Dois Anos de Férias
Capítulo IV
O que os seus companheiros tinham querido, escolhendo Briant, era fazer justiça ao seu caráter serviçal, à coragem de que ele dava provas todas as vezes que dependia dela a sorte da colónia, à sua dedicação Infatigável pelo interesse geral. Desde o dia em que, por assim dizer, tomara o comando da escuna, durante a travessia da Nova Zelândia à ilha Chairman, nunca recuou diante do perigo ou do trabalho. Apesar de ser de nacionalidade diferente, todos o estimavam, grandes e pequenos, principalmente estes últimos, dos quais ele tratara com tanto zelo e que tinham votado unanimemente por ele. Só Doniphan, Cross, Wilcox e Webb é que se negavam a reconhecer as qualidades de Briant; mas, no íntimo, sabiam perfeitamente que eram injustos para com o mais digno dos seus camaradas.
Apesar de prever que esta escolha devia acentuar mais a dissidência que existia já, apesar de poder recear que Doniphan e os seus partidários tomassem alguma resolução deplorável, Gordon não poupou as felicitações a Briant. Por um lado, tinha o espírito muito equitativo para não aprovar a escolha dos seus camaradas, e, por outro, preferia não ter já de pensar senão na contabilidade de French-den.
Contudo, desde este dia, foi visível que Doniphan e os seus três amigos estavam resolvidos a não suportar este estado de coisas posto que Briant tivesse jurado a si mesmo não lhes dar ocasião para cometerem algum excesso.
Quanto a Jaime, não foi sem alguma surpresa que viu seu irmão aceitar o resultado do escrutínio.
— Então, queres?... — disse-lhe ele, sem acabar um pensamento, que Briant completou, respondendo em voz baixa:
— Sim, quero ter ocasião de fazer ainda mais do que temos feito até agora para resgatar a tua culpa!
— Obrigado, meu irmão — respondeu Jaime —, e não me poupes!
No dia seguinte continuou o curso desta existência que os longos dias de inverno iam tornar tão monótona.
Antes que os grandes frios suspendessem as excursões a Sloughi-bay, Briant tomou uma medida que não deixava de ser útil.
Como se sabe, tinha-se erguido um mastro de sinais numa das cristas mais elevadas de Auckland-hill. Ora, já não restavam senão farrapos do pavilhão içado no alto desse mastro, que tinha sido agitado durante algumas semanas pelo vento do largo. Tratava-se, pois, de o substituir por um aparelho capaz de suportar até as borrascas do inverno. Por conselho de Briant, Baxter fabricou uma espécie de balão, tecido com os juncos flexíveis que eriçavam as bordas do pântano, e que poderia resistir, porque o vento passava através dele. Concluído este trabalho, fez-se uma última excursão à baía, no dia 17 de junho, e Briant substituiu o pavilhão do Reino Unido por este novo sinal, que era visível num raio de muitas milhas.
Entretanto, não estava longe o momento em que Briant e os seus “administrados” iam ser aquartelados em French-den. O termómetro descia lentamente, seguindo uma progressão contínua — o que indicava que haveria persistência de grandes frios.
Briant mandou colocar a canoa em terra, no ângulo do contraforte. Aí cobriram-na com um oleado espesso, para que a secura não fizesse desunir as pranchas. Em seguida, Baxter e Wilcox armaram laços junto do cerrado, e abriram outras covas à entrada de Traps-woods.
Finalmente, ergueram-se as armadilhas ao longo da margem esquerda do rio Zealand, de maneira a poderem sustentar nas malhas a caça aquática que as brisas violentas do sul arrastariam para o interior da ilha.
Entretanto, Doniphan e dois ou três dos seus camaradas, em cima das suas andas, faziam excursões aos South-moors, de onde não voltavam nunca com as mãos vazias, mesmo poupando os tiros de espingarda, porque, a respeito de munições, Briant era tão económico como Gordon.
