Dois Anos de Férias
Capítulo II
Oito dias depois começava o ano de 1861, e, para esta parte do hemisfério austral, o novo ano começa em pleno verão.
Havia perto de dez meses que os moços náufragos do Sloughi tinham sido arremessados à ilha, a mil e oitocentas léguas da Nova Zelândia! É forçoso reconhecer que, durante este período, a sua situação melhorara pouco a pouco. Parecia mesmo que tinham a certeza de poderem satisfazer todas as necessidades da vida material. Mas sempre era o abandono numa terra desconhecida! Os socorros de fora — os únicos que eles podiam esperar — chegariam agora, antes que o bom tempo acabasse? A colónia estaria condenada a sofrer os rigores de um segundo inverno antártico? Até aqui, a doença não se fizera sentir. Todos, pequenos e grandes, tinham passado o melhor possível. Graças à prudência de Gordon, que os vigiava rigorosamente — o que às vezes provocava recriminações contra a sua severidade —, não se tinha cometido negligência alguma. No entanto, não se devia contar com as afeções a que raras vezes escapam as crianças desta idade, principalmente as mais novas? Enfim, se o presente era aceitável, o futuro apresentava muitas inquietações. Briant queria deixar a ilha Chairman a todo o custo, e pensava nisso sem cessar! Ora, com a única embarcação que possuíam, com a frágil canoa, como haviam de arriscar-se a empreender uma travessia que podia ser longa, se a ilha não pertencesse a algum dos grupos do Pacífico, ou se o continente mais próximo se achasse a algumas centenas de milhas? Mesmo que dois ou três dos mais ousados se prontificassem a ir procurar uma terra a leste, havia tantas probabilidades de não a alcançarem! Quanto a construírem um navio com o tamanho suficiente para atravessar estas paragens do Pacífico, podê-lo-iam? Não, decerto! Isso era superior às suas forças, e Briant não sabia o que havia de imaginar para a salvação de todos! Portanto, esperar, esperar ainda, e trabalhar para tornar a instalação em French-den mais confortável — não havia outra coisa a fazer. Depois, se não fosse este verão, porque o trabalho era urgente, prevendo a estação do frio, pelo menos, no verão próximo, os moços colonos acabariam por reconhecer inteiramente a ilha.
Todos se puseram a trabalhar com afinco. A experiência já tinha mostrado o que eram os rigores do inverno nesta latitude. Durante semanas, e até meses, seriam obrigados pelo mau tempo a estar encarcerados no hall, e era prudente precaverem-se contra o frio e a fome — os dois Inimigos mais temíveis.
Combater o frio em French-den era questão apenas de combustível, e o outono, por muito curto que fosse, não acabaria antes de Gordon ter armazenado bastante lenha para alimentar os fogões de dia e de noite. Mas não se devia pensar também nos animais domésticos, que estavam no cerrado e na capoeira? Abrigá-los em Store-room seria um incómodo excessivo, e até uma imprudência debaixo do ponto de vista higiénico. Portanto, era necessário tornar o alpendre do cerrado mais habitável, defendê-lo contra as temperaturas baixas, aquecê-lo, conservando lá uma fogueira que pudesse manter sempre o ar interior num grau suportável. Foi a isso que se aplicaram Baxter, Briant, Service e Moko durante o primeiro mês do novo ano.
Quanto à questão, não menos grave, da alimentação para todo o período invernoso, Doniphan e os seus companheiros de caça encarregaram-se de resolvê-la. Visitavam todos os dias as armadilhas, os laços e as redes. O que não servia para consumo diário ia aumentar as reservas da despensa, em forma de carnes salgadas ou secas, que Moko preparava com grande cuidado.
Assim, o alimento estava certo, por muito longo e rigoroso que o inverno fosse.
Entretanto, tornava-se necessária outra exploração: era a que teria por fim reconhecer, não os territórios desconhecidos da ilha Chairman, mas, pelo menos, a parte compreendida a leste de Family-lake. Compor-se-ia de florestas, de pântanos ou de dunas? Apresentaria novos recursos que pudessem ser utilizados?
Um dia Briant conferenciou com Gordon a este respeito, encarando-o, além disso, de outra maneira.
