Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição
Capítulo Quatro
Eu: Finja que vai ao banheiro ou algo assim.
Ponho o telefone na mesa e começo a comer. Estou aqui há quase uma hora e Six e eu mal tivemos oportunidade de conversar. Não sei nem se vou precisar que Breckin revele o nosso segredo, pois estou prestes a perder a paciência e fazer isso logo agora.
Sei que todo mundo está curioso com a viagem de Six para a Itália, mas ela parece ficar constrangida ao falar sobre esse assunto. Suas respostas são curtas e rápidas, e odeio ser o único que parece perceber o quanto Six não quer falar da Itália. Também gosto do fato de ser o único a perceber isso, o que é uma prova de que essa ligação que existe entre a gente, qualquer que seja ela, é algo genuíno. Sinto como se eu a conhecesse melhor do que qualquer outra pessoa aqui. Talvez até mesmo do que Sky.
Apesar de ser um absurdo eu achar isso, pois ainda não sei nem quando é o aniversário dela.
Six: Só tem um banheiro no corredor. Mesmo que eu fosse pra lá, ficaria na cara se você se levantasse e fosse atrás de mim.
Leio a mensagem e solto um gemido.
— Está tudo bem? — pergunta Jack.
Ele está sentado ao meu lado na mesa, o que em outra ocasião não teria nenhum problema, mas queria muito que Six estivesse no lugar dele. Faço que sim com a cabeça e ponho o telefone na mesa virado para baixo.
— Dramas de uma namorada irritante — respondo.
Ele ri e se vira para Holder, continuando a conversa. Six está envolvida num papo com Sky e Karen. Breckin acabou não podendo vir, o que provavelmente foi bom. Não sei como teria lidado com o fato de ele saber sobre a gente.
Agora há apenas minha impaciência e eu disputando uma guerra silenciosa na mesa de jantar.
— Isso me lembra uma coisa — diz Six, falando mais alto. — Trouxe presentes para todos vocês. Tinha esquecido. — Ela se afasta da mesa. —
Eles estão lá em casa. Já volto. — Ela se levanta e dá dois passos antes de se virar para nós mais uma vez. — Daniel? Eles são meio pesados. Pode vir me ajudar?
Não pareça muito animado, Daniel.
Suspiro pesadamente.
— Está bem — respondo ao me afastar da mesa.
Olho para Holder, reviro os olhos e acompanho Six até lá fora. Nenhum de nós fala nada enquanto vamos até a lateral da casa. Ao chegar à janela, ela se vira.
— Eu menti — diz ela, com um olhar de preocupação, o que também me deixa preocupado.
— Sobre o quê?
Six balança a cabeça.
— Não comprei presente pra ninguém. Só não aguento mais nenhum segundo de tantas perguntas, e ainda ficar vendo você do outro lado da mesa sabendo que eu queria que estivéssemos a sós está tornando esse jantar muito irritante. Mas não tenho nenhum presente. Como vou voltar pra lá sem presente?
Tento não rir, mas adorei saber que Six estava tão irritada quanto eu. Eu estava começando a achar que podia ter algum problema.
— Podemos simplesmente ficar aqui e não voltar.
— Podemos — concorda. — Mas eles acabariam vindo atrás da gente.
E, além disso, seria falta de educação, pois Jack e Karen tiveram o maior trabalho para preparar esse jantar pra mim e, ah, meu Deus, e se for mesmo verdade, Daniel?
Não sei se sou eu ou se é mesmo muito difícil acompanhar o que ela diz, mas não faço ideia do que Six está falando.
— Se o que for verdade?
Ela solta o ar depressa.
— E se nossos sentimentos forem apenas psicologia reversa? E se no sábado Holder tivesse dito para você me chamar para sair? Talvez depois disso você não tivesse se interessado por mim. E se o único motivo pelo qual gostamos tanto um do outro é ser proibido? E se no instante em que eles descobrirem a verdade a gente passar a se odiar?
Odeio como a preocupação na voz de Six parece sincera, pois isso significa que ela acredita mesmo nessas baboseiras que está falando.
— Acha mesmo que só estou gostando de você porque não podia deixar isso acontecer?
