Dois Anos de Férias

Júlio Verne · Capítulo 14 de 32

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Dois Anos de Férias

Capítulo XII

 

Durante as últimas excursões, os pequenos caçadores tinham examinado, várias vezes, a penedia, com a esperança de acharem outra escavação. Se a descobrissem, transformá-la-iam em armazém geral e meter-lhe-iam dentro o resto do material que tinha ficado fora. Ora, como as pesquisas tinham sido inúteis, voltou-se novamente ao projeto de aumentar a morada atual, abrindo um ou mais quartos contíguos à caverna de Francisco Baudoin.

No granito, este trabalho seria impraticável; mas naquele calcário, que a picareta ou a enxada encetariam facilmente, não devia sê-lo. O tempo que duraria pouco importava. Teriam com que se entreter nos compridos dias de inverno, e podiam concluí-lo antes de voltar o bom tempo, se não houvesse desmoronamento nem infiltração — o que era para recear.

Além disso, não era necessário empregar a mina. As ferramentas deviam servir, porque tinham sido suficientes quando se tratara de furar a parede para deixar passar o tubo do fogão. Baxter já conseguira, não sem custo, alargar a abertura de French-den, de maneira a poder adaptar-lhe, com as suas ferragens, uma das portas do Sloughi. Além disso, à direita e à esquerda da entrada, tinham-se aberto na parede duas janelas estreitas, ou, antes, duas espécies de seteiras — o que permitia que a luz e o ar circulassem mais livremente no interior.

O mau tempo fizera a sua aparição havia uma semana. Desencadeavam-se tempestades violentas sobre a ilha; mas, graças à sua orientação ao sul e ao leste, French-den não era atacada diretamente. As bátegas de chuva e de neve passavam estrondosamente, rente ao cume da penedia. Os caçadores já não perseguiam a caça senão nas proximidades do lago: patos bravos, narcejas, pavões, francolins, galinholas e alguns desses bicos-em-bainha, mais conhecidos pelo nome de pombos brancos nas paragens do Sul do Pacífico. Se o lago e o rio não estavam ainda gelados, bastava uma noite para gelarem com os primeiros frios secos que deviam suceder às tempestades.

Encarcerados a maior parte das vezes, os moços náufragos podiam empreender o trabalho de alargamento, e meteram mãos à obra no dia 27 de maio.

A parede da direita foi a primeira a ser atacada.

— Cavando em direção oblíqua — observara Briant —, talvez se vá desembocar do lado do lago e se arranje assim outra entrada para French-den. Isso permitiria que vigiássemos melhor as proximidades, e, se o mau tempo nos impedisse de sair por um lado, podíamos sair pelo outro.

Era, como se vê, uma disposição muito vantajosa para as necessidades da vida comum, e não parecia impossível que tivesse bom resultado.

Efetivamente, no interior, quarenta ou cinquenta pés, quando muito, separavam a caverna da contracosta oriental. Era bastante, pois, abrir uma galeria nesta direção, depois de a ter marcado com a bússola. Durante este trabalho devia haver cuidado, sobretudo em não provocar algum desmoronamento. Além disso, antes de dar à nova escavação a altura que devia ter mais tarde, Baxter propôs que se abrisse uma passagem estreita, que se faria mais larga quando a sua profundidade parecesse suficiente. Os dois quartos de French-den seriam então reunidos por um corredor, que poderia fechar-se nas extremidades, e no qual se abriria lateralmente uma ou duas adegas escuras.

Este plano era, evidentemente, o melhor, e, entre outras vantagens, tinha a de se poder sondar prudentemente o maciço, e abandonar o trabalho a tempo, se se produzisse alguma infiltração repentina.

Durante três dias, de 27 a 30 de maio, o trabalho fez-se em condições muito favoráveis. Aquela massa calcária abria-se, por assim dizer, à faca. Por isso foi necessário consolidá-la com um forro de madeira interior — o que não deixou de ser muito difícil. Os desaterros eram transportados para fora imediatamente, para não estorvarem. Apesar de não se poderem empregar todos os braços nesta tarefa, por falta de espaço, nenhum deles estava sem fazer nada. Quando a chuva e a neve deixaram de cair, Gordon e os outros tratavam de desmanchar a jangada, a fim de que as peças da plataforma e do vigamento pudessem ser empregadas na nova instalação.

Também vigiavam os objetos amontoados no ângulo do contraforte, porque os oleados não os garantiam bem contra as rajadas.

