Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Colleen Hoover · Capítulo 5 de 23

Páginas do PDF

Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Capítulo Dois

— Contar o quê? — pergunta ela, sarcasticamente. — Até parece que vamos sair juntos numa noite aleatória de domingo ou coisa parecida.

Sorrio e me afasto, voltando devagar para o meu carro.

— Foi um prazer conhecê-la, Six.

Ela põe a mão na janela para fechá-la.

— Igualmente. Eu acho.

Dou uma risada e me viro na direção do meu carro. Estou quase alcançando a porta quando a escuto chamar meu nome. Eu me viro e vejo que ela está com a cabeça para fora da janela.

— Sinto muito pelo seu coração partido — sussurra ela, bem alto.

Depois volta para dentro do quarto e a janela se fecha.

Que coração partido? Tenho certeza de que é a primeira vez que meu coração sentiu algum alívio desde o instante em que comecei a sair com Val.

Capítulo Dois

— Estou bem assim? — pergunto para Bolota ao chegar à cozinha.

Ela se vira, olha para mim dos pés à cabeça e dá de ombros.

— Acho que sim. Aonde você vai?

Dou um passo para a frente de um dos espelhos que ficam no corredor e dou mais uma conferida no cabelo.

— Vou sair com uma garota.

Ela geme e se vira para a mesa na sua frente.

— Você nunca se importou com sua aparência antes. Acho bom não pedir essa garota em casamento. Eu me divorcio dessa família antes que você me obrigue a tratá-la como uma irmã.

Minha mãe passa por mim e dá um tapinha no meu ombro.

— Você está ótimo, querido. Mas eu não iria com esses sapatos.

Olho para eles.

— Por quê? O que tem de errado com eles?

Ela abre o armário, pega uma panela e se vira para mim. Lança um olhar para os meus sapatos mais uma vez.

— São chamativos demais. — Ela se vira e vai até o fogão. — Nenhum sapato devia ser fluorescente.

— Eles são amarelos, e não fluorescentes.

— Isso é amarelo fluorescente — afirma Bolota.

— Não estou dizendo que são feios — diz minha mãe. — É que conheço a Val, e é bem provável que ela vá odiar esses sapatos.

Vou até o balcão da cozinha, pego minhas chaves e guardo o celular no bolso.

— Não dou a mínima para o que a Val pensa.

Minha mãe vira-se e olha para mim, curiosa.

— Bem, se está perguntando para a sua irmã de 13 anos se está bonito antes de sair, acho que se importa, sim, com o que ela pensa.

— Não vou sair com a Val. Terminei com ela. Hoje vou sair com outra garota.

Bolota ergue os braços no ar e olha para o céu.

— Graças a Deus! — exclama ela.

Minha mãe ri e balança a cabeça.

— Isso mesmo. Graças a Deus — diz ela, aliviada.

Depois se vira de volta para o fogão, e não consigo parar de olhar para as duas.

— O quê? Nenhuma de vocês gostava da Val? — Sei que Val é uma vaca, mas minha família parecia gostar dela. Especialmente minha mãe. Na verdade achei que minha mãe fosse ficar chateada com o fim do namoro.

— Odeio a Val — diz Bolota.

— Nossa, eu também — acrescenta minha mãe.

— Eu também — concorda meu pai, passando por mim.

Nenhum deles está olhando para mim, mas os três responderam como se já tivessem conversado sobre o assunto.

— Quer dizer que todos vocês odiavam a Val?

Meu pai se vira para mim.

— Sua mãe e eu somos mestres em psicologia reversa, Danny-boy. Não devia ficar tão surpreso assim.

Bolota ergue a mão na direção do meu pai.

— Eu também, pai. Eu também usei psicologia reversa com ele.

Meu pai estende o braço e dá um high five nela.

— Muito bem, Bolota.

Eu me encosto no batente da porta e fico olhando para eles.

— Vocês estavam apenas fingindo que gostavam da Val? Por que diabos fizeram isso?

Meu pai se senta à mesa e pega um jornal.

— Os filhos sempre tendem a fazer escolhas que desagradam aos pais.

Se contássemos para você o que realmente achávamos da Val, o mais provável era que você acabasse se casando com ela só para nos irritar. E foi por isso que a gente fingiu que adorava ela.

Sacanas. Os três.

— Vocês nunca mais vão conhecer minhas namoradas.

Meu pai ri, mas não parece desapontado.

— Quem é ela? — pergunta Bolota. — Finalmente é uma garota que você está se esforçando para impressionar.

— Não é da sua conta — respondo. — Agora que sei como essa família funciona, nunca vou deixá-la chegar perto de nenhum de vocês.

Eu me viro na direção da porta e minha mãe me chama.

— Bem, se isso ajuda, Daniel, a gente já adora essa menina!

Ela é um amor!

— E muito bonita — diz meu pai. — Essa é pra casar!

Balanço a cabeça.

— Vocês não prestam.

* * *

— Está atrasado — diz Six ao aparecer na porta.

Ela sai de casa virada de costas para mim, enfiando a chave na fechadura.

— Não quer que eu conheça seus pais? — pergunto, querendo saber por que ela precisa trancar a porta se ainda está tão cedo.

Ela se vira para mim.

— Eles são velhos. Jantaram dez horas atrás e foram dormir às sete.

Azuis. Os olhos dela são azuis.

Puta merda, que garota linda. Seu cabelo é mais claro do que pensei quando a vi ontem à noite no quarto de Sky. A pele é impecável. É como se ela fosse a mesma garota de ontem, mas em alta definição. E eu tinha razão.

Ela parece mesmo uma porra de um anjo.

Six sai do caminho e fecho a porta de tela, ainda sem conseguir desviar o olhar dela.

— Na verdade, cheguei cedo — digo, finalmente respondendo ao primeiro comentário que ela fez. — Holder estava deixando Sky em casa e juro que eles demoraram meia hora para se despedir. Tive que esperar até a barra ficar limpa.

Ela põe a chave de casa no bolso de trás da calça e balança a cabeça.

— Pronto?

Olho-a dos pés à cabeça.

— Esqueceu sua bolsa? — Ela nega com a cabeça.

— Não. Odeio bolsas. — Ela dá um tapinha no bolso de trás. — Só preciso da chave de casa. Não me dei ao trabalho de trazer dinheiro porque foi você que me convidou. Vai pagar, não é?

Nossa.

Calma aí.

Vamos examinar esses últimos trinta segundos, certo?

