Dois Anos de Férias
Capítulo XI
A princípio, Briant, Doniphan e Gordon ficaram imóveis com esta aparição tão inesperada. Depois, por um movimento instintivo, correram para o mestre como ao encontro de um salvador.
Era um homem de vinte e cinco a trinta anos, de ombros largos, tronco vigoroso, olhar vivo, fronte descoberta, fisionomia inteligente e simpática, andar firme e resoluto, rosto cercado por uma barba inculta, que não era aparada desde o naufrágio do Severn.
Apenas entrou, Evans voltou-se e foi encostar o ouvido à porta, que fechara rapidamente. Não ouvindo nada, avançou para o meio do hall. Aí, olhou, à luz da lanterna suspensa da abóbada, para aquela sociedade que o rodeava e murmurou estas palavras:
— Crianças!... Só crianças!...
De repente, o olhar do mestre animou-se, o rosto brilhou de alegria, os braços abriram-se...
Kate dirigia-se para ele.
— Kate!... — exclamou Evans. — Kate viva!
Pegou-lhe nas mãos, como para se certificar de que não eram de uma defunta.
— Sim! Viva como o senhor, Evans! — respondeu Kate. — Deus salvou-nos, e é Ele quem o envia para socorrer estas crianças!
O mestre contava com a vista os moços colonos, reunidos em torno da mesa do hall.
— Quinze — disse ele — e apenas cinco ou seis capazes de se defenderem!... Não importa!
— Estamos então em perigo de sermos atacados, mestre Evans? — perguntou Briant.
— Não, não, meu rapaz, pelo menos agora! — respondeu Evans.
Compreende-se que todos tivessem pressa de saber a história do mestre, e principalmente o que se passara desde que a chalupa fora arremessada aos Severn-shores. Nem os mais velhos nem os pequenos poderiam adormecer ; antes de ouvirem aquela narração, tão importante para todos eles.
Mas, primeiro, era preciso que Evans despisse aquele fato encharcado e comesse alguma coisa. Vinha a escorrer, porque atravessara o rio Zealand a nado. E vinha exausto de fadiga e de fome, porque não comia desde as onze horas, e desde pela manhã ainda não pudera descansar um momento.
Briant fê-lo entrar logo em Store-room, onde Gordon pôs boa roupa de marinheiro à sua disposição. Em seguida, Moko deu-lhe carne fria, algumas xícaras de chá a ferver e um copo de brandy.
Um quarto de hora depois, Evans, sentado à mesa do hall, narrava os factos sucedidos desde que os marinheiros do Severn tinham ido parar à ilha.
— Alguns momentos antes de a chalupa se avizinhar da praia, — disse — eu e mais cinco tripulantes tínhamos sido arremessados às primeiras rochas dos recifes. Nenhum de nós ficara muito magoado no encalhe. Algumas contusões, apenas, mas feridas não havia nenhuma. O que não deixou de ser difícil foi livrarmo-nos da ressaca, no meio da escuridão e com um mar furioso, que descia contra o vento do largo.
«Contudo, depois de muitos esforços, Walston, Brandt, Rock, Cook, Cope e eu conseguimos chegar sãos e salvos, fora do alcance das ondas. Faltavam dois: Forbes e Pike.
Teriam sido levados por alguma onda, ou ter-se-iam salvo quando a chalupa alcançou a praia? Não sabíamos. A respeito de Kate, julgava que tinha sido arrastada pelas ondas, e não pensava que havia de tornar a vê-la.
Dizendo isto, Evans não procurava ocultar a comoção nem a alegria que lhe causava o encontro da corajosa mulher, salva, como ele, dos assassinos do Severn! Depois de terem estado à mercê daqueles bandidos, encontravam-se agora ambos, por enquanto, fora do seu poder, se não estavam livres dos seus ataques para o futuro.
Evans continuou:
— Quando chegámos à praia foi-nos preciso algum tempo para acharmos a chalupa. Devia ter atracado pelas sete horas da tarde, e era perto da meia-noite quando a avistámos deitada na areia. Primeiro tínhamos descido ao longo da costa de...
— Severn-shores — disse Briant. — É o nome que lhe deram alguns dos meus camaradas, que descobriram a embarcação do Severn mesmo antes de Kate nos narrar o naufrágio...