Durante os primeiros dias de julho, o rio começou a gelar. Os pedaços de gelo, que se formaram em Family-lake, eram levados pela corrente. Daí a pouco em consequência da sua acumulação um pouco abaixo de French-den, formou-se uma represa, e a superfície do lago já não era mais do que uma espessa crosta gelada. Com a continuação do frio, marcado já por uns doze graus centígrados abaixo de zero, o lago não tardaria em solidificar-se em toda a sua extensão. Efetivamente, depois de um ataque violento de rajadas que tornaram a solidificação mais demorada, o vento virou para sueste, o céu aclarou, e a temperatura desceu a perto de vinte graus abaixo do ponto de congelação.
O programa da vida invernal começou-se nas condições em que fora estabelecido no ano precedente. Briant dirigia tudo, sem abusar da sua autoridade. Todos lhe obedeciam sem custo, e, além disso, Gordon facilitava-lhe a tarefa, dando o exemplo da obediência. Doniphan e os seus partidários nunca se insubordinavam. Ocupavam-se com o serviço diário das armadilhas e laços, que lhes pertencia especialmente, continuando a viver isolados, conversando em voz baixa, tomando raras vezes parte na conversação geral, mesmo durante as refeições e os serões da noite. Preparavam alguma conspiração? Ninguém o sabia. Enfim, não havia motivo para os censurar, e Briant não foi obrigado a intervir. Contentava-se em ser justo para com todos, guardando quase sempre para si os trabalhos penosos e difíceis, e não poupando seu irmão, que rivalizava em zelo com ele. Gordon pôde até observar que o caráter de Jaime mostrava tendência para modificar-se, e Moko via, não sem prazer, que, desde que tivera a explicação com Briant, o pequeno tomava parte, mais francamente, nas conversas e nas brincadeiras dos seus camaradas.
Os estudos preenchiam as compridas horas que o frio obrigava a passar no hall. Jenkins, Iverson, Dole e Costar faziam progressos sensíveis. Enquanto os instruíam, os mais velhos não deixavam de se instruir também a si mesmos. Depois das lições, liam-se, em voz alta, narrações de viagens, às quais Service teria preferido a leitura dos seus Robinsons. Às vezes o acordeão de Garnett fazia ouvir uma dessas harmonias insípidas que o desastrado melómano “soprava” com uma convicção lastimável. Outros cantavam em coro algumas cantigas da sua infância. Depois, quando terminava o concerto, iam todos para as suas camas.
Entretanto, Briant não deixava de pensar no regresso à Nova Zelândia. Era a sua preocupação constante. Nisto diferençava-se de Gordon, que não pensava senão em completar a organização da colónia na ilha Chairman. A presidência de Briant devia ser notada pelos esforços que seriam feitos com o fim de voltar à pátria. Ele pensava muitas vezes na mancha esbranquiçada que se distinguia ao largo de Deception-bay. Não pertenceria a alguma terra situada nas proximidades da ilha? — dizia ele consigo mesmo. E, sendo assim, não seria possível construir uma embarcação com a qual se tentasse chegar a essa terra? Mas, quando conversava a esse respeito com Baxter, este abanava a cabeça, compreendendo bem que semelhante trabalho era superior às forças deles!
— Ah! Somos umas crianças — repetia Briant. — Sim! Umas crianças, quando devíamos ser homens!
E era o seu maior pesar.
Durante estas noites de inverno, apesar de parecer que se estava em segurança em French-den, houve diferentes sustos. Phann fazia ouvir, por diversas vezes, grandes latidos de alarme, quando alguns bandos de carnívoros — quase sempre chacais — iam vaguear em torno do cerrado. Doniphan e os outros precipitavam-se então pela porta do hall, e, atirando carvões acesos àqueles malditos animais, conseguiam pô-los em fuga.