Ela odeia bolsas. O que significa que não trouxe maquiagem. O que quer dizer que não vai ficar retocando essas merdas como a Val fazia.

Também significa que não está escondendo um litro de perfume em algum lugar do corpo. Mas também significa que ela não está planejando se oferecer para pagar sua parte do jantar, o que me parece um pouco antiquado, mas por alguma razão gosto disso.

— Amo o fato de você não usar bolsa.

— Também amo o fato de você não usar bolsa — diz ela, rindo.

— Eu uso, sim. Está no meu carro — digo, voltando a cabeça na direção dele.

Ela dá outra risada e vai para os degraus da varanda. Faço a mesma coisa, mas vejo Sky em pé dentro do quarto com a janela toda aberta.

Imediatamente, seguro nos ombros de Six e a puxo até nós dois estarmos encostados na porta da casa.

— Dá pra ver a janela de Sky da frente da casa. Assim ela vai nos ver.

Six olha para mim.

— Você está mesmo levando a sério essa história de não poder sair comigo.

— Eu preciso levar a sério — sussurro. — Holder não brinca quando me proíbe de sair com alguém.

Ela ergue a sobrancelha demonstrando curiosidade.

— E Holder costuma mesmo dizer com quem você pode ou não sair?

— Não. Na verdade, você é a primeira garota com quem ele faz isso.

Ela ri.

— Então como sabe que ele vai ficar com raiva?

Dou de ombros.

— Na verdade, não sei. Mas parece divertido esconder isso dele. Não acha um pouco empolgante esconder isso de Sky?

— É — concorda ela, dando de ombros. — Acho que sim.

Ainda estamos encostados na porta e, por alguma razão, continuamos sussurrando. Até parece que Sky conseguiria nos escutar de lá, mas sussurrar deixa a situação mais divertida. E gosto muito do som da voz de Six quando ela sussurra.

— O que sugere que a gente faça para sair dessa situação, Six?

— Bem — diz ela, pensando na minha pergunta por um instante. —

Normalmente, quando estou num encontro arriscado, secreto e clandestino e

preciso escapar da minha casa sem ser notada, eu me pergunto: o que MacGyver faria?

Meu Deus, essa garota acabou de mencionar MacGyver?

Caraca.

Desvio o olhar por tempo suficiente para disfarçar que estou achando que acabei de me apaixonar por ela e também para pensar na nossa rota de fuga. Olho para o balanço na varanda e volto a olhar para Six após ter certeza de que o sorriso bobo desapareceu do meu rosto.

— Acho que MacGyver pegaria o balanço da sua varanda e construiria um campo de força com grama e fósforos. Depois colaria um motor de avião nele próprio e sairia voando daqui sem ninguém perceber.

Infelizmente não tenho nenhum fósforo aqui comigo.

Six acha graça.

— Hummm — diz ela, apertando os olhos como se estivesse elaborando um plano brilhante. — Que inconveniência mais infeliz. — Ela olha para o meu carro estacionado na entrada da casa e depois para mim. — Podíamos ir engatinhando até o seu carro, assim ela não vai nos ver.

E seria um plano brilhante se não envolvesse deixar uma garota suja.

Nos meus seis meses de idas e vindas com Val, aprendi que garotas não gostam de se sujar.

— Você vai sujar as mãos de terra. Acho que não vão deixar você entrar num restaurante japonês chique com as calças e as mãos sujas.

Ela olha para a calça jeans e depois para mim.

— Podemos ir então para uma churrascaria ótima que conheço. O chão é coberto de cascas de amendoim. Uma vez vi um cara muito gordo comendo lá dentro e ele estava até sem camisa.

Sorrio para Six no mesmo instante em que me apaixono ainda mais por ela.

— Parece perfeito.

Ficamos de quatro e saímos engatinhando da varanda. Ela está rindo e sua risada me faz rir também.

— Shh — sussurro ao chegarmos ao último degrau. Engatinhamos com pressa pelo jardim, olhando para a casa de Sky a cada poucos metros.

Assim que alcançamos o carro, estico a mão para a maçaneta da porta. —

Vá para o lado do carona — digo para Six. — É menos provável que ela veja você de lá.

Abro a porta para ela, que vai para o banco do carona. Depois que ela já está dentro do carro, é a minha vez de entrar e deslizar para o meu lugar.

Nós dois estamos agachados, o que é meio inútil, se pararmos para pensar.

Se Sky olhar pela janela do quarto, verá meu carro estacionado na frente da casa de Six. Não faz diferença se ela vir nossas cabeças ou não.

Six limpa a terra das mãos na calça jeans, o que me dá o maior tesão.

Ela vira a cabeça para mim, e eu continuo encarando a terra espalhada pela coxa da sua calça. De alguma maneira, consigo desviar o olhar e encará-la.

— Da próxima vez que vier pra cá, vai ter que esconder seu carro — diz ela. — Isso foi muito arriscado.

Gosto um pouco demais do comentário dela.

— Já está confiante achando que vai ter uma próxima vez? — pergunto, sorrindo com malícia para ela. — Nosso encontro mal começou.

— Bem lembrado — diz ela, dando de ombros. — Talvez no fim da noite eu esteja odiando você.

— Ou talvez eu esteja odiando você.

— Impossível. — Ela põe os pés no painel. — Sou inodiável.

— Inodiável nem é uma palavra de verdade.

Ela olha por cima do ombro para o banco de trás e depois se vira para a frente franzindo a testa.

— Por que está cheirando como se tivesse passado um harém de vadias por aqui? — Ela tapa o nariz com a camisa para evitar o cheiro.

— Ainda está com cheiro de perfume? — Eu nem sinto mais.

O cheiro provavelmente se infiltrou nos meus poros, me deixando imune.

Ela faz que sim com a cabeça.

— É insuportável — afirma ela, com a voz abafada pela camisa. —

Abaixe o vidro. — Faz um barulho fingindo que está cuspindo, como se estivesse tentando tirar o gosto da boca, o que me faz rir.

Ligo o carro, engato a ré e começo a sair da entrada da casa dela.

— O vento vai bagunçar seu cabelo se eu abaixar o vidro. Você não trouxe bolsa, o que significa que não trouxe uma escova, então não vai ter como pentear o cabelo quando chegarmos ao restaurante.

Ela estende o braço e aperta o botão para abaixar o vidro da janela.

— Já estou suja e prefiro ficar com o cabelo bagunçado do que fedendo a um harém — diz ela, abaixando o vidro completamente e gesticulando para que eu faça o mesmo, então abaixo o meu.

