Dois Anos de Férias
Capítulo VII
Não se esqueceu em que condições Doniphan, Webb, Cross e Wilcox tinham deixado French-den. Desde que tinham partido, a vida dos moços colonos tornara-se bem triste. Com que profundo pesar tinham todos sentido aquela separação, cujas consequências poderiam ser tão más no futuro! Decerto que Briant nada tinha que censurar a si próprio, e, contudo, pensava mais no caso do que os outros, pois era por causa dele que a cisão se realizara.
Gordon procurava em vão consolá-lo, dizendo:
— Eles hão de voltar, Briant, e mais cedo do que o pensam! Por muito teimoso que seja Doniphan, as circunstâncias hão de ser mais fortes do que ele! Aposto que eles vêm ter connosco a French-den antes de ter chegado a estação invernosa!
Briant, abanando a cabeça, não se atrevia a responder. Dizia que talvez algumas circunstâncias pudessem trazer os ausentes; mas que, nesse caso, essas circunstâncias seriam bem graves!
— Antes de chegar a estação invernosa! — dissera Gordon.
Estavam, pois, os moços colonos condenados a passar um terceiro inverno na ilha Chairman? Não lhes chegaria socorro algum antes dessa época? Não seriam estas paragens do Pacífico frequentadas, durante o verão, por alguns navios mercantes, e não seria visto, por fim, o balão-sinal levantado na crista de Auckland-hill?
É verdade que este balão, erguido duzentos pés apenas acima do nível da ilha, não devia ser visível senão dentro de um raio bastante restrito. Por isso, Briant, depois de ter lutado debalde com Baxter a fim de delinear o plano de uma embarcação que fosse capaz de ir ao mar, ficou reduzido a procurar o meio de elevar qualquer sinal a maior altura. Falava muitas vezes disso e, um dia, disse a Baxter que não seria talvez impossível empregar para esse fim um papagaio.
— Não nos falta nem o pano nem a corda — acrescentou —, e, se dermos a esse aparelho as dimensões suficientes, há de pairar numa zona elevada, a mil pés, por exemplo.
— Exceto nos dias em que não houver nem uma aragem! — observou Baxter.
— Esses dias são raros — respondeu Briant — e, em tempo calmo, só teremos de trazer a máquina para terra. Mas, a não ser neste caso, depois de ter sido fixado no solo pela extremidade da sua corda, seguiria ele próprio as variações da brisa, e não teríamos de Inquietar-nos com a sua direção.
— É caso para experimentar — disse Baxter.
— Além disso — insistiu Briant —, se esse papagaio fosse visível durante o dia a grande distância — talvez umas sessenta milhas —, sê-lo-ia também durante a noite se ligássemos um dos nossos faróis à sua cauda ou ao seu corpo!
Enfim, a ideia de Briant não deixava de ser prática. A sua execução não punha em embaraços uns rapazes que tinham muitas vezes atirado esses papagaios nos prados da Nova Zelândia.
Por isso, quando foi conhecido o projeto de Briant, foi ele causa de alegria geral. Os pequenos, sobretudo Jenkins, Iverson, Dole e Costar, tomaram o caso pelo lado divertido e rejubilaram com a ideia de um papagaio que devia exceder tudo o que até então tinham visto. Que prazer não seria puxar pela corda bem retesada, enquanto ele se balanceasse nos ares!
— há de pôr-se-lhe um grande rabo! — dizia um.
— E umas orelhas muito grandes — acrescentava outro.
— há de pintar-se nele um magnífico polichinelo, que fará lindas cabriolas lá em cima.
— Havemos de lá mandar correios!
Era uma alegria a valer! A verdade era que, onde as crianças não viam senão uma distração, havia uma ideia muito séria, e era permitido esperar que essa ideia produziria excelentes resultados.
Baxter e Briant puseram-se, portanto, em campo no dia seguinte àquele em que Doniphan e os seus três companheiros tinham abandonado French-den.
— Ora aqui está — exclamou Service —, eles agora hão de arregalar bem os olhos, logo que virem uma tal máquina! Que pena que os meus Robinsons não tenham tido nunca a ideia de largarem um papagaio no espaço!
— Poderá ele ser visto de todos os pontos da nossa ilha? — perguntou Garnett.
