Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Colleen Hoover · Capítulo 4 de 23

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Em busca de Cinderela / Em busca da perfeição

Capítulo Um

— Amo você, linda. Fique me esperando no final da aula, está bem? No nosso lugar de sempre.

— Você sabe que vou estar lá — diz ela. — Eu também amo você. —

Ela fica na ponta dos pés e pressiona seus lábios nos meus com força, desespero e tristeza.

Ela se afasta e vai até a saída. Assim que começa a abri-la, eu a alcanço depressa e fecho a porta com uma das mãos. Pressiono o peito nas suas costas e levo a boca até sua orelha.

— Queria que isso pudesse ser verdade — sussurro.

Coloco a mão na maçaneta para girá-la, em seguida viro a cabeça enquanto ela sai.

Suspiro e passo as mãos pelo cabelo. Acho que preciso de alguns minutos até conseguir sair daqui. Não sei se já quero esquecer o cheiro dela.

Na verdade, fico parado no escuro, me esforçando o máximo possível para guardar tudo sobre essa garota na minha memória, pois sei que esse é o único lugar em que vou encontrá-la novamente.

Capítulo Um

Um ano depois

— Meu Deus! — digo, frustrado. — Fique calma. — Ligo o carro assim que Val entra e bate a porta com raiva, sentando-se no banco.

Logo em seguida, a quantidade avassaladora de perfume que ela colocou começa a me sufocar. Abro a janela, mas só um pouco para que ela não pense que a estou insultando. Ela sabe o quanto eu não gosto de perfume e que gosto menos ainda quando as garotas parecem tomar banho com ele, mas pelo jeito ela não se importa com a minha opinião, pois continua se encharcando com um litro todas as vezes que saímos.

— Você é tão imaturo, Daniel — murmura ela, virando o visor para baixo, e depois tira o batom da bolsa e começa a retocá-lo. — Estou começando a me perguntar se um dia vai mudar.

Mudar?

O que diabos ela quis dizer com isso?

— Por que eu mudaria? — pergunto, inclinando a cabeça com curiosidade.

Ela suspira, guarda o batom na bolsa, encosta os lábios um no outro e se vira para mim.

— Então está mesmo contente com o seu comportamento?

O quê?

Com o meu comportamento? Ela está mesmo falando do meu comportamento? A garota que eu vi xingar garçonetes por algo tão bobo como colocar gelo demais no copo está realmente comentando sobre o meu comportamento?

Há meses que vínhamos acabando e reatando nosso namoro, e eu não fazia ideia de que ela estava esperando que eu mudasse. Esperando que me tornasse alguém que não sou.

Pensando bem... sempre reato o namoro com ela na esperança de que mude. Que passe a ser gentil, pelo menos. Na verdade, as pessoas são como são e nunca vão mudar muito. Então por que diabos Val e eu estamos

perdendo tempo com esse namoro desgastante se um não gosta de quem o outro é?

— Pois é, foi o que achei — diz ela, de um jeito convencido, presumindo incorretamente que fiquei em silêncio por concordar que não estou feliz com meu comportamento.

Na verdade, o meu silêncio foi o momento de percepção do qual estava precisando desde que a conheci.

Ficamos quietos até chegarmos à entrada da garagem da casa dela.

Deixo o carro ligado, indicando que não estou planejando entrar essa noite.

— Você vai embora? — pergunta.

Faço que sim com a cabeça e fico olhando pela janela do motorista. Não quero olhá-la, porque, afinal, sou um garoto e Val é gostosa e sei que se eu olhar para ela o meu momento de percepção sobre o nosso namoro vai ficar enevoado, e vou acabar entrando na casa dela e fazendo as pazes na sua cama, como sempre acontece.

— Não é você que devia estar com raiva, Daniel. Você se comportou de uma maneira ridícula esta noite. E ainda por cima na frente dos meus pais!

Como quer que eles aprovem nosso namoro se fica agindo assim?

Preciso inspirar lenta e calmamente para não erguer a voz como ela está fazendo.

— De que jeito estou me comportando, Val? Porque eu estava apenas sendo eu mesmo no jantar de hoje, assim como sou eu mesmo durante todos os minutos do dia.

— Exatamente! Existe a hora certa e o lugar certo para seus apelidos ridículos e brincadeiras imaturas. Sendo que um jantar com meus pais não é a hora certa nem o lugar certo!

Frustrado, esfrego as mãos no rosto e depois me viro para olhá-la.

— Eu sou assim — digo, apontando para mim mesmo. — Se não gosta de quem sou, então temos problemas sérios, Val. Não vou mudar e, para ser sincero, também não seria justo pedir que você mude. Nunca pediria para você fingir ser algo que não é, e é exatamente isso que está me pedindo agora. Não vou mudar, eu nunca vou mudar e adoraria se você desse o fora do meu carro agora, porque a porra do seu perfume está me deixando enjoado.

