Dois Anos de Férias
Capítulo VIII
A colónia estava, pois, completa, e até aumentada com um novo membro — aquela boa Kate, arremessada, em consequência de um terrível drama marítimo, às praias da Ilha Chairman. E, depois, a harmonia ia agora reinar em French-den — harmonia que, para o futuro, nada devia perturbar. Se Doniphan sentia ainda algum pesar por não ser o chefe dos moços colonos, ao menos voltara amigavelmente para junto deles. Sim, aquela separação de dois ou três dias tivera bons resultados. Já algumas vezes, sem dizer nada aos seus camaradas, sem querer confessar o seu erro, quando o amor-próprio ainda tinha mais força nele do que o interesse, compreendera que a sua obstinação o levara a fazer uma tolice. Por outro lado, Wilcox, Cross e Webb sentiam a mesma impressão. Por isso, depois da dedicação de que Briant dera provas, Doniphan entregara-se aos seus bons sentimentos, que nunca mais deviam abandoná-lo.
Além disso, perigos muito sérios ameaçavam French-den, exposta aos ataques de sete malfeitores, vigorosos e armados. O interesse de Walston era, decerto, tentar abandonar a ilha Chairman o mais depressa que pudesse; mas, se ele viesse a suspeitar da existência de uma pequena colónia, bem fornecida de tudo o que a ele faltava, não recuaria perante uma agressão em que todas as probabilidades eram a seu favor. Os moços colonos foram obrigados a tomar precauções rigorosas, a não se afastarem do rio Zealand, a não se aventurarem sem necessidade pelos arredores do Family-lake, enquanto Walston e o seu bando não tivessem deixado a ilha.
E, primeiro, tratou-se de saber se, durante o seu regresso dos Severn-shores a Bear-rock, Doniphan, Cross, Webb e Wilcox não tinham notado coisa alguma que lhes fizesse suspeitar a presença dos marinheiros do Severn?
— Nada — respondeu Doniphan, que acrescentou:
— É verdade que, para voltarmos à embocadura do East-river, não seguimos o caminho que havíamos tomado quando subimos para o norte.
— Contudo, é certo que Walston se afastou na direção de leste! — observou Gordon.
— De acordo — admitiu Doniphan —, mas deve ter caminhado ao longo da costa, enquanto nós voltámos diretamente por Beechs-forest. Peguem no mapa e verão que a ilha forma uma curva pronunciada por cima de Deception-bay. Há aí um vasto território onde aqueles malfeitores podem ter-se refugiado, sem se afastarem muito do lugar onde deixaram a chalupa. Talvez Kate soubesse dizer-nos, pouco mais ou menos, em que paragens está situada a ilha Chairman?
Kate, que já tinha sido interrogada a este respeito por Briant e por Gordon, não pudera responder-lhes. Depois do incêndio do Severn, quando o mestre Evans tomou a direção da chalupa, manobrou de maneira que fosse ter diretamente ao continente americano, do qual a ilha Chairman não podia estar muito longe. Ora, ele nunca pronunciara o nome desta ilha onde a tempestade o arremessara. No entanto, como os numerosos arquipélagos da costa deviam estar a uma distância relativamente pequena, havia razões muito plausíveis para Walston querer alcançá-los, e, enquanto não o fazia, devia ter Interesse em ficar no litoral de leste. Efetivamente, no caso de pôr a embarcação em estado de navegar, não lhe custaria muito a dirigir-se para alguma terra da América do Sul.
— A não ser — observou Briant — que Walston, chegando à embocadura do East-river, e encontrando aí vestígios da tua passagem, Doniphan, não se lembrasse de levar as suas pesquisas mais longe!
— Que vestígios? — volveu Doniphan. — Um montão de cinzas apagadas? Que se podia concluir daí? Que a ilha é habitada? Nesse caso, aqueles miseráveis só pensariam em esconder-se...
— Decerto — replicou Briant —, se não descobrirem que a população da ilha se reduz a um punhado de crianças! Não façamos, pois, nada que possa indicar-lhes quem somos! A propósito, Doniphan, não tiveste ocasião de disparar algum tiro durante o regresso a Deception-bay?