Ela faz que sim com a cabeça.
Seguro a mão dela e a puxo de volta para a frente da casa.
— Daniel, não tenho nenhum presente!
Ignoro-a e a acompanho até os degraus da frente da casa, então abro a porta e a levo direto para a cozinha.
— Ei! — grito.
Todos se viram para a gente e ficam nos observando. Eu me viro para Six, que está de olhos arregalados. Inspiro fundo e giro o corpo para a mesa.
Mais especificamente para Holder.
— Ela me cumprimentou com o punho — digo, apontando para Six. —
Não foi culpa minha. Ela odeia bolsas e me cumprimentou com o punho e depois me fez empurrá-la numa porcaria de carrossel. Depois disso, pediu para ver onde eu tinha transado no parque e me obrigou a entrar escondido no meu próprio quarto. Ela é estranha e passo metade do tempo sem conseguir acompanhar o que está dizendo, mas Six me acha engraçado pra cacete. E hoje de manhã Bolota me perguntou se eu gostaria de amá-la um dia, e aí percebi que nunca quis tanto amar alguém quanto a ela. Então se algum de vocês tiver algum problema com a ideia de nós dois namorarmos, vão ter que deixar isso de lado, porque... — Paro e olho para Six. — Porque você me cumprimentou com o punho e não dou a mínima para quem sabe que estamos juntos. Não vou a lugar algum e não quero ir a lugar algum, então pare de achar que só estou a fim de você porque eu não devia deixar isso acontecer. — Ergo as mãos e inclino a cabeça dela para perto da minha.
— Estou a fim de você porque você é incrível. E porque me deixou esbarrar em seu peito por acidente.
Ela sorriu, e eu nunca tinha visto Six dar um sorriso tão grande.
— Daniel Wesley, onde aprendeu a dar em cima de uma garota tão bem?
Dou risada.
— Não é dar em cima, Six. É ter carisma.
Ela joga os braços ao redor do meu pescoço e me beija. Fico aguardando a hora em que Holder vai me puxar para longe dela, mas isso não acontece. Ficamos nos beijando por uns trinta segundos até que as pessoas começam a pigarrear. Ao se afastar de mim, Six ainda está sorrindo.
— Está achando diferente agora que eles sabem? — pergunto para ela.
— Estou até achando melhor.
Six empurra meu peito e dá uma risada irritada.
— Pare! Pare de dizer essas coisas que me deixam sorrindo como uma boba. Meu rosto está dolorido desde que o conheci.
Puxo-a para perto e a abraço, em seguida me dou conta de repente de que ainda estamos na cozinha de Sky e que todos estão nos encarando. Eu me viro, hesitante, e olho para Holder com a intenção de avaliar o tamanho da sua raiva. Ele nunca bateu em mim antes, mas já vi o que ele é capaz de fazer e não estou nem um pouco a fim de passar por isso.
Quando meu olhar encontra o dele, ele está... sorrindo. Está mesmo sorrindo.
Sky leva um guardanapo aos olhos, enxugando lágrimas.
Karen e Jack estão sorrindo.
Isso é estranho.
Muito estranho.
— Vocês conversaram com meus pais? — pergunto, com certa cautela.
— Eles ensinaram a vocês os truques de psicologia reversa, foi? Karen é a primeira a falar.
— Sentem-se. A comida de vocês está esfriando.
Dou um beijo na testa de Six e me sento à mesa. Continuo lançando olhares para Holder, mas ele não parece nada chateado. Na verdade, parece um pouco impressionado.
— Cadê o meu maldito presente? — pergunta Jack para Six. Ela limpa a garganta.
— Decidi esperar até o Natal. — Six pega o copo, aproxima-o da boca e olha para mim. Sorrio para ela.
Todos retomam as conversas que estavam tendo antes da minha interrupção. É como se ninguém estivesse muito chocado. Eles agem como se isso fosse completamente normal. Como se fosse algo natural... Six e eu.
E entendo totalmente, pois é mesmo. O que quer que haja entre nós é algo bom, e apesar de eu ainda nem saber quando é o aniversário dela... sei que isso é o certo. E, pela expressão no rosto de Six agora, ela também sabe.
