Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 15 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo XIII

 

A partir do mês de maio, o período invernoso estabelecera-se definitivamente nas paragens da ilha Chairman. Quanto tempo duraria? Cinco meses, pelo menos, se a ilha se achasse mais alta em latitude do que a Nova Zelândia. Por isso Gordon ia tomar todas as precauções a fim de se prevenir contra as eventualidades temíveis de um inverno extenso e rigoroso.

Eis o que o moço americano notara já entre as suas observações meteorológicas: o inverno começara com o mês de maio, isto é, dois meses antes do julho da zona austral, que corresponde a janeiro na zona boreal. Podia-se, portanto, calcular que acabaria dois meses depois, isto é, por meados de setembro. Todavia, além deste período, era preciso contar com as tempestades, que são tão frequentes durante o equinócio. Por consequência, era provável que os moços colonos estivessem encerrados em French-den até aos primeiros dias de outubro, sem poderem empreender nenhuma excursão através ou em torno da ilha Chairman.

Assim, para organizar a vida interior nas melhores condições, Gordon tratou de elaborar um programa de ocupações diárias.

É inútil dizer que os costumes do “fagismo”, de que já se tratou a propósito do Colégio Chairman, não foram adotados na Ilha deste nome. Todos os esforços de Gordon tinham por fim acostumar aqueles rapazes à ideia de que eram quase homens, a fim de procederem como homens. Portanto, não haveria fags em French-den, isto é, os mais novos não seriam obrigados a servir os mais velhos. Mas, a não ser isto, respeitar-se-iam as tradições — essas tradições que são, como notou o autor da Vida de colégio em Inglaterra, “a maior razão das escolas inglesas”.

Neste programa houve a parte dos pequenos e a parte dos mais velhos, que não podiam deixar de ser muito desiguais. Como a biblioteca de French-den continha apenas um certo número de livros de ciência, além dos de viagens, os mais velhos não podiam continuar os seus estudos senão em certos limites. É verdade que as dificuldades da existência, a luta que era preciso sustentar para prover a todas as necessidades, a obrigação de exercitar o pulso ou a imaginação na presença de eventualidades de toda a espécie ensinar-lhes-iam seriamente a viver. Por consequência, indicados naturalmente para educadores dos seus pequenos camaradas, era para eles um dever instruí-los enquanto estivessem ali.

Contudo, longe de sobrecarregar os pequenos com um trabalho excessivo para a sua idade, aproveitar-se-iam todas as ocasiões de lhes exercitar o corpo, tanto como a inteligência. Quando o tempo o permitisse, e com a condição de estarem bem agasalhados, fá-los-iam sair, correr ao ar livre, e até trabalhar manualmente, no limite das suas forças.

O programa foi redigido segundo estes princípios, que são a base da educação anglo-saxónica:

“Sempre que uma coisa vos assustar, fazei-a.”

“Não percais nunca a ocasião de fazer um esforço possível”.

“Não desprezeis fadiga alguma, porque não há nenhuma inútil.”

“Pondo estes preceitos em prática, o corpo torna-se sólido e a alma também.”

Eis o que ficou resolvido, depois de receber a aprovação da pequena colónia:

Duas horas pela manhã e duas à noite, haveria trabalho em comum no hall. Briant, Doniphan, Cross e Baxter, da quinta classe, Wilcox e Webb, da quarta, dariam lição, cada um por sua vez, aos seus camaradas da terceira, segunda e primeira classe. Ensinar-lhes-iam matemática, geografia, história, com o auxílio de algumas obras da biblioteca e dos seus conhecimentos anteriores. Era também a maneira de não se esquecerem do que já sabiam. Além disso, haveria uma conferência duas vezes por semana, ao domingo e à quinta-feira, isto é, seria dado para ordem do dia um assunto de ciência, de história, ou mesmo de atualidade, relacionado com os factos quotidianos. Os mais velhos inscrever-se-iam a favor ou contra, e discutiriam, tanto para se instruírem como para distração geral.

Gordon, na qualidade de chefe da colónia, devia fazer com que o programa fosse observado à risca, e não consentir modificações senão no caso de novas eventualidades.