Ponho o carro em drive e piso no pedal. O carro se enche imediatamente de vento e ar fresco, e o cabelo dela começa a esvoaçar em todas as direções, mas ela relaxa no banco. — Bem melhor — comenta, sorrindo para mim.

Depois fecha os olhos ao inspirar fundo o ar fresco.

Tento prestar atenção na rua, mas ela está dificultando muito isso.

* * *

— Como seus irmãos se chamam? — pergunto para ela. — Eles também têm nomes de números?

— Zachary, Michael, Aaron e Evan. Sou dez anos mais nova que o mais novo.

— Você foi um acidente?

Ela faz que sim com a cabeça.

— O melhor tipo de acidente. Minha mãe tinha 42 anos quando me teve, mas meus pais ficaram animados por ser uma menina.

— Fico feliz por você ter nascido menina.

Ela ri.

— Eu também.

— Por que seu nome é Six se você foi a quinta a nascer?

— Meu nome não é Six. Meu nome completo é Seven Marie Jacobs, mas fiquei com raiva dos meus pais porque nos mudamos para o Texas quando eu tinha 14 anos, então comecei a me apresentar como Six só para irritá-los. Eles não se importaram muito, mas eu era teimosa e não quis ceder de jeito nenhum. Hoje em dia todo mundo me chama de Six, menos eles.

Amo o fato de ela ter dado um apelido para si mesma. Essa garota faz mesmo o meu tipo.

— Mas a pergunta ainda é válida — digo. — Por que eles escolheram o nome Seven se você foi a quinta a nascer?

— Por nenhum motivo. Meu pai gostava do número sete e pronto.

Balanço a cabeça e dou uma garfada, observando-a atentamente. Estou esperando aquele momento. O momento que sempre acaba acontecendo com as garotas, quando o pedestal em que você as colocou no início é chutado para longe. Costuma ser quando elas começam a falar de ex-

namorados ou de quantos filhos querem ter ou quando fazem algo bem irritante, como passar batom no meio do jantar.

Estou esperando pacientemente os defeitos de Six virem à tona, mas até agora não vi nenhum. Tudo bem que só interagimos por três ou quatro horas no total, então talvez os defeitos dela só estejam mais bem escondidos do que os das outras pessoas.

— Então você é o filho do meio? — pergunta ela. — Você sofre da síndrome do filho do meio?

Nego com a cabeça.

— Provavelmente tanto quanto você sofre da síndrome da quinta filha.

Além disso, Hannah é quatro anos mais velha que eu e Bolota é cinco mais nova, então as idades são bem espaçadas.

Ela engasga com a bebida ao dar risada.

— Bolota? Você chama sua irmã mais nova de Bolota?

— Todos nós a chamamos de Bolota. Ela foi uma bebê gordinha.

Six ri.

— Você dá apelidos pra todo mundo — comenta. — Você chama Sky de Peitinho de Queijo. Chama Holder de Hopeless. Como vai me chamar quando eu não estiver por perto?

— Quando escolho um apelido pra alguém, faço isso na frente da pessoa. E ainda não encontrei nenhum pra você. — Eu me recosto e me pergunto por que não dei um apelido para ela ainda. Normalmente escolho com bastante rapidez.

— É uma coisa ruim eu ainda não ter ganhado um apelido?

Dou de ombros.

— Na verdade, não. Só estou tentando entendê-la. Você é um pouco contraditória.

Ela ergue a sobrancelha.

— Sou contraditória? De que maneira?

— De todas as maneiras. Você é bonita pra cacete, mas não dá a mínima pra sua aparência. Parece ser boazinha, mas tenho a impressão de que é o equilíbrio perfeito entre bondade e maldade. Você parece ser muito tranquila, como se não fosse o tipo de garota que faz joguinhos, mas gosta de flertar. E não estou julgando ninguém com o comentário que estou prestes a fazer, mas já ouvi falar da sua reputação, e ainda assim você não parece ser o tipo de menina que precisa da atenção de um garoto para aumentar a autoestima.

Ela está com uma expressão angustiada enquanto assimila tudo que acabei de dizer. Então pega o copo e dá um gole sem desviar o olhar de mim. Quando acaba de beber, mantém o copo encostado nos lábios, pensativa. Depois de um tempo, o coloca de volta na mesa e olha para o prato, erguendo o garfo.

— Não sou mais assim — diz ela, baixinho, evitando meu olhar.

— Assim como? — Odeio a tristeza que surgiu na voz dela.

Por que eu sempre tenho que falar besteiras?

— Não sou mais como antes.

Isso aí, Daniel. Seu imbecil.

— Bem, eu não a conhecia antes, então tudo que posso fazer é julgar a garota que está sentada na minha frente nesse momento. E até agora ela está me parecendo uma menina bem legal.

O sorriso reaparece nos lábios dela.

— Que bom — diz, olhando para mim novamente. — Não sabia como eu ia me sair, porque é a primeira vez que tenho um encontro.

Dou uma risada.

— Não precisa dizer isso para inflar meu ego — digo. — Consigo aceitar que não sou o primeiro cara a demonstrar interesse por você.

— Estou falando sério — retruca ela. — Nunca tive um encontro de verdade antes. Os garotos costumam pular essa parte comigo e vão direto ao que querem.

Meu sorriso desaparece. Pela sua expressão, vejo que ela está falando sério mesmo. Eu me inclino para a frente e a encaro.

— Esses caras eram uns merdas.

Ela ri, mas eu não.

— Estou falando sério, Six. Todos esses caras precisam de um belo chute no saco, pois o que você tem de melhor é o seu papo.

Quando digo a frase, o sorriso desaparece de seu rosto. Six olha para mim como se ninguém nunca a tivesse elogiado. Fico furioso com isso.

— Como sabe que é isso que tenho de melhor? — pergunta ela, voltando a encontrar de alguma maneira aquele tom de voz provocante e sedutor. — Você ainda nem teve o prazer de me beijar. Tenho certeza de que isso é o que tenho de melhor, porque o meu beijo é fenomenal.

Meu Deus. Não sei se isso foi um convite, mas quero aceitar nesse segundo.

— Não tenho nenhuma dúvida de que receber um beijo seu seria fantástico, mas, se eu tiver que escolher, sempre vou preferir conversar com você a beijá-la.

Ela estreita os olhos.

— Mentira! — exclama, com um olhar desafiador. — Um garoto jamais ia preferir conversar a dar uns pegas.

Tento retribuir o olhar desafiador dela, mas seu argumento é bem sensato.