* * *
— Gostei muito dessa aqui — digo, olhando para a foto nas minhas mãos.
Estou encostado na parede, sentado no chão do quarto de Sky, enquanto Six mostra para mim, Holder e Sky as fotos que tirou na Itália.
— Qual? — pergunta ela. Six está do meu lado, deitada no chão. Baixo o olhar para ela e viro a foto para que possa ver também. Ela balança a cabeça, revirando rapidamente os olhos. — Você só gostou dessa porque estou com um decote enorme.
Viro a foto para mim no mesmo instante. Ela tem razão. Adorei o decote. Mas na verdade não foi por causa disso que gostei. Foi porque ela parece feliz. Em paz.
— Tirei essa foto no dia em que cheguei à Itália — diz Six. — Pode ficar com ela.
— Obrigado. Não estava planejando devolvê-la.
— Considere isso um presente de aniversário de namoro — diz ela.
Imediatamente vejo a hora no celular.
— Ah. Nossa. É mesmo o nosso aniversário. — Mudo de posição até ficar em cima dela. — Quase esqueci. Sou o pior namorado do mundo. Não acredito que ainda não me deu um pé na bunda.
Ela sorri.
— Tudo bem. No próximo você lembra. — Ela põe a mão na minha nuca e me puxa para perto até nossos lábios se tocarem.
— Aniversário de namoro? — pergunta Sky, confusa. — Há quanto tempo exatamente vocês estão namorando, hein?
Eu me afasto de Six e me encosto na parede.
— Há exatamente vinte e quatro horas.
Um silêncio constrangedor espalha-se pelo quarto, e é evidente que Holder o interrompe.
— Será que sou o único que estou tendo um pressentimento ruim sobre isso?
— Acho ótimo — diz Sky. — Nunca vi Six tão... boazinha? Feliz?
Comprometida? Acho que faz bem a ela.
Six senta-se, põe os braços ao redor do meu pescoço e me puxa para o chão junto com ela.
— É porque nunca conheci alguém tão vulgar, indecente e terrível com primeiros beijos quanto Daniel. — Six puxa minha boca para perto da dela e me beija enquanto ri de si mesma.
Isso é novidade. Um beijo e uma risada ao mesmo tempo?
Acho que estou no céu.
— Six também tem um quarto, sabia? — comenta Holder.
Six para de rir. E de me beijar.
Estou prestes a incluir Holder na minha lista de pessoas chatas.
— Six não deixa nenhum pênis entrar no quarto dela — respondo sem desviar o olhar dela.
Six leva a boca até minha orelha.
— Contanto que não esteja esperando que eu acaricie o ego dele hoje à noite, até que estou a fim de beijar você na minha cama.
Não sabia que as pessoas podiam se sentir assim depois de tão pouco tempo. Isso deve ser algum recorde, pois minhas mãos vão para as costas e os joelhos dela e eu a ergo antes mesmo de assimilar por completo o que Six acabou de dizer. Ela joga os braços ao redor do meu pescoço e solta um gritinho enquanto me aproximo da janela de Sky. Eu a coloco no chão com delicadeza, depois praticamente a empurro para fora e começo a ir atrás dela sem nem me despedir de Sky e Holder.
— Eles são tão estranhos juntos — comenta Sky.
Escuto isso enquanto estou passando pela janela.
— Pois é — diz Holder, concordando. — Só que o mais estranho é que... eles combinam.
Eu paro.
Holder acabou mesmo de elogiar o meu namoro com Six? Não sei por que sempre quero tanto a aprovação dele, mas escutar seu comentário me deixou com uma estranha sensação de orgulho. Eu me viro, dou um passo em direção à janela e enfio a cabeça para dentro do quarto.
— Escutei o que você disse.
Ele olha para a janela, me vê inclinado para dentro e revira os olhos.
— Vá embora — diz ele, rindo.
— Não. Estamos compartilhando um momento íntimo.
Ele ergue uma das sobrancelhas, mas não responde.
— Você é meu melhor amigo, Holder.
Sky balança a cabeça e ri, mas Holder ainda está me encarando como se eu tivesse perdido o juízo.
