Economia Para Leigos

Sean Masaki Flynn e Peter Antonioni · Capítulo 2 de 3 · parte 8/18

Páginas do PDF

Economia Para Leigos

Capítulo 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 18 partes.

economia cai de Y* para YBaixo

✓ Como a produção cai, o desemprego aumenta, porque as empresas

não necessitam mais de muitos trabalhadores.

Como você pode ver, o resultado global do choque de demanda é a recessão: um período de declínio da produção e aumento do desemprego.

Infelizmente, uma recessão pode levar muito tempo até se resolver. Como explicamos no capítulo 6, se o governo não toma providências para

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 143 04/05/2012 18:04:56 144 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

acabar com a recessão, a única maneira de a economia voltar ao nível de produção de pleno-emprego é uma queda nos preços, de modo que o equilíbrio da economia possa deslizar para AD , a curva do ponto B para o 1 ponto C. Este processo é, normalmente, muito lento, em razão dos preços rígidos, especialmente os salários, conforme descrito no capítulo anterior. Como consequência, a economia terá uma elevada taxa de desemprego e levará muito tempo para voltar a produzir em Y*, a menos que o governo interfira.

 

Deslocando a curva AD para a direita — ou

colocando as pessoas de volta ao trabalho

CEIT O-CH A VE O truque que ambas as políticas, a monetária e a fiscal, realizam é

ON aumentar a demanda agregada, fazendo eliminar a necessidade de suportar C o lento processo de ajuste que leva a economia do ponto B para o ponto

C (veja a Figura 7-1). Eles fazem isto deslocando a curva da demanda agregada para a direita.

Por exemplo, se o governo fosse capaz de mudar a curva de demanda agregada de AD de volta a AD , a economia daria um salto para trás para o 1 0 equilíbrio do ponto A. Isto é muito bom, porque faz com que a economia volte a produzir em Y*, sem ter que passar pelo lento processo de ajuste que é necessário para conseguir que a economia se mova do ponto B para o ponto C. Em termos humanos, isto significa que o desemprego irá acabar mais cedo para milhões de trabalhadores, que poderão, mais uma vez, encontrar emprego e sustentar a si mesmos e suas famílias.

Infelizmente, porém, a efetiva implantação do deslocamento da curva de demanda agregada para combater as recessões não é fácil. Vários problemas podem surgir envolvendo tanto a inflação como as expectativas das pessoas sobre como os aumentos na demanda agregada podem afetar os preços. Portanto, antes de encarar os detalhes sobre como as políticas monetária e fiscal podem ser usadas para aumentar a demanda agregada, primeiro explicaremos como a inflação (e preocupe-se com ela) pode limitar sua eficácia.

 

Gerando Inflação: Os Riscos de

 

Muito Estímulo

A melhor maneira para começar a entender as limitações das políticas econômicas que estimulam a demanda agregada é compreender que, a longo prazo, essas políticas só podem alterar o nível de preços e não o nível de produção. Por quê? Precisaríamos de varias páginas para explicar plenamente as razões, mas a razão pode ser vista em algo que discutimos com pormenores no capítulo 6: não importa onde a curva de demanda agregada parece estar – não importa quantas coisas os consumidores

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 144 04/05/2012 18:04:56 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 145

estejam dispostos (ou não) de comprar – os preços eventualmente se ajustam até que a economia esteja, mais uma vez, atingindo a produção de pleno-emprego (Y*). A economia simplesmente não deseja perder-se de Y* por muito tempo.

Explicamos a afeição da economia por Y* no capítulo 6, e você pode percebê-la na Figura 7-1 também. O choque de demanda negativa desloca a curva de demanda agregada de AD para AD . Se o governo não usar algum 0 1 tipo de estímulo, a economia se ajustará lentamente sobre si mesma a partir do ponto A para o ponto B para o ponto C. No ponto C, o nível de preços terá caído e a produção terá retornado para Y*.

Mas, mesmo se o governo aplicar algum tipo de estímulo para mover a curva de demanda agregada à direita de AD , o resultado, a longo prazo, será sempre 1 que a economia chegará ao equilíbrio no ponto onde a curva de demanda agregada cruza a curva de oferta agregada de longo prazo (LRAS). E, conforme mostrado no capítulo anterior, a LRAS é uma linha vertical, que corresponde ao nível de produção de pleno-emprego, Y*.

 

Um exercício de futilidade: Tentando

aumentar a Produção (output) além de Y*

Porque a economia sempre retorna à produção de pleno-emprego (Y*), o governo não pode manter a economia produzindo mais que Y* por qualquer período de tempo significativo. Para entender o motivo, suponha que o governo utilize a política monetária e/ou fiscal para deslocar a curva de demanda agregada de AD para AD , como mostrado na Figura 7-2. 0 1

 

LRAS

 

Nível de Preços

C

P1

 

A B

P0 SRAS0

AD 1

Figura 7-2:

Os resultados AD0 do aumento

da demanda

agregada. Y* Produção

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 145 04/05/2012 18:04:56 146 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

Antes, a economia está em equilíbrio no ponto A, onde a curva de demanda agregada original, AD , intercepta a curva de oferta agregada de 0 longo prazo (LRAS), que é a linha vertical acima de Y*. Naquele equilíbrio inicial, o nível de preço é P , e porque os preços são rígidos a curto prazo 0 (veja o capítulo 6), a curva de oferta agregada de curto prazo, SRAS , e 0 horizontal na linha em P . 0

Quando o governo estimula a economia e desloca a curva de demanda agregada para a direita de AD para AD , a economia inicialmente se 0 1 desloca do ponto A para o ponto B. Ou seja, porque os preços são fixados a curto prazo, a economia ajusta-se a um equilíbrio temporário em B (onde AD , intercepta SRAS ). 1 0

O nível de produção da economia no ponto B é maior que o nível de produção de pleno-emprego, Y*. Por esta razão, o ponto B é apenas um equilíbrio temporário. Isso porque a única maneira de a economia produzir mais que Y*, é se ela estiver usando mais força de mão de obra do que é usada em Y*. Em nosso modelo simples, só há duas maneiras de isso acontecer:

✓ As empresas convencem seus empregados atuais a fazer hora extra.