— Antes?... — respondeu Evans, surpreendido.
— Sim, mestre Evans — confirmou Doniphan. — Chegámos àquele lugar na própria noite do naufrágio quando os seus dois companheiros estavam ainda estendidos na areia!... Mas, ao romper do dia, quando íamos prestar-lhes os últimos deveres, tinham desaparecido.
— Sim — replicou Evans —, vejo como tudo isso se liga! Forbes e Pike, que julgávamos mortos, e prouvera a Deus que o estivessem, eram dois tratantes de menos!, tinham caído a alguns passos da chalupa. Foi aí que Walston e os outros os encontraram, reanimando-os com alguns goles de gin.
«Felizmente para eles, e infelizmente para nós, os cofres da embarcação não se tinham quebrado, nem lhes entrara água dentro. As munições, as armas, cinco espingardas de bordo, e o resto das provisões, embarcados precipitadamente durante o incêndio do Severn, tudo isto foi tirado da chalupa, porque era de temer que a maré próxima a demolisse. Em seguida, abandonámos o lugar do naufrágio, seguindo a costa na direção do leste.
«Nesse momento, um dos bandidos, Rock, creio eu, observou que Kate não tinha aparecido. Ao que Walston respondeu: Foi levada por uma onda!... Estamos livres dela! Pensei então que, se eles se alegravam por se verem livres de Kate, que já não lhes servia de nada, aconteceria o mesmo com o mestre Evans, quando já não precisassem dele. Mas onde estava, Kate?
— Estava perto da chalupa, do lado do mar — respondeu Kate —, no lugar onde tinha caído depois do encalhe... Não podiam ver-me, e eu ouvi tudo o que se passara entre Walston e os outros... Depois de todos partirem, Evans. ergui-me e, para não tornar a cair nas mãos de Walston, fugi, dirigindo-me para o lado oposto. Trinta e seis horas depois, quase morta de fome, fui recolhida por estas crianças e conduzida a French-den.
— French-den?... — repetiu Evans.
— É o nome que tem a nossa casa — explicou Gordon — em memória de um náufrago francês que a habitara muitos anos antes de nós!
— French-den?... Severn-shores?... — disse Evans. — Vejo que têm posto nomes às diversas partes da ilha!
— Sim, mestre Evans, nomes muito bonitos — tornou Service —, e ainda há mais: Family-lake, Down-lands, South-moors, rio Zealand, Traps-woods...
— Bem!... Bem!... Depois me dirão isso tudo... amanhã!... Agora vou continuar a minha história. Lá fora não se ouve nada?...
— Nada — disse Moko, que estava de guarda à porta do hall.
— Bem! — declarou Evans — continuo:
«Uma hora depois de abandonarmos a chalupa chegámos junto de um maciço de árvores, onde acampámos.
No dia seguinte, e durante alguns dias, voltámos ao lugar onde a embarcação tinha encalhado e tentámos consertá-la, mas, não havendo outras ferramentas além de um machado, foi impossível substituir as cintas do costado despedaçadas ou pô-las em estado de aguentar o mar, mesmo para uma travessia pequena. Além disso, o lugar era muito incómodo para um trabalho deste género.
«Partimos, pois, a fim de procurarmos outro acampamento numa região menos árida, onde a caça pudesse dar-nos o alimento diário, e, ao mesmo tempo, próximo de um rio onde achássemos água doce, porque a nossa provisão estava inteiramente esgotada.
«Depois de seguirmos a costa durante umas doze milhas chegámos a um rio pequeno...
— O East-river! — disse Service.
— Pois seja o East-river! — admitiu Evans. — Aí, no fundo de uma vasta baía...
— Deception-bay! — informou Jenkins.
— Vá lá, Deception-bay — disse Evans, sorrindo. — No meio das rochas havia um porto...
— Bear-rock! — exclamou, por sua vez, Costar.
— Pois seja Bear-rock, meu petiz! — volveu Evans, aprovando com um sinal de cabeça. — Não havia nada mais fácil do que instalarmo-nos nesse lugar, e, se pudéssemos levar para lá a chalupa, que a primeira tempestade acabaria de demolir no sítio onde ela estava, talvez fosse possível calafetá-la.
