Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição
Em Busca da Perfeição
* * *
FIM
EM BUSCA DA PERFEIÇÃO
Nota para o leitor: este conto baseia-se em personagens de Em busca de Cinderela e de Todas as suas (im)perfeições. A história vai fazer mais sentido após a leitura de ambos os romances, que são unidos por este conto.
Obrigada e boa leitura!
Capítulo Um
— Três a zero pra mim — diz Breckin, soltando o controle do Xbox. —
Agora preciso mesmo ir embora.
Pego o controle e tento devolvê-lo.
— Só mais uma — digo, ou melhor, imploro.
Mas Breckin já está com seu casaco acolchoado ridículo, dirigindo-se à porta do meu quarto.
— Se está tão entediado assim, ligue para o Holder — diz ele.
— Ele foi para o jantar de Ação de Graças na casa do pai ontem. Só vão voltar à noite.
— Então chame a Six para cá. Passei tanto tempo com você hoje que agora só quero te ver de novo depois do Natal. E, que merda, hoje ainda tenho que comparecer a uma dessas merdas de família. Dou uma risada.
— Você disse “merda”.
Breckin dá de ombros.
— Pois é. É Ação de Graças. Tenho uma dessas merdas de família para ir.
— Pensei que mórmons não podiam falar palavrão.
Breckin revira os olhos e abre a porta do meu quarto.
— Tchau, Daniel.
— Pera aí. Você vem sábado?
Quando a gente estava voltando da universidade alguns dias atrás, Holder sugeriu que fizéssemos um jantar de amigos durante o recesso de Ação de Graças. Sky e Six vão cozinhar. O que significa que a gente vai acabar pedindo pizza.
— Venho. Mas só se você não ficar falando dos meus erros religiosos.
— Beleza. E nunca mais te chamo de Bambi se você ficar aqui e jogar mais uma partida.
Breckin parece estar de saco cheio de mim. Dá para entender. Estou de saco cheio de mim mesmo.
— Está precisando dar uma saída — diz ele. — Faz doze horas que não para de jogar. Aqui dentro está começando a ficar com cheiro de waffle.
— E por que você fala como se isso fosse ruim?
— Porque é ruim mesmo.
Breckin fecha a porta e fico sozinho outra vez.
Muito sozinho.
Deito no chão do quarto e fico encarando o teto por um tempo. Depois olho meu celular, que não tem nenhuma novidade. Six não me mandou nenhuma mensagem hoje. Também não mandei, mas estou esperando que ela me escreva primeiro. Nos últimos dois meses, as coisas andaram estranhas entre a gente. Eu estava na esperança de que fosse devido ao novo ambiente, com nós dois no primeiro semestre da universidade, mas, dois dias atrás, ela ficou em silêncio durante a viagem para casa. Ontem teve que comparecer a uma merda de família e hoje não me chamou para a casa dela.
Tenho a sensação de que vai terminar comigo.
Não sei por quê. Nunca terminaram comigo antes. Fui eu que terminei o namoro com Val. No entanto, acho que é assim que as coisas ficam logo antes do término. Menos comunicação. Menos tempo um para o outro.
Menos pegação.
Talvez ela realmente queira terminar comigo e ache que isso prejudicaria nosso incrível quarteto. Fazemos tudo com Sky e Holder agora que estamos todos na mesma universidade. Terminar comigo tornaria a situação constrangedora para todos os três.
Talvez eu esteja pensando demais nesse assunto. Talvez ela esteja só estressada com a universidade mesmo.
A porta do meu quarto se abre e Bolota se encosta no batente da porta, os braços cruzados.
— Por que você está no chão?
— Por que você está no meu quarto?
Ela dá um passo para trás, ficando tecnicamente no corredor.
— É sua vez de lavar a louça.
— Eu nem moro mais aqui.
— Mas veio passar o feriado de Ação de Graças em casa — diz ela. —
Está comendo nossa comida, usando nossa louça e dormindo na nossa casa, então tem que ajudar nos afazeres domésticos.
— Você não mudou nadinha.
— Você saiu de casa faz três meses, Daniel. Ninguém muda em três meses.
Bolota sai pelo corredor sem fechar minha porta.