— Posto que o mapa do náufrago Baudoin fosse feito com uma certa exatidão, que pudemos verificar — ponderou ele —, não seria mau tomar conhecimento do Pacífico, a leste. Temos à nossa disposição óculos excelentes que o meu compatriota não possuía, e quem sabe se avistaríamos terras que ele não pôde ver? O seu mapa apresenta a ilha Chairman como isolada nestas paragens, e talvez não o esteja!
— Continuas com a tua ideia — observou-lhe Gordon — e tarda-te partir?...
— Sim, Gordon, e tenho a certeza de que pensas como eu! O fim de todos os nossos esforços não deve ser voltar à pátria o mais breve possível?
— Sim — concordou Gordon — e, já que o desejas, organizaremos uma expedição...
— E todos tomarão parte nela? — perguntou Briant.
— Não. Parece-me que seis ou sete dos nossos camaradas...
— Ainda é muito, Gordon! Sendo tantos, não poderiam fazer outra coisa senão rodear o lago pelo norte ou pelo sul, e isso talvez exigisse muito tempo e muita fadiga!
— Então o que propões, Briant?
— Proponho que se atravesse o lago na canoa, partindo de French-den, a fim de chegar à margem oposta, e, para isso, irem só dois ou três.
— E quem dirige a canoa?
— Moko — respondeu Briant. — Sabe manobrar uma embarcação, e eu mesmo percebo alguma coisa disso. Com a vela, se o vento for bom, ou com dois remos, se for contrário, podemos transpor facilmente as cinco ou seis milhas que o lago mede na direção do curso de água, que, segundo as indicações do mapa, atravessa as florestas do leste, e desceremos até à embocadura.
— Está dito, Briant — decidiu Gordon —, aprovo a tua ideia. E quem acompanha Moko?
— Eu, Gordon, porque não fiz parte da expedição ao norte do lago. Devo tornar-me útil... é a minha vez... Reclamo-a...
— Útil! — exclamou Gordon. — Não nos tens prestado mil serviços, meu caro Briant? Não te tens sacrificado mais do que qualquer outro? Não tens já direito ao nosso reconhecimento?
— Ora vamos, Gordon! Todos nós temos feito o nosso dever! Então está combinado?
— Está combinado, Briant. Quem escolhes para terceiro companheiro de jornada? Não te proponho Doniphan, porque não se dão bem...
— Oh! Aceitá-lo-ia de boa vontade! — declarou Briant. — Doniphan não tem mau coração, é corajoso, hábil, e se não fosse o seu caráter invejoso era um excelente camarada. Além disso, corrigir-se-á a pouco e pouco, quando tiver compreendido que eu não quero governar nem humilhar ninguém, e estou certo de que nos tornaremos os melhores amigos do mundo. Mas já pensei noutro companheiro de viagem.
— Quem?
— Meu irmão Jaime — declarou Briant. — O seu estado inquieta-me cada vez mais. É evidente que cometeu alguma falta grave que não quer confessar. Talvez, durante esta excursão, estando só comigo...
— Tens razão, Briant. Leva Jaime, e começa já hoje os teus preparativos de viagem.
— Não levarei muito tempo — respondeu Briant —, porque a nossa ausência não deve durar mais de dois ou três dias.
Gordon deu parte, nesse mesmo dia, da expedição projetada. Doniphan mostrou-se muito despeitado por não tomar parte nela, e, queixando-se a Gordon, este fez-lhe compreender que, nas condições em que devia ser feita, esta expedição não exigia mais de três pessoas, e, como a ideia era de Briant, pertencia-lhe a ele pô-la em execução, etc.
— Enfim — resmungou Doniphan —, as ideias são sempre dele; não é verdade, Gordon?
— És injusto, Doniphan, injusto para com Briant e até para comigo!
Doniphan não insistiu, e foi reunir-se aos seus amigos Wilcox, Cross e Webb, com os quais pôde expandir à vontade o seu mau humor.
Quando o grumete soube que ia trocar momentaneamente as funções de cozinheiro pelas de patrão da canoa, não pôde ocultar o contentamento. Além disso, acompanhar Briant dava-lhe um prazer particular. O seu substituto no fogão de Store-room seria Service, que se regozijava com a ideia de poder guisar a capricho, sem ser ajudado por pessoa alguma. Quanto a Jaime, a proposta de acompanhar o irmão e deixar French-den por alguns dias pareceu agradar-lhe.