«Fomos, portanto, buscá-la, e depois de a alijarmos tanto quanto possível foi deitada à água. Em seguida, apesar de ter água até à amurada, conseguimos alá-la ao longo da margem e conduzi-la ao porto, onde está agora em segurança.
— A chalupa está em Bear-rock?... — perguntou Briant.
— Está sim, meu rapaz, e parece-me que não seria impossível consertá-la se por acaso houvesse as ferramentas necessárias...
— Mas nós temos essas ferramentas, mestre Evans! — declarou, vivamente Doniphan.
— Foi isso que Walston supôs, quando o acaso lhe fez saber que a ilha era habitada e por quem era!
— Como puderam eles saber?... — perguntou Gordon.
— Deste modo — respondeu Evans. — Há oito dias, Walston, os seus companheiros e eu, pois nunca me deixaram só, tínhamos ido fazer uma expedição através da floresta. Depois de três ou quatro horas de marcha, subindo o curso do East-river, chegámos às margens de um grande lago, do qual saía aquele curso de água. E calculem a nossa admiração ao vermos aí um aparelho singular, caído na margem... Era ele uma espécie de armação de canas, forrada de panos de velas...
— O nosso papagaio! — Exclamou Doniphan.
— O nosso papagaio que tinha caído no lago — acrescentou Briant —, e que o vento empurrou até ali!
— Oh! era um papagaio? — perguntou Evans. — Pois não fomos capazes de o perceber, e tal máquina intrigava-nos muito! Em todo o caso, fosse o que fosse, alguém a havia feito!... Tinha sido fabricada na ilha!... Não havia que duvidar a esse respeito!... Portanto, a ilha era habitada!... Por quem?... Era o que Walston queria saber. Eu, desde esse dia, resolvi fugir. Quaisquer que fossem os habitantes desta ilha, ainda que fossem selvagens, não podiam ser piores do que os assassinos do Severn! Mas, desde essa ocasião, fui guardado à vista, de dia e de noite!...
— E como descobriram French-den? — perguntou Baxter.
— Já lá vamos — respondeu Evans. — Mas, antes de prosseguir a minha narração, digam-me, meus rapazes, para que lhes serviu aquele enorme papagaio? Porventura era um sinal?
Gordon contou a Evans o que se tinha feito, e com que fim, como Briant arriscara a vida para a salvação de todos, e de que maneira se pudera certificar de que Walston estava ainda na ilha.
— É um valente, meu amigo! — afirmou Evans, pegando na mão de Briant e apertando-a com grande entusiasmo.
Em seguida continuou:
— Compreendem que Walston, desde então, não pensou senão em saber quem eram os habitantes desta Ilha, para nós desconhecida. Se fossem indígenas, talvez pudesse entender-se com eles. Se fossem náufragos, talvez possuíssem as ferramentas que lhe faltavam. Neste caso, não lhe recusariam auxílio para consertar a chalupa, de maneira a poder deitá-la à água.
«Começaram, pois, as pesquisas, com muita prudência, devo confessá-lo. Avançámos a pouco e pouco, explorando as florestas da margem direita do lago, para nos aproximarmos da extremidade do sul. Mas não avistámos um único ser humano, nem se ouviu detonação alguma nesta parte da ilha.
— Isso era porque nenhum de nós se afastava de French-den — disse Briant — e porque era proibido disparar um único tiro!
— Apesar disso, foram descobertos! — replicou Evans. — E como não havia de ser assim? Foi na noite de 23 para 24 de novembro que um dos companheiros de Walston chegou a avistar French-den da margem meridional do lago. A má sorte quis que, num certo momento, esse homem distinguisse um clarão que passava pelas paredes das rochas, decerto o clarão da lanterna que a porta, entreaberta durante um momento, tinha deixado passar. No dia seguinte, o próprio Walston dirigiu-se para este lado, e durante uma parte da noite esteve escondido entre as ervas, a alguns passos do rio...
— Já o sabíamos — disse Briant.
— Sabiam-no, como?
— Gordon e eu achámos nesse lugar os fragmentos de um cachimbo que Kate afirmou ser de Walston!