Também por duas ou três vezes apareceram pelos arredores alguns casais de jaguares e de cuguardos, sem nunca se aproximarem tanto como os chacais. Aqueles eram recebidos a tiro de espingarda, apesar de não poderem ser feridos de morte, por causa da distância a que se achavam. Enfim, não foi sem custo que se conseguiu preservar o cerrado.
No dia 24 de julho, Moko teve ocasião de apresentar novos talentos culinários, no tempero de uma peça de caça, que todos saborearam, uns como entendedores, outros como gulosos.
Wilcox e Baxter — que o ajudava de boa vontade — não se contentaram em estabelecer armadilhas para os animais, voláteis ou roedores, de espécie pequena. Curvando algumas das árvores que cresciam entre os maciços de Traps-woods, tinham instalado verdadeiros laços de nó corredio para a caça maior. Este género de armadilha é geralmente usado nas florestas, nos sítios onde há pegadas de cabritos monteses, e não é raro produzir bons resultados.
Em Traps-woods não foi um cabrito, foi um magnífico flamingo que, na noite de 24 de julho, foi prender-se num daqueles nós corredios, do qual não pôde livrar-se, apesar dos esforços que fez. No dia seguinte, quando Wilcox visitou os seus laços, o animal já estava estrangulado pelo anel com que a árvore, erguendo-se, lhe apertara a garganta. Este flamingo, depenado, limpo, recheado de ervas aromáticas e assado com esmero, foi declarado excelente. Todos tiveram o seu quinhão das asas e das coxas, e até da língua, que é o melhor que se pode comer sob a abóbada celeste!
A primeira quinzena do mês de agosto foi assinalada por quatro dias de um frio excessivo. Briant não viu sem apreensão o termómetro descer a trinta graus centígrados abaixo de zero. A pureza do ar era incomparável, e, o que acontece a maior parte das vezes com os grandes abaixamentos de temperatura, nem uma aragem perturbava a atmosfera.
Durante este período não se podia sair de French-den sem se ser tomado instantaneamente pelo frio até à medula dos ossos. Foi proibido aos pequenos exporem-se ao ar — nem sequer um instante. Até os mais velhos não o faziam senão em caso de absoluta necessidade, principalmente para alimentar dia e noite os fogões do curral e da capoeira.
Felizmente, estes frios duraram pouco. Perto do dia 6 de agosto, o vento voltou para oeste. Sloughi-bay e o litoral de Wreck-coast foram então assaltados por borrascas temíveis, que, depois de terem açoutado as costas de Auckland-hill, ricochetearam por cima com uma violência incomparável. Contudo, French-den nada sofreu com isso. Seria preciso nada menos que um tremor de terra para aluir as suas paredes sólidas. As rajadas mais irresistíveis, as que fazem dar à costa os navios de alto bordo, ou derrubam edifícios de pedra, não exerciam influência alguma na penedia. Quanto às árvores derrubadas, e foram muitas, era trabalho poupado aos moços rachadores de lenha, quando se tratasse de renovar a provisão de combustível.
Enfim, estas borrascas deram em resultado modificar-se profundamente o estado atmosférico, porque puseram termo aos grandes frios. A partir deste período, a temperatura subiu constantemente, e, logo que estas perturbações cessaram, conservou-se na média de sete a oito graus abaixo do ponto de congelação.
A última quinzena de agosto foi muito suportável. Briant pôde continuar os trabalhos interrompidos fora de French-den, à exceção da pesca, porque as águas do rio e do lago estavam ainda cobertas por uma espessa camada de gelo. Fizeram-se numerosas visitas às armadilhas, laços e redes, onde a caça marinha caía em abundância, e a despensa nunca deixou de estar fornecida de carne fresca.
Quanto ao mais, o cerrado recebeu, passados dias, novos hóspedes. Além de ninhadas de abetardas e de galinhas-da-índia, nasceram também cinco vicunhas, às quais não faltaram os cuidados de Service e de Garnett.