Primeiro tomou-se uma medida que dizia respeito ao tempo. Havia o calendário do Sloughi, mas era preciso apagar regularmente cada dia que decorresse. Havia também os relógios de bordo, mas era necessário dar-lhes corda regularmente, a fim de indicarem a hora exata.

Dois dos mais velhos foram encarregados desse serviço, Wilcox para os relógios, Baxter para o calendário, e podia-se contar com o cuidado de ambos. Quanto ao barómetro e ao termómetro, foi Webb quem se incumbiu de anotar as suas indicações diárias.

Decidiu-se também fazer um jornal com tudo o que se passara e o que viria a passar-se durante a residência na Ilha Chairman. Baxter ofereceu-se para esse trabalho, e, graças a ele, o «Jornal de French-den» ia ser feito com uma exatidão minuciosa.

Um trabalho não menos importante, e que devia ser feito sem demora. era a lavagem de roupa branca, para a qual, felizmente, não faltava sabão, e Deus sabe se, apesar das recomendações de Gordon, os pequenos se sujavam, quando iam brincar para Sport-terrace ou pescar para a borda do rio. Por isso, quantas vezes tinham sido repreendidos e ameaçados de castigo! Moko entendia-se perfeitamente com o trabalho da lavagem — mas ele só não podia fazê-lo todo, e os mais velhos, apesar do seu pouco gosto pela barrela, foram obrigados a ajudá-lo, a fim de conservarem a roupa branca de French-den em bom estado.

O dia seguinte era exatamente um domingo, e todos sabem com que rigor se observam os domingos na Inglaterra e na América. A vida é como que suspensa, nas cidades, vilas e aldeias. Nesse dia, todas as tradições, todos os divertimentos são proibidos pelo uso. Toda a gente deve, não só estar aborrecida, como também parecer que o está, e este preceito é imposto tão estritamente às pessoas crescidas como às crianças. As tradições! Sempre as famosas tradições.

Contudo, na ilha Chairman diminuiu-se um pouco esta severidade, e naquele domingo os moços colonos fizeram uma excursão às margens de Family-lake. Mas, como o dia estava extremamente frio, depois de um passeio de duas horas, seguido de uma luta de velocidade, na qual os pequenos tomaram parte no prado de Sport-terrace, todos se sentiram satisfeitos por acharem uma boa temperatura no hall, e em Store-room um jantar bem quente, cuja ementa tinha sido organizada cuidadosamente pelo hábil cozinheiro de French-den.

A noite terminou por um concerto onde o acordeão de Garnett serviu de orquestra, enquanto os outros cantavam mais ou menos desafinados, com uma convicção perfeitamente saxónica. O único que possuía bonita voz era Jaime.

Mas, com as suas inexplicáveis disposições de espírito, já não tomava parte nas distrações dos seus camaradas, e, naquela ocasião, apesar de muito rogado, recusou-se a cantar uma dessas canções de crianças de que ele era pródigo no Colégio Chairman.

Aquele domingo, que começara por uma pequena alocução do “reverendo Gordon”, como dizia Service, acabou por uma oração feita em comum. Perto das dez horas, todos dormiam profundamente, guardados por Phann, em quem podiam confiar, dado o caso de aproximação suspeita.

Durante o mês de junho, o frio foi sempre aumentando. Webb verificou que o barómetro se encontrava acima de vinte e sete polegadas, enquanto que o termómetro centígrado marcava dez ou doze graus abaixo do ponto de congelação. Logo que o vento, que soprava do sul, virava para oeste, a temperatura subia um pouco, e os arredores de French-den cobriam-se de neve espessa.

Os moços colonos deram algumas batalhas com bolas de neve mais ou menos comprimidas, que são tão usadas em Inglaterra. Algumas cabeças foram levemente maltratadas, e até, certo dia, um dos que sofreram mais foi Jaime, que, contudo, não assistia àqueles brinquedos senão como espectador.

Uma bola atirada vigorosamente por Cross bateu-lhe com violência, apesar de não lhe ser dirigida, e fez-lhe soltar um grito de dor.

— Não foi de propósito! — desculpou-se Cross, o que é quase sempre a resposta dos desastrados.

— Com certeza! — replicou Briant, que correu ao campo da batalha, atraído pelo grito de seu irmão. — Contudo fizeste mal em atirar a bola com tanta força!