A canoa foi logo posta em estado de servir. A sua armação era a velazinha latina, que Moko envergou e enrolou ao longo do mastro. Duas espingardas, três revólveres, munições em quantidade suficiente, três cobertores de viagem, provisões líquidas e sólidas, capotes de oleado para o caso de chover, dois remos, com um par de reserva, era todo o material necessário para uma expedição que não devia durar muito — não esquecendo a cópia que se fizera do mapa do náufrago, e à qual se acrescentariam novos nomes à medida que se fizessem descobertas.
No dia 4 de fevereiro, pelas oito horas da manhã, Briant, Jaime e Moko, depois de se terem despedido dos seus camaradas, embarcaram na represa do rio Zealand. O tempo estava bom — corria uma leve brisa do sudoeste. A vela foi içada, e Moko, colocado na ré, pegou na cana do leme, deixando a Briant o cuidado de dirigir a escota. Posto que a superfície do lago fosse apenas enrugada por sopros intermitentes, a canoa sentiu mais vivamente o efeito da brisa quando se achou um pouco ao largo. A sua rapidez aumentou. Meia hora depois, Gordon e os outros já não distinguiam senão um ponto negro, que ia em breve desaparecer.
Moko Ia na ré, Briant no meio, e Jaime colocara-se na proa, junto do mastro. Durante uma hora avistaram-se as cristas elevadas de Auckland-hill; depois desapareceram no horizonte. Contudo, a margem oposta do lago não se distinguia ainda, apesar de não dever estar longe. Infelizmente, como acontece de ordinário, quando o sol toma forças, o vento mostrou tendência para abrandar, e pelo meio-dia não se manifestou senão por algumas rajadas caprichosas.
— É pena — disse Briant — que a brisa não se conservasse durante o dia!...
— Ainda era pior, Sr. Briant — respondeu Moko —, se ela se tivesse tornado contrária!
— És filósofo, Moko!
— Não sei o que essa palavra quer dizer — volveu o grumete.
— O meu costume é tirar sempre partido de tudo o que sucede.
— Isso exatamente é que é filosofia!
— Pois seja filosofia, e vamos aos remos, Sr. Briant. Era bom que chegássemos à outra margem antes da noite. No fim de contas, se não chegarmos, o que há a fazer é ter resignação.
— Dizes bem, Moko. Vou pegar num remo, tu pegas noutro, e Jaime vai para o leme.
— Assim mesmo — aprovou o grumete. — E se o Sr. Jaime dirigir bem, faremos boa viagem.
— Tu ensinas-me, Moko — redarguiu Jaime —, e eu farei por manobrar o melhor que puder.
Moko amainou a vela, que nem já se movia, porque o vento cessara de todo. Os três rapazes foram comer alguma coisa. Em seguida, o grumete colocou-se na proa, enquanto Jaime se sentava na ré, ficando Briant no meio. A canoa, levada com vigor, dirigiu-se um pouco obliquamente para o nordeste, segundo indicava a bússola.
A embarcação achava-se então no centro daquela vasta extensão de água, como se estivesse em pleno mar, porque a superfície do lago era limitada por uma linha periférica de céu. Jaime olhava atentamente na direção de leste, para ver se a costa aparecia do lado oposto a French-den.
Pelas três horas, o grumete pegou no óculo e pôde afirmar que distinguia indícios de terra.
Um pouco mais tarde, Briant verificou que Moko não se enganara. Às quatro horas apareciam copas de árvores por cima de uma margem muito baixa — o que explicava a razão porque Briant não pudera distingui-la do cume de False-sea-point. Assim, a ilha Chairman não tinha outras elevações além das de Auckland-hill, que a acidentavam entre Sloughi-bay e Family-lake.
Mais duas milhas e meia ou três milhas e alcançava-se a margem oriental. Briant e Moko manejavam os seus remos com ardor, não sem alguma fadiga, porque o calor era muito. A superfície do lago estava lisa como um espelho. A água, muito límpida, deixava ver a doze ou quinze pés o fundo eriçado de árvores aquáticas, entre as quais se agitavam miríades de peixes.