O trabalho avançava a pouco e pouco, não sem grandes esforços, e a passagem tinha já um comprimento de quatro a cinco pés, quando sobreveio um incidente muito Inesperado na tarde do dia 30.

Briant, agachado ao fundo, como um mineiro que abre uma galeria de mina, julgou ouvir uma espécie de ruído surdo no interior do maciço.

Suspendeu o trabalho a fim de escutar mais atentamente... O ruído chegou-lhe, de novo, aos ouvidos.

Sair do corredor, ir ter com Gordon e com Baxter, que estavam na abertura, dar-lhes parte do incidente, foi tudo obra de alguns momentos.

— Ilusão! — respondeu Gordon. — Julgaste ouvir...

— Vai para o meu lugar, Gordon — recomendou então Briant —, encosta o ouvido à parede, e escuta!

Gordon introduziu-se na passagem estreita, e tornou a aparecer alguns instantes depois.

— Não te enganaste!... — disse ele. — Ouvi uma espécie de bramidos, ao longe!

Baxter foi também ouvir, e saiu, perguntando:

— Que será isto?

— Não posso imaginá-lo! — respondeu Gordon. — É necessário prevenir Doniphan e os outros...

— Os pequenos, não! — acrescentou Briant. — Podiam assustar-se!

Neste momento entravam todos para jantar, e os pequenos souberam o que se passava. Isto não deixou de lhes causar algum susto.

Doniphan, Wilcox, Webb e Garnett foram, sucessivamente, escutar ao corredor. Mas o ruído cessara, porque não ouviram nada, o que lhes fez crer que os outros se tinham enganado.

Em todo o caso, decidiu-se que o trabalho não fosse interrompido, e, depois do jantar, deitaram novamente mãos à obra.

Ora, durante parte da noite não se ouviu nenhum ruído, mas pelas nove horas distinguiram-se perfeitamente os mesmos bramidos através da parede.

Neste momento, Phann, que correra para a abertura, saiu de lá com o pelo eriçado, dando sinais incontestáveis de irritação e ladrando furiosamente, como se quisesse responder aos bramidos que vinham do interior do maciço.

E então, o que, nos pequenos, não passara de um susto e alguma admiração, tornou-se em verdadeiro terror. A imaginação das crianças inglesas é constantemente alimentada com lendas comuns aos países do Norte, e nas quais os gnomos, os duendes, as valquírias, os silfos, as ondinas, os génios de toda a espécie vagueiam à roda dos berços. Por isso Dole e Costar, até Jenkins e Iverson, não puderam ocultar que estavam mortos de medo. Depois de tentar, em vão, sossegá-los, Briant obrigou-os a meterem-se na cama, onde acabaram por adormecer. Mas, ainda assim, sonharam com fantasmas, espectros, seres sobrenaturais que habitavam o interior da penedia — enfim, todas as angústias do pesadelo.

Gordon e os outros continuaram a conversar em voz baixa acerca daquele fenómeno extraordinário. Puderam verificar, por umas poucas de vezes, que não deixava de se produzir, e que Phann continuava a mostrar uma irritação realmente singular.

Afinal, sentindo-se fatigados, foram todos deitar-se, excetuando Briant e Moko. Depois, até amanhecer, reinou silêncio profundo em French-den.

No dia seguinte todos se levantaram cedo. Baxter e Doniphan foram, de rastos, até ao fundo da abertura... Não ouviram ruído algum. U cão andava de cá para lá sem mostrar inquietação e já não tentava lançar-se contra a parede como tinha feito na véspera.

— Continuemos o trabalho — disse Briant.

— Sim — respondeu Baxter. — Sempre é tempo de parar, se se ouvir algum ruído suspeito.

— Não seria possível — observou então Doniphan — que aquele barulho fosse o de alguma fonte que passasse em borbotões através do maciço?...

— Nesse caso, ouvi-la-íamos — observou Wilcox —, e já não se ouve nada!

— É justo — afirmou Gordon —, eu estou mais disposto a crer que o vento se introduz por alguma fenda no cume da penedia...

— Subamos ao planalto — propôs Service —, talvez lá se descubra...

A proposta foi aceite.

A uns cinquenta passos, descendo a praia, havia um atalho sinuoso, pelo qual se podia chegar à aresta superior do maciço. Baxter e dois ou três dos outros subiram esse atalho em alguns momentos e chegaram mesmo acima de French-den. Este trabalho foi inútil. Não acharam naquela superfície, revestida de uma erva curta e espessa, nenhuma fenda por onde se pudesse introduzir uma corrente de ar ou um fio de água.