✓ As empresas aumentam o número total de trabalhadores seduzindo

pessoas, como os aposentados, que normalmente não seriam

contados como força de trabalho, a assumirem novos trabalhos.

Ambas as formas de aumentar a oferta de trabalho também aumentam os custos trabalhistas:

✓ Para conseguir que os funcionários façam horas extras

consistentemente, as empresas devem pagar salários mais elevados

pelas horas extras.

✓ Para seduzir pessoas como aposentados a se juntarem à força de

trabalho, as empresas devem aumentar o pagamento (porque,

certamente, estas pessoas não ficariam tentadas a trabalhar pelos

antigos salários).

Seja como for, os custos de produção aumentam. E como fazem, as empresas repassam esses custos aos consumidores aumentando os preços cobrados por bens e serviços.

É por isso que a economia se move do ponto B para o ponto C na Figura 7-2. Os preços sobem porque os salários são aumentados e, portanto, a economia se move acima da curva AD , (como indicado pelas setas). 1 Salários e, consequentemente, os preços, continuam a subir até que a economia esteja, mais uma vez, produzindo valor de produção Y* no ponto C. Nesse ponto, não há necessidade de novos aumentos dos salários: a economia está produzindo em Y*, e as empresas não precisam aumentar salários para tentar produzir mais do que este nível.

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 146 04/05/2012 18:04:56 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 147

 

Uma alta temporária: Rastreando o

movimento de salários reais

Se você olhar para a Figura 7-2 e considerar o movimento de A para B para C causado pelo programa de estímulos do governo, verá que a única consequência, a longo prazo, é um aumento no nível de preços de P para 0 P . Após um período de aumento da produção, a economia volta ao nível 1

de produção de pleno-emprego, Y*.

Você pode tirar duas lições críticas deste exemplo:

✓ O governo não pode manter indefinidamente a produção acima de

Y*.

✓ O governo não pode manter indefinidamente mais pessoas

empregadas do que o número de empregados em Y*.

CEIT O-CH A VE Os salários reais são a razão de essas duas lições serem verdadeiras. O que

ON são salários reais? Salários medidos não em termos de dinheiro, mas em C termos de quantas coisas os trabalhadores podem comprar com o dinheiro

que lhes é pago.

Salários reais são cruciais para entender como os estímulos governamentais afetam a economia, porque as pessoas não trabalham pelo dinheiro em si — elas trabalham pelas coisas que o dinheiro pode comprar. Esta distinção é importante porque quando a economia reage às mudanças governamentais da curva de demanda agregada de AD para AD , os salários reais aumentam 0 1 apenas temporariamente. Enquanto eles estiverem elevados, os trabalhadores fornecem mais labor. Mas quando eles voltam ao seu nível original, os trabalhadores voltam a oferecer sua quantidade original de trabalho.

Aumentando os salários reais enquanto os preços estão imobilizados

PLO Confuso? Fique conosco. Para ver como esse conceito funciona, vamos

EX nos concentrar na situação de um trabalhador que ama bananas, chamado EM

Ralph. Quando a economia está no ponto A na Figura 7-2, Ralph recebe $10,00 por hora e sua comida favorita, bananas, custa $1,00 a dúzia. Isto significa dizer que seu salário real — seu salário medido em termos do que é possível comprar com ele — é 10 dúzias de bananas por hora. Com este salário real, Ralph está disposto a trabalhar em tempo integral.

Quando o governo estimula a economia e desloca a curva de demanda agregada de AD para AD , trabalhadores como Ralph são inicialmente 0 1 beneficiados, porque o salário real inicialmente aumenta. Isto porque para produzir mais que Y*, as empresas têm que aumentar os salários nominais (salários medidos em dinheiro), de modo a fazer os trabalhadores produzirem mais. Porque os preços estão inicialmente rígidos ao nível de P , 0 o aumento dos salários nominais significa um aumento nos salários reais.

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 147 04/05/2012 18:04:56 148 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

No caso de Ralph, suponha que o preço das bananas permaneça em $ 1,00 a dúzia em razão dos preços fixos, mas o salário nominal de Ralph aumenta para $ 12,00 por hora, porque a empresa onde ele trabalha precisa de mais mão de obra. O salário real de Ralph aumentou de 10 dúzias de bananas por hora para 12 dúzias por hora.

Este aumento no salário real motiva os trabalhadores a oferecer todo o trabalho extra que for necessário para elevar os níveis de produtividade (Na Figura 7-2, este evento está acontecendo no ponto B.). Como os salários nominais subiram, mas os preços não, o aumento resultante nos salários reais faz com que os trabalhadores ofereçam mais trabalho, o que por sua vez permite as empresas um nível maior de produtividade, maior que Y*.

De volta a Y* e aos salários reais originais

Infelizmente, como as empresas começam a repassar os custos do aumento dos salários com o aumento dos preços, os salários reais começam a cair. Suponha que, em razão do alto custo da mão de obra, o preço das bananas aumente para $ 1,10 a dúzia. A este valor, o salário real de Ralph cai de 12 dúzias de bananas por hora para 10,91 dúzias por hora. Para chegar nesse valor, 10.91, divida o salário por hora de Ralph de $12,00 pelo preço da dúzia da banana, $1.10.

Na Figura 7-2, a diminuição nos salários reais acontece à medida que a economia se move ao longo da curva de demanda agregada do ponto B para o ponto C. Como os preços sobem, os salários reais caem. Os preços continuarão a subir até chegarem ao ponto em que o salário real volte para onde estava originalmente, no ponto A, antes do governo estimular a demanda agregada.

No caso de Ralph, os preços das bananas continuarão a subir até custarem $1,20 a dúzia. A este preço, o salário nominal dele, de $12,00 por hora, mais uma vez compra apenas dez dúzias de bananas por hora; seu salário real volta para o ponto onde começou.

CEIT O-CH A VE Este efeito bumerangue nos salários reais faz total sentido. Como

ON a economia retorna à produção de Y*, você só precisa motivar os C trabalhadores a oferecer mão de obra suficiente para produzir em Y*,

e nada extra. Trabalhadores como Ralph desejaram oferecer aquela quantidade de mão de obra no ponto A para um salário real de 10 dúzias de bananas por hora. Depois que a economia se move para o ponto C, eles novamente estarão desejando oferecer uma quantidade maior de mão de obra para o mesmo salário real.