— Tudo bem — admito. — Talvez você tenha razão. Mas pra mim o ideal seria beijá-la durante nossa conversa. Assim aproveito as duas melhores coisas.

Ela balança a cabeça, impressionada.

— Você é muito bom nisso — diz, recostando-se na cadeira. Ela cruza os braços. — Onde aprendeu a dar em cima de uma garota tão bem?

Limpo a boca com o guardanapo e o coloco em cima do prato. Ergo os cotovelos até apoiá-los no encosto do assento e sorrio para ela.

— Isso não é dar em cima. É que sou carismático, só isso... não lembra?

Surge um sorriso em sua boca e Six balança a cabeça como se soubesse que está encrencada. Os olhos dela estão sorrindo e percebo que nunca tinha me sentido assim com uma garota. Não que eu tenha colocado na cabeça que estamos quase nos apaixonando, que somos almas gêmeas ou alguma merda desse tipo. Só estou dizendo que nunca fiquei perto de uma garota com a qual pudesse ser eu mesmo. Com Val, eu sempre fazia de tudo para não irritá-la. Com minhas outras namoradas, sempre percebia que estava me segurando para não dizer todas as bobagens que queria. Sempre achei que ser eu mesmo perto de uma garota não era necessariamente algo bom porque — e sou o primeiro a admitir isso — às vezes sou um pouco exagerado.

No entanto, com Six é diferente. Ela entende o meu senso de humor e minha personalidade, mas sinto até mesmo como se ela os estimulasse.

Sinto que gosta mesmo do meu verdadeiro eu, e toda vez que ri ou abre um sorriso no momento perfeito acabo tendo vontade de bater meu punho no dela.

— Você está me encarando — diz Six, interrompendo meus pensamentos.

— Estou mesmo — digo, sem me dar ao trabalho de desviar o olhar. Six me encara de volta, mas seu comportamento e sua expressão vão se tornando competitivos enquanto ela estreita os olhos e se inclina para a frente. Está me desafiando em silêncio para ver quem consegue encarar o outro por mais tempo.

— Não vale piscar — diz, confirmando meus pensamentos.

— Nem rir — acrescento.

Então começa. Ficamos nos encarando por tanto tempo que meus olhos começam a lacrimejar e minhas mãos, a segurar a mesa com mais força. Eu me esforço ao máximo para fitá-la nos olhos, mas quero encarar cada centímetro dela. Sua boca, aqueles lábios grossos e rosados e o cabelo louro e macio. Sem mencionar o sorriso. Eu podia passar o dia inteiro encarando aquele sorriso.

Na verdade, estou olhando para ele agora, e tenho certeza de que isso significa que perdi a brincadeira.

— Ganhei — diz ela, e logo depois toma mais um gole de água.

— Quero beijar você — digo com sinceridade.

Fico um pouco chocado por dizer isso, mas não muito. Não estou com muita paciência, quero muito dar um beijo nela e costumo dizer seja lá o que for que eu esteja pensando, então...

— Agora? — pergunta Six, olhando para mim como se eu fosse louco.

Ela põe o copo de volta na mesa.

Faço que sim com a cabeça.

— Isso. Agorinha. Quero beijar você durante a nossa conversa para aproveitar as duas coisas.

— Mas acabei de comer cebola — diz ela.

— Eu também.

Ela está movendo a mandíbula para a frente e para trás, pensando mesmo numa resposta.

— Tudo bem — diz ela, dando de ombros. — Por que não?

Assim que ela me dá permissão, olho para a mesa na nossa frente, me perguntando qual a melhor maneira de fazer isso. Eu poderia me sentar ao lado dela, mas talvez isso seja invadir muito o espaço pessoal. Estendo o braço para a frente, empurro meu copo para o lado e depois o dela.

— Venha aqui — digo, colocando as mãos em cima da mesa ao me inclinar em sua direção.

Six deve ter pensado que eu estava brincando, pela maneira como seus olhos investigam, nervosos, o restaurante, assimilando o fato de que nosso

primeiro beijo será em público.

— Daniel, isso é constrangedor. Quer mesmo que nosso primeiro beijo seja no meio de um restaurante?

Faço que sim com a cabeça.

— E daí que é constrangedor? Depois podemos repetir. E as pessoas levam muito a sério esse negócio de primeiro beijo.

Hesitante, Six põe as palmas das mãos na mesa, ergue-se e se inclina na minha direção.

— Está bem — concorda ela, suspirando logo em seguida. — Mas seria tão melhor se você esperasse até o fim do encontro, depois de me acompanhar até a porta da minha casa. Estaria escuro e a gente ficaria bem nervoso e você acabaria esbarrando em mim por acidente. É assim que os primeiros beijos devem ser.

Dou risada com o comentário dela. Ainda não estamos perto o suficiente para nos beijar, mas não falta muito para chegarmos lá. Eu me inclino um pouco mais para a frente, mas o olhar dela desvia do meu e se foca na mesa atrás de mim.

— Daniel, tem uma mulher na mesa atrás de você trocando a fralda do bebê na mesa. Você está prestes a me beijar e a última coisa que vou ver antes de seus lábios encostarem nos meus vai ser uma mulher limpando a bunda do filho.

— Six. Olhe pra mim. — Ela volta a olhar para mim e finalmente ficamos perto o suficiente para que eu consiga alcançar sua boca. — Ignore a fralda. E ignore os dois homens sentados à nossa esquerda que estão tomando cerveja e nos observando como se eu estivesse prestes a deitar você na mesa.

Ela olha para a esquerda, então seguro seu queixo e a obrigo a prestar atenção em mim.

— Ignore tudo isso. Quero beijar você, quero que queira me beijar e não estou a fim de esperar até chegar à sua varanda, pois nunca senti tanta vontade de beijar alguém.

O olhar dela se volta para minha boca, e eu fico observando tudo ao nosso redor desaparecer do campo de visão dela. Six põe a língua para fora umedece os lábios antes de escondê-la mais uma vez. Passo a mão por seu queixo até sua nuca e a puxo para a frente até nossos lábios se encontrarem.

E, puta merda, eles se encontram mesmo. Nossas bocas se fundem como se já fossem apaixonadas uma pela outra e estivessem se encontrando

pela primeira vez em anos. Minha barriga parece estar no meio de uma maldita rave, e meu cérebro está tentando lembrar como se faz isso. É como se eu de repente tivesse me esquecido como se beija alguém, apesar de fazer apenas um dia que terminei com a Val. Tenho quase certeza de que beijei a Val ontem, mas por alguma razão meu cérebro está reagindo como se tudo isso fosse novo e me mandando abrir os lábios ou brincar com a língua dela, mas os sinais simplesmente não estão chegando na minha boca.

