serena possível. O vento caía com a noite, e quando as aves marinhas, as procelárias e as gaivotas entraram nos buracos dos rochedos, reinou um silêncio absoluto em Sloughi-bay.
No dia seguinte, como a brisa vinha de terra, o mar devia estar bom até à extremidade dos South-moors. Era preciso aproveitar essa circunstância para transpor umas vinte milhas, durante as quais a ressaca seria dura se o vento viesse do largo.
Evans, logo ao amanhecer, fez içar a vela de mezena, o cutelo e a bujarrona. Em seguida, a chalupa, dirigida pela mão segura do mestre, saiu do rio Zealand!
Nesse momento, todos os olhares se dirigiram para o cume de Auckland-hill, e, depois, para os últimos rochedos de Sloughi-bay, que desapareceram ao voltar o American-cape. Então disparou-se um tiro de canhão, seguido de três hurras, enquanto o pavilhão do Reino Unido se desenrolava no topo da embarcação.
Oito horas depois, a chalupa chegava ao canal cercado pelas praias da ilha Cambridge, dobrava South-cape e seguia os contornos da ilha Adelaide.
A extremidade da ilha Chairman acabava de desaparecer no horizonte do norte.