Obviamente, nem todos os trabalhadores são aficionados por bananas como o Ralph. Mas esperamos que você tenha entendido a comparação. Salários e preços aumentaram em 20 por cento, portanto os salários reais permanecem inalterados e, consequentemente, a quantidade de trabalho que os empregados oferecem termina inalterada.

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 148 04/05/2012 18:04:56 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 149

Este fato significa que as políticas de estímulo do governo, como mostradas na Figura 7-2, que deslocam a demanda agregada de AD para AD , 0 1 não podem, definitivamente, aumentar a quantidade de trabalho que é utilizado pelas empresas. Tampouco essas políticas podem aumentar permanentemente os salários reais dos trabalhadores. Esses efeitos são, na melhor das hipóteses, temporários; eles durarão apenas o tempo necessário para que a economia se ajuste de A para B para C.

Contudo, você pode pensar que um aumento temporário de empregos e produção é maravilhoso, e que o governo deveria seguir em frente e aumentar a demanda agregada de AD para AD . Infelizmente, como 0 1 estamos prestes a mostrar, se as pessoas souberem desses estímulos antecipadamente, a economia poderá ajustar seus preços diretamente de A para C e eliminar a capacidade de deslocamento da demanda agregada para estimular a economia, mesmo que temporariamente.

 

Falha no estímulo: O que acontece quando

um estímulo é esperado

Na seção anterior, explicamos por que um aumento na demanda agregada, que tenta aumentar a produtividade além de Y*, só o faz temporariamente, até que os preços se ajustem. Nesta seção, mostraremos que os preços podem se ajustar tão rapidamente, que os estímulos podem falhar em aumentar a produtividade, mesmo que temporariamente.

Respeitando a importância da rigidez dos preços

Como mostramos na Figura 7-2, qualquer aumento na produção depois do deslocamento da demanda agregada à direita de AD para AD , depende dos 0 1 preços estarem fixos a curto prazo. Em outras palavras, a economia se move do ponto A para o ponto B ao longo da curva de oferta agregada de curto prazo, SRAS , somente se o nível de preços estiver fixado em P , a curto prazo. 0 0

No capítulo 6 explicamos que muitas evidências mostram que os preços têm dificuldades de cair durante uma recessão. Em particular, as empresas não gostam de cortar salários e afrontar seus empregados. Eles sabem que se cortarem salários, os trabalhadores ficarão irritados e deixarão de produzir e os resultados do declínio na produtividade farão com que a situação de lucro das empresas fique cada vez pior.

Como resultado, existe uma grande rigidez na estabilidade dos salários na economia — por isso os economistas dizem que os salários nominais apenas raramente declinam. Como explicamos no capítulo 6, salários fixados para baixo também fazem os preços baixarem, porque as empresas não podem cortar seus preços abaixo dos custos de produção se quiserem obter algum lucro e continuar nos negócios. Tenha em mente que os custos trabalhistas são, para a maioria dos negócios, a maior parcela dos custos de produção. Se as empresas não podem cortar os salários, também não podem reduzir os preços de seus produtos.

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 149 04/05/2012 18:04:56 150 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

Percebendo que os preços não são muito rígidos para cima

Note que na seção anterior falamos apenas sobre as dificuldades descendentes; não dissemos nada sobre a dificuldade em aumentar os preços ou salários. Na verdade, parece haver muito pouca dificuldade na economia para o aumento de preços e salários.

Muito pelo contrário, salários e preços parecem bastante livres para aumentarem se a demanda aumentar relativamente a oferta. Os contratos de negócios e trabalhistas podem limitar os aumentos de preços e salários por um tempo, mas logo que estes contratos terminam, preços e salários estão livres para subir.

Antecipando (e comprometendo) um estímulo

A falta de preço fixo ascendente implica em duas coisas muito importantes para qualquer governo que está tentando estimular a economia produzindo mais que o nível de produção de pleno-emprego (Y*):

✓ Se os preços e salários podem subir rapidamente, a economia irá

produzir mais que Y* apenas muito brevemente. Ou seja, ela irá

passar de A para B para C na Figura 7-2 muito rapidamente – tão

rapidamente que fará com que o estímulo da produção e do

emprego cresça acima de Y* somente brevemente.

✓ Se as pessoas puderem ver um estímulo vindo, esse estímulo, que visa

aumentar a produtividade além de Y*, é susceptível de gerar apenas

inflação e não aumentar a produção de forma alguma. Em outras

palavras, se as pessoas puderem antecipar um aumento na demanda

agregada, a economia pode saltar diretamente do ponto A para o

ponto C, assim o nível de preços subirá sem que haja um aumento

temporário de produtividade.

PLO Para entender como este processo funciona, suponha que o governo

EM prenuncie um grande pacote de estímulo que irá deslocar a demanda EX agregada de AD para AD em poucos meses (veja Figura 7-2). Como os

0 1

trabalhadores e os empresários podem aprender macroeconomia tão bem quanto os políticos que governam, eles percebem que o único efeito de longo prazo para o estímulo a caminho será elevar os preços de P para P . 0 1

Além disso, os trabalhadores entendem que seus salários reais continuarão os mesmos a longo prazo, porque ambos, salário nominal e custo de vida (determinado pelo nível de preços), aumentarão em proporções iguais. Como resultado, eles sabem que a longo prazo esse estímulo não os ajudará em nada. Na verdade, sua única esperança de ganho baseia-se inteiramente no curto prazo, quando os salários nominais podem subir e o nível de preços deve permanecer inalterado. Em outras palavras, eles esperam se beneficiar do movimento de A para B na Figura 7-2.

Mas as empresas não são ingênuas. Elas não querem ter seus lucros reduzidos, porque os salários estão aumentando, enquanto que os preços

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 150 04/05/2012 18:04:57 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 151

estão fixos. Assim, simplesmente antecipam tudo. Uma vez que os preços, eventualmente, têm que subir de P para P e os salários têm que subir 0 1 em proporções iguais, as empresas se adiantam aos aumentos de salários, aumentando seus preços tão rápido quanto possível.