Ou então vai ver que minha boca está me ignorando por estar paralisada devido ao calor macio que está sendo pressionado contra ela.

Não sei o que está acontecendo, mas nunca fiquei com os lábios de uma garota entre os meus por tanto tempo sem respirar, me mexer nem prolongar o beijo até onde der.

Inspiro, apesar de não respirar há quase um minuto. Passo a segurar a cabeça dela com menos firmeza e vou afastando meus lábios lentamente.

Abro os olhos e percebo que os dela ainda estão fechados. Seus lábios ainda não se moveram e ela está respirando de maneira silenciosa e superficial enquanto eu continuo parado próximo ao seu rosto, observando-a.

Não sei se Six estava esperando mais do beijo. Não sei se ela já tinha dado um selinho em alguém antes. Não sei o que está pensando, mas amo essa expressão do rosto dela nesse momento.

— Não abra os olhos — sussurro, ainda encarando-a. — Só me deixe olhar para você por mais uns dez segundos, porque você está incrivelmente bonita agora.

Six morde o lábio inferior querendo disfarçar o sorriso e não se mexe.

Mantenho a mão na cabeça dela e fico contando em silêncio os dez segundos até escutar a garçonete parar ao lado da nossa mesa.

— Posso trazer a conta?

Ergo o dedo, pedindo que a garçonete espere um segundo. Bem, cinco segundos para ser mais exato. Six não mexe um único músculo, mesmo após escutar a garçonete. Conto o restante dos dez segundos ainda em silêncio, então Six abre os olhos e olha para mim.

Eu me afasto dela, deixando vários centímetros de distância entre nós.

Continuo olhando-a bem nos olhos.

— Pode, por favor — respondo à garçonete.

Escuto-a rasgar a conta do bloco e colocá-la na mesa. Six sorri e então começa a rir. Ela se afasta de mim e se recosta no assento.

Respiro e sinto como se o ar fosse totalmente novo.

Eu me recosto devagar mais uma vez, observando-a enquanto ri. Six empurra a conta para mim.

— Isso é seu — afirma ela.

Ponho a mão no bolso, tiro a carteira e coloco o dinheiro em cima da conta. Eu me levanto e estendo o braço para segurar a mão de Six. Ela olha para minha mão, sorri e a segura. Depois que ela se levanta, passo o braço ao redor de seu ombro e a puxo para perto.

— Vai me dizer o quanto esse beijo foi incrível ou prefere ignorar isso?

Ela balança a cabeça e ri para mim.

— Aquilo não foi nem um beijo de verdade — diz ela. — Você nem ao menos tentou colocar a língua dentro da minha boca.

Empurro as portas para sairmos, mas dou um passo para o lado e a deixo sair primeiro.

— Não precisei enfiar a língua na sua boca. Meus beijos já são intensos demais. Na verdade não preciso fazer nada. Só me afastei porque tinha certeza de que a gente estava prestes a vivenciar um momento clássico de Harry & Sally: Feitos um para o outro.

Six dá mais uma risada.

Nossa, eu amo o fato de ela me achar engraçado.

Abro a porta do carona, só que Six para antes de entrar no carro. Olha para mim.

— Você sabe que naquela cena clássica Sally está querendo provar o quanto é fácil para as mulheres fingirem orgasmos, não é?

Nossa, eu amo o fato de achá-la engraçada.

— Preciso levá-la para casa agora? — pergunto.

— Depende do que tem em mente.

— Não tenho nada em mente — admito. — Só não queria levá-la para casa ainda. Só acho que podíamos estacionar perto da minha casa. Tem um parquinho lá.

Ela sorri.

— Então vamos — diz, erguendo o punho fechado na frente do corpo.

Naturalmente, ergo meu punho e bato no dela, que entra no carro. Fecho a porta, perplexo por Six ter acabado de me cumprimentar com o punho.

A garota acabou de me cumprimentar com o punho e isso provavelmente foi a coisa mais sensual que já vi na vida.

Vou para o lado do motorista, abro a porta e me sento. Antes de ligar o carro, me viro para ela.

— Por acaso, você é um garoto?

Ela ergue a sobrancelha, puxa a gola da camisa e dá uma olhada no próprio peito.

— Não. Sou uma garota da cabeça aos pés.

— Está namorando alguém?

Ela balança a cabeça.

— Vai embora do país amanhã?

— Não — responde ela, com uma expressão nitidamente confusa diante das minhas inúmeras perguntas.

— Então o que está escondendo?

— Como assim?

— Todo mundo esconde alguma coisa, mas não estou conseguindo descobrir o seu segredo. Sabe, aquele único segredo que acaba mudando tudo. — Ligo o carro e começo a dar ré. — Quero saber agora mesmo qual é o seu. Meu coração não aguenta mais essas pequenas coisinhas que você faz que me enlouquecem completamente.

O sorriso dela muda. A sinceridade que havia nele se transforma em cautela.

— Todos temos nossos segredos, Daniel. Alguns de nós simplesmente esperam que eles fiquem escondidos para sempre.

Ela abaixa o vidro da janela e o barulho da rua nos impossibilita de continuar conversando. Tenho quase certeza de que o cheiro fortíssimo do perfume já era, então fico curioso para saber se dessa vez ela abaixou o vidro por estar precisando do barulho.

* * *

— Você traz todas as garotas com quem sai pra cá? — pergunta ela.

Fico pensando em sua pergunta por um instante antes de responder:

— Praticamente todas — digo, por fim, após pensar em silêncio nos términos de todos os meus encontros. — Uma vez saí com uma garota no segundo ano, mas tive que levá-la para casa no meio do encontro porque ela estava com algum vírus estomacal. Acho que foi a única que eu não trouxe pra cá.

Ela enfia os tornozelos na terra e para o balanço. Estou em pé atrás dela, então Six se vira e olha para mim.

— Sério? Você trouxe todas aqui, menos uma?

Dou de ombros. Depois balanço a cabeça.

— Trouxe. Mas nenhuma delas quis brincar. Normalmente a gente só ficava se agarrando mesmo.

Estamos aqui há meia hora e ela já me fez ficar observando-a se pendurar nas barras e empurrá-la no carrossel e, nos últimos dez minutos, fiquei empurrando-a no balanço. Mas não estou reclamando. É legal. Muito legal.