— É sério — afirmo. — Você é meu melhor amigo e eu amo você. Não tenho vergonha de admitir que amo um homem. Amo você, Holder. Daniel Wesley ama Dean Holder. Para sempre.
— Daniel, vá se agarrar com sua namorada — diz ele, acenando para que eu vá embora.
Nego com a cabeça.
— Só quando você disser que me ama também.
Ele encosta a cabeça na cabeceira de Sky.
— Amo você, porra, agora SE MANDA DAQUI!
Sorrio.
— Amo você mais ainda.
Ele pega um travesseiro e o arremessa pela janela.
— Vaza daqui, seu tapado.
Eu rio e me afasto da janela.
— Vocês dois são tão estranhos juntos — diz Sky para ele.
Fecho a janela e me viro para Six. Ela já está em seu quarto, com a cabeça para fora da janela, apoiando o queixo nas mãos. Está sorrindo.
— Daniel e Holder estão namorando, estão namorando — cantarola ela.
Eu me aproximo e improviso o resto.
— Mas depois Daniel se afasta. — Termino a frase depressa. — E vai para a janela de Six, entra no quarto dela, a joga na cama e a beija até não aguentar mais porque precisa voltar pra casa e acariciar seu ego.
Ela começa a rir e se afasta para que eu entre no quarto.
Uma vez lá dentro, dou uma olhada ao redor e observo o cômodo.
Finalmente entendo o que Six quis dizer quando falou que meu quarto não era apenas um quarto. Estar nesse local é como ver quem é a verdadeira Six. Sinto como se eu pudesse estudar esse cômodo e tudo que existe nele e descobrir todas as coisas que preciso saber sobre ela.
Infelizmente, Six está de pé na frente da cama, parecendo um pouco nervosa e muito mais bonita do que eu mereço, e não consigo desviar o olhar dela por tempo suficiente para observar melhor o quarto.
Não consigo deixar de sorrir para ela. Já estou percebendo que esse vai ser o melhor aniversário de namoro que já tive. As luzes estão apagadas, então está um clima perfeito para a gente se beijar. Mas estamos em silêncio. Tamanho silêncio que consigo escutar sua respiração se acelerar a cada passo que dou para perto dela, bem devagar.
Merda. Talvez essa seja a minha respiração. Não sei bem, pois a cada centímetro que me aproximo preciso inspirar mais uma vez.
Quando a alcanço, Six está olhando para mim com uma mistura estranha de ansiedade e tranquilidade. Quero empurrá-la para a cama, deitar
em cima dela e beijá-la.
Eu poderia fazer isso, mas por que faria a única coisa que ela está esperando que eu faça?
Eu me inclino lentamente. Muito lentamente... até minha boca chegar tão perto de seu pescoço que ela nem tem como perceber se estou encostando em sua pele ou não.
— Preciso perguntar três coisas antes de a gente fazer isso — digo, baixinho, mas sério.
Eu me afasto só o suficiente para vê-la engolir em seco delicadamente.
— Antes de a gente fazer o quê? — pergunta ela, um pouco hesitante.
Levo a mão até sua nuca, afasto-me de seu pescoço e posiciono meus lábios bem perto dos seus.
— Antes de a gente fazer o que quer fazer. Antes de eu me aproximar mais um centímetro. E antes de você abrir os lábios o suficiente para que eu possa roubar o seu gosto. Antes de eu colocar as mãos em seus quadris e incliná-la para trás até que você não possa fazer nada a não ser se deitar.
Sinto a respiração de Six provocando meus lábios, o que é algo tão tentador que preciso me aproximar de sua orelha mais uma vez só para conseguir me afastar de sua boca.
— Antes que eu me deite sem pressa em cima de você e nossas mãos se tornem mais curiosas e corajosas. Antes que meus dedos deslizem por baixo da sua camisa. Antes que minhas mãos comecem a explorar, subindo pela sua barriga, me fazendo perceber que nunca toquei numa pele tão macia quanto a sua.
Ela solta uma arfada e exala tremulamente, o que é quase tão sexy quanto o cumprimento com o punho.
Talvez seja até mais sexy.
— Antes que eu finalmente encoste no seu peito de propósito.