Nada previne as empresas de aumentarem seus preços, porque não há nada na economia que cause uma inflexibilidade ascendente de preços. Assim, se as empresas puderem pressentir um estímulo econômico se aproximando, elas simplesmente aumentarão seus preços o mais rápido possível, de forma a estarem certas de que seus preços e os salários subirão na mesma proporção. Como resultado, os preços saltam de P para P . 0 1

Certamente, ao mesmo tempo, as empresas aumentam os salários em porcentagens iguais, de modo a manter o salário real inalterado. Elas desejam manter os funcionários motivados a oferecer sua força de trabalho, necessário para produzir valor de produção Y*.

Como você pode ver, se um governo tenta estimular a economia para produzir além de Y*, e se o estímulo for entendido e antecipado por todos na economia, ele pode não funcionar. Os preços e salários podem simplesmente saltar do ponto A para o ponto C, significando que o estímulo falhou em seu objetivo, uma vez que a produção permanece em Y*, enquanto que os preços e os salários aumentam simultaneamente.

Tendo expectativas racionais

O fenômeno que descrevemos na seção anterior é um exemplo de expectativa racional, um termo que economistas utilizam para descrever como as pessoas racionalmente alteram seu comportamento em antecipação a eventos futuros. Neste caso, as empresas decidem aumentar os preços racionalmente ao descobrirem que o governo irá aumentar a demanda agregada de AD para AD no futuro. 0 1

De fato, o curso racional das ações de uma empresa é apenas aumentar os preços imediatamente, porque se estes fossem deixados sozinhos em P , 0 eles seriam voluntariamente os causadores da diminuição dos lucros, que é o resultado de quando a economia se move do ponto A para o ponto B (quando os salários nominais aumentam e os preços permanecem constantes). Aumentando os preços imediatamente e deslocando a economia diretamente de A para C, eles podem evitar completamente esta situação.

 

C ON CEIT O-CH A VE A expectativa racional é uma das mais importantes ideias da macroeconomia, porque ela nos diz que há fortes limites na capacidade do governo de controlar a economia. As pessoas não ficam paradas, como plantas nos vasos,

quando o governo anuncia uma mudança na política, elas mudam seus comportamentos. E, às vezes, como no caso descrito na seção anterior, as mudanças no comportamento das pessoas podem arruinar completamente a habilidade do governo em atingir seus objetivos de estimular a economia.

Conforme explicarmos política monetária e fiscal no decorrer deste capítulo em maiores detalhes, você poderá ver outros exemplos de

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 151 04/05/2012 18:04:57 152 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

expectativas racionais limitando a eficácia da política governamental. Em particular, repare como, em cada caso, as mudanças no comportamento das pessoas reduzem o impacto das iniciativas da política governamental.

 

Descobrindo a Política Fiscal

A política fiscal se preocupa em como os governos cobram e gastam os impostos. Ela se sobrepõe a macroeconomia, porque os governos modernos têm muitas oportunidades de aumentar a demanda agregada ao fazer alterações na política fiscal. Essas alterações estão contidas em duas categorias:

✓ Aumentar a demanda agregada indiretamente pela diminuição de

impostos, para que os consumidores tenham maior rendimento dos

impostos, e, consequentemente, gastem mais comprando bens e

serviços.

✓ Aumentar a demanda agregada diretamente pela compra de bens e

serviços.

A primeira categoria envolve a diminuição das receitas governamentais e a segunda envolve o aumento dos gastos do governo. Como o déficit orçamental do governo é definido como a receita de impostos menos as despesas, ambos os tipos de política fiscal são suscetíveis ao aumento dos déficits orçamentais. Este fato é importante, porque grandes e contínuos déficits orçamentais do governo podem levar a muitos problemas econômicos, inclusive a inflação. Como resultado, o temor de grandes déficits orçamentais restringe a amplitude das iniciativas de política fiscal.

À medida que você ler sobre política fiscal nas seções seguintes, tenha em mente este receio de grandes déficits orçamentais, justamente porque ele limita o tamanho do deslocamento da demanda agregada que o governo pode realizar. Por exemplo, se olhar novamente para a Figura 7-1, o governo pode querer usar a política fiscal para deslocar a demanda agregada da direita de AD to AD , mas isto implicaria em um déficit 0 1 orçamental demasiadamente grande e o governo teria que estabelecer um deslocamento menor, que movesse a economia apenas em parte no caminho de volta è produção de pleno-emprego ( Y*).

 

Aumentando os gastos públicos para

ajudar a por fim às recessões

Se uma economia começa a ter problemas, uma das primeiras opções dos políticos é o aumento dos gastos públicos. A ideia é que, se as pessoas estão desempregadas e mercadorias não são vendidas e ficam pegando pó, o governo pode vir com um monte de dinheiro e comprar todos os produtos não vendidos. O resultado desta ação é que o governo gera tanta demanda, que as empresas começam a contratar os desempregados para aumentar sua produção e atender toda a nova demanda.

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 152 04/05/2012 18:04:57 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 153

A esperança é que este estímulo dê a partida para novas demandas. Quando as pessoas que estavam desempregadas começam a receber seus contracheques novamente, gastam mais dinheiro, o que significa que a demanda cresce. Quando isso acontece, a economia recuperada deve ser autossustentável, de forma que o governo não precise continuar a gastar tanto dinheiro.

Pagando pelo aumento da despesa pública

Os políticos naturalmente gostam de sugerir o aumento nos gastos do governo, porque tais aumentos fazem com que eles pareçam bons, especialmente se conseguirem obter algum desses novos gastos revertidos

CEIT O-CH para o seu eleitorado. Contudo, nada na vida é gratuito. A VE

C ON Existem apenas três maneiras de pagar pelos gastos do governo:

✓ O governo pode abaixar as taxas de juros para expandir a oferta de

dinheiro.

✓ O governo pode aumentar os impostos.

✓ O governo pode tomar emprestado mais dinheiro.

Como discutimos no capítulo 5, expandir a oferta de dinheiro para pagar pelos aumentos nos gastos do governo conduz a grandes surtos de inflação, que trazem com eles o caos econômico e recessões. Consequentemente, os governos de hoje quase nunca recorrem a isso. Na verdade, muitos abdicaram do controle da oferta de dinheiro para bancos centrais independentes. Embora, conforme vimos no capítulo 5, eles poderiam usar essa ferramenta para saírem das recessões isso não é mais feito.