— E não só da nossa ilha — respondeu Briant —, como também de uma grande distância, nos arredores.
— Será visto de Auckland-hill?... — observou Dole.
— Daí, não — volveu Briant, sorrindo com essa ideia. — No fim de contas, quando Doniphan e os outros o virem, talvez que isso os resolva a voltarem!
Vê-se por isto que este bom rapaz só cuidava nos ausentes e não desejava senão uma coisa, e era que essa funesta separação acabasse o mais depressa possível.
Esse dia e os seguintes foram empregas na construção do papagaio, ao qual Baxter propôs que se desse uma forma octogonal. A armação, leve e resistente, foi feita com uma espécie de canas muito rijas que cresciam nas margens do Family-lake. Era bastante forte para resistir ao impulso de uma brisa ordinária. Sobre tal armação mandou Briant estender uns panos ligeiros, cobertos de borracha, que serviam para tapar as claraboias da escuna, panos tão impermeáveis que o vento não podia passar através do seu tecido. Quanto à corda, devia fazer-se uso de um fio, de dois mil pés pelo menos de comprimento, muito resistente, dos que se empregavam para arrastar a barquinha, e que era capaz de resistir a uma tensão considerável.
É escusado dizer que o aparelho devia ser enfeitado com uma cauda magnífica, destinada a conservá-lo em equilíbrio quando estivesse inclinado na camada de ar. Em verdade, estava tão solidamente construído que teria podido, sem grande perigo, elevar aos ares qualquer dos moços colonos! Não se tratava, porém, disso, e bastava que fosse sólido bastante para resistir a brisas frescas, bastante vasto para chegar a certa altura, e grande quanto fosse preciso para ser visto num raio de cinquenta a sessenta milhas.
É escusado dizer que o papagaio não devia ser sustentado à força de braço. Sob a Impulsão do vento teria arrastado consigo todo o pessoal da colónia, mais depressa do que este o quereria. A corda ficaria, porém, enrolada em um dos viradores da escuna. Trouxeram, pois este pequeno cabrestante horizontal para o meio do Sport-terrace e fixaram-no com força ao solo, a fim de resistir à tração do “Gigante dos ares”, nome que os pequenos admitiram de comum acordo.
Estando este trabalho acabado no dia 15, pela tarde, marcou Briant para o dia seguinte, à mesma hora, o deitar do papagaio, operação a que deviam assistir todos os seus camaradas.
Ora, no dia seguinte foi impossível proceder à experiência. Desencadeara-se uma violenta tempestade e o aparelho seria logo feito em pedaços se o entregassem ao vento.
Esta mesma tempestade era a que assaltara Doniphan e os seus companheiros na parte setentrional da ilha, ao mesmo tempo que arrastava a chalupa e os náufragos americanos contra os recifes do norte, aos quais se deu, mais tarde, o nome de Severn-shores (cachopos do Severn).
No dia seguinte ao da tempestade — 16 de outubro — apesar de se ter produzido uma certa calma, a brisa era ainda muito violenta para Briant deixar soltar o seu aparelho aéreo. Mas como o tempo se modificou pela tarde, graças à direção do vento, que abrandou sensivelmente, passando para sudoeste, guardou-se a experiência para o dia imediato.
Era o dia 17 de outubro — data que ia ocupar lugar importante nos anais da ilha Chairman.
Apesar de ser uma sexta-feira, Briant, que não era supersticioso, não quis esperar para outro dia. O tempo estava bom, com uma leve brisa, constante e regular, própria para sustentar o papagaio nos ares. Graças à inclinação causada pela cauda, elevar-se-ia para terra, a fim de lhe prender um farol, cujo clarão seria visível durante toda a noite.
A manhã foi empregada nos últimos preparativos, que duraram mais de uma hora depois do almoço. Em seguida, foram todos para Sport-terrace.
— Que boa ideia teve Briant de construir esta máquina! — repetiam Iverson e os outros, batendo as palmas.
Era hora e meia. O aparelho, estendido no solo, com a comprida cauda desenrolada, ia ser entregue à ação da brisa. Já não se esperava senão o sinal de Briant, quando este suspendeu a manobra.