— Também, se Jaime não quer brincar — replicou Cross —, para que estava aqui?

— Tantas palavras — exclamou Doniphan — por causa de uma arranhadura!

— Pois sim!... Bem sei que não é grave! — respondeu Briant, percebendo que Doniphan não queria senão poder intervir na discussão. — Entretanto, peço a Cross que não torne a fazer o mesmo!

— Para que pedes isso... — tornou Doniphan, com ar zombeteiro — se ele não o fez de propósito?...

— Não sei para que te metes nisto, Doniphan! — volveu Briant. — O caso é só com Cross e comigo...

— E comigo também, Briant, já que respondes nesse tom! — redarguiu Doniphan.

— Como quiseres... e quando quiseres! — replicou Briant, cruzando os braços.

— Imediatamente! — exclamou Doniphan.

Neste momento chegou Gordon, muito a propósito para impedir que a questão acabasse por pancadas. Além disso, repreendeu Doniphan. Este teve de submeter-se, e voltou para French-den, resmungando. Mas era para recear que algum outro incidente pusesse os dois rivais em contenda!

A neve não deixou de cair durante quarenta e oito horas. Para divertir os mais pequenos, Service e Garnett formaram um boneco, com uma grande cabeça, um nariz enorme, uma boca desmedida — uma espécie de Croque mitaine. E deve-se confessar que Costar e Dole, apesar de se atreverem a atirar-lhe bolas durante o dia, não olhavam para ele sem medo quando a escuridão lhe dava proporções gigantescas.

— Poltrões! — exclamaram então Iverson e Jenkins, que se faziam valentes, sem estarem muito mais descansados do que os seus camaradas.

Pelos fins de junho, foi preciso renunciar a estes divertimentos. A neve, que tinha três ou quatro pés de espessura, tornava a marcha impraticável. Se se aventurassem algumas centenas de passos fora de French-den, corriam o risco de não poderem entrar para lá.

Os moços colonos estiveram, portanto, encerrados durante quinze dias — até 9 de julho. Os estudos não sofreram com isso; pelo contrário. O programa diário era observado rigorosamente. As conferências fizeram-se nos dias marcados, com verdadeiro prazer de todos, principalmente de Doniphan, que, com o seu desembaraço e a sua instrução já muito adiantada, teve sempre o primeiro lugar. Mas para que andava ele tão orgulhoso? Este orgulho fazia esquecer todas as suas brilhantes qualidades.

Apesar de se passarem no hall as horas de recreio, a saúde geral não sofreu com isso, graças à ventilação que se fazia de um quarto para o outro, através do corredor.

Esta questão de higiene era das mais importantes. Se alguma daquelas crianças adoecesse, como seria possível dar-lhe os cuidados necessários? Felizmente, não sofreram mais do que algumas constipações e dores de garganta, que o descanso e as bebidas quentes fizeram desaparecer prontamente.

Foi então necessário resolver outra questão. A água que se gastava em French-den era quase sempre tirada do rio, quando estava a maré baixa, a fim de não ser salobra. Mas, quando a superfície do rio estivesse completamente gelada, tornar-se-ia impossível proceder desse modo. Gordon conferenciou com Baxter, «seu engenheiro ordinário», acerca das medidas que convinha tomar. Baxter, depois de refletir, propôs que se estabelecesse um cano, debaixo da praia, que trouxesse a água do rio para Store-room. Quanto à iluminação, havia ainda bastante azeite para alimentar as lanternas; mas, depois do inverno, era necessário fazer provisão dele ou pelo menos fabricar velas com sebo, que Moko punha de parte.

O que deu também algum cuidado durante este período foi a alimentação da pequena colónia, porque a caça e a pesca já não forneciam o tributo do costume. É verdade que alguns animais, impelidos pela fome, foram vaguear mais de uma vez por Sport-terrace. Mas eram apenas chacais que Doniphan e Cross afastavam a tiros de espingarda. Um dia chegaram a vir em bando — uns vinte —, sendo necessário barricar solidamente as portas do hall e de Store-room. Uma invasão daqueles carnívoros, que as privações tinham tornado ferozes, era temível. Contudo, como Phann deu sinal a tempo, não conseguiram entrar em French-den.