Finalmente, pelas seis horas da tarde, a canoa abordou a uma praia, por cima da qual se inclinavam os ramos espessos das azinheiras e dos pinheiros marítimos. Esta praia, bastante elevada, não se prestava a um desembarque, e foi necessário segui-la, durante meia hora, pouco mais ou menos, subindo para o norte.
— Aqui está o rio que vem indicado no mapa — observou então Briant.
E apontava um alargamento da praia, por onde corria o excesso das águas do lago.
— Parece-me acertado pôr-lhe um nome — lembrou o grumete.
— Tens razão, Moko. Chamemos-lhe o East-river, porque corre ao oriente da ilha.
— Está dito — aceitou Moko — e agora não nos resta senão seguir a corrente de East-river e descê-la para chegar à sua embocadura.
— Amanhã faremos isso, Moko. É melhor passar a noite neste lugar. Ao romper do dia, deixaremos derivar a canoa, e poderemos assim reconhecer o território nas duas margens do rio.
— Desembarcamos?... — perguntou Jaime.
— Decerto — respondeu Briant —, e vamos acampar ao abrigo das árvores.
Briant, Moko e Jaime saltaram para a praia, que formava o fundo de uma pequena enseada. Depois de amarrarem a canoa solidamente a um tronco, tiraram de lá as armas e as provisões.
Acendeu-se uma boa fogueira de ramos secos junto de uma azinheira enorme. Cearam bolacha e carne fria, estenderam os cobertores no solo, e não precisaram de mais nada para adormecer profundamente. As armas tinham sido carregadas, na previsão de qualquer acontecimento; mas, apesar de se ouvirem alguns uivos ao cair da tarde, a noite passou-se sem novidade.
— Vamos, a caminho! — exclamou Briant, que foi o primeiro a acordar, às seis horas da manhã.
Em alguns minutos, tomaram todos três os seus lugares na canoa e deixaram-se ir na corrente do rio.
A corrente era já bastante forte — a maré baixava havia meia hora — para não ser necessário recorrer aos remos. Assim, Briant e Jaime tinham-se sentado na proa da canoa, enquanto Moko, instalado na ré, se servia de um dos remos como leme, a fim de manter a frágil embarcação na corrente.
— É provável — disse ele — que uma maré seja suficiente para nos levar até ao mar, se o East-river tem apenas cinco a seis milhas, porque a sua corrente é mais rápida do que a do rio Zealand.
— Deus queira — respondeu Briant. — À volta, parece-me que teremos necessidade de duas ou três marés...
— Decerto, Sr. Briant, e, se quiser, partiremos sem demora...
— Sim, Moko — aprovou Briant —, logo que tivermos visto se existe ou não alguma terra nas margens a leste da ilha Chairman.
Entretanto, a canoa deslizava com uma rapidez que Moko calculava em mais de uma milha por hora. Além disso, o East-river seguia uma direção quase retilínea, que foi marcada a es-nordeste, segundo a bússola. O seu leito era mais profundo do que o do rio Zealand e também menos largo — apenas uns trinta pés —, o que explicava a rapidez do seu curso. O receio de Briant era que ele se transformasse em catadupas, em turbilhões, e não fosse navegável até à costa. Em todo o caso, tinham tempo de se prevenir, no caso de aparecer algum obstáculo.
Estava-se em plena floresta, no meio de uma vegetação muito espessa. Encontravam-se ali as mesmas espécies, pouco mais ou menos, que em Traps-woods, com a diferença de haver mais quantidade de azinheiras, sobreiros e pinheiros. Entre outras — apesar de estar menos familiarizado do que Gordon com as coisas da botânica. —, Briant reconheceu uma certa árvore da qual existem muitos exemplares na Nova Zelândia. Esta árvore, que abria os seus ramos a uns sessenta pés acima do solo, dava frutos cónicos, do comprimento de três a quatro polegadas, agudos na extremidade e cobertos por uma espécie de escama luzente.
— Deve ser o pinheiro pinhão! — exclamou Briant.
— Se não se engana, Sr. Briant — volveu Moko. —, paremos um momento. Vale a pena!