Ela aperta os olhos, tira a bolsa do painel e a puxa para si.

— Ah, que legal, Daniel. Falando mal do meu perfume só para se vingar de mim. É exatamente isso que estou dizendo. Você é a epítome da

imaturidade. — Ela abre a porta do carro e solta o cinto.

— Bem, pelo menos não estou pedindo que você mude de perfume —

digo, em tom de deboche.

Val balança a cabeça.

— Não aguento mais isso — retruca ela, saindo do carro. — A gente já era, Daniel. E dessa vez não tem volta.

— Graças a Deus — digo, bem alto para que ela me escute.

Val bate a porta e vai para dentro de casa. Abaixo o vidro da janela do carona tentando fazer com que o perfume saia do carro e dou ré.

Cadê aquele maldito do Holder? Se eu não puder reclamar dela com alguém, vou acabar gritando.

* * *

Entro pela janela de Sky e ela está sentada no chão, vendo algumas fotos. Ergue o olhar e sorri enquanto entro no quarto.

— Oi, Daniel — cumprimenta ela.

— Oi, Peitinho de Queijo — digo ao me deitar na cama. — Cadê aquele seu namorado?

Ela aponta a cabeça na direção da porta do quarto.

— Eles estão na cozinha pegando sorvete. Quer um pouco?

— Não. Estou arrasado demais para comer.

Ela ri.

— Val está tendo um dia ruim?

— Val está tendo uma vida ruim — corrijo. — E hoje finalmente percebi que não quero fazer parte dela.

Sky ergue a sobrancelha.

— É mesmo? Dessa vez parece sério.

Dou de ombros.

— Terminamos faz uma hora. E quem são eles?

Ela olha para mim, confusa, então explico a pergunta:

— Você disse que eles estavam na cozinha pegando sorvete. Quem são eles?

No instante em que Sky abre a boca para me responder, a porta do quarto se escancara e Holder aparece com duas tigelas de sorvete na mão.

Uma garota vem atrás dele, segurando sua própria tigela, com uma colher na boca. Ela tira a colher dos lábios e chuta a porta do quarto com o pé. Em seguida, se vira para a cama e para ao me ver.

A garota me parece vagamente familiar, mas não sei de onde a conheço.

O que é estranho, pois é bem bonita e sinto como se eu devesse saber o nome dela ou lembrar onde foi que a vi.

Ela se aproxima da cama e se senta na extremidade oposta, me observando o tempo todo. Pega um pouco de sorvete com a colher e a leva até a boca.

Não consigo parar de encarar aquela colher. Acho que amo aquela colher.

— O que está fazendo aqui? — pergunta Holder.

Com certa tristeza, desvio o olhar da Garota do Sorvete e observo Holder se sentar no chão ao lado de Sky e pegar algumas fotos.

— Nós terminamos, Holder — digo, esticando as pernas para a frente.

— De vez. Ela é louca, porra.

— Mas achei que era por isso que você a amava — diz ele, em tom de deboche.

Reviro os olhos.

— Obrigado pela parte que me toca, Dr. Merdalhão.

Sky tira uma das fotos das mãos de Holder.

— Acho que dessa vez ele está falando sério — diz ela para Holder. —

Val é passado.

Sky tenta parecer triste por mim, mas sei que está aliviada. A Val nunca combinou muito com eles dois. Mas, se eu parar pra pensar, ela também nunca combinou muito comigo.

Holder olha para mim com curiosidade.

— Acabou mesmo? Sério? — Ele parece estranhamente impressionado.

— Sim, acabou mesmo.

— Quem é Val? — pergunta a Garota do Sorvete. — Ou, melhor ainda, quem é você?

— Ah, foi mal — interrompe Sky. Ela aponta para a Garota do Sorvete e para mim repetidas vezes. — Six, esse é Daniel, o melhor amigo de Dean.

Daniel, essa é minha melhor amiga, Six.

Nunca vou me acostumar a escutar Sky chamando-o de Dean, mas essa apresentação serve como desculpa para eu olhar para aquela colher mais uma vez. Six a tira da boca e a aponta para mim.

— Prazer em conhecê-lo, Daniel.

Que merda eu posso fazer para roubar essa colher antes de ela ir embora?

— Por que seu nome me parece familiar? — pergunto para ela.

— Não sei. Talvez porque seis é um número bem familiar? Ou é isso ou então você ouviu falar que sou a maior vagaba.

Dou uma risada. Não sei por que faço isso, pois na verdade o comentário dela não foi engraçado. Foi até um pouco perturbador.