Aumentar impostos também é problemático, porque se você estiver tentando sair de uma recessão, deseja que os consumidores gastem tanto quanto possível em bens e serviços. Se aumentar os impostos, os consumidores reduzirão suas despesas. Você pode compensar, em parte, a diminuição de gastos privados imediatamente, mudando de direção e gastando toda a receita de impostos, mas claramente esta abordagem não estimula a demanda agregada de longo prazo. O governo também pode deixar que seus cidadãos gastem seu dinheiro em primeiro lugar.

Emprestando e gastando: A solução mais comum

O que os governos precisam fazer para combater a recessão é descobrir uma maneira de aumentar as suas próprias despesas sem diminuir as despesas privadas. A solução é o empréstimo.

Ao tomar dinheiro emprestado durante uma recessão e gastá-lo, o governo pode aumentar suas compras de bens e serviços sem diminuir as compras do setor privado. De quem o governo toma emprestado? De você, e de outros como você.

Em algum momento na vida, as pessoas querem poupar certa parte de suas receitas. Elas podem usar essas poupanças para comprar muitos tipos

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 153 04/05/2012 18:04:57 154 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

diferentes de ativos, inclusive ações e títulos emitidos por corporações, imóveis, fundos mútuos e anuidades. Mas, elas também podem usar suas economias para comprar títulos do governo, que são, na essência, os empréstimos do governo.

CEIT O-CH A VE Ao oferecer mais títulos para venda, o governo pode redirecionar algumas

ON das poupanças que as pessoas estão fazendo para compras de outros ativos C e para compras de títulos da dívida do governo. Ao vender títulos da dívida,

o governo pode obter o controle de muito dinheiro, para gastar em bens e serviços, transformando o que seria um investimento privado em ativos na despesa pública de bens e serviços.

 

Lidando com déficits

Aumentar as despesas do governo e financiá-las através de empréstimos é claramente uma boa forma de aumentar a demanda geral por bens e serviços, mas ela tem o desagradável potencial de um efeito colateral, a criação de um déficit orçamentário, que é o montante em dinheiro pelo qual as receitas fiscais excedem as despesas públicas durante o ano em curso. Qualquer déficit de orçamento atual é adicionado ao déficit nacional, o total acumulado de todo o dinheiro que o governo deve aos credores.

O problema com o déficit orçamentário e os débitos nacionais é que eles devem ser pagos algum dia. Considere um título de dez anos que paga uma taxa de 6 por cento de retorno. Quando você compra o título do governo, paga $ 1.000,00. Em contrapartida, o governo promete fazer duas coisas:

✓ Devolver a você $ 1.000,00 em dez anos.

✓ Dar a você $ 60,00 ao ano (6 por cento de retorno) até lhe devolver o

valor de seu investimento.

Assim, o governo obtém $ 1.000,00 exatamente agora para gastar em bens e serviços para impulsionar a economia, mas tem que descobrir onde obter $ 60,00 ao ano para dar-lhe pelo pagamento de juros do seu empréstimo e também onde obter $ 1.000,00 em dez anos, quando o título vencer.

Contando com as futuras receitas fiscais

Obviamente, a única razão pela qual as pessoas estão dispostas a emprestar dinheiro ao governo ao comprar títulos, é que elas acreditam que ele acabará por pagá-las de volta. Elas têm confiança no fato por que o governo tem direito exclusivo de tributar coisas. Basicamente, todos os empréstimos são garantidos pelas futuras receitas fiscais do governo.

CEIT O-CH A VE Mas a relação entre impostos e pagamento de títulos não é direta. Em

ON outras palavras, só porque o governo tem muito títulos a vencer, isto C não significa necessariamente ter que aumentar impostos de repente

para conseguir mais dinheiro para pagá-los. Ao invés, normalmente os governos refinanciam os títulos que estão vencendo, eles simplesmente emitem novos títulos para obter dinheiro, suficiente para pagar os títulos

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 154 04/05/2012 18:04:57 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 155

antigos. Este processo é referido como rolagem da dívida e é praticado rotineiramente pelos governos em todos os lugares.

Mas não pense que este processo é apenas um truque para adiar indefinidamente o pagamento da dívida. Há uma razão para que os investidores desejem participar de uma rolagem de dívida: porque eles confiam que o governo sempre pode usar seu poder de tributação para pagar seus débitos. A confiança dos investidores permite que os governos mantenham os empréstimos, quer para financiar novos empréstimos ou para rolar as dívidas mais antigas. Quando os investidores não têm essa confiança, os resultados podem ser catastróficos.

Pagando dívidas com a impressão de dinheiro:

Uma escolha devastadora

Às vezes, a confiança dos investidores no governo acaba por ter sido inapropriada. Como explico no capítulo 5, os governos têm outra (e diabólica!) maneira de saldar suas obrigações, além de utilizar as receitas fiscais. Eles podem imprimir muito dinheiro. Governos responsáveis não fazem isso de fato, mas já aconteceu, e é realmente válido estar ciente da possibilidade.

 

EX EM PLO Um título de $ 1.000,00 obriga o governo a pagar de volta a você o valor de $ 1.000,00 em dinheiro. O título não diz de onde provém o dinheiro.

Portanto, o governo é livre para imprimir o valor de $1.000,00 em cédulas novas e entregá-las a você. Esta solução parece boa em principio, mas quando você e todos os outros portadores de títulos do governo, estiverem de posse do dinheiro recém-impresso e começarem a gastá-lo, farão os preços subirem e causarão inflação.

Conforme pontuamos no capítulo 5, grandes inflações destroem a atividade econômica. Durante uma grande inflação, os preços perdem muito de seu valor e as pessoas se tornam muito mais desconfiadas e relutantes em participar de contratos de longo prazo ou fazerem investimentos, porque não sabem qual será o valor do dinheiro no futuro.