Uma pancada com o remo dirigiu a canoa para a margem esquerda. Briant e Jaime saltaram para a praia. Alguns minutos depois trouxeram uma farta colheita daqueles pinhões, cada um dos quais contém uma amêndoa de forma oval, envolvida numa película ligeira e perfumada como a avelã. Foi um achado precioso para os gulosos da colónia, e também porque estes frutos — o que Gordon lhes disse depois do regresso de Briant — produziam um óleo excelente.
Também era importante reconhecer se aquela floresta era tão abundante em caça como as outras situadas ao ocidente de Family-lake. Devia sê-lo, porque Briant viu passar por entre o mato um bando de nandus e de vicunhas espantadas, e até um casal de guanacos, que fugiam com rapidez incrível. Quanto aos voláteis, Doniphan, se ali estivesse, poderia disparar alguns tiros de espingarda. Mas Briant absteve-se de gastar inutilmente a sua pólvora, pois a canoa continha provisões em quantidade suficiente.
Pelas onze horas, era evidente que o maciço de árvores tendia a tornar-se menos espesso. Algumas clareiras arejavam o interior do bosque. Ao mesmo tempo, a brisa impregnava-se de um perfume salino, que indicava a proximidade do mar.
E, alguns minutos mais tarde, bruscamente, para além de um grupo de azinheiras magníficas, apareceu uma linha azulada no horizonte.
A corrente ia levando sempre a canoa — com menos rapidez, é verdade. As ondas iam fazer-se sentir no leito do East-river, então da largura de quarenta a cinquenta pés.
Chegando junto dos rochedos que se erguiam no litoral, Moko impeliu a canoa para a margem esquerda; em seguida, deitando a ancoreta a terra, enterrou-a solidamente na areia, enquanto Briant e seu irmão desembarcavam atrás dele.
Que aspeto tão diferente do que apresentava a costa a oeste da Ilha Chairman! Aqui abria-se uma baía profunda e exatamente à altura de Sloughi-bay; mas, em lugar de uma grande praia de areia, cercada por um cordão de recifes, limitada pela penedia que se erguia no plano posterior de Wreck-coast, era uma acumulação de rochas, no meio das quais Briant verificou que poderia encontrar vinte grutas em cada uma.
Esta costa era, pois, muito habitável, e se a escuna tivesse encalhado neste ponto, e o seu desencalhe tivesse sido praticável, ter-se-ia abrigado na embocadura do East-river, num pequeno porto natural, onde não faltava a água, mesmo com a maré baixa.
Ao princípio, Briant dirigira a vista para o largo, para o extremo horizonte daquela vasta baía. Desenvolvida num setor de quinze milhas, pouco mais ou menos, entre dois cabos arenosos, merecia o nome de golfo.
Naquele momento, a baía estava deserta — como sempre, decerto. Não se avistava um navio, nem mesmo no seu perímetro, tão claramente recortado no fundo do céu! De terra ou ilha, nem sequer a aparência! Moko, habituado a reconhecer os lineamentos vagos das alturas, que se confundem muitas vezes com os vapores do largo, não descobriu coisa alguma com o óculo. A ilha Chairman parecia estar tão Isolada nas paragens de leste como nas de oeste.
E eis porque o mapa do náufrago francês não indicava terra alguma naquela direção.
Dizer que Briant ficou muito desapontado seria exagerar.
Não! Já esperava isto. Assim, achou muito simples dar àquela chanfradura da costa o nome de Deception-bay (baía da Deceção).
— Vamos! — disse ele. — Não é ainda por este lado que podemos voltar.
— Ora, Sr. Briant — respondeu Moko —, volta-se sempre, ou por um caminho ou por outro! Entretanto, parece-me que são horas de almoçar...
— Pois sim — concordou Briant —, e depressa. A que horas poderá a canoa subir o East-river?
— Se quiséssemos aproveitar a maré, devíamos embarcar imediatamente.
— É impossível! Quero observar o horizonte em condições mais favoráveis e do alto de algum rochedo que domine a praia.
— Então, Sr. Briant, seremos obrigados a esperar a maré próxima, que não se fará sentir no East-river antes das dez horas da noite.
— Tens receio de navegar durante a noite? — perguntou Briant.