— Não, e até admira — respondeu Doniphan, sorrindo —, porque eu nunca desprezo essas ocasiões! Quando abandonámos a costa, íamos bem fornecidos de caça, e nenhuma detonação revelou a nossa presença. Ontem, durante a noite, Wilcox esteve quase a disparar sobre o jaguar, mas, felizmente, tu chegaste a tempo de o impedir, Briant, e de me salvar a vida, arriscando a tua!
— Repito-te, Doniphan, fiz apenas o que tu farias no meu lugar! E, agora, nem um único tiro! Cessemos, até, as visitas a Traps-woods, e muita cautela!
É inútil dizer que, logo que chegou a French-den, Briant recebeu todos os cuidados que a sua ferida exigia, cicatrizando esta em poucos dias. Ficou-lhe apenas uma certa impressão no braço, impressão que em breve desapareceu.
Entretanto, o mês de outubro findara, e Walston ainda não dera sinal da sua presença nos arredores do rio Zealand. Teria partido, depois de consertar a chalupa? Não era impossível, pois eles deviam possuir um machado — Kate lembrava-se disso — e podiam também servir-se das facas que os marinheiros trazem sempre consigo; madeira não faltava nas proximidades dos Severn-shores, Em todo o caso, como não tinham certeza alguma a este respeito, a vida teve de ser modificada. Acabaram-se as excursões ao longe, exceto no dia em que Baxter e Doniphan foram deitar abaixo o mastro que se erguia no cume de Auckland-hill.
Desse ponto, Doniphan percorreu com o óculo as massas de verdura que se arredondavam a nascente. Posto que o olhar não pudesse abranger o litoral, oculto por Beechs-forest, se se elevasse algum fumo no ar ter-se-ia distinguido com certeza — e isso indicaria que Walston e os seus tinham acampado naquela parte da ilha. Doniphan não viu nada nessa direção, nem tão-pouco ao largo de Sloughi-bay, cujas paragens estavam desertas.
Desde que as excursões estavam proibidas, e que era preciso deixar as espingardas em descanso, os caçadores da colónia tinham sido obrigados a renunciar ao seu exercício predileto. Felizmente, as armadilhas e os laços, armados nas proximidades de French-den, forneciam caça em quantidade suficiente. Além disso, os tinamus e as abetardas tinham-se multiplicado de tal modo na capoeira que Service e Garnett foram obrigados a sacrificar bom número deles. Como se fizera abundante colheita de folhas da árvore do chá, assim como da seiva do bordo, que se transforma tão facilmente em açúcar, não foi preciso ir até ao Dike-creek a fim de renovar as provisões. E, mesmo que o inverno chegasse antes que os moços colonos recuperassem a liberdade, estavam suficientemente fornecidos de azeite para as lanternas, de conservas e de caça para a despensa. Teriam apenas de renovar o combustível, acarretando a lenha cortada nos maciços de Bog-woods, e seguindo a margem do rio Zealand, sem se arriscarem muito.
Nesta época, o bem-estar de French-den foi aumentado com uma nova descoberta.
Esta descoberta não foi devida a Gordon, posto que ele fosse muito entendido em botânica. Não! As honras dela pertenceram a Kate.
No limite de Bog-woods havia um certo número de árvores que mediam cinquenta a sessenta pés de altura. Se o machado as poupara até ali, é porque a madeira, muito fibrosa, não alimentaria bem os fogões do hall e do cerrado. Tinham folhas de forma oblonga, que se alternavam com os nós dos ramos, e cuja extremidade era armada de uma ponta coriácea.
A primeira vez — no dia 25 de outubro — que Kate avistou uma destas árvores, exclamou:
— Olhem!... A árvore-vaca!
Dole e Costar, que a acompanhavam, deram uma gargalhada.
— O quê, a árvore-vaca? — disse um.
— Então as vacas comem-na? — perguntou outro.
— Não, meus papooses, não — respondeu Kate. — Chama-se assim porque dá leite, e leite melhor do que o das vicunhas!
Voltando para French-den, Kate participou a sua descoberta a Gordon. Este chamou logo Service, e foram ambos, acompanhados por Kate, à entrada de Bog-woods. Depois de examinar a árvore em questão, Gordon pensou que devia ser um desses galactodendros que se desenvolvem em grande número nas florestas do Norte da América, e não se enganava.
Que preciosa descoberta! Efetivamente, bastava fazer uma incisão no tronco daqueles galactodendros para sair de lá um suco de aparência leitosa, com o gosto e as propriedades nutritivas do leite de vaca. Além disso, quando se deixa coagular este leite, forma uma espécie de queijo excelente, e ao mesmo tempo produz uma cera muito pura, comparável à das abelhas, e com a qual se podem fazer velas de boa qualidade.