Neste momento, a sua atenção acabava de ser desviada por Phann, que se arremessava precipitadamente para o lado da floresta, dando uivos tão lastimosos, tão extraordinários, que todos ficaram surpreendidos.
— Que tem Phann? — perguntou Briant.
— Sentiria algum animal debaixo das árvores? — lembrou Gordon.
— Não!... Então ladrava de outro modo!
— Vamos!... — exclamou Service.
— Não sem armas! — respondeu Briant.
Service e Jaime correram a French-den, de onde voltaram trazendo cada um uma espingarda carregada.
— Venham — ordenou Briant.
E todos três, acompanhados por Gordon, se dirigiram para a entrada de Traps-woods.
Phann já a havia transposto, e, se já não o viam, ainda o ouviam ladrar.
Briant e os seus camaradas tinham dado apenas cinquenta passos quando avistaram o cão parado defronte de uma árvore, ao pé da qual estava estendido um corpo humano.
Era uma mulher, imóvel como uma morta, cujo vestuário — saia de pano grosso, corpete igual, xaile de lã escura, atado à roda da cinta — parecia ainda em bom estado.
O seu rosto mostrava vestígios de grandes sofrimentos, apesar de ela ser de constituição robusta, não tendo, além disso, mais de quarenta a quarenta e cinco anos. Exausta de fadiga, talvez de fome, tinha perdido os sentidos, mas os lábios exalavam ainda um ligeiro sopro.
Imagine-se a comoção dos pequenos náufragos à vista da primeira criatura humana que encontravam depois da sua chegada à ilha Chairman!
— Respira!... Respira!... — disse Gordon em voz alta. — A fome, decerto, e a sede...
Jaime correu logo para French-den e trouxe de lá um bocado de bolacha e uma cabaça de brandy.
Briant então inclinou-se para aquela mulher, entreabriu-lhe os lábios, e conseguiu introduzir-lhe na garganta algumas gotas do licor vivificante.
A mulher fez um movimento, ergueu as pálpebras... Ao ver aquelas crianças reunidas em torno dela, o olhar animou-se-lhe... Em seguida, levou avidamente à boca o bocado de bolacha que Jaime lhe apresentava.
Era evidente que aquela desgraçada morria de fome, mais que de fadiga.
Mas quem era ela? Seria possível falar-lhe e compreendê-la?
Briant ficou sossegado a este respeito.
A desconhecida erguera-se, e acabava de pronunciar as seguintes palavras, em inglês:
— Obrigada, meus filhos... Obrigada!
Meia hora depois, Briant e Baxter tinham-na depositado no hall. Aí, ajudados por Gordon e por Jaime, prodigalizaram-lhe todos os cuidados que o seu estado reclamava.
Logo que ela se sentiu com bastantes forças, deu-se pressa em contar a sua história.
Eis o que ela disse, e ver-se-á como a narração das suas aventuras devia interessar os moços colonos.
Esta mulher, de origem americana vivera muito tempo nos territórios do Far-West, nos Estados Unidos. Chamava-se Catarina Ready, ou simplesmente Kate. Exercia, havia mais de vinte anos, funções de governanta, em casa da família William R. Penfield, que vivia em Albany, capital do Estado de Nova Iorque.
Havia um mês que o senhor e a senhora Penfield, querendo ir para o Chile, onde vivia um dos seus parentes, se tinham dirigido a São Francisco, o porto principal da Califórnia, a fim de embarcarem no navio mercante Severn, comandado pelo capitão John F. Turner. Este navio ia com destino a Valparaíso; o senhor e a senhora Penfield tomaram passagem nele com Kate, que fazia, por assim dizer, parte da família.
O Severn era um bom navio e teria feito uma travessia excelente se os oito homens que compunham a tripulação, engajados havia pouco tempo, não fossem uns miseráveis da pior espécie.
Nove dias depois da partida, um deles, Valston, ajudado pelos seus companheiros, Brandt, Rock, Henley, Cook, Forbes, Cope e Pike, provocou uma revolta, na qual o capitão Turner e o seu imediato foram mortos, ao mesmo tempo que o senhor e a senhora Penfield.
