Dois Anos de Férias
Capítulo XV
É inútil relatar minuciosamente esta viagem através dos canais do arquipélago magalânico. Não houve incidente algum importante. O tempo conservou-se sempre bom. Além disso, naqueles canais, de seis a sete milhas de largura, o mar não teria tempo de se erguer ao sopro de uma tempestade.
Todos esses canais estavam desertos, e, de mais a mais, era melhor não encontrarem os indígenas daquelas paragens, os quais nem sempre são de génio hospitaleiro. Durante a noite viam-se clarões de fogueiras no interior das Ilhas, mas não apareceu nenhum Indígena nas praias.
No dia 11 de fevereiro, a chalupa, que sempre tivera vento favorável, desembocava no estreito de Magalhães pelo canal de Smith, entre a costa oeste da ilha da Rainha Adelaide e as elevações da Terra do Rei Guilherme.
À direita erguia-se o pico Sant’Ana. À esquerda, no fundo da baía de Beau-fort, viam-se algumas dessas geleiras magníficas, a mais elevada das quais tinha sido avistada por Briant a leste da ilha Hanovre — à qual os moços colonos davam sempre o nome da ilha Chairman.
A bordo tudo ia bem, e parece que o ar, carregado de perfumes marinhos, era excelente para Doniphan, porque ele comia e sentia-se com força para desembarcar se se apresentasse ocasião de continuar com os seus camaradas a sua vida de Robinsons.
No dia 12, a chalupa chegou em frente da ilha Tamar, na Terra do Rei Guilherme, cujo porto ou, antes, a enseada, estava deserta naquele momento. Assim, sem parar, depois de ter dobrado o cabo Tamar, Evans tomou a direção do sudoeste através do estreito de Magalhães.
De um lado, a Terra da Desolação desenrolava as suas costas planas e áridas desprovidas da vegetação verdejante que revestia a ilha Chairman. Do outro, desenhavam-se os dentes da serra, caprichosamente recortados, da península Crooker. Era por aí que Evans tencionava procurar os canais do sul, a fim de dobrar o cabo Forward e subir a costa leste da península de Brunswick até ao estabelecimento de Punta Arena.
Não foi preciso ir tão longe.
Na manhã do dia 13, Service, que estava de pé na proa, exclamou:
— Fumo a estibordo!
— Fumo de alguma fogueira de pescadores? — perguntou Gordon.
— Não!... Parece-me que é fumo de vapor! — replicou Evans.
Efetivamente, naquela direção as terras estavam muito afastadas para se poder ver o fumo de um acampamento de pesca.
Briant subiu imediatamente aos aparelhos do mastro de traquete, chegou ao cimo e, alegremente, exclamou também:
— Navio!... Navio!...
A embarcação não tardou a aparecer. Era um paquete de oitocentas a novecentas toneladas, caminhando com uma velocidade de onze a doze milhas por hora.
Da chalupa partiram hurras e tiros de espingarda.
A chalupa fora avistada, e dez minutos depois chegava junto do paquete Grafton, que se dirigia para a Austrália.
O capitão do Grafton, Tom Long, foi posto ao facto das aventuras do Sloughi, Além disso, a perda da escuna tinha dado que falar, tanto em Inglaterra como na América. Tom Long recebeu logo a bordo os passageiros da chalupa: Ofereceu-se até para os conduzir diretamente á Auckland — o que o desviava um pouco do seu caminho, visto que o Grafton ia com destino a Melburne, capital da província de Adelaide, ao sul das terras australianas.
A travessia foi rápida, e o Grafton foi ancorar na enseada de Auckland, no dia 24 de fevereiro.
Tinham decorrido dois anos, mais dia menos dia, desde que os discípulos do Colégio Chairman tinham sido arrastados a mil e oitocentas léguas da Nova Zelândia.
Devemos renunciar a descrever a alegria daquelas famílias, vendo as crianças que todos julgavam tragadas pelo Pacífico. Não faltava nem um dos que a tempestade levara até às paragens da América do Sul.
A notícia de que o Grafton trazia os moços náufragos espalhou-se com rapidez por toda a cidade. A população correu a aclamá-los quando eles caíram nos braços das famílias.
Todos queriam saber minuciosamente o que se passara na ilha Chairman! A curiosidade foi, em breve, satisfeita. Primeiro, Doniphan fez algumas conferências a esse respeito — conferências que obtiveram verdadeiro sucesso, com que o rapaz ficou um pouco orgulhoso. Depois, o jornal de French-den, escrito por Baxter, foi impresso, e foram precisos milhares de exemplares para contentar os leitores da Nova Zelândia. Os jornais dos dois mundos reproduziram-no em todas as línguas, pois não havia ninguém que não se interessasse pela catástrofe do Sloughi. A prudência de Gordon, a dedicação de Briant, a coragem de Doniphan, a resignação de todos, pequenos e grandes, tudo foi igualmente admirado.
É inútil insistir na receção feita a Kate e ao mestre Evans. Não se tinham ambos consagrado à salvação daquelas crianças? Por isso fez-se uma subscrição pública para dar ao corajoso Evans um navio de comércio, o Chairman, do qual foi capitão e proprietário ao mesmo tempo, com a condição de ter o porto de partida em Auckland. E quando as viagens o traziam à Nova Zelândia era sempre recebido com a maior cordialidade pelas famílias dos rapazes.
Quanto à boa Kate, foi solicitada, disputada pelos Briant, pelos Garnett, pelos Wilcox e por muitos outros. Afinal fixou-se em casa de Doniphan, a quem salvara a vida com os seus cuidados.
E como conclusão moral, eis o que se deve deduzir desta narração que justifica, parece-nos, o seu título de Dois Anos de Férias.
Os alunos de um colégio nunca, decerto, estarão expostos a passarem as férias em tais condições.
Mas — é bom que as crianças o saibam — com ordem, zelo e coragem não há situações de que se não possa sair. E não esqueçam, sobretudo, quando pensarem nos moços náufragos do Sloughi, experimentados pela dura aprendizagem da existência, que, à volta, os pequenos eram quase grandes e os grandes quase homens.
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Júlio Verne