— É verdade! — confirmou Evans. — Walston perdera-o durante a excursão, o que, no regresso, pareceu contrariá-lo em extremo... Mas então já ele conhecia a pequena colónia. Enquanto esteve escondido nas ervas viu-os quase todos andarem pelas margens do rio... Eram rapazes muito novos, crianças, que não podiam resistir a sete homens! Walston foi dar parte do que tinha visto aos seus companheiros. Uma conversa que surpreendi entre Brandt e ele deu-me a conhecer o que se preparava contra French-den...
— Monstros! — exclamou Kate. — Não teriam compaixão destas crianças?
— Não, Kate — respondeu Evans —, assim como não a tiveram do capitão e dos passageiros do Severn! Monstros!... Diz bem, e monstros comandados pelo mais cruel deles, aquele Walston, que não há de escapar ao castigo dos seus crimes, estou certo!
— Enfim, Evans, conseguiu fugir, graças a Deus! — concluiu Kate.
— Sim, Kate. Haverá doze horas, pouco mais ou menos, aproveitei uma ausência de Walston e dos outros, que me tinham deixado guardado por Forbes e Rock. A ocasião pareceu-me boa para me safar.
«Quanto a fazer perder a pista àqueles dois celerados, ou, pelo menos, afastá-los, se conseguisse tomar-lhes alguma dianteira, isso era comigo!
«Eram pouco mais ou menos dez horas da manhã quando me precipitei através da floresta. Quase em seguida, Forbes e Rock deram por isso e correram atrás de mim. Iam armados com espingardas... Eu não tinha senão a minha faca de marinheiro para me defender e as pernas para correr como um contrabandista!
«A perseguição durou todo o dia. Cortando obliquamente, no bosque, cheguei à margem esquerda do lago. Era preciso rodear a extremidade, porque, segundo a conversa que ouvira, sabia que os moços colonos estavam estabelecidos nas margens de um rio que corria para oeste.
«Realmente, nunca tinha corrido tão bem em toda a minha vida, nem durante tanto tempo! — perto de quinze milhas percorridas naquele dia! Com mil diabos! Os marotos corriam tão depressa como eu e as suas balas voavam mais depressa ainda. Assobiaram-me aos ouvidos diversas vezes. Imaginem! Eu sabia o segredo deles! Se fugisse, podia denunciá-los! Era preciso agarrarem-me de qualquer modo! Dou-lhes a minha palavra que, se eles não tivessem armas de fogo, tê-los-ia esperado a pé firme, com a minha faca na mão! Matava-os ou era morto por eles!... Sim, Kate! Preferia morrer a voltar ao acampamento com aqueles bandidos!
«Contudo, esperava que aquela perseguição acabasse quando fosse noite!... Não foi assim. Já tinha passado a extremidade do lago, e subia pelo outro lado, mas sentia ainda Forbes e Rock correndo atrás de mim. A tempestade, que se anunciava havia algumas horas, rebentou.
Ainda me foi mais difícil fugir, porque aqueles velhacos podiam distinguir-me à luz dos relâmpagos entre os caniços da praia. Finalmente, já estava a uns cem passos do rio... Se conseguisse pô-lo entre mim e aqueles tratantes estava salvo! Eles não se atreveriam a transpô-lo, sabendo perfeitamente que estavam nas vizinhanças de French-den.
«Continuei a correr, e ia chegar à margem esquerda do rio quando um último relâmpago iluminou o espaço.
«Ouvi então uma detonação...
— A que nós ouvimos, também?... — interrogou Doniphan.
— Com certeza! — replicou Evans. — Roçou-me uma bala pelo ombro... Saltei e precipitei-me no rio... Em algumas braçadas alcancei a outra margem e escondi-me entre as ervas, enquanto Rock e Forbes, que chegavam à margem oposta, diziam:
«— Tens a certeza de que acertaste?
«— Tenho, sim!
«— Então, está no fundo?
«— Decerto, e a estas horas morto e bem morto!
«— Que fortuna!
«E voltaram para trás. Sim! Que fortuna... para mim e para Kate! Ah! Tratantes! verão se estou morto!... Alguns instantes depois saí das ervas e dirigi-me para o ângulo da penedia... Ouvi ladrar. Chamei... A porta de French-den abriu-se... E agora — concluiu Evans, estendendo a mão na direção do lago — é preciso acabarmos com aqueles miseráveis, livrar deles esta ilha.