O objetivo dos assassinos, ao apoderarem-se do navio, era empregá-lo no tráfico da escravatura, que se fazia ainda com algumas províncias da América do Sul.
A bordo só duas pessoas tinham sido poupadas: Kate, por quem o marinheiro Forbes — menos cruel do que os cúmplices — intercedera, e o mestre do Severn, homem de trinta anos, pouco mais ou menos, chamado Evans, que era necessário aos assassinos para dirigir o navio.
Estas cenas horríveis tinham ocorrido na noite de 7 para 8 de outubro, quando o Severn se achava a umas duzentas milhas da costa do Chile.
Evans foi obrigado a manobrar, sob pena de morte, de maneira a dobrar o cabo Horn, a fim de chegar às paragens do oeste da África.
Mas, alguns dias depois — nunca se soube qual foi a verdadeira causa —, manifestou-se um incêndio a bordo. Desenvolveu-se com tal violência e em tão pouco tempo que os esforços de Walston e dos companheiros para salvar o Severn de uma destruição completa foram inúteis. Um deles, Henley, morreu ao atirar-se ao mar para escapar ao fogo. Foi preciso abandonarem o navio, depois de meterem na chalupa provisões, armas e munições. A seguir, o Severn soçobrava envolto em chamas.
A situação dos náufragos era extremamente crítica, porque estavam separados por duzentas milhas das terras mais próximas. Realmente era uma grande justiça a chalupa submergir-se com os celerados que iam dentro se Kate e o mestre Evans não estivessem a bordo.
Quarenta e oito horas depois desencadeou-se uma furiosa tempestade — o que tornou a situação ainda mais horrível. Mas, como o vento soprava do largo, a embarcação, com o mastro quebrado, a vela em farrapos, foi impelida para a ilha Chairman. Sabe-se como, na noite de 15 para 16, depois de ter rebolado à superfície dos cachopos, ela fora encalhar na praia, com o cavername despedaçado em parte e as cintas do costado entreabertas.
Walston e os seus companheiros, exaustos de forças por uma luta desesperada contra a tempestade, com as provisões quase consumidas, já não podiam com o frio e com a fadiga. Assim, estavam quase inanimados quando a chalupa chegou junto dos recifes. Um golpe de mar arrebatou então cinco deles, e, alguns instantes depois, os outros dois foram arrojados à praia, enquanto Kate caía do outro lado da embarcação.
Os dois homens ficaram desmaiados durante muito tempo; Kate, que depressa recuperou os sentidos, teve o cuidado de se conservar imóvel, posto que imaginasse que Walston e os outros estavam mortos. Esperava que amanhecesse para ir procurar socorros naquela terra desconhecida, quando, pelas três horas da manhã, alguns passos fizeram ranger a areia perto da chalupa.
Eram Walston, Brandt e Rock, que, a muito custo, tinham escapado às ondas, antes que a embarcação encalhasse. Depois de terem atravessado o banco dos recifes e chegado ao sítio onde jaziam os seus companheiros Forbes e Pike, depois de os terem chamado à vida, foram combinar o que deviam fazer, enquanto o mestre Evans os esperava, a uns cem passos dali, guardado por Cope e por Cook.
Eis as palavras que eles trocaram — palavras que Kate ouviu perfeitamente:
— Onde estamos? — perguntou Rock.
— Não sei! — respondeu Walston. — Mas não fiquemos aqui, vamos para leste! Quando romper o dia, veremos o que se vai fazer!
— E as nossas armas?... — disse Forbes.
— Estão aqui, com as munições, tudo intacto!... — respondeu Walston.
E tirou do cofre da chalupa cinco espingardas e muitos pacotes de cartuchos.
— É pouco — disse Rock — para andar sem medo neste país de selvagens!
— Onde está Evans?... — perguntou Brandt.
— Evans está ali — respondeu Walston, apontando para o sítio onde ele estava, guardado por Cope e por Cook. — há de acompanhar-nos, quer queira quer não, e, se resistir, eu me encarrego de o fazer obedecer!
— Que é feito de Kate?... — disse Rock. — Conseguiria salvar-se?...
— Kate?... — volveu Walston. — Dessa não há que temer! Vi-a cair no mar antes que a chalupa se tivesse submergido, e já deve estar no fundo!