Quando desceram não sabiam nada acerca daquele fenómeno estranho, que os mais pequenos explicavam ingenuamente pelo sobrenatural.

Entretanto, o trabalho de perfuração continuou-se até ao fim do dia. Não se ouviram os bramidos da véspera, posto que, segundo observou Baxter, a parede, cujo som tinha sido cheio até àquele dia, começasse a soar oco. Haveria, naquela direção, alguma cavidade natural onde a passagem fosse desembocar? E não seria nessa cavidade que se produzia o fenómeno? A hipótese de outra escavação não tinha nada de inadmissível, e era para desejar que assim fosse, porque poupava muito trabalho na obra de alargamento.

Todos empregaram um ardor extraordinário, e aquele dia foi um dos mais fatigantes que tinham suportado até então. Contudo, passou-se sem incidente algum notável, a não ser à noite, quando Gordon reparou que o cão tinha desaparecido.

Phann, à hora das refeições, ia sempre sentar-se ao pé do banco do dono, e naquela noite o seu lugar estava vazio.

Chamaram-no... Phann não respondeu.

Gordon foi à entrada da caverna. Tornou a chamar... Silêncio completo.

Doniphan e Wilcox correram, um para a margem do rio, e o outro para as proximidades do lago... Não havia vestígios do cão.

Procuraram, debalde, até algumas centenas de passos de French-den!... Não foi possível achar Phann.

Era evidente que o cão não podia ouvi-los, porque nesse caso teria respondido à voz de Gordon. Ter-se-ia perdido?... Era inadmissível. Teria caído em poder de algum carnívoro?... Isso podia ser, e era o que explicava melhor a sua desaparição.

Eram nove horas da noite. O lago e a penedia estavam envolvidos numa escuridão profunda. Tiveram de resolver-se a abandonar as pesquisas para voltarem a French-den.

Entraram todos muito inquietos — e não só inquietos, mas também tristes, lembrando-se de que o inteligente animal tinha desaparecido, talvez para sempre!

Uns foram estender-se em cima das camas, outros sentaram-se à roda da mesa, não pensando, sequer, em dormir. Parecia-lhes que estavam mais sós, mais abandonados, mais afastados ainda do seu país e das suas famílias!

De repente, no meio do silêncio, ouviram-se novos bramidos. Desta vez eram uivos, seguidos de gritos de dor, que se prolongaram durante perto de um minuto.

— É dali... É dali que vêm! — exclamou Briant, correndo para a abertura.

Todos se tinham levantado, como se esperassem alguma aparição. Os mais novos, cheios de terror, escondiam a cabeça debaixo das coberturas...

Quando Briant voltou:

— Por força que há ali — disse ele —, uma cavidade cuja entrada deve ser na parte inferior da penedia...

— E na qual é provável que se refugiem alguns animais durante a noite! — acrescentou Gordon.

— Deve ser isso — admitiu Doniphan. — Portanto, amanhã iremos ver...

Neste momento, ouviu-se um latido, que vinha, como os uivos, do interior do maciço.

— Phann estará ali — exclamou Wilcox —, lutando com algum animal?...

Briant, que tornara a entrar na abertura, escutava, com o ouvido encostado à parede do fundo... Não ouviu mais nada!... Mas, ou Phann estivesse ali ou não estivesse, era certo existir outra escavação, a qual devia comunicar com o exterior, provavelmente por algum buraco perdido no meio das brenhas enredadas na base da penedia.

Passou-se a noite sem que os bramidos e os uivos se tornassem a ouvir.

Ao romper do dia, as pesquisas feitas, tanto nas proximidades do rio como nas do lago, não deram mais resultado do que na véspera, no cume do maciço.

Phann, apesar de o terem procurado e chamado pelos arredores de French-den, não aparecera ainda.

Briant e Baxter voltaram de novo ao trabalho. A enxada e a picareta não tiveram descanso. Naquela manhã a abertura aumentou quase dois pés em profundidade. De quando em quando paravam, escutavam atentamente... Não ouviam nada.

O trabalho, interrompido pelo almoço do meio-dia, recomeçou uma hora depois. Tinham-se tomado todas as precauções para o caso de uma enxadada, ao abrir a parede, dar passagem a algum animal. Os pequenos tinham sido levados para o lado da praia. Doniphan, Wilcox e Webb, de espingardas e revólveres na mão, estavam prontos para qualquer eventualidade.