Foi nestas circunstâncias, visto que o estado do lago ainda o permitia, que Briant se lembrou de oferecer aos seus camaradas uma grande partida de patinagem.
Com uma sola de pau e uma lâmina de ferro, Baxter conseguiu fabricar alguns pares de patins.
Todos os rapazes estavam mais ou menos acostumados a este exercício, que é muito apreciado na Nova Zelândia, durante a força do inverno, e ficaram satisfeitíssimos por terem ocasião de mostrar os seus talentos na superfície de Family-lake. Portanto, no dia 25 de agosto, pelas onze horas da manhã, Briant, Gordon, Doniphan, Webb, Cross, Wilcox, Baxter, Garnett, Service, Jenkins e Jaime, deixando Iverson, Dole e Costar sob a vigilância de Moko e de Phann, saíram de French-den para procurarem um lugar onde a camada de gelo apresentasse uma vasta extensão boa para a patinagem.
Briant levava uma das cornetas de bordo, a fim de chamar o seu exército no caso de alguns se afastarem para muito longe. Todos tinham almoçado antes de partir e tencionavam estar de volta a horas de jantar. Foi necessário subir a praia durante perto de três milhas antes de se achar um ponto conveniente, porque o Family-lake estava obstruído por bocados de gelo nas proximidades de French-den.
Atravessando Traps-woods, os moços colonos pararam diante de uma superfície, solidificada uniformemente, que se estendia a perder de vista para o lado de leste.
Era um magnífico campo de manobras para um exército de patinadores.
É inútil dizer que Doniphan e Cross tinham levado as suas espingardas, na ideia de matarem alguma caça, se se apresentasse ocasião. Quanto a Briant e a Gordon, que nunca tinham apreciado muito este género de desporto, não acompanharam os outros senão para evitar alguma imprudência.
Os patinadores mais hábeis da colónia eram, sem dúvida, Cross, Doniphan e Jaime, principalmente este, que excedia todos, tanto pela velocidade com que mudava de lugar, como pela exatidão com que traçava as curvas mais complicadas.
Antes de dar o sinal da partida, Briant reuniu os seus camaradas e disse-lhes:
— Não é preciso recomendar-lhes que sejam prudentes e ponham de parte toda a vaidade! Se não há que temer que o gelo se parta, deve-se sempre ter medo de partir um braço ou uma perna! Não se afastem para muito longe e não se esqueçam de que eu e Gordon os esperamos aqui. Quando ouvirem tocar a corneta, devem todos preparar-se para retirarem!
Feitas estas recomendações, os patinadores arremessaram-se para o lago, e Briant ficou descansado ao vê-los apresentar uma destreza maravilhosa. Ao princípio houve algumas quedas, as quais não provocaram senão gargalhadas.
Realmente, Jaime fazia maravilhas, atrás, à frente, num pé, nos dois, de pé, de cócoras, descrevendo círculos e elipses com uma regularidade perfeita. E que satisfação para Briant ver o pequeno tomar parte nas brincadeiras dos outros! É provável que Doniphan, o sportsman tão apaixonado por todos os exercícios de corpo, sentisse alguma inveja do sucesso de Jaime, que todos aplaudiam com entusiasmo. Assim, não tardou em afastar-se da praia, apesar das vivas recomendações de Briant. Mas quando chegou a certo ponto, fez sinal a Cross para ir ter com ele.
— Olá, Cross — gritou ele —, estou vendo um bando de patos... acolá... para leste!... Não os vês?
— Vejo, sim, Doniphan!
— Trazes a tua espingarda?... Eu trago a minha!... Vamos a isso!...
— Mas Briant proibiu!...
— Ora! não me maces com o teu Briant!... A caminho... e, depressa!
Num abrir e fechar de olhos, Doniphan e Cross tinham transposto meia milha, perseguindo o bando de aves que esvoaçavam à superfície do Family-lake.