— Bem bom, afinal de contas!... — respondeu Rock. — Sabia muitas coisas a nosso respeito.
— Não havia de sabê-lo durante muito tempo! — acrescentou Walston, com ar feroz.
Kate, que ouvira tudo, estava resolvida a fugir depois da partida dos marinheiros do Severn.
Alguns instantes depois, Walston e os seus companheiros, segurando Forbes e Pike, cujas pernas ainda não estavam muito sólidas, levavam as armas, as munições e o resto das provisões que havia nos cofres da chalupa — isto é, algumas libras de carne salgada, um pouco de tabaco e duas ou três cabaças de gin. Depois afastaram-se, no momento em que a tempestade atingia a maior violência.
Kate, logo que os perdeu de vista, ergueu-se. Era tempo, porque a maré cheia já chegava à praia, e daí a pouco a pobre mulher teria sido arrastada pelas ondas.
Compreende-se agora o motivo por que Doniphan, Wilcox, Webb e Cross, quando voltaram à praia, a fim de prestarem os últimos deveres aos náufragos, acharam o lugar deserto. Walston e o seu bando já tinham descido na direção de leste, enquanto Kate, tomando a direção oposta, se dirigia, sem o saber, para a extremidade setentrional do Family-lake.
Chegou ali no dia 16, à tarde, exausta de fadiga e de fome. Alguma fruta silvestre era tudo o que pudera encontrar. Seguiu então a margem esquerda, andou toda a noite e toda a manhã de 17, e foi cair no lugar onde Briant a encontrara quase morta.
Tais eram os factos narrados por Kate — factos de extrema gravidade. Efetivamente, na ilha Chairman, onde os moços colonos tinham vivido, até agora, em completa segurança, acabavam de desembarcar sete homens capazes de todos os crimes. Se descobrissem French-den, hesitariam em atacá-la? Tinham grande interesse em se apoderarem do material, em roubar as provisões, as armas, as ferramentas, sobretudo, sem as quais não podiam pôr a chalupa do Severn em estado de se poder lançar à água. E, nesse caso, que resistência podiam opor Briant e os seus camaradas, os mais velhos dos quais tinham então quinze anos, quanto muito, e os mais novos apenas nove ou dez! Estas eventualidades eram aterradoras! Se Walston ficasse na ilha, era de esperar, com certeza, alguma agressão da sua parte! É fácil imaginar com que comoção foram ouvidas as palavras de Kate.
Briant não pensava senão no seguinte: se o futuro apresentava tais perigos, Doniphan, Wilcox, Webb e Cross estavam ameaçados presentemente. Como podiam eles acautelar-se, se ignoravam a presença dos náufragos do Severn na ilha Chairman, e exatamente na parte do litoral que eles andavam explorando? Um tiro de espingarda, disparado por qualquer deles, não era bastante para revelar a sua presença a Walston? E, nesse caso, cairiam todos quatro nas mãos dos celerados, dos quais não podiam esperar senão o mal!
— É preciso ir socorrê-los — disse Briant —, devem estar prevenidos antes de amanhã...
— E trazê-los para French-den — acrescentou Gordon. — Devemos estar reunidos, agora mais do que nunca, a fim de nos defendermos contra um ataque daqueles malfeitores.
— Sim! — apoiou Briant. — E, como é necessário que os nossos camaradas voltem, hão de voltar! Vou buscá-los!
— Tu, Briant?
— Eu, Gordon.
— Mas como?
— Embarcarei na canoa com Moko. Em poucas horas teremos atravessado o lago e descido o East-river, como já fizemos. Temos todas as probabilidades de encontrar Doniphan na foz...
— Quando tencionas partir?...
— Esta noite — respondeu Briant —, quando a escuridão permitir que atravessemos o lago sem sermos vistos.
— Vou consigo, meu irmão?... — perguntou Jaime.
— Não — declarou Briant. — É indispensável que voltemos todos na canoa, e já há de custar a arranjar lugar para seis!
— Então, está decidido?... — perguntou Gordon.
— Está! — respondeu Briant.