Perto das duas horas da tarde, Briant soltou uma exclamação. A picareta acabava de atravessar o calcário, que se desmoronara, deixando ver uma grande abertura.

Briant foi logo ter com os camaradas, que não sabiam o que haviam de pensar...

Mas, antes que ele tivesse tempo de abrir a boca, sentiu-se um roçar rápido nas paredes da abertura, e um animal arremessou-se, de um pulo, na caverna...

Sim, Phann, que se precipitou logo para um balde cheio de água, pondo-se a beber avidamente. Em seguida, agitando a cauda e sem mostrar nenhuma irritação, começou a saltar à roda de Gordon.

Era evidente que não havia nada a recear.

Briant pegou numa lanterna e introduziu-se na abertura. Gordon, Doniphan, Wilcox, Baxter e Moko seguiram-no. Um momento depois transpunham o orifício produzido pelo desmoronamento e achavam-se no meio de uma escavação sombria onde não penetrava um raio de luz do exterior.

Era outra caverna, tendo em altura e largura as mesmas dimensões que French-den, mas muito mais profunda e com o solo coberto de areia fina numa superfície de cinquenta jardas quadradas.

Como esta cavidade parecia não ter comunicação alguma com o exterior, temia-se que o ar fosse impróprio para a respiração. Mas se a lanterna ardia a toda a luz é porque o ar se introduzia ali por uma abertura qualquer. Não sendo assim, como podia Phann ter entrado nela?

De repente, Wilcox deu com o pé num corpo inerte e frio, o que percebeu apalpando-o com a mão.

Briant aproximou a lanterna.

— É o corpo de um chacal! — declarou Baxter.

— É!... Um chacal que o nosso valente Phann estrangulou! — respondeu Briant.

— Aqui está a explicação do que não podíamos compreender! — acrescentou Gordon.

Mas, se um ou muitos chacais tinham feito daquela caverna o seu covil habitual, por onde entravam eles? Era preciso absolutamente esclarecer este caso.

Por isso, depois de ter saído de French-den, Briant foi costear a penedia, do lado do lago. Ao mesmo tempo dava gritos, aos quais responderam, afinal, outros gritos do interior. Foi desta maneira que descobriu entre as brenhas e rente ao solo uma abertura estreita, por onde passavam os chacais. Mas, depois que Phann os seguira, houvera um desmoronamento parcial que fechara a abertura, como em breve se reconheceu.

Portanto, tudo se explicava: os bramidos dos chacais e os latidos do cão que, durante vinte e quatro horas, estivera impossibilitado de sair dali.

Que alegria para os náufragos! Além de recuperarem Phann, quanto trabalho poupavam com aquela descoberta! Tinham ali “já feita”, como disse Dole, uma vasta cavidade, de cuja existência o náufrago Baudoin nunca suspeitara. Alargando-se o orifício, obtinha-se outra porta aberta do lado do lago, o que facilitava muito o serviço interior. Assim, os seis rapazes, reunidos na segunda caverna, deram hurras, acompanhados pelo ladrar alegre de Phann.

Com que ardor se continuou o trabalho a fim de transformar a abertura num corredor praticável! A segunda escavação, à qual deram o nome de hall, justificava-o pelas suas dimensões. Enquanto não se dispunham as adegas laterais, o material foi transportado para este hall. Devia servir também de dormitório e de casa de trabalho, e a primeira caverna seria reservada para cozinha, despensa e refeitório. Mas, como da segunda se tencionava fazer também armazém geral, Gordon propôs que se chamasse Store-room, o que foi adotado.

Em primeiro lugar, tratou-se de transportar as camas, que foram dispostas simetricamente sobre a areia do hall, onde não havia falta de espaço. Em seguida, transportou-se a mobília do Sloughi, os divãs, as poltronas, as mesas, as estantes, etc., e — o que era importante — os fogões do quarto e o do salão do iate, que foram instalados de modo que pudessem aquecer a caverna. Ao mesmo tempo, arranjou-se a entrada do lado do lago, a fim de lhe adaptar uma das portas da escuna — trabalho que Baxter conseguiu fazer, não sem algum custo. Além disso tendo-se aberto duas janelas de cada lado da porta, entrava bastante luz no hall, que, à noite, era iluminado por uma lanterna suspensa da abóbada. Estes arranjos levaram uns quinze dias. Era tempo de estarem concluídos, porque, depois de um intervalo de sossego, o tempo tornara a modificar-se. O frio não era extremo, mas as rajadas tornaram-se tão violentas que era impossível sair de French-den.