— Aonde vão eles? — perguntou Briant.
— Talvez vissem lá adiante alguma caça — respondeu Gordon —, é o instinto de caçadores...
— Ou, antes, o instinto da desobediência! — replicou Briant.
— Doniphan sempre que...
— Parece-te que lhes poderá suceder mal?
— Quem sabe, Gordon?... É sempre imprudente afastarem-se muito!... Olha como eles já estão longe!
E efetivamente, levados numa carreira rápida, Doniphan e Cross pareciam dois pequeninos pontos no horizonte do lago.
Mesmo que tivessem tempo de voltar, porque o dia devia durar ainda algumas horas, era uma imprudência. Naquela época do ano devia-se sempre recear uma mudança repentina no estado da atmosfera. Uma modificação na direção do vento era suficiente para trazer rajadas ou nevoeiros.
Assim, imagine-se quais foram as apreensões de Briant quando, pelas duas horas, o horizonte se cobriu bruscamente por uma espessa camada de névoa.
Neste momento, Cross e Doniphan ainda não tinham aparecido, e os vapores, agora acumulados à superfície do lago, ocultavam-lhes a margem ocidental.
— Aí está o que eu receava! — exclamou Briant. — Como poderão agora voltar?
— Dá o sinal... Dá o sinal! — recomendou vivamente Gordon.
A corneta ressoou três vezes, e o som prolongou-se através do espaço. Talvez lhe respondessem com tiros de espingarda — o único meio de que Doniphan e Cross dispunham para darem a conhecer a sua posição.
Briant e Gordon escutaram... Não ouviram detonação alguma.
Entretanto, o nevoeiro já aumentara muito, tanto em espessura como em extensão, e as suas primeiras volutas desenrolavam-se a menos de um quarto de milha da praia. Ora, como subia, ao mesmo tempo, para as zonas elevadas, o lago devia desaparecer antes de alguns minutos.
Briant chamou então os seus camaradas que estavam mais perto. Alguns momentos depois estavam todos reunidos na praia.
— Que se há de fazer?... — perguntou Gordon.
— Tentar-se tudo para se achar Cross e Doniphan, antes que estejam completamente perdidos no meio do nevoeiro! Se um de nós seguir a direção que eles tomaram, e procurar chamá-los com a corneta...
— Estou pronto para ir! — ofereceu-se Baxter.
— Nós também! — acrescentaram dois ou três dos outros.
— Não!... Irei eu!... — disse Briant.
— hei de ser eu, meu irmão! — acudiu Jaime. — Com os meus patins, depressa alcançarei Doniphan...
— Pois vai!... — aceitou Briant. — Vai, Jaime, e repara bem se ouves tiros de espingarda!... Leva esta corneta, que há de servir para dar a conhecer a tua presença!...
— Sim, meu irmão!
Um momento depois, Jaime tinha desaparecido no meio do nevoeiro, que se tornava cada vez mais opaco.
Briant, Gordon e os outros prestaram o ouvido atentamente ao som da corneta tocada por Jaime; mas a distância extinguiu-o em breve.
Decorreu meia hora. Não havia nenhumas notícias dos ausentes, nem de Cross ou de Doniphan, incapazes de se orientarem no lago, nem de Jaime, que se dirigia ao encontro deles.
E que seria feito de todos três se a noite chegasse antes de terem regressado?
— Ainda se tivéssemos armas de fogo — exclamou Service —, talvez...
— Armas? — disse Briant. — Há-as em French-den!...
Não temos um momento a perder!... A caminho.
Era o melhor partido a tomar, porque, primeiro que tudo, tratava-se de indicar, tanto a Jaime como a Doniphan e a Cross, a direção que deviam seguir para voltarem à margem do Family-lake. Portanto, o melhor seria regressarem pelo caminho mais curto a French-den, de onde podiam fazer-se sinais por meio de detonações sucessivas.