E pronunciou estas palavras com tal energia que todos se ergueram, prontamente, para lhe obedecerem.
Contaram então a Evans o que se tinha passado naqueles vinte meses, explicaram-lhe em que condições o Sloughi deixara a Nova Zelândia, a sua travessia do Pacífico até à ilha, a descoberta dos restos do náufrago francês, a instalação da colónia em French-den, as excursões durante a estação quente, os trabalhos durante o inverno, e como a vida estivera relativamente calma e isenta de perigos antes da chegada de Walston e dos seus cúmplices.
— E nesses vinte meses não passou por aqui nenhuma embarcação? — perguntou Evans.
— Não; pelo menos, não a avistámos — respondeu Briant.
— Não tinham sinais?
— Tínhamos um mastro erguido na parte mais alta da penedia.
— E não foi visto?...
— Não, mestre Evans — respondeu Doniphan. — Mas é verdade que o tirámos de lá há seis semanas, a fim de não atrair a atenção de Walston.
— E fizeram bem, meus rapazes! É verdade que aquele patife já sabe muito mais do que era preciso! Devemos estar prevenidos de dia e de noite.
— Que infelicidade — observou Gordon, — tratar com semelhantes miseráveis em lugar de pessoas honradas, que auxiliaríamos de tão boa vontade! A nossa pequena colónia não perdia nada com isso, pelo contrário! Assim, daqui para o futuro espera-nos uma luta para defendermos a vida, um combate, cujo resultado só Deus sabe qual será!
— Deus, que os tem protegido até agora, meus filhos — interveio Kate —, não os abandonará! Enviou-lhes este corajoso e honrado Evans, e com ele...
— Evans!... Viva Evans!... — exclamaram os moços colonos ao mesmo tempo.
— Contem comigo, meus rapazes — declarou o mestre —, e prometo-lhes que todos juntos havemos de nos defender bem!
— E contudo — objetou Gordon —, se fosse possível evitar esta luta, se Walston consentisse em deixar a ilha?...
— Que queres dizer, Gordon?... — Perguntou Briant.
— Quero dizer que os seus companheiros e ele já tinham partido se pudessem servir-se da chalupa! Não é verdade, mestre Evans?
— Com certeza.
— Pois bem! Se entrássemos em negociações com eles, se lhes fornecêssemos as ferramentas de que precisam, talvez eles aceitassem?... Bem sei que deve ser repugnante travar relações com os assassinos do Severn. Mas, para nos livrarmos deles, para impedir um ataque que deve custar muito sangue, talvez!... Enfim que diz a isto o mestre Evans?
Evans ouvira Gordon com atenção. A proposta do americano indicava um espírito prático, que não fazia alguma coisa sem refletir, e um caráter disposto a encarar todas as situações com serenidade.
Pensou — e não se enganava — que devia ser o mais ponderado, e a sua observação pareceu-lhe digna de ser discutida.
— Efetivamente Sr. Gordon — respondeu ele —, todos os meios seriam bons para nos livrarmos da presença daqueles malfeitores. Se eles consentissem em partir, depois de terem consertado a chalupa, era muito melhor do que travar uma luta cujo resultado pode ser duvidoso. Mas fiarmo-nos em Walston é impossível! Não será ele capaz de aproveitar as relações connosco para surpreender French-den, e se apoderar de tudo o que lhes pertence? Não pode imaginar que salvaram algum dinheiro do naufrágio? Acreditem-me, aqueles malvados só procurarão fazer-lhes mal em troca dos seus serviços! Naquelas almas não há lugar para a gratidão! Entrar em negociações com eles é entregarem-se...
— Não!... Não!... — exclamaram Baxter e Doniphan que os seus camaradas acompanharam com uma energia que agradou ao mestre.
— Não!... — acrescentou Briant. — Não queremos negócios com Walston e com o seu bando!