Ela ri, mas sua risada é interrompida quando pressiono o polegar no centro de seus lábios.
— Antes que nossas respirações fiquem aceleradas e nossos corpos comecem a doer porque tudo que estamos sentindo está nos fazendo querer mais e mais um do outro... até o instante em que vou ter que implorar para você não me pedir para ir mais devagar. Então, para isso não acontecer, acabo tendo que afastar minha boca da sua e me obrigar a sair da sua cama.
Você se apoia nos cotovelos e fica me observando, desapontada, porque meio que queria que eu tivesse continuado, mas ao mesmo tempo fica
aliviada porque não continuei, pois sabe que teria cedido. Então, em vez de ceder, ficamos apenas nos encarando. Ficamos nos observando em silêncio enquanto meu coração começa a se acalmar e nossas respirações ficam mais lentas, mas ainda sentimos esse desejo insaciável, mas estamos pensando com mais lucidez agora que não estou mais em cima de você. Eu me viro, vou até sua janela e vou embora sem nem me despedir, pois nós dois sabemos que se um de nós disser uma palavra... isso vai acabar com nossa força de vontade e vamos ceder. Vamos ceder, e muito.
Levo a mão até sua bochecha. Ela solta um gemido e parece que está prestes a se jogar na cama, então coloco o outro braço ao redor dela e a puxo para perto.
— Então é isso... primeiro as três perguntas.
Eu a solto, me viro imediatamente e dois segundos depois escuto-a cair na cama. Vou até a cadeira da escrivaninha e me sento por duas razões. A primeira é que quero que ela ache que estou falando sério e que tudo que acabei de dizer não me afetou tanto quanto a ela. A segunda é que nunca senti tanto desejo na vida e meus joelhos cederiam se eu não me sentasse.
— Primeira pergunta — digo, olhando-a do outro lado do quarto. Ela está deitada, de olhos fechados, e odeio não poder observá-la mais de perto agora. — Quando é seu aniversário?
— Outubro... — Ela limpa a garganta, ainda se recuperando. — É 31 de outubro. Halloween.
Como é que a data do aniversário pode fazer com que eu me apaixone mais ainda por ela? Não faço ideia, mas é assim que me sinto.
— Segunda pergunta: qual sua comida preferida?
— Purê de batata caseiro.
Eu nunca teria adivinhado. Ainda bem que perguntei.
— Terceira pergunta — digo. — Essa é bem importante. Está preparada?
Ela faz que sim com a cabeça, mas continua de olhos fechados. — Qual objeto nesse quarto revela seu maior segredo?
Assim que a pergunta sai da minha boca, Six fica completamente paralisada. Ela para de respirar de forma exagerada e fica imóvel por quase um minuto antes de se levantar e se sentar na beirada da cama, de frente para mim.
— Precisa ser algo dentro desse quarto?
Faço que não com a cabeça devagar.
Ela ergue a mão e encosta um dedo no coração, apontando para ele.
— Aqui — sussurra ela. — Meu maior segredo está aqui dentro.
Seus olhos estão marejados e, de alguma forma, com essa resposta o clima entre a gente se transforma no mesmo instante. De uma maneira perigosa. De uma maneira apavorante. Porque parece que o ar dela se fundiu com o meu e de repente fico querendo respirar menos só para que ela nunca fique sem ar.
Me levanto e vou até a cama. Seus olhos me acompanham até eu ficar bem na frente dela.
— Levante-se.
Ela se levanta lentamente.
Toco seu cabelo com ambas as mãos até segurar a parte de trás de sua cabeça. Fico encarando Six até meu coração não aguentar mais, depois pressiono meus lábios nos dela. Já perdi a conta de quantas vezes eu a beijei nesse dia. Toda vez que a beijo, sinto algo completamente novo. O mais perto que já senti disso foi no dia em que fingi estar apaixonado pela garota no armário. Mas nem mesmo aquele dia, que eu achava que seria o melhor dia da minha vida, se compara a isso.
Sua boca está quente e convidativa e todas as outras coisas de sempre quando a beijo, mas também é bem mais do que isso. O fato de ela me afetar tanto após apenas um dia me deixa totalmente apavorado.