Briant, Gordon e os outros percorreram as três milhas que os separavam de Sport-terrace em menos de meia hora.
Nesta ocasião não se tratava de economizar a pólvora. Wilcox e Baxter carregaram duas espingardas, que foram disparadas na direção de leste.
Nada de resposta. Nem tiro, nem corneta.
Eram já três horas e meia. O nevoeiro tendia a tornar-se mais espesso à medida que o Sol se escondia atrás do maciço de Auckland-hill. Era impossível ver alguma coisa à superfície do lago através daqueles vapores carregados.
— O canhão! — lembrou Briant.
Uma das duas peçazinhas do Sloughi — a que estava colocada através de uma das canhoneiras abertas junto da porta do hall, — foi arrastada para o meio de Sport-terrace e dirigida convenientemente para o nordeste.
Carregaram-na com cartuchos de sinais, e Baxter ia puxar a corda do estopim quando Moko sugeriu a ideia de colocar uma bucha de erva, coberta de sebo, por cima do cartucho. Dizia que isso tornaria mais forte a detonação, e não se enganava.
O tiro partiu — não sem que Dole e Costar tapassem os ouvidos.
No meio de uma atmosfera tão serena, era inadmissível que esta detonação não se ouvisse, mesmo a uma distância de muitas milhas.
Escutaram... Nada! Durante uma hora disparou-se a peça de dez em dez minutos. Era impossível que Doniphan, Cross e Jaime não compreendessem a significação destes tiros repetidos que indicavam a posição de French-den. Além disso, as descargas deviam ouvir-se em toda a superfície do Family-lake, porque os nevoeiros auxiliam muito a propagação longínqua dos sons, e esta propriedade aumenta com a sua espessura.
Finalmente, um pouco antes das cinco horas ouviram-se distintamente dois ou três tiros de espingarda, ainda afastados, na direção nordeste.
— São eles! — exclamou Service.
E Briant respondeu imediatamente com uma descarga ao sinal de Doniphan.
Alguns instantes depois desenharam-se duas sombras através do nevoeiro, que era menos espesso perto da margem do que sobre o lago. Daí a pouco vieram novos hurras juntar-se aos hurras que partiam de Sport-terrace.
Eram Doniphan e Cross.
Jaime não vinha com eles.
Imagine-se as angústias mortais de Briant! Seu irmão não pudera encontrar os dois caçadores, que nem sequer tinham ouvido os sons da corneta. Nesse momento Cross e Doniphan, procurando orientar-se, tinham descido para a parte meridional do Family-lake, enquanto Jaime caminhava para leste a fim de ir ter com eles. Os dois, mesmo, não teriam achado o caminho sem as detonações de French-den.
Briant, todo entregue à ideia de seu irmão perdido no meio da névoa, não pensava em repreender Doniphan, cuja desobediência podia ter consequências tão graves. Se Jaime fosse obrigado a passar a noite no lago, com uma temperatura que ia talvez descer a quinze graus abaixo de zero, como poderia resistir a frios tão intensos?
— Eu é que devia ter ido em seu lugar... sim, eu! — Repetia Briant, a quem Baxter e Gordon tentavam, em vão, dar alguma esperança.
Dispararam-se ainda alguns tiros de canhão. Era evidente que, se Jaime estivesse perto de French-den, teria ouvido esses tiros e indicado a sua presença por meio da corneta.
Mas, quando os últimos ruídos se perderam ao longe, as detonações ficaram sem resposta.
E, como a noite começava a descer, a escuridão ia envolver toda a ilha.
Entretanto, ocorreu uma circunstância muito favorável.
O nevoeiro parecia tender a dissipar-se. A brisa, que aparecera ao sol-posto, como sucedia quase todas as tardes depois das calmarias da manhã, impelia o nevoeiro para leste, limpando a superfície do Family-lake. Em breve a dificuldade de achar French-den seria devida apenas à escuridão da noite.