— Não, não é isso — digo, ainda confuso por não saber por que o nome dela me é tão familiar. Acho que Sky nunca falou dela para mim antes.

— Foi aquela festa no ano passado — diz Holder, me obrigando a olhar para ele novamente. Tenho quase certeza de que reviro os olhos, mas não foi minha intenção. É que prefiro mil vezes ficar olhando para ela do que para Holder. — Lembra? Foi na semana que voltei de Austin, alguns dias antes de conhecer Sky. Você se lembra da noite em que Grayson o encheu de porrada porque você disse que tinha tirado a virgindade de Sky?

— Ah, tá falando da noite em que você me tirou de cima desse garoto antes que eu pudesse quebrar a cara dele? — Ainda fico irritado só de pensar nisso. Eu teria mesmo acabado com ele se Holder não tivesse me impedido.

— Isso — confirma Holder. — Naquela noite Jaxon falou alguma coisa sobre Sky e Six, mas na época eu não sabia quem elas eram. Acho que foi nessa hora que você ouviu o nome dela.

— Pera aí, pera aí, pera aí — diz Sky, balançando as mãos e olhando para mim como se eu fosse maluco. — Como assim Grayson o encheu de porrada porque você disse que tinha tirado minha virgindade? Que porra é essa, Daniel?

Holder põe a mão nas costas de Sky para tranquilizá-la.

— Está tudo bem, linda. Ele disse isso só para irritar Grayson, porque eu estava quase dando uma surra nele pela maneira como ele estava falando de você.

Sky balança a cabeça, ainda confusa.

— Mas você nem me conhecia. Você disse que isso foi alguns dias antes de me conhecer, então por que ficou com raiva por Grayson estar falando mal de mim?

Também fico encarando Holder, esperando uma resposta. Naquele momento não pensei nisso, mas é mesmo estranho ele ter ficado puto com os comentários de Grayson se nem conhecia Sky ainda.

— Não gostei do modo como ele falava de você — justifica Holder, aproximando-se para dar um beijo na cabeça de Sky. — Fiquei pensando que ele devia fazer os mesmos comentários sobre Les e isso me deixou furioso.

Merda. Lógico que ele pensaria isso. Agora queria mesmo que ele tivesse me deixado encher Grayson de porrada naquela noite.

— Que meigo, Holder — comenta Six. — Você a estava protegendo antes mesmo de conhecê-la.

Holder ri.

— Ih, você não sabe nem metade da história, Six.

Sky ergue o olhar, e os dois sorriem um para o outro, quase como se estivessem escondendo alguma espécie de segredo. Em seguida, voltam a prestar atenção nas fotos no chão.

— O que são essas fotos? — pergunto.

— São para o livro do ano — diz Six, respondendo à pergunta. Ela deixa a tigela de sorvete de lado, coloca os pés em cima da cama e senta-se com as pernas cruzadas. — Pelo visto, precisamos mandar fotos de quando éramos pequenos para entrar na página do último ano, então Sky está vendo as fotos que Karen deu para ela.

— Você estuda no mesmo colégio que a gente? — pergunto, me referindo ao fato de ela ter se incluído na explicação.

Sei que estudamos num colégio imenso, mas tenho a impressão de que me lembraria dela, especialmente se é a melhor amiga de Sky.

— Não, estudei no ano passado. Mas vou voltar na segunda — responde ela, como se não estivesse nem um pouco animada com isso.

Mas não consigo evitar um sorriso com a resposta dela. Vê-la com mais frequência não me incomodaria em nada.

— Então isso significa que vai se juntar à nossa aliança do almoço? —

Eu me inclino para a frente, pego a tigela de sorvete que ela não acabou de tomar e tomo um pouco.

Ela fica me observando fechar os lábios ao redor da colher e tirá-la de dentro da boca. Torce o nariz, encarando a colher.

— Eu podia muito bem ter herpes, sabia?

Sorrio para ela e dou uma piscadela.

— Você conseguiu fazer até herpes parecer algo bom.

Ela ri, mas de repente Holder agarra a tigela das minhas mãos e me puxa para longe da cama. Meus pés encostam no chão e ele me empurra na

direção da janela.

— Vá para casa, Daniel. — Ele solta minha camisa enquanto se abaixa para se sentar ao lado de Sky.

— O que foi, porra? — grito.

Sério mesmo. O que foi, porra?

— Ela é a melhor amiga de Sky — diz ele, apontando na direção de Six.

— Você não pode dar em cima dela. Se por acaso não der certo, vai ficar uma situação constrangedora e não quero nada disso. Agora vá embora e só volte quando puder ficar perto dela sem ter nenhum desses pensamentos pervertidos que sei que estão passando pela sua cabeça agora.