Sinto vontade de correr atrás dela e de discordar sobre isso de as pessoas não mudarem em apenas três meses, pois Six mudou muito nesse curto período. Mas, se eu discordar dela, precisaria dar um exemplo, e não vou falar da minha namorada para Bolota.
Confiro o celular outra vez para ver se não chegou nenhuma mensagem de Six e me levanto do chão. A caminho da cozinha, paro na porta do quarto de Hannah. Ela não vem tanto para casa quanto eu porque estuda no sul do Texas e trabalha em tempo integral.
Eu ainda não arranjei nenhum emprego. O que não é surpresa nenhuma, já que não me candidatei a nenhum.
Hannah está sentada na cama com o notebook no colo. Deve estar fazendo o dever de casa do curso de Medicina ou algo tão responsável quanto.
— Quando você está aqui, alguém te pede para lavar a louça? — pergunto.
Ela me dá uma olhada antes de voltar a encarar a tela do computador.
— Não. Não moro mais aqui.
Eu sabia que ela era a preferida.
— Então por que eu tenho que cuidar da casa?
— Nossos pais ainda te sustentam. Você deve isso a eles.
Justo. Continuo na porta, adiando o inevitável.
— O que está fazendo?
— Dever de casa — diz ela.
— Quer fazer um intervalo e jogar videogame comigo?
Hannah me olha como se eu tivesse lhe sugerido que assassinasse alguém.
— E eu alguma vez já quis jogar videogame com você?
Solto um grunhido.
— Argh.
A semana vai ser longa.
Holder e Sky voltam hoje à noite, mas vão ficar ocupados até sábado.
Breckin tem suas merdas de família para fazer . Já consigo sentir o sofrimento inevitável causado por Six, e é por isso que a evitei o dia inteiro.
Não quero de jeito nenhum levar um pé na bunda no recesso de Ação de
Graças. Nem em nenhum outro momento. Talvez, se eu nunca mais mandar mensagem ou ligar para Six, ela jamais consiga terminar comigo, e assim vou poder continuar vivendo na minha alegre ignorância.
Me afasto da porta de Hannah e vou em direção à cozinha, mas ela me chama de volta. Eu me viro no corredor, e meu corpo está todo mole e prostrado quando reapareço na porta dela.
— O que você tem, hein? — pergunta.
Meus ombros se abaixam, e estou com muita pena de mim mesmo, então suspiro dramaticamente.
— Está tudo errado.
Hannah gesticula na direção do pufe do outro lado do quarto. Eu me aproximo e despenco nele. Não sei por que a deixei me convocar para dentro do quarto, já que ela vai apenas fazer perguntas a que não vou responder. No entanto, é algo que diminui um pouco o tédio que senti o dia inteiro. E também é melhor do que lavar louça.
— Por que você está borocoxô assim? Terminou o namoro com a Six?
— pergunta ela.
— Ainda não, mas acho que vai acontecer daqui a pouco.
— Por quê? O que você fez de errado?
— Nada — digo, na defensiva. — Não me lembro de fazer nada, pelo menos. Não sei, é complicado. Nosso namoro inteiro é complicado.
Hannah ri e fecha o notebook.
— Fazer Medicina é que é complicado. Namoros são fáceis. Você ama alguém e esse alguém ama você. Se seu namoro não é desse jeito, é só acabar tudo. Simples assim.
Balanço a cabeça, discordando.
— Mas eu amo a Six, e ela me ama, e mesmo assim é muito, muito complicado.
Às vezes vejo uma expressão de entusiasmo nos olhos de Hannah, mas isso parece acontecer nos piores momentos. Como agora, enquanto lhe conto que meu namoro está arruinado.
Isso não deveria entusiasmá-la.
— Talvez eu possa te ajudar — diz ela.
— Não pode.
Hannah joga as cobertas para o lado, vai até a porta do quarto e a fecha.
Ela se vira e me olha com as sobrancelhas retas, sem expressão de entusiasmo.
— Você não me fez rir nenhuma vez desde que cheguei em casa.
Alguma coisa está te fazendo mudar, e, como sua irmã mais velha, quero saber o que é. Se não me contar, vou convocar uma reunião da família Wesley.
— Você não teria coragem.
Odeio essas reuniões. Elas sempre parecem uma intervenção relacionada a mim e ao meu comportamento, quando na verdade deveriam tratar da família inteira.