Nestas condições pouco favoráveis, Moko foi obrigado a servir-se de algumas provisões do iate, que todos desejavam economizar tanto quanto fosse possível. Gordon não dava ordem para se dispor delas senão a muito custo, e não era sem pesar que via a coluna das despesas aumentar, na sua carteira, enquanto que a das receitas se conservava estacionária.

Entretanto, como havia uma grande reserva de patos e de abetardas, que tinham sido fechados hermeticamente em barris, depois de meia cocção, Moko pôde aproveitá-los, assim como uma certa quantidade de salmões conservados na salmoura. Ora é preciso não esquecer que em French-den havia quinze bocas para sustentar e apetites de oito a catorze anos para satisfazer!

Apesar disso, durante este inverno, não foram totalmente privados de carne fresca. Wilcox, muito entendido em tudo o que dizia respeito a armadilhas de caça, armara algumas na praia. Eram simples laços, presos por bocados de pau em forma de 4, mas a caça miúda deixava-se apanhar neles muitas vezes.

Com o auxílio dos seus camaradas, Wilcox estabeleceu também armações na borda do rio, empregando para esse fim as redes de pesca do Sloughi, estendidas em varas muito altas. As aves do South-moor caíam, em grande número, nas malhas daquelas compridas teias de aranha, quando passavam de uma margem para a outra. Se a maior parte delas puderam livrar-se daquelas malhas, muito pequenas para uma pesca aérea, houve alguns dias em que se apanharam bastantes para ocorrer às duas refeições do costume.

O nandu é que deu muito trabalho a sustentar! E deve-se confessar que a domesticação daquele animal selvagem não fazia nenhuns progressos, apesar do que dizia Service, que se encarregara especialmente da sua educação.

— há de ser um corcel magnífico! — repetia muitas vezes, posto que não percebesse muito bem como conseguiria montá-lo.

Entretanto, como o nandu não é carnívoro, Service era obrigado a ir buscar a provisão diária de ervas e raízes, debaixo de dois ou três pés de neve. Mas o que não faria ele para dar bom alimento ao seu favorito? Se o nandu emagreceu um pouco durante aquele inverno interminável, não foi certamente por culpa do seu guarda fiel, e era de esperar que, quando viesse a primavera, o animal recuperasse a sua gordura habitual.

No dia 9 de julho, pela manhã, indo Briant a sair de French-den, verificou que o vento acabava de virar, repentinamente, para o sul. O frio era tanto que Briant teve de tornar a entrar imediatamente no hall, onde deu parte desta modificação da temperatura a Gordon.

— Era de esperar — respondeu Gordon —, e não admira que tenhamos de suportar ainda alguns meses de inverno muito rigoroso!

— Isto prova — observou Briant — que o Sloughi foi arrastado mais para o sul do que supúnhamos!

— Decerto — tornou Gordon —, e, contudo, o nosso atlas não tem nenhuma ilha no limite do mar antártico!

— É inexplicável, Gordon, e não sei para que lado devíamos dirigir-nos, se conseguíssemos sair da ilha Chairman...

— Deixar a nossa ilha! — exclamou Gordon. — Ainda pensas nisso, Briant?

— Penso sempre, Gordon. Se pudéssemos construir uma embarcação que aguentasse o mar, melhor ou pior, eu não hesitava em partir!

— Ah!... Bem!... — respondeu Gordon, — Não há pressa!... Organizemos primeiro a nossa pequena colónia...

— Meu caro Gordon — replicou Briant —, esqueces que temos família...

— Decerto... Briant... decerto! Mas, enfim, não estamos muito mal aqui! Isto vai andando... e não sei, mesmo, o que nos falta!

— Muitas coisas, Gordon — respondeu Briant, que achou conveniente não prolongar a conversa a este respeito. — Olha, o combustível, por exemplo, está quase acabado...

— Ainda não se queimaram todas as florestas da ilha!...

— Não, Gordon! Mas é tempo de fazermos nova provisão de lenha, que está no fim!

— Pois seja hoje! — concordou Gordon. — Vejamos o que marca o termómetro!

O termómetro, colocado em Store-room, marcava apenas cinco graus acima de zero, apesar de o fogão estar em plena atividade. Mas quando o colocaram contra a parede exterior, não tardou em marcar dezassete graus abaixo de zero.