— Você já transou com alguém aqui? — pergunta ela.

Não sei muito bem como interpretar a franqueza dela. Nunca conheci alguém que faz as mesmas perguntas diretas que eu, então estou começando a me compadecer um pouco das pessoas que deixei em situações constrangedoras como essa agora. Dou uma olhada no parquinho até avistar o castelo de madeira. Aponto para ele.

— Está vendo o castelo?

Ela vira a cabeça na direção dele.

— Você transou lá dentro?

Abaixo o braço e enfio as mãos nos bolsos de trás da calça.

— Pois é.

Ela se levanta e começa a ir até lá.

— O que está fazendo? — pergunto para ela.

Não sei por que Six está indo para o castelo, mas tenho quase certeza de que não é porque ela é meio esquisita e quer transar no mesmo lugar em que transei com Val duas semanas atrás.

Ou será que quer?

Meu Deus, espero que não.

— Quero ver onde foi que você transou — diz ela com um tom de voz neutro. — Mostre pra mim.

Essa garota me deixa completamente confuso. O mais estranho é o quanto estou amando isso. Começo a correr até alcançá-la. Caminhamos para o castelo. Ela olha para mim, esperando, então aponto para a entrada.

— Bem aí — digo.

Ela vai até a entrada e dá uma olhada lá dentro. Investiga o local por cerca de um minuto e depois sai.

— Parece bem desconfortável — comenta.

— E foi mesmo.

Six acha graça.

— Se eu contar uma coisa, você promete que não vai me julgar? Reviro os olhos.

— Julgar faz parte da natureza humana.

Ela inspira e depois solta o ar.

— Já transei com seis pessoas diferentes.

— Ao mesmo tempo? — pergunto.

Ela empurra meu braço.

— Pare. Estou tentando ser sincera com você. Tenho só 18 anos e perdi a virgindade com 16. Além disso, não transo com ninguém há um ano, mais ou menos, então se você fizer as contas foram seis pessoas em pouco mais de quinze meses. É praticamente uma pessoa diferente a cada dois meses e meio. Só piranhas fazem esse tipo de coisa.

— Por que não transa com ninguém há mais de um ano?

Ela revira os olhos e passa ao meu lado. Vou atrás dela. Six se senta no balanço. Eu me sento no balanço ao lado e viro o corpo para ficar diante dela, que está olhando para a frente.

— Por que não transa com ninguém há mais de um ano? — repito a pergunta. — Não conheceu ninguém interessante na Itália?

Não consigo ver seu rosto, mas pela linguagem corporal percebo que esse pode ser o seu segredo. Aquilo que vai mudar tudo para mim.

— Conheci um garoto na Itália — revela, baixinho. — Mas não quero falar sobre ele. E, sim, é por causa dele que não transo há mais de um ano.

— Ela olha para mim. — Olhe, sei que todo mundo conhece minha reputação e não sei se foi por isso que você me trouxe pra cá nem o que está querendo que aconteça no fim desse encontro, mas não sou mais aquela garota.

Levanto as pernas até meu balanço ir para a frente.

— A única coisa que eu estava querendo que acontecesse no fim do encontro era um beijo na varanda da sua casa — digo. — E talvez que eu esbarrasse acidentalmente em você.

Ela não ri. De repente, começo a ficar puto por ter trazido a Six para cá.

— Six, eu não trouxe você aqui porque estava esperando alguma coisa.

Sei que já trouxe outras garotas, mas só porque moro do outro lado da rua e venho muito aqui. E, sim, talvez fosse para ter um pouco de privacidade enquanto dava uns amassos, mas só porque muito provavelmente eu queria que elas calassem a boca, me beijassem e mais nada, pois estavam me irritando pra cacete. Mas você eu só trouxe porque não queria levá-la para

casa ainda. E nem quero que a gente comece a se agarrar, porque estou gostando demais de conversar com você.

Fecho os olhos, desejando não ter dito tudo isso. Sei que garotas gostam de caras que fazem o papel de babaca desinteressado. Costumo fazer esse papel muito bem, mas não com Six. Talvez normalmente eu seja mesmo um babaca desinteressado, mas com ela eu não podia estar mais interessado, curioso e esperançoso.

— Qual dessas é a sua casa? — pergunta.

Aponto para o outro lado da rua.

— Aquela — digo, indicando a casa com a luz da sala acesa.

— É mesmo? — Ela parece interessada de verdade. — É a casa da sua família?

Faço que sim com a cabeça.

— É, mas você não vai conhecê-los. Eles são mentirosos e malvados e já avisei que nunca a levarei lá para conhecê-los.

Posso sentir Six se virar e olhar para mim.

— Você disse pra eles que nunca vai me levar lá pra conhecê-los? Então já falou de mim?

Olho-a nos olhos.

— Já. Talvez eu tenha falado de você.

Ela sorri.

— Qual é o seu quarto?

— A primeira janela do lado esquerdo da casa. O quarto de Bolota é a janela da direita. A que está com a luz acesa.

Ela levanta-se novamente.

— A sua janela está destrancada? Quero ver como é o seu quarto.

Nossa, como ela é intrometida.

— Não quero que veja meu quarto. Não me preparei. Está bagunçado.

Ela começa a atravessar a rua.

— Mas vou lá mesmo assim.

Inclino a cabeça para trás, solto um gemido e me levanto para segui-la.

— Você dá muito trabalho — digo ao alcançarmos minha janela. Ela pressiona as mãos no vidro e o levanta. A janela não se mexe, então afasto Six para o lado e a abro. — Nunca entrei escondido no meu próprio quarto.

Já saí dele escondido, mas nunca entrei.

Six começa a se erguer por cima do peitoril, então a seguro pela cintura para ajudá-la. Ela põe a perna por cima do peitoril e entra. Passo logo

depois, vou até a cômoda e acendo o abajur. Dou uma olhada no quarto para o caso de encontrar alguma coisa que não quero que ela veja. Chuto uma cueca para debaixo da cama.

— Eu já tinha visto isso — sussurra. Six se aproxima da minha cama, pressiona as palmas no colchão e endireita a postura. Ela observa o quarto sem pressa, assimilando tudo a meu respeito. Parece estranho, como se eu estivesse exposto. — Gosto do seu quarto — diz.

— É só um quarto.

Ela discorda, balançando a cabeça.

— Não, é mais do que isso. É onde você mora. É onde você dorme. É

onde você teve mais privacidade em toda a sua vida. É mais do que apenas um quarto.