Efetivamente, a força do vento era tal que, apesar do abrigo da penedia, agitava as águas do lago como se fosse um mar. As ondas batiam na praia com estrondo, e decerto que uma embarcação qualquer, chalupa de pesca ou piroga de selvagem, ter-se-ia perdido ali. A canoa fora puxada para terra, porque corria o risco de ser arrebatada. De vez em quando, as águas do rio, repelidas em sentido contrário à corrente, cobriam a praia e ameaçavam galgar até ao contraforte. Felizmente, nem Store-room nem o hall estavam expostos diretamente aos ataques da borrasca, porque o vento soprava de oeste. De modo que os fogões da sala e o da cozinha, alimentados com ramos secos, de que havia grande provisão, funcionaram convenientemente.

Era uma felicidade ter-se achado um abrigo seguro para tudo o que se salvara do Sloughi. As provisões já não tinham nada a recear da inclemência do tempo. Gordon e os seus camaradas, obrigados, pelo mau tempo, a estar encarcerados, tiveram ocasião de se instalar mais confortavelmente. Alargaram o corredor e cavaram dois subterrâneos profundos, um dos quais, fechado por uma porta, foi destinado para as munições, de maneira a evitar qualquer perigo de explosão. Finalmente, posto que os caçadores não pudessem aventurar-se pelos arredores de French-den, o alimento estava certo com as aves aquáticas, preparadas por Moko, que nem sempre conseguia tirar-lhes o sabor pantanoso — o que provocava protestos e caretas. É inútil dizer que se tinha reservado um lugar para o nandu num canto de Store-room, enquanto não se lhe construía um recinto fora da caverna.

Gordon teve então a ideia de redigir um programa, ao qual todos deviam submeter-se quando o tivessem aprovado. Depois da vida material, era necessário pensar na vida espiritual. Sabia-se, por acaso, o tempo que se devia estar na ilha? E, se viessem a deixá-la, que satisfação seria terem aproveitado bem o tempo! Com alguns livros fornecidos pela biblioteca da escuna, os mais velhos podiam aumentar a soma dos seus conhecimentos, dedicando-se, ao mesmo tempo, à instrução dos pequenos. Trabalho excelente, que devia entreter útil e agradavelmente as compridas horas do inverno! Contudo, antes de se redigir esse programa, tomou-se outra medida nas circunstâncias seguintes.

Na noite de 10 de Junho, depois da ceia, estando todos reunidos em torno dos fogões, lembraram-se alguns de dar nomes às principais disposições geográficas da ilha.

— É muito útil e muito prático — disse Briant.

— Sim, nomes... — exclamou Iverson — e que sejam bonitos!

— É o que os Robinsons reais ou imaginários têm feito sempre! — replicou Webb.

— E, realmente — disse Gordon —, nós não somos outra coisa...

— Um colégio de Robinsons! — exclamou Service.

— Além disso — tornou Gordon —, dando nome à baía, aos rios, às florestas, ao lago, à penedia, aos pântanos e aos promontórios, teremos mais facilidade em os reconhecer!

A proposta foi adotada, e tratava-se apenas de puxar pela imaginação para achar nomes convenientes.

— Já temos Sloughi-bay, onde o nosso iate veio encalhar — disse Doniphan —, e parece-me conveniente conservar-lhe este nome, ao qual já estamos acostumados!

— Decerto! — respondeu Cross.

— Do mesmo modo que conservaremos o nome de French-den à nossa morada — acrescentou Briant —, em memória do náufrago que viemos substituir!

Ninguém se opôs a isto, nem mesmo Doniphan, apesar de a observação ser feita por Briant.

— E agora — disse Wilcox — como se há de chamar o rio que banha Sloughi-bay?

— O rio Zealand — propôs Baxter. — Este nome faz-nos recordar o do nosso país!

— Adotado!... Adotado!... — exclamaram todos.

— E o lago?... — perguntou Garnett.

— Já que o rio tem o nome da nossa Zelândia — disse Doniphan —, dêmos ao lago um nome que nos recorde as nossas famílias: chamemos-lhe Family-lake (lago da Família)!

Foi admitido por aclamação.

Como se vê, todos estavam de acordo, e foi debaixo da influência dos mesmos sentimentos que se deu à penedia o nome de Auckland-hill (colina de Auckland). Quanto ao cabo que a terminava — esse cabo onde Briant subira e do alto do qual julgava ver um mar, a leste — propôs Briant que lhe chamassem False-Sea-point (cabo do Mar Falso).