Era um frio intenso, e que ia, decerto, aumentar, se o tempo se conservasse claro e seco durante algumas semanas. Apesar do calor dos dois fogões de sala e do fogão da cozinha, a temperatura já baixara sensivelmente no interior de French-den.

Pelas nove horas, depois do primeiro almoço, decidiu-se ir a Traps-woods, a fim de trazer de lá uma carregação de lenha.

Quando a atmosfera está serena, podem suportar-se impunemente as temperaturas mais baixas. O que é muito doloroso é o nordeste áspero que corta o rosto e as mãos, e do qual é muito difícil preservar-se. Felizmente, naquele dia o vento era extremamente fraco, o céu de uma pureza perfeita, como se o ar tivesse sido gelado.

Assim, em lugar daquela neve mole, onde, ainda na véspera, se enterravam até à cintura, os pés encontravam um solo de uma dureza metálica. Portanto, com a condição de firmar o passo, podia caminhar-se por cima dele, assim como pela superfície do Family-lake ou do rio Zealand, que estavam inteiramente gelados.

Com alguns pares dessas raquetas de que se servem os indígenas das regiões polares, ou mesmo com um trenó puxado por cães ou rangíferos, podia percorrer-se o lago em toda a sua extensão, do sul para o norte, em algumas horas.

Mas, neste momento, não se tratava de uma expedição tão longa. Ir à floresta próxima, para fazer nova provisão de combustível, eis o que era de necessidade imediata.

Contudo, o transporte para French-den de uma quantidade de lenha suficiente era um trabalho penoso, porque não podia ser efetuado senão a braços e às costas. Moko teve então uma boa ideia, que foi logo posta em prática enquanto se não construía um veículo qualquer com as pranchas do iate. A grande mesa de Store-room, que estava construída solidamente e tinha doze pés de comprido sobre quatro de largo, não seria bastante para transportar a lenha, voltando-a com os pés para o ar e arrastando-a pela superfície da camada de gelo? Decerto que era, e foi isso que se fez. Em seguida, quatro dos mais velhos atrelaram-se com cordas àquele veículo um pouco primitivo, e, por volta das dez horas, partiram na direção de Traps-woods.

Os mais pequenos, com o nariz vermelho e as faces crestadas, saltavam, adiante, como cabritos, e Phann dava-lhes o exemplo. Às vezes saltavam para dentro da mesa, não sem disputas e socos, arriscando-se a algumas quedas, que, ainda assim, não podiam ser graves. Os seus gritos vibravam com uma intensidade extraordinária no meio daquela atmosfera seca e fria. Realmente, era divertido ver aquela pequena colónia cheia de saúde e de bom humor! Tudo estava completamente branco entre Auckland-hill e Family-lake. As árvores, com os troncos cobertos de gelo, os ramos carregados de cristais cintilantes, acumulavam-se ao longe, como no plano posterior de uma vista mágica. Os pássaros voavam à superfície do lago, aos bandos, até à borda da penedia. Doniphan e Cross não se tinham esquecido de levar as espingardas. Precaução muito acertada, porque se viram pegadas suspeitas, que não eram de chacais nem de coguardos ou jaguares.

— Talvez sejam desses gatos bravos que se chamam paperos — lembrou Gordon — e que não são menos temíveis!

— Gatos temíveis? — respondeu Costar, encolhendo os ombros.

— Olha que os tigres também são gatos! — replicou Jenkins.

— É verdade, Service? — perguntou Costar. — Aqueles gatos são maus?

— São, sim — explicou Service —, e trincam crianças como se elas fossem ratos!

Esta resposta deixou Costar um tanto inquieto.

A meia milha entre French-den e Traps-woods foi percorrida rapidamente, e os pequenos rachadores de lenha meteram mãos à obra. Não deitaram o machado senão a árvores de certa grossura, que foram despegadas dos ramos miúdos, a fim de fazerem provisão, não desses feixes que ardem num momento, mas de achas que pudessem alimentar convenientemente o fogo da cozinha e os outros dois. A mesa-trenó recebeu uma carga pesada; mas deslizava pela neve com tanta facilidade, e era puxada por todos com tanto ardor, que antes do meio-dia já fizera duas viagens.

Depois do almoço continuou-se o trabalho, que não foi suspenso senão perto das quatro horas, quando o dia começou a declinar.