Realmente, era o melhor partido a tomar — não só para bem de Doniphan, Wilcox, Cross e Webb, mas também para interesse da pequena colónia, Quatro rapazes, e dos mais vigorosos, não eram para desprezar no caso de haver agressão. Por outro lado, não havia uma hora a perder se queriam estar todos reunidos em French-den antes de vinte e quatro horas.
É inútil dizer que já não se pensava em deitar o papagaio ao ar. Seria grande imprudência. Não era aos navios — se passassem alguns defronte da ilha — que ele indicaria a presença dos moços colonos; era a Walston e aos seus cúmplices. Briant lembrou-se, até, de deitar abaixo o mastro de sinais, elevado no cume de Auckland-hill.
E, até à noite, estiveram todos encerrados no hall. Kate ouviu-os narrar as suas aventuras. A excelente mulher já não pensava em si, pensava só nos pequenos. Se ficassem juntos na ilha Chairman, ela queria ser sua criada, tratar deles e estimá-los como sua mãe. E aos mais pequeninos, a Dole e a Costar, já dava o nome acariciador de papooses, com que se designam os babies ingleses nos territórios do Far-West.
Service propôs que, como recordação dos seus romances prediletos, se chamasse Sexta-feira a Kate — como Crusoé fizera ao seu companheiro, de imorredoura memória — porque foi exatamente numa sexta-feira que Kate chegou a French-den.
Em seguida acrescentou:
— Esses malfeitores são os selvagens de Robinson! Há sempre um momento em que aparecem os selvagens, e sempre se consegue dar cabo deles!
Às oito horas estavam acabados os preparativos da partida. Moko, que não recuava diante de nenhum perigo, regozijava-se por acompanhar Briant nesta expedição.
Embarcaram ambos, levando algumas provisões, dois revólveres e duas facas de mato. Depois de dizerem adeus aos seus camaradas, que os viram afastar-se com o coração oprimido, em breve desapareceram no meio das sombras de Family-lake. Ao romper do Sol erguera-se uma pequena brisa, que soprava do norte, e, se se conservasse, auxiliaria a canoa, tanto na ida como na volta.
Em todo o caso, conservou-se favorável durante a travessia de oeste para leste. A noite estava muito escura — circunstância feliz para Briant, que queria passar despercebido. Dirigindo-se pela bússola, tinha a certeza de chegar à margem oposta, que bastava subir ou descer, conforme a embarcação abordasse a ela para cima ou para baixo do curso de água. A atenção de Briant e de Moko dirigia-se toda para esse lado; e receavam avistar algum lume — o que decerto indicaria a presença de Walston e dos seus companheiros, porque Doniphan devia ter acampado no litoral, na embocadura do East-river.
Percorreram seis milhas em duas horas. A canoa não sofrera muito com a brisa, posto que esta tivesse refrescado um pouco. Chegou ao lugar onde aportara a primeira vez e teve de costear a margem durante meia milha, a fim de chegar à enseada estreita por onde as águas do lago corriam para o rio. Isto levou muito tempo. Como o vento era contrário, foi necessário servirem-se dos remos. Tudo parecia tranquilo debaixo das árvores, inclinadas por cima da água. Não se ouvia um uivo nem um gemido nas profundezas da floresta, nem se via lume algum debaixo dos negros maciços de verdura.
Contudo, cerca das dez horas e meia, Briant, que estava sentado na ré da canoa, agarrou no braço de Moko. A algumas centenas de pés do East-river na margem direita, uma fogueira quase apagada deitava uma claridade moribunda através da sombra. Quem acampara ali... Walston ou Doniphan... Era preciso reconhecê-lo antes de se meterem na corrente do rio.
— Vou desembarcar, Moko — disse Briant.
— Não quer que o acompanhe, Sr. Briant — perguntou o grumete em voz baixa.
— Não; prefiro ir só! É menos fácil ser visto!
A canoa aportou à praia, e Briant saltou em terra, depois de ter recomendado a Moko que o esperasse. Levava a faca de mato na mão e o revólver à cinta, decidido a não se servir deste senão em último recurso, a fim de evitar o ruído.
Depois de ter subido a praia, o corajoso rapaz meteu-se debaixo das árvores.
De repente, parou. A vinte passos dali, à claridade da fogueira, pareceu-lhe distinguir uma sombra, arrastando-se por entre as ervas, como ele próprio fazia.