— Acha mesmo? — diz Hannah.
Solto um grunhido e cubro o rosto com as duas mãos enquanto me afundo mais ainda no pufe. Sendo bem franco, Hannah é a voz mais sensata da família inteira. Talvez ela até seja a única voz sensata. Bolota é novinha demais para entender essas questões. Meu pai é imaturo demais, como eu. E
minha mãe surtaria se eu contasse a verdade sobre a minha situação com Six.
Eu quero mesmo desabafar, e talvez Hannah seja a única pessoa, além de Sky e de Holder, a quem eu confiaria essa questão. No entanto, Sky e Holder não falam disso, porque fizemos eles jurarem que nunca mencionariam o assunto.
Temo que, se eu não conversar com alguém, eu e Six chegaremos ao fim. E não consigo imaginar uma vida sem Six agora que sei como é a vida com ela.
Expiro pela boca, cedendo.
— Tudo bem. Mas, primeiro, senta.
O entusiasmo de sua expressão reaparece. Ela não apenas se senta na cama; ela salta na cama, ao lado de um amontoado de cobertas, e se senta de pernas cruzadas, ansiosa para escutar o que vou dizer. Depois apoia o queixo na mão, à espera.
Paro um instante e penso em como iniciar a conversa. Em como resumi-la sem entrar em muitos detalhes.
— Vai parecer maluquice — digo —, mas transei com uma garota no colégio, dentro do armário dos zeladores, no penúltimo ano do ensino médio. Eu não sabia quem era nem como ela era, porque estava escuro.
— Não parece maluquice — comenta Hannah. — Parece exatamente algo que você faria.
— Não, a maluquice não é essa. A maluquice é que, depois que fiquei com Six, descobri que ela era a garota com quem eu tinha transado no ano
anterior. E… bom… ela engravidou. E, como ela não sabia quem eu era, pôs o bebê para adoção. Uma adoção fechada, em que não há nenhuma comunicação com os pais biológicos. Então eu sou pai, mas não sou. E Six é mãe, mas não é. E a gente achou que estava tudo bem, que íamos conseguir superar isso, mas não conseguimos. Ela vive triste. E, como ela vive triste, eu vivo triste. E quando estamos juntos, a tristeza é dupla, então nem passamos mais tanto tempo juntos. Agora acho que ela está prestes a terminar o namoro.
Eu me sinto protegido pelo pufe porque estou encarando o teto, e não Hannah. Não quero olhá-la depois de vomitar tudo isso. Mas um minuto inteiro se passa sem que nenhum de nós diga nada; então, por fim, ergo a cabeça.
Hannah continua imóvel como uma estátua, me encarando em choque como se eu tivesse acabado de contar que engravidei alguém. Porque foi exatamente o que aconteceu. E, pelo visto, é um fato muito chocante e por isso ela está me olhando desse jeito.
Dou a ela mais um instante para que assimile tudo. Sei que ela não esperava descobrir que é meio que tia de um sobrinho que nunca vai conhecer; devia estar achando que a conversa seria sobre coisas mais triviais, como a minha falta de comunicação com minha namorada, por exemplo.
— Caramba — diz. — Que… caramba. Isso é bem complicado, Daniel.
— Eu avisei.
O quarto fica silencioso. Hannah balança a cabeça, sem acreditar. Abre a boca algumas vezes para falar, mas depois a fecha.
— E agora, o que eu faço? — pergunto.
— Não faço ideia.
Jogo as mãos para o alto, frustrado.
— Achei que você fosse me ajudar. Foi por isso que contei tudo.
— Bom, eu me enganei. Isso é… papo sério, coisa de adulto. Ainda não cheguei a esse nível.
Jogo a cabeça para trás, apoiando-a no pufe.
— Você é uma péssima irmã mais velha.
— E você é um namorado pior ainda.
Por que sou um namorado ruim por causa disso? Ajeito a postura e me sento na beira do pufe.
— Por quê? O que foi que eu fiz de errado?
Ela balança a mão à minha frente.
— Isso. Está evitando Six.
— Estou deixando ela em paz. É diferente.
— Faz quanto tempo que as coisas andam estranhas entre vocês?
Penso nos meses que passamos juntos.