Pela primeira vez na vida, não sei o que dizer. Talvez eu devesse fazer que sim com a cabeça e concordar com ele, mas o imbecil acabou de cometer o maior erro de todos.

— Porra, Holder — digo, gemendo, passando as palmas das mãos pelo rosto. — Por que fez essa merda? Agora você me proibiu de ficar com ela, cara. — Começo a sair pela janela. Depois de passar para o lado de fora, enfio a cabeça dentro do quarto e olho para ele. — Você devia ter dito que era para eu sair com ela, assim é bem provável que eu não fosse me interessar. Mas você resolveu mesmo me proibir de ficar com a garota, não é?

— Nossa, Daniel — diz Six, sem entusiasmo algum. — Bom saber que você me considera um ser humano e não um desafio. — Ela olha para Holder ao se levantar da cama. — E não sabia que eu tinha um quinto irmão superprotetor — comenta ela, indo para a janela. — Vejo vocês mais tarde.

E de todo jeito é melhor eu dar uma olhada nas minhas fotos até segunda.

Holder olha para mim enquanto me afasto para deixar Six sair pela janela. Ele não diz nada, mas o olhar que lança na minha direção é uma advertência para que eu fique completamente longe dela. Levanto as mãos na defensiva e fecho a janela depois que Six sai. Ela anda alguns metros até a casa vizinha e começa a entrar pela janela.

— Você sempre usa janelas como atalho ou por acaso mora aí? —

pergunto, seguindo na sua direção.

Após entrar, ela se vira e põe a cabeça para fora.

— Essa é a minha janela — afirma ela. — E nem pense em tentar entrar aqui. Essa janela está fechada para balanço há quase um ano e não tenho intenção alguma de reabri-la.

Ela põe o cabelo louro na altura do ombro atrás das orelhas e dou um passo para trás, esperando que um pouco de distância seja capaz de fazer meu coração parar de esmurrar meu peito. No entanto, agora que Holder fez a idiotice de me proibir de ficar com ela, tudo que quero é descobrir uma maneira de reabrir essa janela.

— Você tem mesmo quatro irmãos mais velhos?

Ela faz que sim com a cabeça. Odeio que ela tenha quatro irmãos mais velhos, mas só porque são quatro razões a mais para eu não ficar com essa garota. Juntando isso à proibição de Holder, agora não vou mais conseguir tirá-la da cabeça.

Valeu, Holder. Valeu mesmo.

Ela apoia o queixo nas mãos e fica me encarando. Está escuro do lado de fora, mas o luar está iluminando bem o rosto dela, fazendo-a parecer uma porra de um anjo. Não sei nem se posso usar as palavras porra e anjo na mesma frase, mas merda. Ela parece mesmo a porra de um anjo com esse cabelo louro e olhos grandes. Não sei nem de que cor são seus olhos porque está escuro e não prestei atenção quando estávamos no quarto de Sky. Mas a cor deles, qualquer que seja, acabou de se tornar minha cor preferida.

— Você é muito carismático — diz ela.

Meu Deus. A voz dela acaba de vez comigo.

— Valeu. Você também é bem bonitinha.

Ela ri.

— Não disse que você é bonitinho, Daniel. Eu disse que você é carismático. São coisas diferentes.

— Nem tanto. Gosta de italiano?

Ela franze a testa e recua alguns centímetros como se eu a tivesse insultado.

— Por que está me perguntando isso?

A reação dela me deixa confuso. Não faço ideia de como meu comentário pode ter sido ofensivo.

— Hum... ninguém nunca convidou você para sair?

Sua testa volta ao normal e ela se inclina para a frente de novo.

— Ah. Você quer dizer comida italiana. Na verdade estou meio enjoada de comida italiana. Acabei de voltar de um intercâmbio de sete meses na Itália. Se está me convidando para sair, prefiro sushi.

— Nunca comi sushi — admito, tentando assimilar o fato de que tenho certeza de que ela acabou de concordar em sair comigo.

— Quando?

Isso foi fácil demais. Esperava que ela fosse dar uma de difícil e me fazer implorar como a Val sempre faz. Amo o fato de ela não estar fazendo joguinhos. É direta e já estou gostando disso.

— Hoje não dá — digo. — Meu coração foi completamente partido uma hora atrás por uma vaca psicótica e preciso de um tempinho para me recuperar. Que tal amanhã à noite?

— Amanhã é domingo.

— Você tem algum problema com domingo?

Ela ri.

— Não, acho que não. Só me parece estranho marcar um primeiro encontro num domingo. Mas me pegue aqui às dezenove, então.

— Encontro você na porta da frente — digo. — E é melhor não contar pra Sky aonde vai, a não ser que queira me ver levando uma surra.