— Não estou tendo muita privacidade agora — ressalto, observando enquanto ela passa a mão por todas as superfícies do meu quarto.

Six se vira, me olha e depois fica de frente para mim.

— Qual é o objeto nesse quarto que revela seu maior segredo?

Dou uma risada baixinha.

— Não vou contar isso para você.

Ela inclina a cabeça.

— Eu tinha razão. Você tem segredos.

— Eu nunca disse que não tinha.

— Então me conte um — pede ela. — Só um.

Vou acabar contando todos se Six continuar me olhando desse jeito. Ela é tão maravilhosa. Me aproximo devagar, e Six engole em seco. Paro a vários centímetros e aponto com a cabeça na direção do colchão.

— Nunca beijei uma garota nessa cama — sussurro.

Ela olha para o colchão e depois para mim.

— Espero que não esteja achando que vou mesmo acreditar que você nunca beijou uma garota no seu quarto.

Eu rio.

— Não foi isso o que eu disse. Confessei que nunca beijei uma garota nessa cama específica. E estava sendo sincero, pois o colchão é novinho.

Chegou semana passada.

Vejo o olhar dela mudar. E seu peito subir e descer. Six está gostando de estar tão perto e está gostando que eu esteja insinuando que quero beijá-la ali.

Olha para a cama mais uma vez.

— Está dizendo que quer me beijar nessa cama?

Eu me aproximo até meus lábios ficarem ao lado de sua orelha.

— Está dizendo que me deixaria fazer isso?

Ela inspira suavemente, e estou adorando que nós dois estejamos sentindo isso. Quero muito beijá-la na minha cama. Quero mais até do que queria essa cama. Cacete, nem me importo se vai ser na cama ou não. Só quero dar um beijo nela. Não importa onde. Vou beijá-la onde ela deixar.

O espaço que há entre nós desaparece após eu colocar as mãos em seus quadris e a puxar para perto de mim. As suas mãos vão rapidamente para meus antebraços e ela solta o ar, arfando. Afundo os dedos em seus quadris e encosto minha bochecha na dela. Minha boca ainda está roçando em sua orelha quando fecho os olhos, curtindo a sensação.

Amo seu cheiro. Amo sentir seu corpo. E, apesar de eu nem ter dado um beijo de verdade nela ainda, já sei que amo a maneira como Six beija.

— Daniel — sussurra ela. Meu nome esbarra no meu ombro após ela pronunciá-lo. — Pode me levar pra casa agora?

Eu me assusto com essas palavras e me pergunto no mesmo instante o que foi que fiz de errado. Fico imóvel por vários segundos, esperando que a sensação do corpo dela no meu não me deixe mais totalmente paralisado.

— Você não fez nada de errado — diz ela, acabando na mesma hora com a dúvida que surgia dentro de mim. — Só acho que eu devia ir pra casa.

A voz de Six soa baixa e meiga e de repente sinto ódio de todos os garotos do passado que não chegaram a conhecer esse lado dela.

Não a solto de imediato. Viro a cabeça um pouco até minha testa encostar na lateral da sua.

— Você o amava? — pergunto, deixando meu cérebro genial estragar completamente esse nosso momento.

— Quem?

— O cara da Itália. O que a magoou. Você o amava?

Six encosta a testa no meu ombro e o fato de ela não responder já é uma resposta, mas também é algo que faz muitas outras perguntas surgirem na minha cabeça. Quero perguntar se ela ainda o ama. Se ela ainda está com ele. Se eles ainda se falam.

Mas não digo nada, pois tenho a impressão de que Six não estaria aqui comigo agora se a resposta de alguma dessas perguntas fosse sim. Levo a mão até a sua nuca e pressiono os lábios em seu cabelo.

— Vou levá-la para casa — murmuro.

* * *

— Obrigada por pagar o jantar — diz ela ao chegarmos à porta de sua casa.

— Você nem me deu escolha. Saiu de casa sem nenhum centavo e depois esfregou a conta na minha cara.

Six ri enquanto destranca a porta, mas não a abre. Vira-se e olha para mim por entre os cílios, que são tão longos e grossos que dá vontade de estender a mão e encostar neles.

Dar um beijo nela no jantar foi mesmo algo espontâneo, mas eu tinha certeza de que aquilo facilitaria e muito esse momento agora.

Só que não facilitou.

Na verdade estou me sentindo mais pressionado a beijá-la por já termos nos beijado uma vez naquela noite. E como isso já aconteceu, e por saber o quanto foi bom, me dá mais vontade ainda de beijá-la, mas agora tenho medo de estar com as expectativas altas demais.

Começo a me inclinar para a frente quando os lábios dela se separam.

— Vai usar a língua dessa vez? — sussurra.

Aperto os olhos e dou um passo para trás, completamente confuso com o comentário dela. Esfrego as palmas das mãos no rosto e solto um gemido.

— Droga, Six. Eu já estava constrangido. Agora você criou ainda mais expectativas.

Percebo que está sorrindo quando olho para ela.

— Ah, pode ter certeza de que tenho expectativas — diz ela para me provocar. — Estou esperando que esse beijo seja a coisa mais impressionante que já senti na vida, então acho bom você corresponder.

Suspiro, perguntando-me se ainda dá para recuperar o clima. Duvido.

— Não vou beijar você agora.

Ela balança a cabeça.

— Vai, sim.

Cruzo os braços.

— Não, não vou. Você me deixou com medo de falhar.

Ela dá um passo na minha direção e desliza as mãos entre meus braços cruzados, empurrando-as até que eles se soltem.

— Daniel Wesley, você está me devendo uma reprise por ter me obrigado a beijá-lo no meio de um restaurante lotado e ao lado de uma

fralda suja.

— Não estava lotado.

Ela me fulmina com o olhar.

— Coloque as mãos no meu rosto, me empurre na parede e enfie essa língua na minha boca! Agora!

Antes que ela possa rir de si mesma, minhas mãos estão tocando seu rosto, suas costas pressionam a parede da casa e meus lábios colam nos dela. Tudo acontece tão rápido que ela se surpreende e solta o ar, o que faz seus lábios se separarem, provavelmente mais do que ela gostaria. Assim que acaricio a ponta da sua língua com a minha, Six agarra minha camisa com os punhos cerrados, puxando-me para perto de si. Inclino a cabeça e intensifico o beijo, querendo que ela sinta tudo que é possível, querendo que sinta tudo de uma vez só.