— Não, e fá-lo-ei sem perigo — respondeu Moko —, porque temos lua-cheia. Além disso, o curso do rio é tão direito que é suficiente dirigir com um remo enquanto durar a enchente. Depois, quando a corrente descer, far-se-á a diligência para subi-la, ou, se for muito tarde, parar-se-á até romper o dia.
— Bem, Moko, está combinado. E, como temos umas doze horas diante de nós, aproveitemo-las para completar a nossa exploração.
Depois do almoço até à hora do jantar empregou-se o tempo todo em visitar aquela parte da costa, abrigada por maciços de árvores, que se juntavam mesmo ao pé das rochas.
A respeito de caça, parecia ser tão abundante como nos arredores de French-den, e Briant matou alguns tinamus para a refeição da noite.
O que caracterizava o aspeto daquele litoral era a acumulação de pedaços de granito. Desordem verdadeiramente grandiosa, aquele monte de rochedos gigantescos — espécie de campo de Karnak, cuja disposição irregular não era devida à mão do homem. Viam-se ali escavações profundas, que se chamam “chaminés” em alguns países célticos, e seria fácil instalarem-se entre as paredes delas. Não teriam faltado os halls nem os store-rooms para as necessidades da pequena colónia. Só num espaço de meia milha Briant achou uma dúzia destas escavações confortáveis.
Por isso Briant perguntava a si mesmo por que motivo o náufrago não se refugiara naquela parte da ilha Chairman. Quanto a havê-la visitado, não podia existir dúvida a esse respeito, porque as linhas gerais daquela costa figuravam com exatidão no mapa. Portanto, se não se achavam vestígios da sua passagem, é porque, provavelmente, Francisco Baudoin tinha escolhido domicílio em French-den antes de levar a sua exploração até ao território de leste, e, achando-se ali menos exposto às tempestades do largo, julgara conveniente ficar lá. Explicação muito plausível, no fim de contas, e que Briant julgou dever aceitar. Perto das duas horas, quando o Sol tinha passado o ponto mais elevado da sua carreira, pareceu ser ocasião favorável de proceder a uma observação rigorosa do mar, ao largo da ilha. Briant, Jaime e Moko tentaram então escalar um maciço penhascoso, que se assemelhava a um urso enorme. Este maciço elevava-se uns cem pés acima do pequeno porto, e não foi sem dificuldade que alcançaram o seu cume.
Daí, o olhar dominava a floresta que se estendia para o oeste até Family-lake, cuja superfície era oculta por uma vasta cortina de verdura. Ao sul, o território parecia sulcado de dunas amareladas, entrecortadas por alguns pinheiros negros, como nas áridas campinas dos países setentrionais. Ao norte, o contorno da baía terminava por uma ponta baixa, que formava o limite de uma vasta planície arenosa, situada para além da baía. Enfim, a ilha Chairman não era verdadeiramente fértil senão na parte central, onde a água doce do lago lhe derramava a vida, espalhando-se pelos diversos rios das suas duas margens.
Briant dirigiu então o óculo para o horizonte de leste, que se desenhava, naquele momento, com grande nitidez. Todo o território situado num raio de sete a oito milhas aparecia com certeza através da objetiva do instrumento.
Nada!... Nada, além do vasto mar, circunscrito pela linha contínua do céu!
Durante uma hora, Briant, Jaime e Moko não cessaram de observar atentamente, e iam descer para a praia quando Moko deteve Briant.
— Que é aquilo lá adiante!... — perguntou ele, estendendo a mão para nordeste.
Briant assestou o óculo sobre o ponto indicado.
Efetivamente, ali, um pouco acima do horizonte, brilhava uma mancha esbranquiçada que o olhar podia confundir com uma nuvem se o céu não estivesse completamente puro naquele momento. Além disso, depois de a ter observado com o óculo durante muito tempo Briant pôde afirmar que aquela mancha não mudava de lugar e que a sua forma não se alterava de modo algum.
— Não sei o que possa ser — disse ele. — Talvez uma montanha! Mas, ainda assim, uma montanha não tem semelhante aparência!
Alguns momentos depois, como o Sol declinava cada vez mais para o oeste, a mancha tinha desaparecido. Existiria algum território elevado, ou aquele colorido esbranquiçado seria apenas uma reflexão luminosa da água? Foi esta última hipótese que Jaime e Moko admitiram, posto que Briant entendesse dever conservar algumas dúvidas a este respeito.