Todos estavam muito fatigados, e, como não havia necessidade de fazer as coisas com excesso, Gordon adiou a tarefa para o dia seguinte. Ora, quando Gordon mandava era preciso obedecer.

Logo que regressaram a French-den, trataram de serrar as achas, juntá-las e guardá-las no armazém; isto tudo durou até à hora de se deitarem.

O transporte continuou-se sem descanso durante seis dias, o que assegurou combustível para um espaço de muitas semanas. É Inútil dizer que esta provisão não coubera em Store-room; mas não havia inconveniente em deixá-la exposta ao ar livre, ao pé do contraforte.

O dia 15 de julho, segundo marcava o calendário, era dia de São Swithin. Ora, em Inglaterra, São Swithin corresponde, em data, a São Medard em França.

— Então — observou Briant —, se chove hoje, vamos ter chuva durante quarenta dias!

— Ora — volveu Service —, não é grande coisa, visto que estamos no inverno. Ah! se fosse verão!...

E, realmente, os habitantes do hemisfério austral não têm de inquietar-se de modo algum com a influência que podem ter São Medard ou São Swithin, que são santos de inverno para os países antípodas.

No entanto, a chuva não persistiu, o vento voltou-se para sueste, e houve ainda tanto frio que Gordon não permitiu aos mais pequenos que saíssem de French-den.

Efetivamente, no meio da primeira semana de agosto, a coluna termométrica desceu até vinte e sete graus abaixo de zero. O hálito condensava-se em neve, por pouco que se expusessem ao ar exterior. As mãos não podiam pegar num objeto de metal sem sentirem uma dor aguda, semelhante à das queimaduras. Foi preciso tomarem-se as precauções mais minuciosas para que a temperatura Interna se conservasse num grau razoável.

Houve quinze dias muito difíceis de passar. Todos sofriam mais ou menos com a falta de exercício. Briant não via sem inquietações os rostos pálidos dos pequenos, cujas boas cores tinham desaparecido. Contudo, graças às bebidas quentes, que não faltavam, e à parte um certo número de constipações ou de bronquites inevitáveis, os moços colonos atravessaram sem grande dano aquele período arriscado.

Pelo dia 16 de agosto, o estado da atmosfera tendeu a modificar-se com o vento, que virou para oeste. Assim, o termómetro marcou doze graus abaixo de zero — temperatura suportável, em consequência da serenidade do ar.

Doniphan, Briant, Service, Wilcox e Baxter lembraram-se então de fazer uma excursão até Sloughi-bay. Partindo pela manhã cedo, podiam regressar ainda nessa mesma noite.

Tratava-se de reconhecer se a costa era frequentada por grande número daqueles anfíbios hóspedes habituais das regiões antárticas, e dos quais já se tinham visto alguns exemplares na época do encalhe. Ao mesmo tempo substituir-se-ia a bandeira, que devia estar esfarrapada, depois dos temporais do inverno.

Em seguida, por conselho de Briant, pregar-se-ia uma tabuinha no mastro de sinais, indicando a situação de French-den no caso de alguns marinheiros desembarcarem na praia, depois de terem avistado de longe o pavilhão.

Gordon deu o seu consentimento, não sem recomendar que regressassem antes de anoitecer, e o rancho partiu na manhã de 19 de agosto, apesar de ainda não ser dia. O céu estava puro, e a Lua iluminava-o com os pálidos raios do seu quarto-minguante. Seis milhas a percorrer até à baía não era coisa que assustasse pernas bem folgadas.

O trajeto foi transposto rapidamente. O pântano de Bog-woods estava gelado, não sendo preciso contorná-lo, o que abreviou a marcha.

Assim, antes das nove horas da manhã, Doniphan e os camaradas chegaram à praia.

— Ali está um bando de voláteis! — exclamou Wilcox.

E mostrava alguns milhares de aves, pousadas nos recifes: pareciam patos muito grandes, com bico estendido como uma casca de mexilhão, e davam gritos tão penetrantes como desagradáveis.

— Parecem soldados à espera que o general lhes passe revista! — comentou Service.

— São apenas pinguins — esclareceu Baxter —, não merecem um tiro de espingarda!