Os outros nomes, que foram adotados sucessivamente, foram os seguintes:

Denominou-se Traps-woods (bosques das Armadilhas) a parte da floresta onde se tinham descoberto as covas — Bog-woods (bosque do Barranco), a outra parte, situada entre Sloughi-bay e a penedia-, South-moor (pântano do Sul), o pântano que cobria toda a parte meridional da ilha —, Dike-creek (regato da Calçada), o regato atravessado pela calçada de pedra —, Wreck-coast (costa da Tempestade), a costa da ilha onde o iate encalhou —, finalmente, Sport-terrace (terraço do Desporto), o lugar limitado pelas margens do rio e do lago, formando em frente do hall uma espécie de prado que seria destinado aos exercícios indicados no programa.

Pelo que dizia respeito aos outros pontos da ilha, nomear-se-iam à medida que fossem reconhecidos e segundo os incidentes de que fossem teatro.

Entretanto, pareceu conveniente dar ainda um nome aos promontórios principais marcados no mapa de Francisco Baudoin. Assim denominou-se North-cape o cabo que ficava ao norte da ilha, South-cape, o do sul. Finalmente, todos concordaram em dar aos três cabos que se projetavam a oeste sobre o Pacífico as denominações de French-cape, British-cape e American-cape, em honra das três nações, francesa, inglesa e americana, representadas na pequena colónia.

Colónia! Sim! Adotou-se esta palavra a fim de recordar a todos que a instalação já não tinha caráter provisório. E isto foi devido, principalmente, à iniciativa de Gordon, sempre mais preocupado com a ideia de organizar a vida naquele novo domínio do que com a de procurar sair dele. Aqueles rapazes já não eram os náufragos do Sloughi, eram os colonos da ilha...

Mas de que ilha? Era preciso batizá-la também.

— Olhem!... Eu bem sei que nome devíamos pôr-lhe!... — exclamou Costar.

— Sabes isso... tu? — volveu Doniphan.

— Está muito adiantado, o Costarzinho! — exclamou Garnett.

— Com certeza que vai chamar-lhe a ilha Bebé! — gracejou Service.

— Vamos! Não envergonhem Costar — interveio Briant —, e vejamos a sua ideia!

O pequeno, muito confuso, calava-se.

— Fala, Costar — tornou Briant, animando-o com o gesto. — Tenho a certeza de que a tua ideia é boa!...

— Pois então — disse Costar —, visto que somos alunos do Colégio Chairman, chamemos-lhe a ilha Chairman!

Efetivamente, a ideia não podia ser melhor. O nome foi logo adotado no meio dos aplausos gerais, que encheram Costar de orgulho.

A ilha Chairman! Realmente, este nome tinha um certo ar geográfico e podia figurar convenientemente nos atlas do futuro.

Terminada a cerimónia — com satisfação geral —, chegara o momento de descansar, quando Briant pediu a palavra.

— Camaradas — lembrou ele —, agora, já que demos um nome à nossa ilha, não seria conveniente escolher um chefe para a governar?

— Um chefe!?... — exclamou vivamente Doniphan.

— Sim, parece-me que tudo iria melhor — tornou Briant — se um de nós tivesse autoridade para governar os outros! O que se faz em todos os países não deve fazer-se também na ilha Chairman?

— Sim!... um chefe... Nomeemos um chefe! — exclamaram todos ao mesmo tempo.

— Nomeemos um chefe — admitiu então Doniphan —, mas com a condição de ser por um tempo determinado... Um ano, por exemplo!...

— E de poder ser reeleito — acrescentou Briant.

— De acordo!... Quem há de ser nomeado? — perguntou Doniphan, com ar ansioso.

O invejoso rapaz parecia não recear senão uma coisa: era que, a não ser ele, os seus camaradas escolhessem Briant. Foi logo desenganado a esse respeito.

— Quem?... — respondeu Briant. — O mais ajuizado de todos... o nosso camarada Gordon!

— Sim!... Sim!... Hurra por Gordon!

Ao princípio, Gordon queria recusar a honra que lhe concediam, gostando mais de organizar que de comandar. Contudo, lembrando-se de que as paixões, quase tão ardentes naqueles rapazes como se fossem homens, podiam causar grandes desarmonias no futuro, pensou que a sua autoridade não seria inútil!

E eis como Gordon foi proclamado chefe da pequena colónia da ilha Chairman.