Conhecendo os horrores potenciais da inflação, as pessoas tendem a se preocupar sempre que vêem um governo com grandes déficits orçamentários ou acumulando uma grande divida. Elas temem que o governo possa colocar-se em uma posição em que não possa aumentar impostos para pagar suas obrigações (ou que não queira contrariar seu eleitorado ao fazer isso). Os investidores temem que se esta situação ocorrer, o governo poderá recorrer à impressão de dinheiro para pagar seus débitos. E fazendo isso, arruinar a economia.

Imprimir dinheiro para pagar débitos do governo também abalaria outros portadores de títulos, porque a maioria deles teria seu dinheiro após os preços subirem, o que significa que o dinheiro deles não compraria muitas coisas. Consequentemente, quando as pessoas realmente começam a se preocupar que seu governo possa imprimir dinheiro para pagar seus débitos, fica cada vez mais difícil conseguir investidores dispostos a comprar títulos do governo. Em tal situação, a única maneira de o

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 155 04/05/2012 18:04:57 156 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

governo conseguir que alguém compre seus títulos é oferecer uma taxa de juros cada vez maior, para compensar os temores de que, o dinheiro que eventualmente as pessoas receberão, não terá mais o mesmo valor de compra. Estas altas taxas de juros então, fazem com que o governo fique em uma situação ainda mais desesperadora, porque qualquer um que tiver seu título rolado, terá que fazê-lo com base nessas altas taxas de juros.

Além disso, uma vez que a inflação afeta todos os títulos e não apenas os emitidos pelo governo, as taxas de juros em toda a economia aumentam se as pessoas recearem que uma inflação esteja se aproximando. Esta situação pode ter, de imediato, más consequências econômicas, porque altas taxas de juros desestimulam os consumidores de tomarem dinheiro emprestado para comprar coisas, como carros ou casas, e também desencorajam as empresas de fazer empréstimos para comprar novas fábricas e equipamentos. Consequentemente, a simples expectativa de que um governo possa imprimir dinheiro, em algum momento futuro, para saldar suas obrigações, pode causar danos imediatos a economia. Este é outro exemplo da expectativa racional em ação; veja a seção “Tendo expectativas racionais”, no início deste capítulo.

A maioria dos governos tenta manter o seu nível de divida e seus déficits sob controle, para garantir que ninguém se preocupe seriamente que ele esteja tentado a imprimir mais dinheiro para saldar suas obrigações.

 

Dissecando a Política Monetária

CEIT O-CHA VE A política monetária é a manipulação da oferta de dinheiro e taxas de juros,

ON de modo a estimular e estabilizar a economia. Nas economias modernas, a C política monetária tem sido considerada o mecanismo mais poderoso que

os governos têm para lutar contra a recessão e reduzir o desemprego — ainda mais poderosa do que a política fiscal.

A política monetária é colocada em prática em primeiro lugar alterando a oferta de dinheiro, com a finalidade de manipular as taxas de juros. As taxas de juros afetam todas as coisas, desde a procura dos consumidores por imóveis financiados até a demanda por bens de investimentos por parte das empresas, elas têm um enorme efeito estimulante ou deprimente sobre toda a atividade econômica.

Para lhe dar uma visão completa de como funciona a política monetária, vamos rever o que o dinheiro é. Em seguida, vamos mostrar-lhe que é realmente possível que uma economia tenha dinheiro em excesso, e como este fato está relacionado com a taxa de juros e inflação. Isto, por sua vez, dá a visão necessária para compreender como o governo pode afetar as taxas de juros, alterando a quantidade de dinheiro que está flutuando na economia.

 

Identificando os benefícios do dinheiro fiat

O dinheiro é um ativo, o que significa que ele detém seu valor ao longo do tempo. Outros ativos incluem imóveis, metais preciosos, como ouro, e os

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 156 04/05/2012 18:04:57 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 157

ativos financeiros como ações e títulos. Mas o dinheiro costuma ser tido como uma moeda de troca melhor do que todos acima.

Para manter as coisas simples, fizemos uma referência sobre o conceito de imprimir muito dinheiro. A coisa a ser lembrada, contudo, é que dinheiro não significa apenas as notas e moedas em circulação, mas tem uma definição mais ampla que inclui depósitos nos bancos, créditos e empréstimos, e títulos do governo de diferentes níveis de comercialização. Como resultado, também falamos sobre a expansão da oferta de dinheiro, que significa fazer algo que aumenta o fornecimento de tudo isso citado acima.

Como explicamos no capítulo 5, o dinheiro torna a economia muito mais eficiente, porque ele elimina a necessidade de escambo. Mas a necessidade de verificar a autenticidade do dinheiro (para que as pessoas estejam dispostas a aceitá-lo) significa que a responsabilidade pela sua produção e suprimir suas falsificações, recai sobre o governo.

Esta perspectiva, por sua vez, traz os seus próprios problemas potenciais, porque os governos sempre encaram a tentação de imprimir mais dinheiro para pagar velhas dívidas ou adquirir muitos dos mais recentes produtos e serviços oferecidos.

DO REAL Historicamente, uma maneira de limitar a capacidade do governo de imprimir

UN dinheiro para pagar suas contas era colocar um lastro baseado em algum M metal precioso. Sob tal sistema, os governos não podiam imprimir mais cédulas

sem que pudessem garanti-las com algum metal precioso, como o ouro. Por exemplo, os Estados Unidos costumavam ter um padrão ouro para o qual 35 dólares em dinheiro circulante poderia ser trocado por uma onça (28,349 gramas) em ouro. Você poderia, literalmente, levar 35 dólares ao Tesouro dos Estados Unidos e trocá-los por cerca de 28,349 gramas de ouro.

Para a política monetária, esta situação significava que o governo não poderia, arbitrariamente, aumentar a oferta de papel-moeda, porque para cada 35 dólares em novas cédulas, o governo precisaria comprar 28,349 gramas de ouro, que serviriam como garantia daquele valor. O alto custo da compra de ouro limitava a oferta de dinheiro.

Conforme vimos no capítulo 5, tal sistema é ótimo para prevenir grandes inflações, porque a única maneira de haver uma grande inflação é se o governo imprimir uma quantidade absurda de dinheiro novo. Quando este novo dinheiro entra em circulação, faz com que os preços aumentem.