Sendo que agora minha boca não está tendo problemas para se lembrar do que fazer. Na verdade, está tendo problemas para se lembrar de como ir devagar. As mãos dela estão no meu cabelo e, se ela gemer mais uma maldita vez, tenho medo de precisar carregá-la para o banco de trás do meu carro e tentar diminuir o significado desse encontro.

Não posso fazer isso. Não posso, não posso, não posso. Já estou gostando demais dessa garota e ela já me faz pensar no próximo encontro.

Apoio as mãos na parede atrás da cabeça dela e me obrigo a me afastar.

Nós estamos ofegantes, respirando com dificuldade. Nunca fiquei tão ofegante com um beijo. Seus olhos estão fechados, e amo muito o fato de ela demorar um instante para abri-los quando acabo de beijá-la. Fico satisfeito de ver que Six aprecia com calma o que eu a faço sentir, e também quero sentir tudo isso com calma.

— Daniel — sussurra.

Dou um gemido e encosto minha testa na dela, tocando sua bochecha com a mão.

— Assim você me faz amar o meu nome.

Six abre os olhos e eu me afasto, olhando para ela e ainda acariciando sua bochecha. Ela está olhando para mim da mesma forma que olho para ela. Como se não pudéssemos acreditar na nossa sorte.

— Acho bom que você não acabe se revelando um babaca — diz ela, baixinho.

— E acho bom que você não tenha mais nada com esse cara da Itália.

Six balança a cabeça.

— Não tenho — confirma, apesar de seus olhos dizerem outra coisa.

Tento não pensar demais nisso, pois, na verdade, não tem importância, independentemente do que seja. Ela está aqui comigo. E está feliz. Dá para perceber.

— Acho bom não voltar com a garota que partiu seu coração ontem —

acrescenta ela.

Balanço a cabeça.

— Nunca. Não depois disso. Não depois de você.

Ela parece aliviada com a minha resposta.

— Isso é assustador. Nunca tive um namorado antes. Não sei como funciona. As pessoas costumam começar a namorar tão depressa assim?

Será que devíamos fingir que não estamos tão interessados um no outro por mais alguns encontros?

Ah, meu Deus.

Nunca tinha ficado tão animado com uma garota querendo namorar comigo. Normalmente saio correndo ao escutar algo do tipo. Cada frase que sai de seus lábios destrói tudo que eu sabia sobre mim mesmo.

— Não tenho interesse em fingir que não estou interessado — digo. —

Se você tiver metade da vontade que tenho de que seja minha namorada, vai me poupar de ter que implorar. Pois eu estava prestes a ficar de joelhos e fazer exatamente isso.

Six estreita os olhos de um jeito brincalhão.

— Nada de implorar. É muito desespero.

— Você me deixa desesperado — confesso, pressionando os lábios nos dela novamente. Dessa vez prefiro dar um beijo simples, apesar de estar morrendo de vontade de agarrar o rosto dela e a pressionar contra a parede.

Eu me afasto e ficamos nos olhando. Ficamos nos encarando por tanto tempo que estou começando a ficar preocupado achando que ela me enfeitiçou de alguma maneira, pois nunca tive essa vontade de simplesmente ficar encarando uma garota. Só de olhar para ela meu coração arde, sinto um aperto no peito e meio que já estou surtando por ter começado a namorar essa garota nesse minuto apesar de mal nos conhecermos. — Você é uma bruxa?

Six volta a rir e de repente não estou nem ligando se é uma bruxa ou não. Se for alguma espécie de feitiço o que ela lançou em mim, espero que nunca acabe.

— Não faço nem ideia de quem você é e agora já é minha namorada, porra. Que merda você fez comigo?

Ela ergue as palmas das mãos na defensiva.

— Ei, nem venha colocar a culpa em mim. Passei 18 anos sem querer saber de namorado algum e de repente você aparece do nada com sua boca suja e primeiros beijos extremamente constrangedores e olha só o que aconteceu comigo. Sou uma hipócrita.

— Eu nem tenho seu telefone.

— Eu nem sei quando é seu aniversário — diz ela.

— Você é a pior namorada que já tive.

Ela ri e eu a beijo novamente. Percebo que preciso beijá-la toda vez que ela ri, e Six ri bastante. O que significa que preciso beijá-la bastante.

Caramba, espero que ela não ria na frente de Sky nem de Holder, porque vai ser quase impossível não beijá-la.

— É melhor não contar a Sky sobre a gente — digo. — Ainda não quero que Holder saiba.

— E no colégio? Vou me matricular amanhã. Não acha que vai ficar óbvio quando a gente começar a interagir?

— A gente podia fingir que se odeia. Pode ser divertido.

Ela inclina a cabeça para cima, encontra minha boca outra vez e me dá um selinho rápido.

— Mas como está planejando manter as mãos longe de mim? Deslizo a outra mão até a cintura dela.

— Não vou manter as mãos longe de você. Só vou ter que fazer isso quando eles não estiverem olhando.

— Vai ser tão divertido — sussurra ela.

Sorrio e a puxo para perto de mim mais uma vez.

— E como vai. — Abaixo a cabeça e a beijo uma última vez. Depois a solto, estendo o braço e viro a maçaneta atrás dela, abrindo a porta. — Até amanhã.

Six dá dois passos para trás até alcançar a porta.

— Até amanhã.

Ela começa a se virar e entrar na casa, mas então agarro o seu pulso e a puxo de volta para fora. Apoio o braço em sua lombar e me inclino até nossos lábios se encontrarem.

— Eu me esqueci de esbarrar em você por acidente.

Encosto em sua boca enquanto ela ri, roço a palma da mão em seu peito e então me afasto.

— Opa. Foi mal.

Rindo, ela cobre a boca com a mão ao entrar em casa. Depois fecha a porta e eu imediatamente caio de joelhos e me deito. Fico encarando o teto da varanda, me perguntando o que diabos acabou de acontecer com o meu coração.

A porta volta a se abrir devagar e ela me olha. Estou esparramado pela varanda que nem um idiota.

— Só precisava de um minuto para me recuperar — justifico, sorrindo para ela. Nem estou tentando disfarçar o quanto essa garota me afeta. Ela dá uma piscada e começa a fechar a porta. — Six, espere — digo, me levantando. Ela abre a porta novamente, eu estendo o braço, seguro o caixilho e me inclino em sua direção. — Sei que terminei um namoro ontem à noite, mas quero que saiba que você não é apenas uma distração para me ajudar a seguir em frente. Você sabe disso, não é?