— E depois — prosseguiu Evans —, eles, além de ferramentas, precisam também de munições! É certo que têm ainda bastantes para tentarem um ataque!... Mas quando se tratar de percorrer outras paragens à mão armada a pólvora e o chumbo que lhes restam não serão suficientes!... hão de pedir e talvez exigir o que lhes falta... Estão dispostos a dar-lho?
— Não decerto! — respondeu Gordon.
— E eles farão a diligência para o obterem à força! Não se evitará o combate, e este dar-se-á em piores condições para nós!...
— Tem razão, mestre Evans! — concordou Gordon. — O melhor é estarmos prevenidos e esperarmos!
— Sim, é o melhor partido!... Esperemos, Sr. Gordon. Além disso, há uma razão, mais forte do que qualquer outra, que nos obriga a esperar.
— Que razão é?
— É a seguinte: Walston, como sabem, não pode deixar a ilha senão na chalupa do Severn.
— Com certeza! — aprovou Briant.
— Ora, essa chalupa pode perfeitamente ser consertada e se Walston renunciou a pô-la em estado de navegar foi por não ter ferramentas...
— A não ser isso — disse Baxter —, já estaria muito longe daqui.
— É verdade, meu rapaz. Portanto, se proporcionarem a Walston os meios de reparar a embarcação, admitindo que ele abandone a ideia de saquear French-den, partirá imediatamente, sem querer mais importar-se com os que ficam.
— Prouvera a Deus que ele já o tivesse feito! — exclamou Service.
— Com mil diabos! Se ele já o tivesse feito — exclamou Evans — como Poderíamos nós fazê-lo, visto que a chalupa do Severn ia com eles?
— O quê, mestre Evans — perguntou Gordon —, conta com aquela embarcação para deixar a ilha?...
— Conto, sim, Sr. Gordon.
— Para voltar à Nova Zelândia, para atravessar o Pacífico? — acrescentou Doniphan.
— O Pacífico?... Não, meus rapazes — respondeu —, para chegarmos a uma estação pouco distante, onde esperaremos a ocasião de regressar a Auckland.
— Pois é possível? Está falando a sério, Sr. Evans? — exclamou Briant.
E, ao mesmo tempo, dois ou três dos seus camaradas começaram a fazer perguntas ao mestre.
— Como pode essa chalupa aguentar uma travessia de muitas centenas de milhas? — observou Baxter.
— Centenas de milhas? — volveu Evans. — Não! Umas trinta, apenas!
— Então não é o mar que se estende em torno da ilha? — perguntou Doniphan.
— A oeste, é! — esclareceu Evans. — Mas ao sul, norte e a leste são apenas canais, que se podem atravessar facilmente em sessenta horas!
— Assim, não nos enganávamos pensando que existiam terras apouca distância daqui?
— Decerto que não, e são até muito vastas as que se prolongam a leste.
— Sim!... a leste!— exclamou Briant. — Aquela mancha esbranquiçada, e depois o clarão que avistei nesta direção...
— Uma mancha esbranquiçada? — replicou Evans. — Deve ser alguma geleira, e o clarão é a chama de um vulcão que deve estar marcado nos mapas. E, a propósito, onde julgam os senhores estar?
— Numa das ilhas isoladas do oceano Pacífico! — respondeu Gordon.
— Uma ilha... sim!,... Isolada é que não! Pertence a um dos numerosos arquipélagos que cobrem a costa da América do Sul!
— E já sei que deram nome aos cabos, às baías e aos rios da sua ilha, mas ainda não me disseram como denominam esta?
— A ilha Chairman, o nome do nosso colégio — explicou Doniphan.
— A ilha Chairman!... — repetiu Evans. — Pois bem, nesse caso tem dois nomes, porque ela chama-se a ilha Hanovre!
Depois disto, tendo-se procedido às medidas de vigilância habituais, foram todos descansar, depois de arranjarem uma cama no hall para o mestre. Os moços colonos estavam sob a influência de uma impressão dupla, que devia perturbar-lhes o sono: por um lado, a perspetiva de uma luta sanguinolenta, e, por outro, a possibilidade de regressarem à pátria.
Evans adiara para o dia seguinte o fim das suas explicações, o qual consistia em indicar no atlas qual era a posição exata da ilha Hanovre, e, enquanto Moko e Gordon velavam, a noite passou-se tranquilamente em French-den.