— Foi ótimo no começo. Mas, quando descobri o que aconteceu, as coisas ficaram estranhas por, tipo, um dia. Depois, deixamos pra lá. Ou pelo menos era o que eu achava. Mas Six sempre tem uma certa tristeza.
Percebo muito isso. É como se ela estivesse se obrigando a fingir que está feliz. E isso só tem piorado. Não sei se é a universidade, se sou eu ou se é tudo pelo que passou. Mas notei que, em outubro, ela começou a inventar mais e mais desculpas para não passar tanto tempo comigo. Six tinha sempre alguma prova, ou algum trabalho, ou estava cansada. Então eu comecei a inventar desculpas, porque, se ela não quer ficar comigo, não quero obrigá-la a isso.
Hannah escutou com atenção cada palavra minha.
— Quando foi a última vez que você a beijou? — pergunta ela.
— Ontem. Ainda a beijo e a trato da mesma maneira quando estamos juntos. Mas… é diferente. Mal passamos tempo juntos.
Ela ergue o ombro.
— Talvez Six se sinta culpada.
— Pois é, sei que ela se sente culpada. Tentei explicar que ela fez a escolha certa.
— De repente Six só quer esquecer o que aconteceu e você faz perguntas demais sobre o assunto.
— Eu não faço nenhuma pergunta. Jamais. Ela parece não querer falar sobre isso, então não falamos.
Hannah inclina a cabeça.
— Ela carregou seu filho na barriga por nove meses, pôs o bebê para adoção e você não fez nenhuma pergunta sobre isso?
Dou de ombros.
— Eu quero perguntar. Mas… não quero que ela se sinta pressionada a reviver tudo aquilo.
Hannah solta um grunhido, como se eu tivesse acabado de dizer algo que a decepcionou.
— O que foi?
Ela olha diretamente para mim.
— Nunca gostei de nenhuma namorada sua antes de Six. Por favor, vá dar um jeito nisso.
— Como?
— Converse com ela. Fique do lado dela. Faça perguntas. Pergunte o que pode fazer para ajudar. Pergunte se ela gostaria de conversar sobre o assunto.
Reflito sobre a sugestão. É um bom conselho. Nem sei por que não perguntei diretamente como posso ajudá-la.
— Nem sei por que ainda não fiz isso — admito.
— Porque você é homem, e isso não é culpa sua. É culpa do nosso pai.
Talvez Hannah tenha razão. Talvez o único problema entre mim e Six neste momento seja o fato de eu ser homem, e homens são burros. Levanto do pufe.
— Vou passar na casa dela.
— Vê se não engravida ela de novo, seu imbecil.
Faço que sim, mas não comento com Hannah que eu e Six não transamos desde que começamos a namorar oficialmente. Isso não é da conta de ninguém.
Eu nem pensei nesse assunto. A única vez que transamos foi, sendo bem sincero, a melhor transa da minha vida. Se ela terminar comigo, não vamos poder ter essa experiência de novo. Já pensei tanto em como seria, com tantos detalhes, que tenho certeza de que seria quase perfeito. Agora estou ainda mais desanimado com nosso possível término. Não apenas vou ter de passar minha vida sem Six, mas vou passar o resto da vida sem jamais me interessar por sexo novamente, pois não seria com ela. O único sexo que estou disposto a considerar é o sexo com Six. Ela me arruinou para sempre.
Abro a porta de Hannah para ir embora.
— Lave a louça antes — diz Bolota com a voz abafada.
Bolota?
Eu me viro para inspecionar o quarto de Hannah, procurando onde Bolota pode estar escondida. Vou até as cobertas amontoadas na cama de Hannah e as puxo. Bolota está deitada, a cabeça coberta por um travesseiro.
Mas que porra é essa? Aponto para Bolota enquanto olho para Hannah.
— Ela estava aqui o tempo todo?
— Estava — diz Hannah, dando de ombros com indiferença. — Achei que você soubesse.
Passo as mãos no rosto.
— Meu Deus. Mamãe e papai vão me matar.
Bolota joga o travesseiro para o lado e se vira para me olhar.
— Eu sei guardar segredo, tá? Desde que você saiu de casa, eu amadureci.
— Dez minutos atrás, você me disse que ninguém é capaz de mudar em três meses.
— Aquilo foi dez minutos atrás — diz ela. — As pessoas podem mudar em três meses e dez minutos.