Um dia.
Estou fazendo isso com ela há um dia e não faço ideia do que está acontecendo. Não sei se é lua cheia ou se meu coração está tomado por um tumor ou se ela é mesmo uma bruxa. Seja lá qual for o motivo, isso não explica como é que coisas desse tipo podem existir entre duas pessoas com tanta rapidez... e durar.
Sinto como se no fundo eu soubesse que ela é boa demais para ser verdade. Minha mente e meu corpo inteiro sabem isso, então eu a beijo com mais intensidade, tentando me convencer de que isso é real. Não é um conto de fadas qualquer. Não é um faz de conta.
Isso é a realidade, mas nem mesmo na nossa realidade imperfeita as pessoas se apaixonam desse jeito. Elas não têm sentimentos tão fortes assim por alguém que mal conhecem.
A única coisa que meu raciocínio está provando para mim agora é o quanto eu preciso agarrá-la com força e me segurar nela, pois onde quer que ela vá eu também vou querer ir. E nesse momento ela está indo para trás,
acomodando-se na cama. Estou me deitando em cima dela, da mesma forma que disse que aconteceria. E estamos nos beijando assim como eu disse que faríamos, mas dessa vez é com um pouco mais de empolgação, de carência e puta merda.
A pele dela.
É mesmo a pele mais macia que já toquei.
Tiro a mão de sua cintura e enfio os dedos por debaixo de sua camisa, seguindo devagar em direção à sua barriga.
Ela afasta minha mão.
— Daniel.
Ela se levanta, e saio de cima dela no mesmo instante. Sua respiração está tão ofegante que prendo minha própria respiração, com medo de estar monopolizando o ar dela.
Ela parece arrependida e envergonhada por ter me pedido para parar de repente. Ergo a mão e aliso sua bochecha para tranquilizá-la.
Meus olhos analisam suas feições, observando seu jeito nervoso. Six está com medo do que pode acontecer entre a gente. Dá para ver no rosto dela e pela maneira como está olhando para mim que tem tanto medo quanto eu. Seja lá o que exista entre nós, é algo que nenhum dos dois estava procurando. Nem sabíamos que algo assim existia. E não estávamos preparados, mas sei que é o que queremos. Six quer tanto quanto eu que isso dê certo, e a expressão nos olhos dela me faz acreditar que vai mesmo dar certo. Nunca acreditei tanto em algo quanto acredito em nós dois.
Pela maneira como ela está me olhando, percebo que me deixaria beijá-la se eu tentasse. É quase como se ela estivesse dividida entre a garota que era antes e a que é agora, e ela tem medo de ceder se eu tentar beijá-la outra vez.
E tenho medo de que, se eu não me levantar e for embora agora, vou acabar deixando que ela ceda.
Nem precisamos dizer nada. Ela nem precisa me pedir para ir embora, pois sei que é isso que devo fazer. Balanço a cabeça, respondendo em silêncio à pergunta que não quero que ela faça. Começo a sair da cama, e um agradecimento silencioso surge em seus olhos. Eu me levanto, afasto-me e saio pela janela sem dizer uma palavra. Ando alguns metros até alcançar a parede de sua casa, me encosto nela e deslizo até o chão.
Inclino a cabeça para trás e fecho os olhos, tentando entender o que foi que eu fiz certo na vida para merecê-la.
— O que diabos está fazendo? — pergunta Holder.
Olho para cima e vejo que ele está com metade do corpo para fora da janela de Sky. Após sair, ele se vira e fecha a janela.
— Estou me recuperando — digo. — Estava precisando de um minutinho.
Ele se aproxima e se senta na minha frente, encostando na casa de Sky.
Ele ergue as pernas e apoia os cotovelos nos joelhos.
— Já está indo embora? — pergunto para ele. — Não são nem 9 horas ainda.
Ele estende o braço, arranca um pouco da grama e fica brincando com ela na mão.
— Fui expulso pelo resto da noite. Karen entrou no quarto e minha mão estava debaixo da camisa de Sky. Ela não gostou muito disso.
Dou risada.
— Então — diz ele, olhando para mim outra vez. — Você e Six, hein?