Aqueles estúpidos voláteis, que se conservavam numa posição quase vertical, devido a terem as patas colocadas muito atrás, não pensaram, sequer, em fugir, e podiam ser mortos a pau. Doniphan talvez sentisse desejos de fazer essa carnificina inútil; mas como Briant teve a prudência de não se opor a ela, as alças ficaram em paz.

Além disso, se aquelas aves não tinham utilidade alguma, havia ali grande número de outros animais cuja gordura serviria para a iluminação de French-den durante o inverno próximo.

Eram focas, de uma espécie chamada focas trombudas, que se divertiam em cima dos recifes. Mas, assim que Briant e os seus camaradas se aproximaram, elas fugiram, dando saltos extraordinários, e desapareceram debaixo da água.

Era preciso organizar, mais tarde, uma expedição especial para a captura daqueles anfíbios.

Depois de terem almoçado frugalmente algumas provisões que tinham levado, os cinco rapazes foram observar a baía em toda a sua extensão.

Desde a embocadura do rio Zealand até ao promontório False-Sea-point estendia-se uma toalha completamente branca.

A não ser os pinguins e as aves aquáticas, tais como procelárias e gaivotas, os outros voláteis pareciam ter abandonado a praia, a fim de irem para o interior da ilha procurar alimento. A praia estava coberta por dois ou três centímetros de neve, e o que restara dos destroços da escuna tinha desaparecido debaixo daquela camada espessa. Os sargaços, detidos para cá dos recifes, indicavam que Sloughi-bay não tinha sido invadida pelas marés do equinócio.

Quanto ao mar, estava sempre deserto até ao limite extremo daquele horizonte que Briant não tornara a ver havia três meses. E para lá, a centenas de milhas, estava essa Nova Zelândia que ele ainda esperava tornar a ver.

Baxter tratou de içar o pavilhão novo que trouxera, e de pregar a tabuinha, indicando a situação de French-den, a seis milhas, subindo o curso do rio. Em seguida, perto de uma hora depois do meio-dia, voltaram pela margem esquerda.

Pelo caminho, Doniphan matou um casal de pavões que esvoaçava à superfície do rio, e pelas quatro horas, no momento em que o dia começava a escurecer, os seus camaradas e ele chegavam a French-den. Aí, puseram Gordon ao facto do que se passara, e, como Sloughi-bay era frequentada por grande número de focas, decidiram ir caçá-las logo que o tempo o permitisse.

Efetivamente, o mau tempo ia acabar. Durante a última semana de agosto e a primeira semana de setembro, o vento do mar voltou outra vez. Grandes correntes quentes, trazidas do largo, fizeram subir rapidamente a temperatura. A neve dissolveu-se imediatamente, e a superfície do lago quebrou-se com um estrondo de ensurdecer. Os pedaços de gelo que não se derreteram envolveram-se na corrente do rio, juntando-se uns por cima dos outros, e houve uma acumulação que não se desfez completamente senão no dia 10 de setembro.

Assim decorreu este inverno. Graças às precauções que se tomaram, a pequena colónia não sofrera muito. Todos se tinham conservado com saúde, e, como os estudos eram seguidos com zelo, Gordon não tinha sido obrigado a usar do seu poder contra recalcitrantes.

Um dia, contudo, foi necessário castigar Dole, que, pelo seu procedimento, merecia uma punição exemplar.

O teimoso negara-se, umas poucas de vezes, a fazer o seu tema, e Gordon repreendera-o sem que ele fizesse caso das suas observações. Se não foi posto a pão e água — o que não entra no sistema das escolas anglo-saxónicas —, foi condenado a ser açoitado.

Os pequenos ingleses, como já se fez notar, não sentem a repugnância que os franceses sentiriam por este género de castigo. Naquela ocasião, Briant teria protestado contra esta maneira de castigar se não devesse respeitar as decisões de Gordon. Além disso, em lugar de se envergonhar, como o estudante francês, o inglês não tem pejo senão de parecer que teme uma correção corpórea.

Dole recebeu, portanto, os açoites de chibata que lhe aplicou Wilcox, designado pela sorte para exercer as funções de executor público, e o exemplo foi tal que o caso não tornou a repetir-se.

No dia 10 de setembro perfazia-se seis meses que o Sloughi se perdera nos recifes da ilha Chairman.