Neste momento, ouviu-se um rugido formidável. Em seguida uma massa saltou para a frente.
Era um jaguar enorme.
Ouviram-se logo estes gritos:
— Socorro!... Socorro!...
Briant reconheceu a voz de Doniphan. Era ele, efetivamente. Os seus companheiros tinham ficado no acampamento estabelecido junto da margem do rio.
Doniphan, derrubado pelo jaguar, debatia-se, sem poder fazer uso das armas.
Wilcox, atraído pelos gritos, correu, com a espingarda ao ombro, pronto para fazer fogo...
— Não dispares!... Não dispares!... — recomendou Briant.
E antes de que Wilcox o tivesse visto, Briant precipitou-se sobre o carnívoro, que se virou contra ele, enquanto Doniphan se erguia prontamente.
Por felicidade, Briant pôde saltar para o lado, depois de ter ferido o jaguar com a faca de mato. Isto foi feito com tanta rapidez que nem Doniphan nem Wilcox tiveram tempo de intervir. O animal, ferido mortalmente, caíra, no momento em que Webb e Cross corriam a auxiliar Doniphan.
Mas a vitória podia ter saído cara a Briant, que ficara com um dos ombros a escorrer sangue, rasgado pelas garras do jaguar.
— Como vieste aqui? — exclamou Wilcox.
— Sabê-lo-ão mais tarde! — respondeu Briant. — Venham!... Venham!...
— Não sem te agradecer, Briant! — disse Doniphan. — Salvaste-me a vida...
— Fiz o que tu farias no meu lugar! — retorquiu Briant. — Não falemos mais nisso, e segue-me!...
No entanto, posto que a ferida de Briant não fosse grave, foi necessário ligá-la muito bem com um lenço, e, enquanto Wilcox fazia isto, o corajoso rapaz pôde pôr os seus camaradas ao facto da situação.
Assim, aqueles homens que Doniphan julgara mortos e levados pela maré estavam vivos! Vagueavam pela ilha! Eram malfeitores, manchados de sangue! Vinha uma mulher com eles, na chalupa do Severn, e essa mulher estava em French-den!... Agora, já não havia segurança na ilha Chairman!... Aí está porque Briant gritara a Wilcox que não fizesse fogo, com medo de que a detonação se ouvisse, e se servira da faca de mato para ferir o jaguar!
— Ah! Briant, tu vales mais do que eu! — exclamou Doniphan, muito comovido e num ímpeto de reconhecimento que foi mais forte do que o seu caráter orgulhoso.
— Não, Doniphan, não, meu amigo — respondeu Briant — e, já que me dás a mão, não a largo enquanto não consentires em vir comigo...
— Sim, Briant, irei! — afirmou Doniphan. — Conta comigo! Daqui para o futuro, serei o primeiro a obedecer-te! Amanhã... ao romper do dia... partimos...
— Não, imediatamente — recomendou Briant —, para podermos chegar sem que nos vejam!
— E como?... — perguntou Cross.
— Moko está ali! Espera-nos com a canoa! Íamos tomar a direção do East-river, quando distingui o clarão de uma fogueira, que era esta.
— E chegaste a tempo para me salvar!... — repetiu Doniphan.
— E também para te levar Para French-den!
Agora, por que razão tinham Doniphan, Wilcox, Webb e Cross acampado naquele sítio e não na embocadura do East-river? A explicação foi dada em algumas palavras.
Depois de terem deixado a costa dos Severn-shores, voltaram ao porto de Bear-rock na noite de 16. No dia seguinte de manhã como estava combinado, subiram a margem esquerda do East-river até ao lago onde tinham acampado, esperando que amanhecesse para regressarem a French-den.
Alguns momentos depois, Briant e os seus camaradas tinham embarcado, e, como a canoa era muito pequena para seis, foi preciso manobrar com cuidado.
Mas a brisa era favorável, e Moko dirigiu a embarcação tão habilmente que a travessia fez-se sem acidente algum.
Com que alegria Gordon e os outros receberam os ausentes, quando estes, pelas quatro horas da manhã, desembarcaram na represa do rio Zealand! Se os ameaçavam grandes perigos, ao menos estavam todos reunidos em French-den!