Nestas condições só havia uma coisa a fazer: acender uma grande fogueira na praia, a fim de poder servir de sinal. E Wilcox, Baxter e Service já estavam amontoando lenha no centro de Sport-terrace quando Gordon os deteve.
— Esperem! — disse ele.
Com o óculo assestado, Gordon olhava atentamente na direção do nordeste.
— Parece-me que vejo um ponto — declarou ele —, um ponto que se move...
Briant pegou no óculo e olhou também.
— Louvado seja Deus!... É ele!... — exclamou. — É Jaime!... Já o vejo!...
E todos começaram a gritar com toda a força dos seus pulmões, como se os pudessem ouvir a uma distância que não podia ser calculada em menos de uma milha!
Contudo, esta distância diminuía a olhos vistos. Jaime, com os patins nos pés, deslizava com a rapidez de uma flecha pela superfície gelada do lago, aproximando-se de French-den. Alguns minutos mais, e teria chegado junto deles.
— Dir-se-ia que não vem só! — exclamou Baxter, que não pôde conter um gesto de surpresa.
Efetivamente, uma observação mais atenta deu a conhecer que se moviam outros dois pontos atrás de Jaime, a uns cem pés dele.
— Que é?... — perguntou Gordon.
— Homens?... — interrogou Baxter.
— Não!... Parecem animais!... — disse Wilcox.
— Talvez carnívoros! — exclamou Doniphan.
Não se enganava e, sem hesitar, de espingarda na mão, arremessou-se para o lago ao encontro de Jaime.
Em poucos segundos Doniphan chegou junto do pequeno e disparou dois tiros sobre os carnívoros, que voltaram para trás e desapareceram bem depressa.
Eram dois ursos, que ninguém esperava ver figurar na fauna chairmaniana! Se aqueles animais temíveis andavam pela ilha, por que motivo nunca tinham achado vestígios deles? Talvez não a habitassem, e, durante o inverno, ou aventurando-se à superfície do mar gelado, ou embarcando nos pedaços de gelo flutuantes, aqueles ursos se arriscassem até àquelas paragens. E isto não parecia indicar que havia algum continente nas proximidades da ilha Chairman?... Era caso para refletir.
Fosse como fosse, Jaime estava salvo, e seu irmão apertava-o nos braços.
As felicitações, os abraços e os apertos de mão não faltaram ao corajoso rapaz. Depois de ter tocado a corneta debalde, a fim de chamar os seus dois camaradas, estava perdido no meio do nevoeiro espesso, sem poder, de modo algum, orientar-se, quando se ouviram as primeiras detonações.
— Não pode ser senão o canhão de French-den! — disse ele consigo mesmo, procurando distinguir de onde vinha o som.
Estava então a muitas milhas da praia, a nordeste do lago.
Correu imediatamente, com toda a ligeireza dos seus patins, na direção que lhe indicavam. De repente, no momento em que o nevoeiro começava a dissipar-se, viu-se na presença de dois ursos, que se precipitaram para ele. Apesar do perigo, não perdeu o sangue-frio nem por um instante, e, graças à rapidez da sua carreira, pôde conservar os animais a certa distância. Mas, se tivesse dado uma queda, estaria perdido.
E, chamando Briant de parte, enquanto voltavam para French-den:
— Obrigado, meu irmão — disse ele em voz baixa —, obrigado por me permitires...
Briant apertou-lhe a mão, sem responder.
Em seguida, no momento em que Doniphan ia transpor a porta do hall, disse-lhe:
— Proibi que te afastasses, e, como vês, a tua desobediência podia ter causado uma grande desgraça! Contudo, apesar de teres procedido mal, Doniphan, não te agradeço menos o teres socorrido Jaime!
— Não fiz mais do que o meu dever — respondeu friamente Doniphan.
E nem sequer tocou na mão que o seu camarada lhe estendia tão cordialmente.