— Muito bem — exclamou Service —, se é uma árvore-vaca, é preciso mungi-la!
E, sem o saber, o alegre rapaz acabava de empregar a expressão de que se servem os índios, os quais dizem naturalmente: — Vamos mungir a árvore.
Gordon fez uma incisão no tronco do galactodendro, do qual saiu um suco que encheu um jarro trazido por Kate para esse fim.
Era um belo leite de cor esbranquiçada, de aspeto muito apetitoso, e contendo os mesmos elementos que o leite de vaca. É até mais nutritivo, mais consistente, e tem um sabor mais agradável. O jarro foi despejado logo que chegaram a French-den, e Costar enlambuzou a boca, como um gato pequeno. Lembrando-se de tudo o que ia fazer com esta nova substância, Moko não ocultou a satisfação que sentia: De mais a mais, não era necessário poupá-la. O “rebanho” de galactodendros que fornecia abundantemente aquele leite vegetal não estava longe!
Realmente, a ilha Chairman podia satisfazer as necessidades de uma colónia numerosa. A subsistência dos rapazes estava assegurada, mesmo por muito tempo. Além disso, a presença de Kate, os cuidados que podiam esperar dessa mulher dedicada, a quem inspiravam uma afeição maternal, tudo se reunia para lhes tornar a vida mais fácil!
Mas a segurança estava agora perturbada na ilha Chairman! Quantas descobertas Briant e os seus camaradas teriam feito, organizando explorações às partes desconhecidas da ilha, e às quais tinham de renunciar! Ser-lhes-ia dado continuarem alguma vez as suas excursões, receando apenas o encontro de alguns carnívoros — menos perigosos, com certeza, do que os outros carnívoros com figura humana, contra os quais deviam acautelar-se noite e dia!
Em todo o caso até aos primeiros dias de novembro não apareceu vestígio algum suspeito nos arredores de French-den. Briant perguntava a si mesmo se os marinheiros do Severn ainda estariam na ilha. E, contudo, Doniphan verificara com os seus próprios olhos o mau estado em que se achava a chalupa, com o mastro partido, o velame em farrapos, as cintas do costado arrombadas pelos recifes! É verdade que — o mestre Evans não devia Ignorá-lo —, se a ilha Chairman estava próxima de um continente ou de um arquipélago, talvez a chalupa, calafetada e arranjada melhor ou pior, tivesse sido posta em estado de fazer uma travessia relativamente curta! Portanto, era admissível que Walston tivesse deixado a ilha!... Sim, e isso é que convinha saber, antes de continuarem o modo de vida habitual.
Briant lembrara-se muitas vezes de ir explorar a região situada a leste do Family-lake. Doniphan, Baxter e Wilcox tê-lo-iam acompanhado de boa vontade. Mas correr o risco de cair em poder de Walston e, portanto, fazer-lhe ver quão pouco temíveis eram os seus adversários, podia ter consequências muito desagradáveis. Por isso, Gordon, cujos conselhos eram sempre atendidos, convenceu Briant a abandonar a ideia de se aventurar nas profundezas de Beechs-forest.
Kate fez então uma proposta que não apresentava perigo algum para os moços colonos.
— Sr. Briant — disse ela uma noite, estando todos os rapazes reunidos no hall —, dá-me licença que os deixe amanhã, ao romper do dia?
— Quer deixar-nos, Kate?... — perguntou Briant.
— Quero! Não podem estar mais tempo nesta incerteza, e ofereço-me para ir ao lugar onde fomos arremessados pela tempestade, a fim de ver se Walston ainda está na ilha... Se a chalupa estiver ainda lá, é porque ele não partiu... Se não estiver, não têm nada a recear dele!
— Isso que quer fazer, Kate — declarou Doniphan —, é exatamente o que Briant, Baxter, Wilcox e eu queríamos pôr em prática!
— Decerto, Sr. Doniphan — admitiu Kate. — Mas o que é perigoso para os senhores não o é para mim...
— Contudo — objetou Gordon —, se tornar a cair nas mãos de Walston?...
— Nesse caso — respondeu Kate — ficarei na situação em que estava antes de fugir, nada mais!