Terminada a exploração, todos três voltaram para o pequeno porto, na embocadura do East-river, ao fundo do qual a canoa estava atracada. Jaime foi apanhar ramos secos debaixo das árvores; em seguida acendeu uma fogueira, enquanto Moko preparava o seu assado de tinamus.
Pelas sete horas, depois de terem comido com apetite, Jaime e Briant foram passear para a praia, esperando a ora da maré para embarcar.
Moko, pelo seu lado, subiu a margem esquerda do rio, onde havia muitos pinheiros pinhões, dos quais queria apanhar alguns frutos.
Quando voltou para a embocadura do East-river, começava a anoitecer. Ao longe, se o mar estava ainda iluminado pelos últimos raios solares que deslizavam pela superfície da ilha, o litoral já estava mergulhado numa escuridão quase completa.
No momento em que Moko chegou junto da canoa, Briant e o seu irmão ainda não tinham regressado. Não podiam estar longe, não havia motivo para inquietações.
Mas, de repente, Moko ficou muito surpreendido ao ouvir gemidos e exclamações. Não se enganava: era a voz de Briant.
Os dois irmãos correriam algum perigo? O grumete não hesitou em lançar-se para a praia, depois de ter passado as rochas que fechavam o porto.
Mas, de súbito, o que viu impediu-o de avançar mais.
Jaime estava agarrado aos joelhos de Briant!... Parecia Implorá-lo, pedir-lhe misericórdia!... Eram esses os gemidos que tinham chegado aos ouvidos de Moko.
O grumete queria retirar-se por discrição... Era tarde! Ouvira e compreendera tudo! Sabia agora qual era a falta que Jaime cometera, e da qual acabava de se acusar a seu Irmão! E este exclamava:
— Desgraçado!... O quê, foste tu... tu que fizeste isso!... Tu és então a causa...
— Perdoa-me... meu irmão... Perdoa-me!
— Aí está porque te afastavas dos teus camaradas!... Porque tinhas medo deles!... Ah!... É preciso que eles nunca o saibam... Não!... Nem uma palavra!... Nem uma palavra a ninguém!
Moko teria dado alguma coisa para não saber este segredo. Mas, agora, fingir ignorá-lo para com Briant custar-lhe-ia muito. Assim, alguns instantes depois, quando o achou só junto da canoa:
— Sr. Briant — disse ele —, ouvi...
— O quê? Sabes que Jaime?...
— Sei, Sr. Briant... E é preciso perdoar-lhe...
— Os outros perdoar-lhe-iam?...
— Talvez! — admitiu Moko. — Em todo o caso, melhor é que não saibam nada, e tenha a certeza de que me calarei!
— Ah! meu bom Moko! — murmurou Briant, apertando a mão do grumete.
Durante duas horas, até ao momento de embarcar, Briant não dirigiu a palavra a Jaime. Este conservou-se sentado ao pé de uma rocha, mais abatido depois de, cedendo às instâncias de seu irmão, ter confessado tudo.
Pelas dez horas, começando a maré a encher, Briant, Jaime e Moko tomaram lugar na canoa. Logo que a desamarraram, a corrente arrastou-a rapidamente. A Lua, que aparecera em seguida ao pôr do Sol, iluminava suficientemente o curso do East-river, para se poder navegar até à meia-noite e meia hora. A vazante, que começou então, obrigou a pegar nos remos e, durante uma hora, a canoa não subiu mais de uma milha.
Briant propôs então que se ancorasse até romper o dia, a fim de esperar a maré — o que se fez. Às seis horas da manhã continuou-se a travessia, e eram nove horas quando a canoa entrou nas águas de Family-lake.
Aí, Moko tornou a içar a vela, e, com uma leve brisa que lhe dava de través, meteu a proa em direção a French-den.
Perto das seis horas da tarde, depois de uma travessia feliz, durante a qual nem Briant nem Jaime tinham saído do seu mutismo, a canoa foi avistada por Garnett, que pescava nas bordas do lago. Alguns instantes mais tarde atracava ao dique e Gordon acolhia alegremente o regresso dos seus camaradas.