Prevenir inflação é uma coisa boa, mas usar o padrão metálico acaba gerando grandes inconvenientes. Isto porque utilizar o padrão metálico faz com que o fornecimento de dinheiro seja fixado a longo prazo, o que significa que mesmo se a economia precisar de um pouco mais ou um pouco menos de dinheiro para melhorar seu funcionamento, o governo não pode fazer nada, porque a oferta de dinheiro está fixa pela quantidade de ouro que há nos cofres.

DO REAL Em particular, o padrão metálico significa que você não pode usar a política

UN monetária para estimular sua economia se ela estiver em recessão. Uma das M razões por que a Grande Depressão foi tão devastadora em muitos lugares

do mundo, é que quase todos os países utilizavam o padrão-ouro quando

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 157 04/05/2012 18:04:57 158 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

a calamidade começou. Isto significava que os governos eram incapazes de aumentar suas ofertas de dinheiro para ajudar suas economias. Este fato também explica por que os países que rapidamente abandonaram o padrão-ouro terem tido pequenas e menos violentas recessões: eles estavam livres para imprimir dinheiro novo para estimular suas economias. Por outro lado, países como os Estados Unidos e a Inglaterra, que teimosamente se mantiveram presos ao padrão-ouro, tiveram recessões dolorosas e prolongadas.

Este era, obviamente, um problema. A tentativa de manter o padrão metálico caiu posteriormente, quando o governo norte-americano descobriu que precisava criar mais dinheiro para pagar pelos custos proibitivos da Guerra do Vietnã. Isto levou à adoção de um sistema chamado dinheiro fiat. Sob o sistema monetário fiat, o governo simplesmente imprime quantas cédulas desejar, declara que essas cédulas são dinheiro e as coloca na economia. Fiat significa “Assim seja!” em Latim. A grande vantagem deste sistema é que o governo pode aumentar ou diminuir arbitrariamente a oferta de moeda, da melhor forma a ajudar a estimular a economia.

Para o restante deste capítulo, utilizaremos M para designar a totalidade da oferta de dinheiro flutuando na economia. Por exemplo, M= 1,3 trilhões significa que a soma do valor nominal de todas as notas e moedas na economia é de 1,3 trilhões.

 

Percebendo que você pode

ter dinheiro demais!

CEIT O-CH A VE A política monetária funciona manipulando a oferta de dinheiro, de forma

ON a alterar o preço do empréstimo, que é a taxa de juros. A chave para manter C a política monetária funcionando é o fato de que a demanda por dinheiro

depende da taxa de juros.

Imagine que eu coloco em suas mãos um milhão, e você pode fazer o que quiser com esse dinheiro. Suponha que você seja econômico e decida poupar até o último centavo, por pelo menos um ano, porque imagina que assim terá tempo para calcular qual a melhor maneira para investir o dinheiro.

Minha pergunta é: Você deveria manter toda sua nova fortuna em espécie?

A resposta correta e “NÃO!”

Manter sua riqueza em dinheiro é, para ser franco, realmente uma estupidez, porque dinheiro em espécie não rende juros Mesmo se você colocar o dinheiro em uma conta corrente, poderá obter, ao menos, um minúsculo rendimento de juros. Mesmo um por cento de juros sobre um milhão de reais é 10 mil. Por que você desprezaria isso? Ainda melhor, se usar o dinheiro para comprar títulos do governo, pode obter 5 ou 6 por cento. Isto representa 50 ou 60 mil a mais do que você obteria se mantivesse sua fortuna sob a forma de numerário.

Obviamente, quanto maior taxa de juros que puder obter em outros ativos, mais incentivo você tem para converter seu numerário em outros ativos. De

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 158 04/05/2012 18:04:57 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 159

fato, a única coisa que impede as pessoas de converter toda sua riqueza em outros ativos e nunca mais segurar dinheiro em espécie é o fato de que o dinheiro permite a elas comprarem coisas. Além dessa função, o dinheiro não é melhor do que qualquer outro ativo, na verdade, é pior em termos de taxa de retorno, pois a taxa de retorno sobre o numerário é sempre zero.

Na Figura 7-3, criamos um gráfico que demonstra quanto dinheiro as pessoas necessitam guardar para uma determinada taxa de juros. Denotamos a demanda de dinheiro como MD. A taxa de juros nominal, i, está no eixo vertical. Para uma explicação sobre taxa de juros nominal consulte o capítulo 5. O eixo horizontal é medido em reais ($).

MS

 

Taxa de juros

Figura 7-3: iH

O equilíbrio

de juros é i* das taxas

determinado

pela iL

intersecção

da curva de

demanda

monetária MD

com a curva

de oferta

monetária.

reais

CEIT O-CH A VE Como você pode ver a partir da inclinação descendente da curva de

ON demanda, quanto maior a taxa de juros, menos dinheiro as pessoas desejam C guardar. Este gráfico representa simplesmente a ideia de que o dinheiro,

com sua taxa de juros zero, é um péssimo lugar para você estacionar sua fortuna, se você pode obter um retorno mais elevado em ativos alternativos. Em outras palavras, quanto maior a taxa de juros sobre outros ativos, mais você irá desejar economizar todo o saldo de sua tesouraria.

A Figura 7-3 também contém uma curva de oferta monetária vertical, onde MS sustenta a oferta de dinheiro. Esta curva é vertical porque o governo pode decidir quanto dinheiro é necessário imprimir e circular sem considerar a taxa de juros.

As curvas MD e MS cruzam a taxa de juros i*. Esta taxa de juros é a taxa de juros do equilíbrio, pois é a única em que o numero total de reais que as pessoas desejam manter é igual ao número total em reais que o governo tem circulado.

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 159 04/05/2012 18:04:58 160 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

Mais importante, i* é um equilíbrio estável, o que significa que, se as taxas de juros se desviarem dele, elas serão forçadas a voltar para i* pelas forças de mercado. Mas antes que este fato faça sentido, precisamos de alguns parágrafos para explicar como as taxas de juros são determinadas no mercado de títulos. Preste muita aténção, porque o mercado de títulos é o local onde as taxas de juros, para toda a economia, são determinadas. Os mercados de títulos têm um efeito enorme sobre tudo o que acontece na economia.