— E se aquele miserável se desembaraçar de Kate, o que é muito provável?... — observou Briant.
— Já fugi uma vez — replicou Kate. — Porque não hei de fugir segunda, agora então que conheço o caminho de French-den? E se conseguisse fugir na companhia de Evans — a quem contaria tudo o que lhes diz respeito —, o bom mestre ser-lhes-ia muito útil!...
— Se Evans pudesse fugir — retorquiu Doniphan —, não o tinha já feito?... O seu interesse não é deixá-los?...
— Doniphan tem razão — disse Gordon. — Evans sabe o segredo de Walston e dos seus cúmplices, que não hesitarão em matá-lo quando já não precisarem que ele dirija a chalupa para o continente americano! Portanto, se ainda não conseguiu escapar-lhes, é porque está guardado à vista...
— Ou talvez já pagasse com a vida uma tentativa de invasão! — lembrou Doniphan. — Por isso, Kate, se a apanhassem outra vez...
— Creia — assegurou Kate — que farei toda a diligência para não me deixar apanhar!
— Decerto — concordou Briant —, mas nós é que nunca a deixaremos correr esse perigo! Não! É melhor procurar outro meio para sabermos se Walston está ainda na ilha Chairman!
Tendo-se rejeitado a proposta de Kate, o que havia a fazer era apenas evitar que se cometesse alguma imprudência. Evidentemente, se Walston estivesse em condições de deixar a ilha, partiria antes do inverno, a fim de chegar a alguma terra onde ele e os seus fossem recebidos como se recebem sempre os náufragos, de qualquer parte que venham.
Afinal, admitindo que Walston ainda estivesse ali, não parecia ter ideias de explorar o interior. Muitas vezes, em noites sombrias, Briant, Doniphan e Moko percorreram o Family-lake, na canoa, e nunca surpreenderam o clarão de uma fogueira suspeita, nem na margem oposta, nem debaixo das árvores que se agrupavam próximo do East-river.
Contudo, era muito penoso viver em tais condições, sem sair do espaço compreendido entre o rio Zealand, o lago, a floresta e a penedia. Por isso, Briant pensava constantemente no meio de se certificar da presença de Walston e de descobrir, ao mesmo tempo, o lugar onde ele estabelecera o acampamento. Talvez não fosse preciso mais do que elevar-se a uma certa altura durante a noite.
Era essa a ideia de Briant, ideia que não o deixava um instante. Infelizmente, a não ser a penedia cuja crista mais elevada não excedia duzentos pés de altura, a ilha Chairman não tinha outra colina de alguma importância.
Doniphan e dois ou três dos outros tinham subido muitas vezes ao cume de Auckland-hill; mas desse ponto nem sequer avistavam a outra margem do Family-lake. Portanto, nem fumo nem clarão podiam aparecer a leste, por cima do horizonte. Seria necessário subir mais algumas centenas de pés para que o raio visual pudesse chegar às primeiras rochas de Deception-bay.
Foi então que ocorreu a Briant uma ideia de tal modo arrojada — podíamos até dizer insensata — que ele, ao princípio, repeliu-a. Mas perseguia-o com tal obstinação, que acabou por se lhe incrustar no cérebro.
Como dissemos, a operação do papagaio tinha sido interrompida. Depois da chegada de Kate, trazendo a notícia de que os náufragos do Severn vagueavam pela costa oriental, fora necessário renunciar ao projeto de lançar nos ares um aparelho que seria visto de todos os pontos da ilha.
Mas, uma vez que o papagaio não podia ser empregado como sinal, não seria possível utilizá-lo para operar aquele reconhecimento, tão necessário para a segurança da colónia?
Sim! Era nisso que se obstinava a imaginação de Briant. Lembrava-se de ter lido num jornal Inglês que, no fim do século passado, uma mulher tivera a audácia de se elevar nos ares, suspensa de um papagaio fabricado especialmente para aquela ascensão perigosa (A ideia de Briant ia realizar-se em França. Alguns anos depois. um papagaio, medindo vinte e quatro pés de largura sobre vinte e sete de comprimento, de forma octogonal, pesando sessenta e oito quilos de madeira e quarenta e cinco de tela e de corda — ao todo cento e treze quilos —, levara facilmente pelos ares um saco de terra que pesava perto de setenta quilos.).