 

Aprendendo o básico sobre títulos

Um título é um ativo financeiro para o qual você paga uma determinada quantia em dinheiro agora, em troca de uma série de pagamentos no futuro. Existem dois tipos de pagamentos, pagamentos de valor nominal e pagamentos de cupom.

✓ O pagamento de valor nominal é impresso na face do certificado do

título e vem na data em que o vínculo expira.

✓ Os pagamentos de cupom são feitos normalmente duas vezes por ano até

que o vínculo expire. Eles são chamados pagamentos de cupom porque

antes da manutenção dos registros de controle computadorizados,

você literalmente teria que retirar um cupom da parte inferior de seu

certificado de títulos e envia-lo para receber seu pagamento.

Normalmente os títulos expiravam após l, 5, 10, ou 20 anos.

Os títulos não garantem qualquer tipo de taxa de retorno. Eles prometem apenas efetuar os pagamentos dos cupons e dos valores nominais dentro dos prazos. A taxa de retorno depende de quanto você paga pelo direito de receber aqueles pagamentos.

PLO Se acha que estamos falando besteiras, analise conosco. Imagine um tipo

EX bastante simples de título chamado de EMobrigação com cupom zero (porque

não há qualquer cupom de pagamento). O único pagamento que este título fará é o de valor nominal que vem quando o título expira. E para tornar as coisas muito simples, suponha que este título irá pagar ao portador $ 100,00, exatamente daqui a um ano a partir de agora.

Se você for portador de títulos, o que precisa entender é que a taxa de retorno do título será paga dependendo de quanto você paga por ele exatamente agora. Suponha que você seja ingênuo o suficiente para pagar $ 100,00 pelo título exatamente agora. Sua taxa de retorno será de zero por cento, porque você pagou $ 100,00 por algo que lhe dará $ 100,00 em um ano.

Por outro lado, suponha que você paga apenas $ 90,00 pelo título agora. Sua taxa de retorno será de aproximadamente 11 por cento porque ( $ 100,00 – $ 90,00) / $ 90,00 = 0.111 ou 11,1 por cento. Se pudesse comprar o título por $ 50,00, sua taxa de retorno seria de 100 por cento, porque você dobraria seu dinheiro no período de um ano.

Eis aqui um fato que você deveria memorizar: a taxa de retorno de um título varia inversamente ao valor pago por ele. Como a quantidade de

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 160 04/05/2012 18:04:58 Capítulo 7: Combatendo a Recessão com Política Monetária e Fiscal 161

dinheiro que receberá no futuro será sempre fixa, quanto mais você pagar por ele exatamente agora, menor será sua taxa de retorno. Preços de títulos mais elevados implicam em menores taxas de retorno.

 

Observando a relação entre preços dos

títulos e taxas de juros

O fato de os preços dos títulos variarem inversamente às taxas de juros é a chave para compreender por que i* é um equilíbrio estável na Figura 7-3. Nesta seção, explicamos esta ligação.

Primeiro, considere taxas de juros que sejam superiores a i* tal como iH. Quando as taxas de juros estão maiores que i*, a quantidade de dinheiro oferecida excede a quantidade de demanda. Isto significa que as pessoas têm mais desse ativo chamado dinheiro do que gostariam de reter. Então, elas tentam redistribuir a sua carteira de ativos, utilizando o excesso de dinheiro para comprar outros bens.

Uma das coisas que as pessoas compram são títulos. Mas com todo este novo dinheiro sendo jogado na oferta limitada de títulos, o preço deles aumenta. Agora, seja cuidadoso. O que acontece com as taxas de juros quando os preços dos títulos aumentam? Elas caem. Isto por que se você começa com uma taxa de juros que é maior que i*, as taxas de juros voltarão a cair para i*. Dinheiro em excesso fará com que os preços dos títulos aumentem com baixas taxas de juros.

Por outro lado, para as taxas de juros como iL, que são mais baixas que i*, a quantia de dinheiro demandada excede a quantia de dinheiro oferecida. Como as pessoas querem mais dinheiro do que têm, elas tentam obtê-lo mediante a venda de ativos como títulos, para converterem tais ativos no dinheiro que querem.

PLO Imagine que todas as pessoas tentem vender seus títulos para chegar a essa

EX meta. Com todas as vendas, os preços dos títulos caem, significando que EM

as taxas de juros subirão. De fato, o preço dos títulos continuará a cair e as taxas de juros continuarão a subir até que voltem para i*, porque esta é a única taxa de juros na qual as pessoas estão satisfeitas com a quantidade de dinheiro que recebem, MS, que o governo decidiu circular.

É importante entender que os movimentos que retornam o equilíbrio para a taxa de juros, iH, são muito rápidos. Qualquer excesso na demanda ou na oferta de dinheiro nunca dura muito tempo, porque os rápidos ajustes nos preços dos títulos movem a taxa de juros para o seu equilíbrio.

Se as taxas de juros se adaptarem muito rapidamente, segue-se que o governo pode imprimir qualquer quantidade de dinheiro que queira. Isso lhe dá uma ferramenta útil para administrar a economia. Contudo, se as pessoas souberem que o governo pode fazer isso, elas simplesmente consideram isso em seus palpites sobre o futuro e se comportam como se o governo já o tivesse feito. Assim, a utilidade dessa política diminuirá. Esta é

 

economy_for_dummies_cad1_mariana.indd 161 04/05/2012 18:04:58 162 Parte II: Macroeconomia: A Ciência do Crescimento Econômico...

uma das principais razões para os governos delegarem políticas monetárias para outras autoridades.

 

Alterando a oferta de dinheiro para

alterar a taxa de juros

A política monetária funciona porque os governos sabem que a taxa de juros se ajusta, de modo a conseguir que as pessoas retenham a quantidade de dinheiro que o governo decide imprimir. A taxa de juros é, de certo modo, o preço do dinheiro, e ela reage de maneira semelhante à dos outros preços. Ou seja, se a oferta de moeda aumenta repentinamente, o preço do dinheiro cai e vice-versa.

Você pode ver este fato transformado em gráfico na Figura 7-4, no qual o governo aumenta a oferta de dinheiro de MS para MS . Esta ação desloca a 0 1 linha vertical de oferta de moeda para a direita e baixa o equilíbrio nominal da taxa de juros de i* para i* . 0 1

Continuar: parte 9 de 18