Pois um rapaz não se atreveria a tentar o que uma mulher conseguira fazer? Pouco importava que a tentativa apresentasse alguns perigos. Os riscos não eram nada em comparação com os resultados que se poderiam obter! Tomando todas as precauções que a prudência exigia, havia muitas probabilidades de que a operação tivesse bom êxito. Era por isso que Briant, apesar de não saber calcular matematicamente a força ascensional que era precisa para um aparelho daquele género, repetia consigo mesmo que o aparelho estava pronto, que bastava dar-lhe maiores dimensões e fazê-lo mais sólido. E então, no meio da noite, elevando-se algumas centenas de pés nos ares, talvez conseguisse descobrir o clarão de uma fogueira na parte da ilha compreendida entre o lago e Deception-bay.
Não encolham os ombros à ideia deste valente e audacioso rapaz! Perseguido por este pensamento constante, chegara a julgar o seu projeto, não só praticável — a esse respeito não há dúvida —, mas até menos perigoso do que parecia à primeira vista.
Tratava-se apenas de fazê-lo adotar pelos seus camaradas.
E no dia 4, à noite, depois de ter pedido a Gordon, Doniphan, Wilcox, Webb e Baxter que fossem conferenciar com ele, expôs-lhes a sua ideia de utilizar o papagaio que tinham fabricado.
— Utilizá-lo?... — estranhou Wilcox. — Como?... Deixando-o ir pelos ares?
— Já se vê — respondeu Briant —, pois foi para isso que ele se fez.
— De dia? — interrogou Baxter.
— Não, Baxter; de dia não podia escapar aos olhos de Walston, enquanto que de noite...
— Mas se lhe prenderem uma lanterna — observou Doniphan —, atrai a atenção de quem o vir, da mesma maneira.
— Pois não haverá lanterna.
— Então para que serve?... — perguntou Gordon.
— Para ver se os marinheiros do Severn ainda estão na ilha!
E Briant, não sem recear que o seu projeto fosse recebido por movimentos de cabeça pouco animadores, expô-lo em poucas palavras.
Os seus camaradas não riram. Tinham pouca vontade disso, e, à exceção de Gordon, talvez, que não sabia se Briant falava seriamente, todos os rapazes pareceram muito dispostos a darem a sua aprovação. Sim! Todos eles estavam tão acostumados ao perigo, que uma ascensão noturna, feita naquelas condições, pareceu-lhes muito praticável.
Além disso, estavam seriamente resolvidos a empreender tudo o que fosse necessário para lhes restituir a segurança de outrora.
— Contudo — observou Doniphan —, o peso de qualquer de nós não será excessivo para o papagaio que construímos?...
— É, decerto — respondeu Briant. — Assim, há de ser preciso aumentar e consolidar a nossa máquina.
— Resta saber — disse Wilcox — se o papagaio poderá resistir...
— Isso pode, com certeza! — afirmou Baxter.
— E já houve quem o fizesse — acrescentou Briant.
E citou o caso da mulher que, uns cem anos antes, tentara a experiência com resultado.
Em seguida:
— Tudo depende — explicou ele — das dimensões do aparelho e da força do vento no momento da ascensão.
— Briant — perguntou Baxter —, a que altura te parece que será necessário subir?...
— Imagino que, subindo seiscentos ou setecentos pés — respondeu Briant —, se avistaria uma fogueira que acendessem em qualquer ponto da ilha.
— Muito bem! Vamos a isso — exclamou Service —, e sem demora! Já estou farto de não poder andar por onde quero, e à minha vontade!
— E nós de não podermos visitar as nossas armadilhas! — acrescentou Wilcox.
— E eu de não me atrever a disparar um único tiro! — ajuntou Doniphan.
— Então, será amanhã! — declarou Briant.
Depois, quando ficou só com Gordon:
— Pensas seriamente nesta ascensão? — perguntou-lhe este.
— Quero experimentar, pelo menos, Gordon!
— É uma operação perigosa!
— Talvez não seja tanto como parece!
— E qual de nós consentirá em arriscar a vida nessa tentativa?...
— Tu mesmo, Gordon — respondeu Briant —, se a sorte te indicar!
— Então é à sorte, Briant?
— Não, Gordon! Aquele que se sacrificar, deve fazê-lo por sua livre vontade!
— Já escolheste, Briant?
— Talvez!
E Briant apertou a mão de Gordon.